Argila Bentonita

Argila Bentonita

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Centro de Tecnologia Mineral Ministério da Ciência e Tecnologia

Adão Benvindo da Luz Engenheiro de Minas/CETEM-MCT

Cristiano Honório de Oliveira Engenheiro Químico/Petrobrás

Rio de Janeiro Dezembro/2008

Rochas Minerais Industriais: Usos e Especificações Parte 2 – Rochas e Minerais Industriais: Usos e Especificações Capítulo 1 – pág. 239 - 253

CAPÍTULO 1

Argila – Bentonita

1. INTRODUÇÃO

O termo bentonita, segundo a literatura, foi pela primeira vez aplicado a um tipo de argila plástica e coloidal de uma rocha descoberta em Fort Benton,

Wyoming-EUA. Embora, originalmente, o termo bentonita se referisse à rocha argilosa descoberta, atualmente designa argila constituída, principalmente, do argilomineral montmorillonita. Este argilomineral faz parte do grupo esmectita, uma família de argilas com propriedades semelhantes. O termo bentonita também é usado para designar um produto com alto teor de esmectita. A bentonita pode ser cálcica ou sódica, e possui uma característica física muito particular: expande várias vezes o seu volume, quando em contato com a água, formando géis tixotrópicos. Alguns cátions provocam uma expansão tão intensa que as camadas dos cristais podem se separar até a sua célula unitária. O sódio provoca a expansão mais notável.

As principais jazidas de bentonita em operação no Brasil estão localizadas no município de Boa Vista, Estado da Paraíba. Existem outros depósitos de bentonita, no município de Vitória da Conquista-BA, com possibilidade de aproveitamento econômico. Com efeito, foi inaugurado neste município, no distrito de Padroso, em 2007, o empreendimento mineral da Companhia

Brasileira de Bentonita-CBB, de propriedade da Geosol, empresa especializada em sondagens e perfuração de poços artesianos. A jazida foi arrendada da

CBPM. A CBB apresenta capacidade de produção de pelo menos 60 mil t/ano de bentonita ativada.

As bentonitas de Boa Vista são cálcicas e o seu uso industrial exige que sejam ativadas com carbonato de sódio (barrilha), para serem transformadas em sódicas. Esse processo foi desenvolvido e patenteado na Alemanha, no ano de

1Engo de Minas/UFPE, D.Sc. em Engenharia Mineral/USP, Pesquisador Titular do CETEM/MCT. 2Químico/UFRJ, D.Sc. em Química/UFRJ, (ex) Bolsista do CETEM, Engenheiro da Petrobrás.

1933, pela empresa Erbsloh & Co e é atualmente utilizado pelos países que não dispõem de bentonita sódica natural.

De 2005 para 2006, a produção brasileira de bentonita beneficiada aumentou 6,4%, ou seja de 221 mil t para 236 mil t. O consumo aparente de bentonita beneficiada, em 2006, foi de 2 mil t. As importações resultaram em déficit comercial de US$ 13,5 milhões. O Estado da Paraíba mantém-se como o principal produtor, contribuindo em 2006, com 86,5% de toda a bentonita produzida no País (Resende et al., DNPM/2007). Segundo este, 13 empresas atuam nesse segmento, sendo a Bentonit União do Nordeste a maior delas.

Os EUA lideram a produção mundial. Em 2006 produziram 4,62 Mt. O consumo aparente no mesmo ano foi de 3,39 Mt (USGS, 2007), equivalendo a um consumo per capita de 1,3 kg/hab. Para efeito de comparação, o consumo brasileiro fica em torno de 1,2 kg/hab.

Os principais usos da bentonita são: agente tixotrópico de fluidos de perfuração de poços de petróleo e d’água; pelotização de minérios de ferro; aglomerante de areias de moldagem usadas em fundição; descoramento de óleos vegetais, minerais e animais; impermeabilização de bacias; pet litter etc. A distribuição do consumo de bentonita varia significativamente de acordo com o país. Mais adiante serão apresentados os principais usos no Brasil e, a título de comparação, nos EUA.

2. MINERALOGIA E GEOLOGIA

Esmectita é o termo dado a um grupo de minerais constituído por: montimorillonita, beidelita, nontronita, hectorita e saponita. Cada mineral forma uma estrutura similar, entretanto quimicamente diferente. A nontronita, por exemplo, é uma esmectita rica em ferro e a hectorita é rica em lítio. O mineral mais comum nos depósitos econômicos do grupo da esmectita é a montimorillonita. As variedades cálcicas e sódicas, baseadas no cátion trocável, são as mais abundantes.

