Teoria Lexical

Teoria Lexical

(Parte 2 de 10)

O mistério das combinações

Estes processos tão simples e transparentes, de cujo funcionamento nem sempre nos conscientizamos, escondem mistérios às vezes resistentes a toda tentativa de explicação. Um dos problemas básicos com que se defronta a pesquisa no campo da formação de palavras é o da aceitação ou não de combinações de formas. Ou seja: por que certas palavras são tão naturais, a ponto de nem percebermos que não as conhecíamos anteriormente, enquanto outras soam estranho ou são absolutamente inaceitáveis?

Por exemplo, por que aceitamos facilmente palavras como convencional e religioso, mas não *convencioso ou *religional? Poderíamos dizer que se trata apenas de uma questão de uso; ambas as palavras são bem conhecidas, (p.7) e, simplesmente, sabemos que as palavras são religioso e convencional.

A explicação é válida; muitas vezes não consideramos certas construções como palavras viáveis pelo simples fato de que já existem outras, consagradas pelo uso.

Entretanto, esta explicação não é suficiente para dar conta do fato de que ao lado de convenção, temos centenas de outras formas em -cão, as quais não admitem uma formação adjetiva correspondente com o sufixo -oso. Alguns exemplos (o asterisco indica que a formação não pode existir): vocação/* vocacioso; intenção /*intencioso; atração/*atracioso; contemplação /*contemplacioso, e assim por diante. Parece, pois que o sufixo –oso vai se pode combinar facilmente com substantivos em -cão. apesar de encontrarmos algumas formações, tais como atencioso, de atenção, e pretensioso, de pretensão.

Muitos artigos e teses têm sido escritas ultimamente para tentar explicar esse fenômeno, ou seja, para determinar quais são as condições que permitem a combinação de certos formativos enquanto proíbem outras combinações.

Mudança de classe

O segundo mistério é o que dá título a este capítulo: Por que formamos palavras?

Alguns fragmentos de respostas para essa pergunta já apareceram nos parágrafos anteriores. Dissemos, por exemplo, que acrescentamos -cão ao verbo agilizar com o objetivo de torná-lo um substantivo. Este seria, portanto, um exemplo do tipo de necessidade que nos leva à formação de palavras: temos uma palavra de uma classe ou categoria lexical. como "verbo", e precisamos usá-la como "substantivo". Nesse caso. formamos uma palavra nova para poder utilizar o significado de uma palavra já existente (p.8) num contexto que requer uma classe gramatical diferente.

Este é, sem dúvida, um dos usos mais freqüentes na formação de palavras novas. É também o motivo mais privilegiado em toda a literatura sobre formação de palavras. desde as gramáticas tradicionais até teorias lingüísticas mais recentes, como o estruturalismo e a teoria gerativa transformacional.

Na verdade, em todas as abordagens do fenômeno de formação de palavras, os processos Que podemos utilizar para. formas novas são sempre descritos através das classes gramaticais. o que implicitamente sugere que usamos afixos com a principal finalidade de formar uma palavra de uma classe a partir de uma palavra de outra classe.

Acréscimo semântico

Mas a mudança de classe não responde suficientemente a pergunta do porquê da formação de palavras, já que temos muitos processos de formação que não mudam a classe das palavras.

Vejam, por exemplo, o caso dos diminutivos. Podemos estabelecer claramente dois fatos. O primeiro é que o diminutivo é usado sobretudo para adicionar ao significado de uma palavra uma referência a uma dimensão pequena (sapato/sapatinho), para sinalizar uma linguagem afetiva (sopa/sopinha) ou para expressar pejoratividade (argumento/argumentozinho). O segundo é que o diminutivo sempre acompanha a classe da palavra básica à qual ele se aplica: livro/livrinho, baixo/baixinho – seja baixoadjetivo, como em homem baixo/baixinho, ou advérbio.como em falar baixo/baixinho.

Um outro exemplo seria o do sufixo -eiro. Em uma de suas várias acepções, o sufixo -eiro se adiciona a substantivos (p.9), geralmente concretos, para formar substantivos que indicam indivíduos que exercem alguma atividade sistemática em relação ao objeto concreto que serve de base para a formação da palavra. Por exemplo, a partir de sapato, cesta, camisa, livro, etc., temos, respectivamente, sapateiro, cesteiro, camiseiro, livreiro, e assim por diante. A palavra doleiro, de surgimento recente nos jornais, é formada dentro desse processo geral.

