Historia da saude publica no mundo final

Historia da saude publica no mundo final

Universidade Federal da Fronteira Sul

Curso: Enfermagem

Disciplina: Contexto Social e Profissional da Enfermagem

Professor: Rafael Soder

Acadêmicos: Carolina Bernardo, Luiz Mello, Joana Genz Gaulke, Kauiara Possamai, Simone dos Passos.

Evolução Histórica da Saúde Pública no Mundo

Resumo

Este trabalho fala de forma resumida sobre a história da saúde pública no mundo. Começa mostrando a importância de saber a história da saúde, para justificar e dar finalidade ao trabalho. Depois faz um breve resgate histórico da visão de saúde e doença no mundo, relacionando esta visão com a maneira de promover saúde. O trabalho também relata o surgimento da medicina social e da preocupação com saúde de uma forma coletiva, resgatando as conferências mundiais de saúde pública e relatando o início dos planejamentos e trabalhos em nível mundial de promoção da saúde. Finaliza contextualizando a saúde pública atualmente, deixando evidente a influência da história na atualidade.

Introdução

Viemos por meio deste trabalho sistematizar nossas buscas por conhecimentos em relação à história da saúde coletiva no contexto mundial, desta maneira percebemos que na área da saúde esquece-se muitas vezes de conhecer a história para entender a atualidade, afinal as condições atuais da saúde pública são um relato da contemporaneidade que tem suas raízes em eras muito antigas. Poucos autores abordam a história da saúde pública em uma visão global, limitando-se apenas a história da saúde de seu país ou a atual situação da saúde global.

É importante compreender a evolução da saúde coletiva porque ela sofre intervenções religiosas, sociais, econômicas e perpassa a forma isolada de estudo. Com essa intenção, elaboramos este trabalho; para que possamos no final perceber como a saúde pública sofre influências da história de um modo geral. Apresentaremos desta forma um breve relato da história da saúde pública, e esperamos que este seja um instrumento que auxilie a compreensão sobre o assunto.

Objetivos

Permitir-nos o conhecimento necessário para compreender a atual conjuntura da Saúde Coletiva no Mundo.

A importância de conhecer a história da saúde pública

Conhecer a história da saúde pública mundial nos faz entender a situação atual da saúde pública global. A saúde acompanhou os processos históricos mundiais, e foi sendo remodelada a cada período, assim como a saúde coletiva passou por altos e baixos de acordo com o conceito de doença, e o conhecimento científico de cada momento. Portanto tendo em vista o que Gilberto Hochman, Paula Xavier dos Santos e Fernando Pires-Alves nos dizem (2009):

“Que a saúde e a enfermidade são algo mais que fenômenos biológicos; de que em torno dos cuidados, dos mecanismos de controle e das curas estão dimensões relevantes da história da saúde e da doença [...] e que o processo saúde-doença é revelador de aspectos cruciais da modernidade e da história social, política, intelectual e cultura”l.

Podemos concluir que é de extrema importância conhecer e entender a evolução histórica da saúde pública, assim recorda os costumes de alguns povos e isto era representado pelas doenças características destes. A falta de higiene e as más condições de vida de outros, ao se tratar de doenças que marcaram a identidade dos povos pelo mundo, não podemos deixar de citar as epidemias e pestes que contribuíram para o final de algumas civilizações. Assim como na contemporaneidade temos também enfermidades que são marcos de nossas interações com o meio podendo ser ele ambiental, social ou econômico.

O início da preocupação com a saúde coletiva

Pode-se dizer que a preocupação com a saúde da sociedade, da população de uma forma coletiva, começou com as primeiras epidemias que afetaram um maior número de pessoas, e fizeram com que se começasse a pensar na causa destas. Há na bíblia registros de doenças, como a lepra (hoje conhecida como hanseníase), que afetaram a vida de muitas pessoas ainda na época de Cristo, onde também já aparece a preocupação de isolar essas pessoas, dando a entender que se pensava no contágio e assim, automaticamente, na saúde coletiva. Observasse pelos relatos Bíblicos também que se tinha a compreensão que a enfermidade era transmissível, mas que os isolamentos se justificavam de forma empírica como fato vergonhoso, já que estas enfermidades eram tidas como castigo divino:

As vestes do leproso, em quem está a praga, serão rasgadas, e os seus cabelos serão desgrenhados; cobrirá o bigode e clamará: Imundo! Imundo! Será imundo durante os dias em que a praga estiver nele; é imundo, habitará só; (LEVÍTICO 13. 45-46)

