Antropologia da doença

Antropologia da doença

(Parte 1 de 4)

Os estudos de antropologia da saúde/doença no Brasil na década de 1990

Health and illness’ antrophological studies in the 90’s in Brazil

1 Departamento de Medicina Preventiva e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp. Rua Copaíba 167, Alphaville, 13098-347, Campinas SP. canesqui@mpc.com.br

AbstractThis article reviews and comments the anthropological and qualitative studies about the sociocultural dimensions of health and illness. It focus the different intellectuals positions, the concepts and methodologies and includes the theme sexuality, disease and genders relations. The article discuss some factors and its contributions to the academic production expansion, and is concerned only to the publications which its examination showed the main themes for selection. Key wordsAnthropology of health/disease; Qualitative research in health; Concepts, methodologies and themes.

Resumo Este texto revê e comenta os estudos antropológicos e qualitativos sobre as dimensões socioculturais da saúde/doença, englobando os seus subtemas, conceitos e metodologias adotadas a partir de diferentes vocações intelectuais. Inclui ainda a sexualidade, doença e relações de gênero.Traça alguns fatores que contribuíram para a expansão daquela produção acadêmica e circunscreve-se somente à publicada, cujo exame permitiu a seleção dos temas abordados, devido aos seus predomínios. Palavras-chav e Antropologia da saúde/doença; Pesquisa qualitativa em saúde; Conceitos e metodologias e assuntos

Introduçã o

Este texto revê o que fizeram no Brasil, na última década do século 20, os antropólogos e profissionais de saúde que incorporaram os referenciais teórico-metodológicos da antropologia nas suas pesquisas e reflexões, enquadradas numa especialização em constituição designada de antropologia da Saúde/Doença, que vem alcançando visibilidade e maior legitimidade acadêmica.

Na década de 1980 essa produção acadêmica foi objeto de análise, quanto a um conjunto de temas, perspectivas conceituais e metodológicas adotadas pelos pesquisadores; origens e influências recebidas (Canesqui, 1994). Outras recentes revisões e reflexões sobre as ciências sociais no campo da saúde ou específicas de alguns temas foram feitas (Canesqui, 1998; Nunes, 2000; Alves, 1998), sendo agora pertinente nova análise dos estudos, na década de 1990, devido a sua forte expansão e amadurecimento.

A preocupação com o que somos, nossos temas e origens, quantos somos, para onde vamos foi uma das marcas das ciências sociais no campo da saúde durante a década de 1990, cujos registros estão na bibliografia e nos eventos, patrocinados pela Associação de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, que revelam a estreita interlocução daquelas ciências (sociologia, antropologia e ciência política) com o campo da saúde coletiva/saúde pública. Essa busca de identidade deu-se ainda na trajetória da antropologia, marcada pela “volta sobre si mesma” (Rubim, 1999).

Apesar da insistente busca da interdisciplinaridade, entre as próprias ciências sociais e destas com a Saúde Coletiva, a antropologia médica ou antropologia da saúde buscam identidades segundo as preferências e vocações de alguns proponentes, sejam dos mais preocupados em estabelecer fronteiras e limites mais nítidos e precisos para estes empreendimentos disciplinares, ou que reorganizam uma rede de estudiosos no assunto, sejam dos que preservam os espaços disciplinares mais pragmáticos, mediante forte interlocução interdisciplinar com a epidemiologia, o planejamento de serviços de saúde e psiquiatria (Uchoa et al., 1994; Minayo, 1998; Alves, 1998; Sevalho et al., 1998).

ra de Antropologia (ABA) e Associação Brasileira de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). Ela quer estudar a construção das pessoas, do corpo ou das emoções, associados aos fenômenos da “doença” ou perturbações (Duarte, 1998), sem ser compartilhada igualmente por todos os pesquisadores, tal como se evidenciará na bibliografia disponível.

A busca de identidade de uma antropologia especializada na saúde e doença gera tensões entre as distintas vocações intelectuais e disputas entre os agentes, segundo as suas preferências intelectuais, fazendo ou não seus aliados, sendo que algumas posturas, sob diferentes argumentos, são mais cautelosas quanto à partilha ou especialização dos objetos disciplinares (Duarte, 1994; Carrara, 1994), enquanto outros preferem a singularidade e identidade da nova especialidade.