Um terceiro exemplo de palavras que formamos sem o objetivo de mudar a classe é o caso de todas as palavras formadas por prefixação: os prefixos nunca mudam a classe de palavra a que se adicionam. Assim, é claro que nosso objetivo ao formar uma palavra por prefixação deve ser outro. De fato, a prefixação é utilizada para a formação de palavras quando queremos, a partir do significado de uma palavra, formar outra semanticamente relacionada. que apresente uma diferença semântica específica em relação à palavra-base.

Existe toda uma série de relações possíveis e sempre de caráter geral. Temos, por exemplo, o prefixo pré-, que indica anterioridade: pré-fabricado, pré-disseminação, pré- -vestibular, pré-adolescência, etc.; o prefixo ré- que indica repetição: refazer, reler, relembrar, retomar, recomeçar.

Aquisição do léxico

Vimos até agora dois bons motivos para formarmos palavras: a utilização da idéia de uma palavra em uma ou outra classe gramatical; e a necessidade de um acréscimo semântico numa significação lexical básica.

Mas, se observarmos o problema bem de perto, vamos descobrir que estas motivações são. digamos assim, de segunda mão, (p10). ou seja. de natureza secundária. Pois a pergunta em cada classe gramatical é por que não temos uma palavra para cada acréscimo semântico necessário?

Por exemplo, em vez de termos algo como viável//viabilidade ou fazer/desfazer, poderíamos ter palavras inteiramente diferentes para cada uma das noções, como acontece, por exemplo, com querer/vontade, bonito/beleza, escrever/apagar, etc.

Ou seja, para cada mudança de classe ou acréscimo semântico, poderíamos ter uma palavra inteiramente diferente. Mas isto significaria multiplicar muitas vezes o número de palavras que teríamos como vocabulário básico e, portanto, tornaria a língua, como sistema de comunicação, muito menos eficiente.

Assim, a razão básica de formarmos palavras é a de que seria muito difícil para nossa memória — além de pouco prático — captar e guardar formas diferentes para cada necessidade que nós temos de usar palavras em diferentes contextos e situações.

Em última análise, a razão por que formamos palavras é a mesma razão por que formamos frases: o mecanismo da língua sempre procura atingir o máximo de eficiência, o que se traduz num máximo de flexibilidade em termos de expressão simultaneamente a um mínimo de elementos estocados na memória. É essa flexibilidade que nos permite contar com um número gigantesco de elementos básicos de comunicação sem termos que sobrecarregar a memória com esses mesmos elementos.

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A palavra e sua

estrutura

O conceito de palavra

A palavra é uma dessas unidades lingüísticas que são muito fáceis de reconhecer, mas bastante difíceis de definir, se tomarmos como base de definição a língua falada. Isto acontece porque na língua falada não fazemos pausas sistemáticas entre cada palavra pronunciada.

Na língua escrita, não temos problemas de definição neste eixo, e podemos definir a palavra como qualquer seqüência que ocorra entre espaços e/ou sinais de pontuação. Estamos nos referindo, naturalmente, a seqüências possíveis na língua; uma seqüência como sqwrn seria interpretada provavelmente como um erro de datilografia, nunca como uma palavra do português.

Mas há um outro eixo em que a definição de. palavra causa dificuldades: trata-se da distinção que normalmente estabelecemos entre duas palavras distintas e duas e duas formas da mesma palavra. Por exemplo dizemos que casa e casas são duas formas da mesma palavra, mas casa e casinhola são duas palavras diferentes. Do mesmo modo. dizemos (p. 12) que falam e falamos são duas formas do verbo falar, mas falante constitui uma palavra diferente.

Normalmente, a diferença entre palavras distintas e diferentes formas da mesma palavra é colocada a partir da diferença entre flexão e derivação. O problema é que não há uma distinção nítida e definitiva entre os conceitos de flexão e derivação, e muitas vezes a diferença entre os dois conceitos é colocada como decorrente da diferença entre "palavras distintas" e "formas de uma mesma palavra". Forma-se, portanto, um círculo vicioso.