Na Idade Média a Igreja exerceu grande influência na política e consequentemente na área da saúde. A doença era vista como um castigo divino, e os doentes eram isolados. O isolamento evidencia a falta de tratamento e o atraso científico da Idade Média. Assim como retrata Gil Sevalho (1993):

Na idade média [...] casas de assistência aos pobres, abrigos de viajantes e peregrinos, mas também instrumentos de separação e exclusão quando serviam para isolar os doentes do restante da população. Um dos valores básicos que envolvia a existência dos hospitais do medievo era a caridade, pois cuidar dos doentes ou contribuir financeiramente para a manutenção destas casas significava a salvação das almas dos benfeitores.

Mas ao mesmo tempo com o aparecimento de novas doenças, alguns estudiosos passaram a acreditar que as doenças poderiam passar de uma pessoa para outra, começando a idéia de que há formas, além da benevolência divina, de se evitar doenças, Gil Sevalho (1993):

Nos anos 1300, ao tempo da peste negra, um médico árabe relatava que a doença podia ser contraída pelo contato com os doentes ou através de peças de vestuário, louça ou brincos (Sournia & Ruffie, 1986). De qualquer modo, na visão de mundo dos cristãos medievais, estava contextualizado o temor que a doença imprimia. A sensação de que devia ser mantida à distância, o necessário afastamento do perigo desconhecido pressentido, o medo do sofrimento e da morte.

Depois dessa época de domínio da Igreja, entramos numa fase de racionalismo e grande crescimento científico, o iluminismo. Nesta fase, junto com a ciência, os conhecimentos na área da saúde tiveram grande avanço, como afirma Gil Sevalho (1993):

O ser humano que acompanhava o nascimento da ciência moderna era conquistador e proprietário da natureza, não mais seu partícipe e observador harmonioso. [...]Esta perspectiva abriu caminho para as práticas terapêuticas intervencionistas.

Com uma visão mais racional da doença, foi possível pensar em maneiras de evitar as epidemias. A liberação de pesquisas científicas anteciparam novas descobertas como formas de prevenir algumas enfermidades e conter o contágio de outras, assim como as vacinas que representaram um grande marco para a prevenção à tuberculose, tétano, meningites, enfermidades que em épocas remotas eram capaz de dizimar populações, bem como a descoberta do primeiro microscópio.

O iluminismo antecipou o surgimento do capitalismo. Com o surgimento de fábricas, surgiram empregos exaustivos. E logo depois, surgiram os centros urbanos, a desigualdade social e a falta de estrutura nesses centros. Como relata Gil Sevalho (1993):

Os graves problemas sociais do início do capitalismo industrial, as desastrosas condições de vida e trabalho, geradas pela formação e crescimento dos núcleos urbanos e pela necessidade cada vez maior de expandir o capital industrial, às custas da exploração da força de trabalho e da pobreza.

Desta forma o crescimento desordenado das cidades e dos núcleos de trabalhadores nem sempre contava com as mais perfeitas condições de habitação, saneamento básico, tratamento adequado da água. Esses graves problemas sociais evidenciaram a influência do contexto social na saúde da população. Foi a partir desse momento que se iniciou a preocupação com a influência das condições de vida na saúde do indivíduo.

O nascimento da medicina social

Assim, sabendo que as questões sociais influenciavam nas condições de saúde da população, pela primeira vez ouviu-se o termo medicina social, como evidencia Gil Sevalho (1993):

uma penetração do conhecimento médico no domínio do ambiente social, aplicado ao panorama mercantilista da Alemanha e da França do século XVIII e ao capitalismo incipiente da Inglaterra industrial do século XIX, fez nascer a medicina social no entrelaçamento de três movimentos apontados por Foucault (1979). A polícia médica alemã, uma medicina de Estado que instituiu medidas compulsórias de controle de doenças, a medicina urbana francesa, saneadora das cidades enquanto estruturas espaciais que buscavam uma nova identidade social, e, por último, uma medicina da força de trabalho na Inglaterra industrial, onde havia sido mais rápido o desenvolvimento de um proletariado. Destes movimentos surgiu a medicina social, impulsionada pelos revolucionários de 1848 e suas perspectivas de reformas econômicas e políticas, como uma empresa de intervenção sobre as condições de vida, sobre o meio socialmente organizado pelo modo de vida capitalista conformado pela Revolução Industrial.