O fato é que esse embate intelectual não dispensa alianças e não foi casual a observação de Russo (1998) sobre o meio parentesco de afinidade entre a saúde coletiva e a “antropologia da saúde”. É salutar a convivência de vários tipos de pesquisa – a básica, estratégica e operacional –, sugeridos por Minayo (1998), à medida que os dois primeiros podem atender às demandas setoriais da saúde, sem ser desprezada a enorme relevância da pesquisa básica na antropologia social. Confirma-se a importância da interdisciplinaridade na saúde coletiva/saúde pública, bem ao contrário das posturas críticas e mais reflexivas, que predominaram as contribuições das ciências sociais, nos estudos na década de 1970.

Um conjunto crescente de agentes responsabilizou-se pelo volume significativo de publicações no assunto pesquisado (livros, coletâneas e artigos de revistas de saúde pública/saúde coletiva e de antropologia social), que motivaram este tipo de revisão, a qual padece de parcialidade. Uma parte dos agentes está nos ambientes “híbridos” em interlocução com as ciências biomédicas, saúde pública, psiquiatria, gineco-obstetrícia e pediatria.

A outra se liga às áreas básicas das ciências sociais dos institutos de filosofia e ciências humanas e às linhas de pesquisas em antropologia, sociologia ou nas ciências sociais e saúde, através de alguns cursos de pós-graduação dos departamentos universitários, ou de centros e núcleos de pesquisas (Núcleo de Antropologia do Corpo, Saúde e Doença da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ou Núcleo de Ciências Estudos de Sociais e Saúde da Universidade

Federal da Bahia), ao lado de outros multidisciplinares mais antigos e não só circunscritos às pesquisas no assunto. Agentes ainda estão nas fundações e organizações não governamentais.

Outros fatores concorreram positivamente para a expansão da produção bibliográfica a ser analisada, tais como: 1) a maior flexibilidade, na saúde coletiva e nas ciências sociais, para abrir-se a novos objetos que suscitam mudanças ou permanências nas visões de mundo e valores de nossa sociedade (a exemplo do gênero e sexualidade, a extensão dos direitos de cidadania); a emergência da Aids; os processos de desinstitucionalização da loucura, junto com a atuação de alguns movimentos sociais; 2) a recorrente ênfase nos processos não biológicos das enfermidades; 3) os novos critérios de avaliação dos cursos de pós-graduação que estimularam o mercado editorial com novas revistas, ampliação de edições de livros e artigos no assunto, dando vazão à crescente produção acadêmica; 4) o apoio às pesquisas pelas agências nacionais e o estímulo ao financiamento de estudos antropológicos por algumas fundações internacionais na promoção de temas como: gênero, sexualidade; saúde e reprodução, envolvendo a academia e organizações não governamentais, sendo que os estudos sobre a Aids estimularam-se por financiamentos internacionais e vigência do Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde que incluiu muitas pesquisas. Outros temas se estimularam acadêmica e politicamente, devido ao longo processo de reorganização dos processos de desinstitucionalização da loucura, como a saúde mental, cujas pesquisas, de interesse a este trabalho, mobilizaram redes multicêntricas nacionais e internacionais.

No plano do conhecimento, a maior desconfiança das dicotomias conceituais (material/ imaterial; objetivo/subjetivo; coletivo/indiv idual; estrutura/ação) abriu flancos, nas teorias e metodologias das ciências sociais em geral e nas instadas no campo da saúde, para posturas que buscam compreender os fenômenos na multiplicidade de seus domínios, ultrapassando aquelas oposições. Se por um lado a abordagem do sujeito ou da ação passaram a ser privilegiados, seja na construção da realidade, sempre em busca dos sentidos na intersubjetividade, seja para desprovê-lo de sua automática submissão às estruturas, por outro buscaram-se mediações entre as estruturas e a ação, mediante abordagens que procuram um construtivismo menos radical.

A pluralidade e heterogeneidade nas diversas orientações teóricas e metodológicas são visíveis e reportadas pelos organizadores e comentaristas das várias coletâneas produzidas no assunto. Não se trata de uma única antropologia, mas de várias orientações teóricas, que ora bebem nas fontes de autores franceses, ora nos norte-americanos, ora nos autores nacionais, sinalizando, por um lado, as múltiplas possibilidades de apreensão dos objetos etnográficos e, por outro, refletem bem as peculiaridades da antropologia feita entre nós. Apesar de ela preocupar-se com a sociedade nacional, não deixa de ser universal, como antropologia, na interlocução com seus ancestrais e diferentes vocações internacionais, sofrendo contudo transformações na “periferia” (Oliveira, 1994a).