Por ora, podemos prosseguir com o conceito intuitivo que temos de palavra, que nos faz concordar que par/pares são duas formas, singular e plural, da mesma palavra, enquanto par/ímpar são duas palavras distintas. É bom lembrar, no entanto, que há casos em que, mesmo intuitivamente, as coisas não são tão claras. Vejam, por exemplo, o caso do particípio passado. Devemos considerar, digamos, perdido como uma forma do verbo perder ou como uma outra palavra? Essa equivale à questão de se devemos considerar o particípio passado como um caso de flexão ou um caso de derivação.

Nos seus diferentes eixos, o conceito de palavra sempre constituiu um problema para gramáticos e lingüistas. Entretanto, a palavra é uma unidade lingüística básica, facilmente reconhecida por falantes em sua língua nativa.

Estrutura da palavra

Durante muito tempo a análise gramatical considerou a palavra como a unidade mínima de análise lingüística. Isto é, as palavras eram consideradas como elementos indivisíveis, embora pudessem apresentar variações de forma, tais como as flexões nominais e verbais. É essa a idéia geral que está por trás das conjugações verbais.

(p. 13) Mas, na medida em que podemos formar palavras a partir de outras palavras, é forçoso reconhecer que as palavras podem ser unidades complexas, constituídas de mais de um elemento.

Isso não quer dizer que não existam palavras indivisíveis: substantivos como boi. sal. mar. etc. são monomorfêmicos, isto é, constituídos de apenas um elemento.

Mas outras palavras são constituídas de vários elementos. Por exemplo, o adjetivo infeliz é constituído de dois elementos, o adjetivo feliz e o prefixo negativo in-; substantivo oralidade é constituído do adjetivo oral acrescido do sufixo -idade; o substantivo guarda-chuva é constituído pelos dois elementos guarda e chuva; e assim por diante.

Elementos constitutivos

Temos basicamente dois tipos de morfema: afixo e raiz. Raiz é um morfema que pode, por si só, constituir a base de uma palavra. Por exemplo, em luzir, luz é raiz. Os elementos que se acrescentam à raiz para formar uma palavra são chamados de afixos. Os afixos se subdividem em dois tipos, de acordo com a posição de ocorrência. Temos o prefixo, que se acrescenta antes da base para formar uma palavra, e o sufixo, que se acrescenta depois da base. Por exemplo, o elemento in- de infeliz é um prefixo e o elemento -idade em felicidade é um sufixo.

Estruturação

As palavras não são formadas apenas por uma simples seqüência de elementos constitutivos; elas são também estruturadas em camadas que podem atingir vários níveis.

(p. 14)Mais especificamente, a palavra morfologicamente complexa, ou seja, a palavra que contém mais de um elemento, é estruturada basicamente como a combinação de uma base com um afixo. Essa base pode , por sua vez, ser complexa, isto é, também estruturada em termos de base e afixo. Assim, podemos ter vários níveis ou camadas na estrutura de uma palavra. Vejamos, por exemplo. as palavras centro, central, centralizar, descentralizar, descentralização. A primeira palavra (centro) é constituída apenas pela base, embora se possa considerar que esta apresente uma vogal temática. A segunda palavra (central) é formada pelo acréscimo do sufixo -ai à base; a terceira (centralizar), formada pelo acréscimo do sufixo verbalizador -izar à base, constituída pelo adjetivo central;a quarta (descentralizar) é formada pelo acréscimo do prefixo negativo des- à base verbal centralizar e, finalmente, a quinta (descentralização) é formada pelo acréscimo do sufixo substantivador -ção à base descentralizar. Vemos, pois, que, em todos os níveis, temos uma construção de base + afixo. A base, no entanto, pode ter vários graus de complexidade. Ou seja, a palavra não é formada de uma seqüência de morfemas, mas constituída estruturalmente de uma base acrescida de afixo.

Existem, no entanto, outras possibilidades de formação. Nos casos de composição, temos palavras formadas por duas bases, como no caso de guarda-chuva: no caso das chamadas formações parassintéticas, temos o acréscimo simultâneo de um sufixo e de um prefixo à base. como em descascar. Ambos os casos serão estudados com mais detalhes em capítulos posteriores.