E como afirma Everardo Duarte Nunes (1998), na metade do século a medicina social seria devidamente registrada:

Acrescente-se que somente na metade do século XIX, em 1848, a expressão medicina social ganharia registro. Surgiu na França e, embora concomitante ao movimento geral que tomou conta da Europa, num processo de lutas pelas mudanças políticas e sociais.

Mas após esse momento do surgimento do capitalismo, novas descobertas como a da existência de germes, fizeram com que surgissem novas formas de entender a doença como a “teoria da unicausalidade” de Louis Pasteur.

E assim como disse Everardo Duarte Nunes (1998), foi a partir dessas novas descobertas e dos novos conceitos não sociais de doença que a saúde passou a ser biomédica centrada na doença e não no indivíduo:

Foi somente a partir da segunda metade do século XIX, marcado pelas investigações de Pasteur e Koch, que se inauguraria a Era do Germe, e que transformaria dramaticamente a medicina de "uma profissão orientada para as pessoas para orientada para a doença" (Twaddle e Hessler, 1977, p.12). Como escreve Salomon-Bayet (1986, p.12), a revolução biomédica suscitada pelos trabalhos de Pasteur pode ser denominada de "la pastorization de la médicine" que a distingue de "la pasteurization de la médicine", no sentido de que ela significa, de um lado, uma revolução teórica e, de outro, a medicalização de uma sociedade, legislando sobre a saúde pública, institucionalizando o ensino e atuando no plano político e social. Sem dúvida, as descobertas dos microrganismos serão da maior importância para a saúde pública, especialmente quando, além da relação indivíduo-agente, se estabelece um modelo epidemiológico como uma interação entre esses dois elementos e o ambiente.

A partir desse momento tivemos uma decadência da saúde pública, da preocupação com o contexto social e com as condições de vida da população.

Mas com o tempo a saúde alternativa e a visão holística da saúde voltaram a ser defendidas por muitos profissionais da área da saúde. Na década de 70 na América Latina cresce a importância das ciências sociais na abordagem da saúde. São organizadas conferências, como a Alma-Ata e a Conferência de Ottawa, para se pensar estratégias para melhorar a promoção da saúde em nível mundial.

Alma-Ata

I. A conquista do mais alto grau de saúde exige a intervenção de muitos outros setores sociais e econômicos,além do setor saúde”

III. A promoção e proteção da saúde da população é indispensável para o desenvolvimento econômico e social sustentado e contribui para melhorar a qualidade de vida e alcançar a paz mundial;

IV. A população tem o direito e o dever de participar individual e coletivamente na planificação e na aplicação das ações de saúde;

VII-1. A atenção primária de saúde é, ao mesmo tempo, um reflexo e uma conseqüência das condições econômicas e das características socioculturais e políticas do país e de suas comunidades;

A década de 60 foi marcada mundialmente por alterações nos cenários políticos, e assim a década que foi marcada por apelos por “sexo, drogas e rockn’roll”, motivada por sentimentos e pensamentos libertários, foi também a década em que se iniciaram discussões e mobilizações que marcaram profundamente a história da Saúde Pública no Mundo, pensamentos de ousadia somados com experiências nacionalistas (China) permitiram a elaboração da declaração de Alma Ata, e assim a ampliação da compreensão da complexidade da garantia deste direito fundamental ao ser humano: a saúde, e a alteração de estratégias originaram o pensamento da promoção da saúde sendo um eixo fundamental para atingir a utopia de “Saúde para Todos até o ano 2000”..

Com toda esta mobilização inicia-se uma caminhada de discussões e conferencias internacional buscando aprimorar os conceitos e sistematizar as idéias de como fazer para a obtenção sucesso em suas metas, destes instrumentais a Declaração de Alma Ata e a Carta de Otawa, ainda são os símbolos da transformação da forma de se pensar saúde no mundo.