A seguir destacamos seletivamente os temas pesquisados.

Diferentes perspectiva s nas abordagens da saúde/doença

Não é peculiar à década de 1990 a centralidade dos estudos etnográficos sobre as representações de saúde e doença em geral, ou do corpo, saúde e doença ou de doenças específicas (tuberculose, Aids e hanseníase), em busca dos significados detidos para os grupos pesquisados e que refletem ainda sobre os limites das intervenções médicas, sempre tidas em dissonância com o universo cultural das classes trabalhadoras urbanas, que se tornaram o fulcro das pesquisas realizadas. Dos estudos feitos, uma parcela aprofundou conceitos e metodologias, enquanto outros se valeram de procedimentos etnográficos ou apenas do emprego de técnicas qualitativas para estudar o tema.

Representações: conceito s e metodologia

O emprego da noção de representação fezse, às vezes, de maneira frouxa e apenas referida a certas “imagens” da realidade. Em outro extremo confundiu-se na pesquisa, com a transparência dos discursos dos agentes sociais, cujas condições de inserção social as determinava. Numa outra vertente, a busca de signos, dos seus múltiplos sentidos e das profundas estruturas fechou a análise dos discursos, sem esclarecer as condições e o contexto de sua produção. As reações contrárias resvalaram-se para a “devolução das falas aos oprimidos” (Magnani, 1986). O conceito de representação foi ainda utilizado em substituição ao de simbolismo, detentor de grande tradição de análise no campo da antropologia. Derivou-se ainda das interlocuções entre disciplinas como a psicologia social, antropologia e sociologia, na busca do sentido e como forma de conhecimento.

O emprego dessa noção, entre nós, parece movido por interesses bem similares aos postos por Herzlich (1991): a crise profunda dos esquemas globais de explicações, fundados nas determinações socioeconômicas; o retorno do sujeito, de sua experiência, “sentido” ou “vivido”; a intensificação dos processos de participação social e a interrogação do pesquisador sobre a sua posição em relação ao objeto de pesquisa. O conceito de representações sociais tornou-se uma metanoção e, em certos campos, foi objeto de empreendimentos inter ou transdisciplinares .

A assimilação desse conceito foi um pouco tardia entre nós, uma vez que desde a década de 1960 Mocovici (na psicologia social) e depois Herzlich (na sociologia), ambos ligados à escola francesa, resgataram da teoria durkheimeana as representações coletivas, tidas como categoria de pensamento social coercitiva às consciências individuais. Moscovici moldou-o, sob a denominação de representações sociais, articulando o coletivo ao individual, enquanto Herzlich se declara seguidora de Durkheim e dos antropólogos ingleses que estudaram o simbolismo (Mary Douglas), tendo proporcionado maior calibragem entre o indivíduo e a sociedade, ambos impregnando as noções de saúde e doença nos distintos grupos sociais franceses, por ela estudados, na década de 1960. Na antropologia, Marcel Mauss deixou uma lição importante. Enfatizou o quanto a atividade do pensamento coletivo é mais simbólica do que a do pensamento individual e as condutas individuais não são simbólicas em si mesmas e ganham sentido em relação a uma dada sociedade. Admite que as representações coletivas podem adotar formas concretas ou abstratas. No estudo sobre a magia, uma das primeiras expressões das representações coletivas, chamava a atenção para a sua composição: os agentes, atos e representações. O mago é o indivíduo que conduz a magia, mesmo que não seja um profissional. As representações mágicas são as idéias e crenças que correspondem aos atos mágicos e os ritos mágicos são atos que definem os demais elementos da magia e distintos das demais práticas sociais, e as técnicas disponíveis podem ou não ser acompanhadas da magia (Mauss, 1971).

Com o autor aprendemos que as representações mágicas não se restringem ao pensamento ou às idéias exclusivamente. Elas se expressam nos atos mágicos e se geram nos vários campos da vida social, incluindo os sistemas filosóficos esotéricos. Para desvendar as primeiras categorias lógicas utilizadas pelo pensamento humano, tanto Mauss quanto Durkheim voltaram-se para a análise da organização social das sociedades primitivas. Em momentos de sua obra Mauss desvencilhou-se do positivismo durkeimiano e trouxe aportes importantes para a moderna antropologia.

