Construção Enxuta - Processo de Construção Civil

Construção Enxuta - Processo de Construção Civil

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Neste sentido, o NORIE/UFRGS propôs um modelo para o planejamento e controle da produção, em empresas de pequeno porte, que contém os principais elementos do método Last Planner (FORMOSO et al., 1999).

Os elementos principais do Last Planner são o plano operacional, elaborado de acordo com a sistemática da Shielding Production (produção protegida) (BALLARD e HOWELL, 1997) e o Lookahead Planning (olhar a produção à frente) (BALLARD, 1997).

Bernardes (2001) apresenta uma proposta de planejamento e controle da produção, também baseado no método Last Planner. Esse é dividido em três níveis de planejamento, com diferentes horizontes de tempo: o planejamento de curto prazo, tratado como operacional; o planejamento de médio prazo, tratado como tático e o planejamento de longo prazo, tratado como estratégico.

Com esta divisão em níveis, o planejamento traz uma melhor definição das atividades, proporcionando melhor visão ao gerente e envolvidos, já que a capacidade humana de conservar informações é reduzida (BERNARDES, 2001).

Este modelo proposto tem como principais finalidades: a) Fazer do PCP um processo gerencial, apresentando transparência no processo; b) Reduzir incertezas no processo de produção; c) Formalizar o planejamento para consultas e introdução de melhorias de produção ou na tomada de decisões; d) Melhorar o gerenciamento; e) Facilitar o controle. Os fundamentos teóricos do PCP, ao contrário de muitos programas de melhoria, têm sua base justamente alicerçada no aprendizado. A tomada de decisão, o controle e o replanejamento são sempre realizados utilizando dados e indicadores coletados durante o processo anterior e visam, sempre, a melhoria, baseados na aprendizagem, tentando entender os reais motivos de problemas ocorridos, para que esses não venham a acontecer de novo, mantendo, assim, uma postura pró-ativa frente aos problemas (BERNARDES, 2001).

A hierarquização do planejamento se refere à maneira como as metas de produção são vinculadas aos horizontes de longo, médio e curto prazo. Neste caso, o detalhamento das metas fixadas nos diferentes níveis de planos deve ser maior, na medida em que se aproxima a data de execução da atividade (LAUFER e TUCKER, 1988 apud BERNARDES, 2003), podendo ser colocado como uma forma de se reduzir o impacto da incerteza existente no ambiente produtivo.

A utilização desta prática possibilita a minimização do retrabalho, no processo de preparação dos planos, visto que, para horizontes muito grandes, planos excessivamente detalhados estão mais sujeitos a erros e atualizações do que planos menos detalhados (LAUFER e TUCKER, 1987 apud BERNARDES, 2003). O próprio estabelecimento de planos hierarquizados auxilia no controle, visto que, através da hierarquização cada nível gerencial, pode se concentrar no desenvolvimento de tarefas que possibilitem o cumprimento das metas fixadas.

2.4.1 Planejamento de longo prazo

No planejamento de longo prazo, o horizonte dos planos abrange todo o período de construção e tem como objetivo a definição dos ritmos das atividades, que constituem as grandes etapas construtivas do empreendimento como, por exemplo, a estrutura, a alvenaria e as instalações hidrossanitárias (MENDES JR e HEINECK, 1998). Em função do fluxo de recursos financeiros, desenvolvidos no estudo de viabilidade e da estimativa de custo, são dadas instruções para a coordenação destas atividades (TOMMELEIN e BALLARD, 1997).

Outra importante decisão, relacionada a esse nível de planejamento, trata da definição da estratégia de ataque à obra. Através deste estudo, é estabelecido o seqüenciamento das atividades, eliminando-se possíveis interferências entre equipes e propiciando-se a melhoria dos fluxos de materiais e mão-de-obra dentro do canteiro.

A elaboração dos planos é realizada a partir do uso de técnicas de programação, como o PERT-CPM, a Linha de Balanço e os diagramas de Gantt, nos quais estão especificadas informações a respeito do início e fim das atividades, bem como a duração máxima necessária para a execução do empreendimento (TOMMELEIN e BALLARD, 1997; MENDES JR. e HEINECK, 1998).

2.4.2 Planejamento de médio prazo

O planejamento de médio prazo, também denominado de lookahead planning, tem como principal função o ajuste dos planos produzidos no planejamento de longo prazo. Estes ajustes devem contemplar a compatibilização entre os recursos disponíveis, a capacidade de produção das equipes e o cumprimento de prazos e custos (BALLARD, 1997). Esse plano é considerado como um segundo nível de planejamento, o tático, que busca vincular as metas fixadas no plano mestre com aquelas designadas no curto prazo (FORMOSO et at., 1999).