Do ponto de vista estrutural, os argilominerais da bentonita são constituídos de unidades empilhadas que compreendem camadas de sanduíches de íons coordenados octaedralmente entre duas camadas de íons coordenados tetraedralmente.

No município de Greybull, ao norte do estado de Wyoming - EUA, quase na fronteira com o estado de Montana, encontra-se em lavra uma mina de bentonita pertencente à empresa Wyoming Bentonite (WYO-BEN, INC). As bentonitas de Wyoming são sódicas, de alta capacidade de inchamento e, portanto, os tipos mais eficientes para lama de perfuração. As propriedades de alta viscosidade da hectorita fazem desta, uma argila bastante adequada para lama de perfuração (Luz et al., 2001a).

A bentonita, na região de Wyoming, ocorre em rochas do cretáceo e terciário. A bentonita é uma rocha composta essencialmente de uma argila cristalina, tendo as características de um mineral formado pela desvitrificação de um material ígneo e vítreo, normalmente um tufo ou cinza vulcânica. Esse material normalmente contém proporções variadas de grãos de cristais acessórios que foram originalmente fenocristais num vidro vulcânico. Esses minerais geralmente são feldspatos (ortoclásio e oligoclásio), biotita, quartzo, piroxênio, zircônio e vários outros tipos de minerais, característicos de rochas vulcânicas (Elzea e Murray, 1995; Luz et al., 2001a).

Uma das formas de caracterizar a bentonita (esmectita sódica) é baseada na sua capacidade de inchamento, quando se adiciona água. A bentonita, tendo o sódio como elemento dominante ou como um íon tipicamente trocável, possui elevada capacidade de inchamento e tem as características de uma massa, quando se adiciona água. Esse é o caso das bentonitas sódicas do estado de Wyoming-EUA. Quando a bentonita tem o cálcio como íon predominante, possui menor capacidade de inchamento. As bentonitas sódicas/cálcicas, denominadas mistas, incham de forma moderada e formam géis de menor volume do que as bentonitas sódicas. Dessa forma, as bentonitas são classificadas como de alto inchamento ou sódica, baixo inchamento ou cálcica e de moderado inchamento ou tipo mista.

As bentonitas das minas de Boa Vista-PB ocorrem cobertas por uma camada de solo argiloso, variando de 1 a 10 m. Nos níveis onde é feita a lavra, as argilas ocorrem em camadas de cores variadas, por vezes formando estratificações ou zonas uniformes. Localmente, essas argilas recebem as seguintes denominações: de: chocolate; verde lodo, vermelha; sortida ou mista e bofe ou leve (Luz et al., 2001b).

3. LAVRA E PROCESSAMENTO Lavra e Processamento de Bentonita nos Estados Unidos

A bentonita, conhecida como de Wyoming, é lavrada nos três principais distritos mineiros que atravessam os estados de Wyoming, Montana e South

Dakota. As cinco usinas que produzem bentonita sódica na região constituem o distrito mineiro de bentonita sódica mais antigo do mundo (Elzea e Murray,

Figura 1 – Frente de lavra típica de uma mineração de bentonita em Greybull, Estado de Wyoming-EUA (Luz et al., 2001a).

A lavra da bentonita na região é feita a céu aberto, normalmente, usando o método de lavra por tira (strip mining), como ilustrado na Figura 1. A espessura da camada de bentonita varia de 2 a 3 m e o comprimento entre 2 a 5 km.

Na lavra são empregados trator e motor-screiper para fazer o decapeamento. O carregamento da bentonita é feito com carregadeira frontal e o transporte dessa até a unidade de processamento é feito em caminhões fora de estrada. Em uma frente de lavra típica, na região, podem ser identificados sete tipos de bentonita (verde, amarela etc.). A lavra de cada tipo depende muito do uso que se requer do produto a ser obtido (lama de perfuração, areia de fundição, pelotização de minérios de ferro etc.).

Na estação chuvosa é praticamente impossível trabalhar na frente de lavra, devido ao estado escorregadio da superfície do solo. Para superar esse problema operacional, lavra-se determinado volume de bentonita, nos períodos secos, e estoca-se no pátio da usina, para processamento na estação chuvosa.