Da observação dos vários estudos internacionais sobre as representações de saúde e doença, Adam & Herzlich (2000) apontam que, na interpretação dos fenômenos orgânicos, as pessoas se apóiam em conceitos, símbolos e estruturas interiorizadas, conforme os grupos sociais a que pertencem. Certas doenças firmamse no imaginário coletivo, enquanto outras, os indivíduos, em função de suas experiências e contexto, podem elaborar ou reelaborar interpretações, apoiando-se em recursos coletivos.

Entre nós, Minayo percorreu criticamente as correntes do pensamento sociológico clássico, sem que o conceito de representações fora assimilado por todas elas, e foi posta por Durkheim e seus seguidores, sempre preocupados com as idéias que os “povos primitivos” detinham sobre si e sobre o mundo ao redor. A objetividade do tratamento dos fatos sociais e de sua coerção sobre os indivíduos (incluindo as representações coletivas) despertou críticas ao autor, por outras correntes de pensamento: pelo marxismo, por não ceder às contradições e lutas; e pela fenomenologia e correntes compreensivas, por descurar-se do sujeito ou da ação social (Minayo, 1992).

No marxismo as representações remetem à ideologia e a autora toma as vertentes que não a concebem como mero reflexo das estruturas. Junta a dimensão cultural e o historicismo, que oferece espaço à criatividade do sujeito, sem descurar-se dos elementos estruturais, engendradores da sociedade capitalista. Destaca a importância dos estudos e representações sociais para a análise do social e a ação pedagógicopolítica transformadora. Elas retratam a realidade, sem reduzir-se às concepções dos atores sociais.

Toma as representações sociais como senso comum, idéias, imagens, concepções e visões de mundo. A representação social de indivíduos e grupos, nas palavras da autora, está pensada em relação às bases materiais que a engendram: de um lado temos o homem que é produto de seu produto: as estruturas da sociedade criam o seu ponto de partida; de outro, temos que este homem constrói a história dentro das condições recebidas ultrapassando-as e inscreve sua significação sobre toda a parte, em todo o tempo e a ordem das coisas(Minayo, 1992).

Queiroz (2000) também refletiu criticamente sobre o conceito, a partir de diferentes perspectivas sociológicas e antropológicas, no estudo das doenças endêmicas. Juntando Moscovici com Schultz toma-o como um tipo de saber socialmente organizado, contido no senso comum e na dimensão cotidiana, que permite ao indivíduo uma visão de mundo e o orienta nos projetos de ação e nas estratégias que desenvolve em seu meio. Afirma que as representações sociais são, portanto, conceitos culturalmente carregados, que adquirem sentido e significado pleno no contexto sociocultural e situacional onde manifestam(Queiroz, 2000).

Minayo & Sanchez (1993) propuseram a complementaridade dos métodos qualitativos e quantitativos na pesquisa. Os primeiros se interessam pelo “nível mais profundo” em constante interação com o ecológico. Este nível comporta significados, motivos, aspirações, crenças e valores, expressos na linguagem da vida cotidiana e, bem se aplicam aos estudos de pessoas afetadas por doenças e a grupos determinados, historicamente situados. Se um dado objeto de pesquisa reclamar, sugerem a combinação dos métodos, que impõem, no plano do conhecimento, a relação entre objetividade e subjetividade. Os estudos quantitativos podem gerar questões a serem aprofundadas qualitativamente e vice-versa. A discussão de técnicas qualitativas para as pesquisas em saúde foi feita por Minayo e por outros que se interessaram no seu emprego nos estudos sobre representações sociais de saúde e doença (Rigotto, 1998).

Argumentos favoráveis à complementaridade dos métodos fundam-se na necessária discussão de vários pontos de vista na pesquisa (Ramos, 1993). Acautelam-se os que admitem a impossibilidade de aplicá-la generalizadamente, deixando intocadas as questões epistêmicas da objetividade/subjetividade, nas tentativas interdisciplinares da epidemiologia com as ciências sociais (Reichenhein, 1993; Santos, 1993).