Segundo Ballard (1997), o plano de médio prazo pode servir a outros propósitos: a) Modelar o fluxo de trabalho, na melhor seqüência possível, de forma a facilitar o cumprimento dos objetivos do empreendimento; b) Facilitar a identificação da carga de trabalho e dos recursos necessários, que atendam ao fluxo de trabalho estabelecido; c) Ajustar os recursos disponíveis ao fluxo de trabalho definido; d) Possibilitar que trabalhos interdependentes possam ser agrupados de forma que o método de trabalho seja planejado de maneira conjunta; e) Auxiliar na identificação de operações que podem ser executadas de maneira conjunta entre as diferentes equipes de produção; f) Identificar o estoque de pacotes de trabalho designados às equipes de produção.

O plano de médio prazo típico possui um horizonte de quatro semanas, contadas a partir da segunda semana, pois a primeira corresponde ao horizonte compreendido pelo plano de curto prazo (BERNARDES, 2003).

2.4.3 Planejamento de curto prazo

O planejamento de curto prazo é o nível no qual são tomadas as últimas decisões a respeito do fluxo de trabalho, tal como pequenos ajustes no seqüenciamento das equipes, em função do cumprimento de tarefas antecedentes e da disponibilidade de recursos, tanto de mão-de-obra, quanto de materiais e equipamentos. Desta forma, procura-se eliminar ou reduzir a influência de imprevistos, que dificultam a execução completa das tarefas (BALLARD e HOWELL, 1997).

Bernardes (2003), ao citar alguns destes autores, ressalta que a aplicação conjunta do plano de curto prazo, com o lookahead, faz parte de um conjunto de ferramentas, que facilitam a implementação do sistema de controle da produção Last Planner, e define esse sistema como uma filosofia que busca melhorar o desempenho do processo de planejamento e controle da produção (PCP), através de medidas que protejam a produção contra os efeitos da incerteza.

Procura-se chegar a um consenso sobre a emissão de ordens de produção de qualidade, consideradas assim aquelas que obedecerem aos seguintes aspectos exigíveis para a operação (BALLARD, 2000): a) Boa definição de uma operação, de forma que se possam estabelecer parâmetros de medição e de controle da qualidade; b) Seqüência adequada no processo construtivo; c) Tamanho compatível com o período de planejamento, com a política de pagamento e com a questão motivacional (se a tarefa é muito grande, o operário desmotiva-se por não conseguir enxergar o seu término, tampouco associar o seu empenho, com a quantidade de trabalho e a remuneração combinada); d) Possibilidade efetiva de ser executada, em função da disponibilidade de todos os recursos necessários à sua execução.

A logística de canteiro de obras aborda os fluxos físicos e os fluxos de informação, associados à execução de atividades, incluindo as atividades de gestão dos fluxos físicos. Um canteiro de obras bem planejado também auxilia a introdução dos princípios da Construção Enxuta.

2.5 A organização do canteiro de obras

A concepção de um canteiro de obras é definida, segundo Saurin (1997), como “o planejamento do layout e da logística das instalações provisórias, instalações de movimentação e armazenamento de materiais e instalações de segurança”.

A otimização de um canteiro de obras significa setorizar e organizar, espacialmente, a maneira de dispor os materiais, os funcionários, equipamentos e instalações necessárias ao processo de produção, objetivando a realização das tarefas diárias, segundo um cronograma de execução, no menor tempo possível, com a racionalização dos recursos disponíveis, ou seja, recursos materiais (insumos, equipamentos e ferramentas), recursos humanos (mão-deobra) e financeiros ( SAURIN, 1997).

Esta abordagem tem o objetivo de proporcionar transparência aos processos físicos, podendo-se identificar e compreender o fluxo de materiais e o motivo das falhas relacionadas à ocorrência de perdas. O layout pode ser entendido, segundo Saurin (1997), como a disposição física de homens, materiais, equipamentos, áreas de trabalho e de estocagem e, de modo geral, a disposição racional dos diversos serviços dentro de um local de trabalho.

Segundo Heineck et al. (1996), modificações no layout de canteiros de obra ajudam, também, a aumentar a segurança e higiene na obra, criando um ambiente agradável para os trabalhadores; influenciam na diminuição dos problemas ergonômicos; proporcionam maior facilidade de controle dos estoques de materiais e, conseqüentemente, contribuem para a redução de perdas, além de minimizar o efeito do duplo manuseio.

A mentalidade enxuta (lean thinking), em canteiros de obra, possibilita criar um ambiente ideal para o recebimento, transporte e armazenagem dos insumos, numa obra de edificações, bem como no processamento inicial de corte e montagem das matérias-primas, além de auxiliar na concepção do layout dos canteiros, de forma a minimizar a adoção de critérios subjetivos, para a disposição física dos setores, tornando o processo mais sistemático e criterioso.

A importância da definição de um layout, adequado para a indústria da construção, pode ser verificada através da influência que exerce sobre as atividades de fluxo, como o armazenamento, movimentação de materiais, equipamentos e aproveitamento de mão-deobra.

3 MÉTODOS E MATERIAIS

3.1 A classificação e a estratégia da pesquisa

Para Gil (2002), é usual a classificação da pesquisa, com base em seus objetivos gerais e a define em três grupos: exploratórias, descritivas e explicativas. Desta forma, esta pesquisa classifica-se como exploratória, pois tem como objetivo proporcionar maior familiaridade com o tema e o aprimoramento de idéias sobre o mesmo.