VII-3. Compreende, pelo menos, as seguintes áreas: a educação sobre os principais problemas de saúde e sobre os métodos de prevenção e de luta correspondentes; a promoção da aportação de alimentos e de uma nutrição apropriada; um abastecimento adequado de água potável e saneamento básico; a assistência materno-infantil, com inclusão da planificação familiar; a imunização contra as principais enfermidades infecciosas; a prevenção e luta contra enfermidades endêmicas locais; o tratamento apropriado das enfermidades e traumatismos comuns; e a disponibilidade de medicamentos essenciais;

VII-4. Inclui a participação, ademais do setor saúde, de todos os setores e campos de atividade conexas do desenvolvimento nacional e comunitário, em particular o agropecuário, a alimentação, a indústria, a educação, a habitação, as obras públicas, as comunicações e outros, exigindo os esforços coordenados de todos estes setores;

VII-5. Exige e fomenta, em grau máximo, a auto-responsabilidade e a participação da comunidade e do indivíduo na planificação, organização, funcionamento e controle da atenção primária de saúde. Na verdade, o texto da Declaração de Alma-Ata, ao ampliar a visão do cuidado da saúde. (Ferreira, R. José; BUSS, M. Paulo – ATENÇÃO PRIMÁRIA E PROMOÇÃO DA SAÚDE)

Com estas citações de partes da Declaração é possível evidenciar a indissociabilidade dos fatores sociais, econômicos e culturais para atingir uma saúde pública de qualidade e com equidade. Envolvendo assim todos os setores da sociedade, inclusive a sociedade civil.

As condições atuais da saúde pública mundial

Mesmo após ser definido pela Organização Mundial de Saúde o conceito de saúde-doença que diz que “A saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade” (OMS, 1948), ainda é muito forte a idéia curativista da saúde. Ainda hoje, como resultado de um processo histórico, muitas vezes entende-se promoção da saúde como tratamento de uma doença. Virginia Berridge (2000):

Os dias de prosperidade da saúde pública entre as duas guerras mundiais, o desabrochar do império da saúde publica no baseado no hospital , foi um erro para a saúde publica, afastando-se do caminho da saúde necessária à população.

Assim, muitas vezes não é dado o valor necessário para a saúde pública, esquecendo-se da visão holística da promoção da saúde. E como alerta Virginia Berridge (2000):

A tensão entre a relação com os serviços médicos e o papel da comunidade permaneceu exemplificada nos anos 60, pela medicina comunitária e a epidemiologia das doenças crônicas, e ainda não foi resolvida. A dualidade do papel da saúde pública tem sido um tema permanente, de um lado entre a prevenção e a promoção (ou desenvolvimento), e de outro, entre o planejamento e administração dos serviços de saúde.

Além disso a saúde pública ainda enfrenta um distanciamento entre a prática e a teoria, como diz Everardo Duarte Nunes (1998):

continua presente o dilema entre a instrumentalidade e a politicidade, o saber acadêmico e o saber militante, como pontos importantes para o debate atual da saúde coletiva.

Resultados

Neste breve relato histórico, é possível concluir que a história da saúde pública no mundo esta diretamente ligada às situações políticas e econômicas em que delineou a trajetória da saúde, suas necessidades de reformulações e estabelecimento de metas ousadas para a garantia desta como direito fundamental ao ser humano.

Percebemos que o desafio da construção de uma saúde pública eficiente ainda é um desafio em quase todo o mundo, assim como a superação de outras violações aos direitos humanos. A globalização que aproxima os continentes e favorece uma discussão sobre a condição de saúde, que nos permite pensar estratégias para se trabalhar políticas de saúde para todos; é a mesma globalização embasada pelos princípios neoliberais, o que não permite que o público seja eficiente e que tem como diretriz fundamental o Estado mínimo. Dificultando a implementação de uma Saúde Pública de qualidade, com equidade e universalidade.

Evidentemente que todas as conquistas de transformação do pensamento em torno da saúde são acontecimentos que marcaram e permitiram que a história se desse desta forma, porém, concluímos que temos muito a avançar, pois mundialmente ainda se tem indicadores grandes de saúde como mercadoria. Avançamos muito nas últimas décadas, mas a caminhada desta construção de saúde pública ainda é repleta de desafios.

Referências Bibliográficas

HOCHMAN, Gilberto. XAVIER, Paula dos Santos. PIRES-ALVES, Fernando. História, saúde e recursos humanos: análises e perspectivas – 2009

SEVALHO, Gil. Uma abordagem histórica das representações sociais de saúde e doença. Rio de Janeiro: 1993.

NUNES, Everardo Duarte. Saúde Coletiva: história e paradigmas. São Paulo: 1998.

BERRIDGE, Virginia. A história na Saúde Pública: quem dela necessita? – 2000

BÍBLIA, LEVÍTICO 13. 45-46

Rosen, G. (1958). A history of public health. MD Publications, New York.

Evolução Histórica da Saúde Pública no Mundo Página 10

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