Para potencializar o registro, obtenção e análise de dados etnográficos são adequados os usos de tecnologias eletrônicas e softwares. Na sistematização dos dados obtidos, os descritores conceituais e discursivos dos softwarespermitem observar as recorrências de categorias e conceitos nos depoimentos dos informantes (Fachel et al., 1995; Victora et al., 2000). O emprego da análise fatorial por correspondência, uma técnica estatística, permitiu às autoras identificarem várias correlações tais como: entre “visão de mundo” e decisões sobre recursos de saúde e estratégias reprodutivas; as relações entre gênero e recursos de cura; as causas atribuídas à doença, entre outras. Não se trata de substituir o trabalho etnográfico e nem de descartar o esforço da análise antropológica, mas de buscar novas formas de sistematizá-las.

Cardoso & Gomes (2000) advertem sobre o risco da incorporação acrítica, pelos estudos sociais em saúde, do conceito de representações sociais. Afirmam que o seu emprego não pode ignorar o já estabelecido por vários autores ligados à psicologia social e à sociologia no campo da saúde. Ao reverem o conceito nas teorias, discutem os limites da perspectiva construtivista e a necessária articulação da pesquisa com a abordagem histórica, dado o enraizamento simultâneo das representações nas realidades social e histórica, conforme posto pertinentemente por Herzlich (1991).

Recomendam o uso de múltiplas fontes (documentária e orais) para classificar as diferentes maneiras pelas quais os autores captaram o sentido do ser doente ou saudável; para estabelecer os nexos entre os sentidos de maneira a chegar à historicidade dos modelos de saúde e doença, e para reconstituir, nas fontes, “a lógica” pela qual as representações foram produ- zidas e socializadas na longa duração, que permite a maior compreensão dos modelos atuais.

Demonstrou Laplantine (1986), sob ângulo da abordagem estruturalista, a existência de diferentes lógicas que presidem os modelos etiológicos e terapêuticos na sociedade contemporânea, irredutíveis a uma única lógica. O resgate da historicidade dos sentidos ou significados das doenças, no longo alcance, é bastante plausível de ser tentada, retirando dos estudos o seu caráter meramente sincrônico e o atrelamento exclusivo às perspectivas dos adoecidos, desde que são múltiplas as fontes produtoras de representações sobre saúde e doença na sociedade.

cendiam o indivíduo: a famíliamas também a

São lembradas, nesse sentido, as abordagens da história das doenças, aproximando-se ou não de correntes antropológicas. Não se trata de retomar a produção dos estudos históricos, que foge dos propósitos deste texto. Os estudos de Carrara (1994; 1996) exemplificam como a sífilis (mal coletivo e ameaça) mobilizou vários discursos e práticas, cujo desenrolar foi acompanhado desde os finais do século 19 até os meados da década de 1940. Em torno dela os médicos especialistas sifilógrafos, diz o autor, souberam com maestria fazer com que, pela sífilis, passassem não apenas o destino dos doentes, mas o de uma série de entidades que transsociedade, a raça, a nação, a humanidade, a espécie (Carrara, 1996).

Ele mostra a articulação dos discursos médicos com outras forças e campos sociais, que engendram resoluções para o problema venéreo e todos eles geram representações sobre a doença. A sugestão do autor de se fazer uma antropologia da ciência, pela via do desenvolvimento conceitual da sífilis ou de sua construção social, requer o recurso a inúmeras fontes disponíveis, tais como: manuais clínicos, relatórios de pesquisa laboratoriais, livros didáticos, dentre outros que podem oferecer fontes mais teóricas para o estudo dos aspectos nosológicos da doença e sua terapêutica.

Na abordagem histórica das representações sociais da doença, Sevalho (1993) percorre um conjunto de autores como Foucault, Tamayo, Le Goff, Capra, Rosen, Canguilhen e outros, mostrando as continuidades e descontinuidades, das distintas concepções de doença, desde a Antiguidade até o início do século 20. Concordando com as palavras de Le Goff, citadas pelo autor, a doença pertence não só à história superficial dos progressos científicos e tecnológicos, como também à história profunda dos sa- beres e práticas ligadas às estruturas sociais, às instituições, às representações, às mentalidades. A história cultural das doenças abre um leque muito fértil às pesquisas, que não se restringem aos saberes eruditos.

Rodrigues (1999) fornece um outro bom exemplo da história das sensibilidades que passa nas fronteiras disciplinares, incluindo a compreensão da sensorialidade dos processos corporais, dos modos de sentir, do uso dos sentidos que não se restringem ao orgânico e são históricos, sempre remetidos na trama das relações sociais que lhes atribuem sentidos. Resgata as continuidades e rupturas dessa história na constituição da sociedade ocidental.