Os estudos de caso, experimentos, levantamentos e pesquisas históricas são alguns exemplos de como realizar uma pesquisa científica. Segundo Yin (2001), a escolha da estratégia de pesquisa mais adequada depende, fundamentalmente, de três fatores: o tipo de questão da pesquisa, o controle que o pesquisador exerce sobre o objeto pesquisado e o grau com que a pesquisa envolve a investigação de fatos contemporâneos.

Como estratégia de pesquisa adotou-se o estudo de caso, pois o planejamento e condução desta dissertação abrangem situações que o caracterizam como tal. Segundo Yin (2001), o estudo de caso é uma estratégia aplicável a estudos científicos, onde se incluem estudos organizacionais e gerenciais. A pesquisa é uma investigação de um fenômeno contemporâneo, dentro de seu contexto da vida real, sendo que os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos. O pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e, essencialmente, busca responder às questões relacionadas a “como” e “por que os eventos ocorrem” (YIN, 2001).

Neste trabalho, a questão que norteia o desenvolvimento da pesquisa tem o foco em “como”, mais especificamente, “como podem ser introduzidos os princípios da filosofia de Construção Enxuta, oportunizando melhorias no processo de produção de obras de edificação, com base em um estudo de caso na cidade de Passo Fundo?”

Na bibliografia há divergências sobre a conceituação de estudo de caso, principalmente, quando um dos instrumentos para coleta de dados é a observação participante. Alguns autores, entre eles Thiollent (1997), afirmam que se existe a participação dos pesquisadores no estudo, trata-se de pesquisa-ação.

No entanto, a pesquisa-ação apresenta características diferenciadas do estudo de caso.

Segundo Dick (1993), a pesquisa-ação tem dois objetivos: a ação, de modo a trazer mudança, em alguma comunidade ou organização, e a pesquisa para aumentar o entendimento. Thiollent (1997) e Dick (1993) apontam a pesquisa-ação como um processo cíclico, participativo e essencialmente qualitativo, em que o processo de aprendizagem exerce o papel de indutor de mudanças.

Assim, observa-se que, embora as duas estratégias possam ser adotadas em pesquisa, com intervenção na realidade, a pesquisa-ação é uma estratégia complexa e indicada para pesquisas, cujo objetivo é a mudança na organização, no processo, no grupo ou no indivíduo. O estudo de caso é indicado em situações nas quais pode haver necessidade de algum tipo de intervenção, mas cujo objetivo principal é o desenvolvimento de um produto, aplicação ou experimentação de um modelo, método, ferramenta ou instrumento (HIROTA, 2000).

Os estudos de caso não buscam a generalização de seus resultados, mas sim a compreensão e interpretação mais profunda dos fatos e fenômenos, normalmente isolados. Embora não possam ser generalizados, os resultados obtidos devem possibilitar a disseminação do conhecimento (YIN, 2001).

Diante do exposto, observa-se que o trabalho em questão caracteriza-se como um estudo de caso, com intervenção, pois apresenta fases definidas; há observação participante e intervenção, cujo objetivo é o desenvolvimento de instrumentos e ferramentas, visando à medição de desempenho. A unidade de análise do estudo é uma empresa de construção civil e a investigação é a introdução da Filosofia de Construção Enxuta na produção da obra da empresa.

3.2 O delineamento da pesquisa O desenvolvimento da pesquisa foi dividido em três fases:

− a Fase I, exploratória, com a identificação da empresa, para o estudo e observação direta no canteiro de obras, para a descrição de seus processos;

− a Fase I, a apresentação dos princípios da Construção Enxuta e a intervenção na obra;

− e a Fase I, a avaliação e discussão dos resultados e uma proposta de diagnóstico para empresas construtoras.

A fase de revisão bibliográfica desenvolveu-se durante todas as etapas da pesquisa.

Foram pesquisados temas como a Nova Filosofia de Produção (Lean Producion), compreensão de seus princípios, desenvolvimento da implementação e dos indicadores de avaliação, no planejamento e controle da produção e seus temas complementares, como a qualidade da construção civil e perdas no processo de produção. A Figura 4 apresenta a estrutura de pesquisa (design da pesquisa).

Figura 4 - Delineamento da pesquisa.

3.2.1 Fase I: Caracterização da empresa e do canteiro de obras

A partir das informações obtidas na revisão de literatura desenvolveu-se a estratégia de pesquisa a ser utilizada e a proposta de trabalho. A revisão bibliográfica revelou a defasagem do sistema de gestão de produção do setor da construção civil, quando comparado aos demais setores industriais. Também proporcionou o contato com diversos trabalhos da comunidade acadêmica e de mobilizações setoriais, voltados à introdução e melhoria de técnicas e filosofias de gestão para a produção, entre elas a Nova Filosofia de Produção na Construção ou Construção Enxuta.

Revisão Bibliográfica

Seleção da empresa para o estudo

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