O processamento da bentonita, na região ao norte de Wyoming, consiste de britagem, secagem, moagem e ensacamento. Os diferentes tipos de argila bentonítica, provenientes da frente de lavra, são estocados em pilhas no pátio da usina. Dependendo do produto que se deseja obter, é feita a blendagem no próprio pátio e a seguir a bentonita é submetida a britagem e secagem em forno rotativo, onde a umidade é reduzida de 30 para 10%. O produto da secagem é submetido à moagem em moinho tipo Raymond, em circuito fechado com classificador pneumático, obtendo-se um produto com granulometria abaixo de 200 malhas, a seguir acondicionado em sacos de 50 ou 100 lb (23 ou 45 kg).

Normalmente, os produtos obtidos no processamento da bentonita são submetidos a ensaios de controle de qualidade, em laboratório contíguo à própria usina. No caso de produtos direcionados para lama de perfuração, os ensaios são executados segundo normas API e os mais comuns são: viscosidade plástica usando viscosímetro Brookfield; determinação de filtrado API; resíduo em 200 malhas; ensaios de inchamento; ensaios de rendimento. No caso da caracterização de produtos para outras finalidades, são executados ensaios de absorção d’água; de absorção de óleo etc.

Lavra e Processamento de Bentonita no Brasil

Nas minerações de bentonita no Estado da Paraíba, a preparação das frentes de lavra tem início com a remoção do capeamento, realizado com tratores e carregadeira frontal. O estéril da mina é transportado, por caminhões fora de estrada, para locais onde comprovadamente não exista bentonita.

Na mina Bravo e demais da região de Boa Vista, a lavra é feita a céu aberto, em bancadas que atingem no máximo 2,5 m de altura. As operações de desmonte e carregamento são executadas com o auxílio de pá carregadeira de esteira. A bentonita é lavrada e transportada por caminhões fora de estrada, para pilhas de estoque localizadas próximo à mina. Esse procedimento deve-se ao fato de que, na estação chuvosa, algumas vezes as atividades de lavra são paralisadas devido a impossibilidade de tráfego nas minas (Luz et al., 2001b).

Segundo os mesmos autores, o beneficiamento das bentonitas da Paraíba consta de: desintegração, adição de 2,5 a 3% em peso de barrilha, homogeneização, laminação ou extrudagem, cura (2 a 10 dias), secagem, moagem, classificação pneumática e ensacamento (Figura 2). Não existe, atualmente, uma uniformidade no processamento das bentonitas da Paraíba.

Algumas empresas fazem a adição da barrilha a seco, outras a úmido. A secagem e o tempo de ativação variam de empresa para empresa; algumas secam ao sol, outras usam secador rotativo.

Oleofilização de Bentonitas

Na perfuração de poço de petróleo que atravesse camadas de folhelho, recomenda-se trabalhar com fluidos de perfuração onde a fase contínua é óleo.

Neste caso, a bentonita usada para preparar esse fluido de perfuração deve ser organofílica.

Para obtenção desse tipo de argila organofílica, a sua superfície é modificada pela reação da bentonita ou hectorita, com surfactantes do tipo tetraalquil amônio catiônico. Uma modificação de superfície, muito comum também, é obtida com o surfactante trialquilaril amônio catiônico (Eisenhour and Reisch, 2006).

Aranha (2007) estudou a oleofilização de bentonitas (montmorillonitas) da região de Campina Grande-PB, usando dois agentes de lipofilização, com polaridades distintas. As argilas organofílicas obtidas foram testadas na remoção de óleo residual de água de produção de petróleo e os resultados se mostraram promissores.

Figura 2 – Fluxograma de processamento de bentonita (PB) (Luz et al., 2001b).

4. USOS E FUNÇÕES

No ano de 2006, da bentonita consumida nos EUA, 26% é usada como pet litter (absorvente de dejetos de animais domésticos), 2% como agente tixotrópico de fluidos de perfuração de poços de petróleo e d’água, 23% como aglutinante de areias na indústria de fundição, 13% como aglomerante na pelotização de minério de ferro e 16% em outros usos (USGS, 2007).

No Brasil, dados preliminares sobre o consumo de bentonita bruta, apresentaram a seguinte distribuição (Resende et al., DNPM 2007): pelotização (45,2%); extração de petróleo e gás (2%); fabricação de filtros (10,5%); fundição (7,2%); construção civil (4,8%); cosméticos (3,8%); tintas, esmaltes e vernizes (1,8%), cerâmica branca (0,5%), outros não especificados (4,2%).

Fluido de Perfuração - As funções da bentonita, quando usada como fluido de perfuração (Darley e Gray, 1988), são :

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