Alves & Rabelo (1998) reconhecem a contribuição dos estudos de representações e práticas de saúde e doença para o entendimento de matrizes culturais dos grupos sociais, que permitem ultrapassar a objetividade dos estudos epidemiológicos e apontam as limitações de seu uso: 1) a determinação das representações sobre as práticas; 2) a ênfase nos modelos fechados de significação (corpo, saúde e doença); 3) a necessidade de deslocar a atenção da doença como fato (como dado empírico ou signo) para a doença como experiência. Resgatam as perspectivas fenomenológica e pragmática, associadas à interpretação hermenêutica. Colocam em relação o pensamento e a ação, a consciência e o corpo, a cultura e individualidade, cuja retomada dos estudos, sob esta perspectiva, será feita adiante.

Representações do corpo, saúde e doença

Reportando-se a autores nacionais e internacionais (Mauss; Durkheim; Bourdieu; Herzlich; Boltanski; Auge; Montero; Loyola; Duarte), várias etnografias (Knauth, 1992; 1992; Victora, 1995; Oliveira, 1998) abordaram as representações do corpo e doença ou do seu funcionamento e estrutura, a partir dos pressupostos: 1) cada sociedade ou grupo social dispõe de maneiras específicas de conceber e lidar com o corpo, sendo que o saber biomédico contribuiu, ao longo da história, na difusão de sua naturalização, tida como universal; 2) da doença, como fenômeno social, que é capaz de estabelecer uma relação entre as ordens biológica e social, atingindo concomitantemente o indivíduo, no que deve à biologia – o seu corpo –, a sociedade e as relações sociais; e 3) das muitas indagações e significados, suscitados pela

Os estudos confirmam os achados de muitos outros: a percepção da doença dando-se através de alguns sinais e sensações corporais, indicativos de que “algo” impede o funcionamento “normal” do corpo (dor, febre, não dormir, não comer, fraqueza) e pela incapacidade de realizar as atividades cotidianas e de trabalhar, em qualquer modalidade assalariada ou não, assim vista por homens e mulheres.

Essa forma de perceber a doença bem expressa a importância do uso social do corpo como meio de existência para aqueles que dele dependem para sobreviver. Assim, o significado da doença remete à ordem social, porque sua presença tanto afeta a reprodução biológica do indivíduo, quanto a sua reprodução social, em termos de reprodução das condições de existência (Knauth, 1992).

Além desse significado, Minayo acrescenta o peso das contradições e conflitos sociais do sistema de dominação que, uma vez transposto e mediado pelas relações estabelecidas da medicina do trabalho com as classes trabalhadoras, situa a doença na incapacidade para trabalhar produtivamente, reproduzindo, no plano das idéias, o âmago das relações de apropriação e expropriação dos corpos dos trabalhadores na sociedade capitalista. Para os seus informantes “saúde é “riqueza”, “fortuna”, “tesouro”, em oposição à doença, como castigo, desgraça, infelicidade e miséria” (Minayo, 1992).

Prossegue a autora, e a despeito do contato dos trabalhadores com as idéias dominantes, eles criam códigos próprios, conforme o lugar ocupado na sociedade, traduzidos no modo de vida. As representações da saúde e doença fundam-se ainda nas raízes tradicionais (crenças e valores) relativos ao corpo, vida morte e nas experiências devida(Minayo, 1992). Outros autores conferem maior autonomia à “cultura popular” nos seus modos de significação, pela via do conceito de matrizes culturais de significações, como mediações capazes de re-semantizar e reordenar os elementos culturais produzidos por outro grupo, de modo que as mensagens da mídia e o próprio discurso médico podem ser reinterpretados nos termos daquela cultura (- Leal, 1994).

Não se trata apenas de uma leitura que polariza dominados e dominantes, creditando aos primeiros resistência, conformismo ou transformação criativa das idéias dominantes, mas de apontar o quanto as mensagens veiculadas se transformam, através de outro referencial, norteador das práticas cotidianas, envolvendo uma visão de mundo e o sistema de representações sociais a respeito do corpo. Trata-se ainda de admitir as matrizes de significações culturais, suas diferenças e convivências, diante da heterogeneidade e coexistência dos sistemas de significação, presentes na sociedade.

(Parte 1 de 4)

Comentários