Do ponto de vista morfológico, a base de uma construção é tradicionalmente chamada de “radical". Dá-se o nome de "tema" ao radical seguido por uma vogal temática. mas, via de regra, este termo só é utilizado na estruturação de formas flexionadas.

3

Abordagem gramatical,

abordagem estrutural e

abordagem gerativa

O fenômeno da formação de palavras tem sido abordado de várias maneiras, decorrentes de diferentes perspectivas teóricas ou objetivas. Neste capítulo vamos observar as diferenças de tratamento do fenômeno de formação de palavras em gramáticas normativas, no estruturalismo e na teoria gerativa transformacional.

As gramáticas normativas

Seguindo um modelo clássico, as gramáticas tradicionais não se ocupam muito da questão da formação de palavras, limitando-se, o mais das vezes, a enumerar processos e listar exemplos.

A preocupação da exaustividade é freqüente nas gramáticas tradicionais normativas; no que concerne à formação de palavras, essa preocupação se traduz na tentativa de dar conta do significado final de todas as palavras nas quais entra em jogo um dado afixo.

Um outro aspecto da abordagem das gramáticas normativas (p. 16) no fenômeno de formação de palavras se refere ao entendimento do termo "formação".

De fato, podemos observar que "formação" tem duas interpretações: uma interpretação ativa. em que o termo se refere ao processo de formar palavras: e uma interpretação mais passiva, em que o termo se refere à maneira como as palavras estão constituídas. As gramáticas normativas seguem. via de regra, a segunda interpretação: conseqüência disso, procuram dar conta apenas das características das formas já construídas.

Pode ser que esse posicionamento esteja ligado à função normativa, segundo a qual não caberiam formas novas na língua enquanto objeto de prescrição.

O aspecto diacrônico

Apesar da limitação apontada acima, as gramáticas normativas apresentam um trabalho descritivo que se constitui em contribuição de grande valor para o desenvolvimento do estudo de processos lexicais.

Entretanto, um aspecto que encontramos na abordagem da formação de palavras nas gramáticas requer um grande cuidado: trata-se da mescla de critérios, que se pode verificar no que se refere à abordagem diacrônica do fenômeno de formação de palavras.

As duas abordagens não devem ser confundidas, já que um elemento que historicamente constitui uma parte de uma palavra pode ter sua natureza sincronicamente modificada. Um bom exemplo para a diferença e o caso, apontado pelo Prof. Mattoso Câmara Jr., da palavra comer. A palavra, vinda do latim comedere, teria em com um prefixo acrescido à base edere (já incluída a marca do infinitivo). Na evolução do latim para o português, (p.17)o -d- intervocálico cai e fundem-se os dois -ee- que se tornam contíguos. Com isso, desaparece a marca morfológica da raiz. Ora, como a função do prefixo é simplesmente adicionar um significado ao da raiz, o significado de comedere como um todo já existia, independente das modificações fonéticas que ocorreram posteriormente. Como conseqüência do desaparecimento da marca morfológica da raiz, o que antes era prefixo passou a ser considerado como raiz. Assim, sincronicamente, em comer temos com- como raiz. Vemos, portanto, neste caso, uma situação em que, do ponto de vista diacrônico, na mesma palavra, com- é prefixo; mas sincronicamente, com é raiz.

O fato de que um mesmo elemento em uma mesma palavra pode ser ou um afixo ou uma raiz é bastante eloqüente para firmar a idéia de que é de extrema importância a distinção entre abordagem sincrônica e abordagem diacrônica ao fenômeno de formação de palavras.

Abordagem estruturalista

O termo "estruturalista" é bastante vago em sua referência.De um modo geral, entendemos por estruturalismo em Lingüística a idéia de que as línguas são sobretudo estruturas. A questão da referência é, no entanto, mais complexa. Por exemplo, é comum opor o estruturalismo à teoria gerativa transformacional, embora esta última seja obviamente uma teoria estruturalista.

Aqui, estamos fazendo referência sobretudo ao período estruturalista na lingüística descritiva americana, onde encontramos um desenvolvimento maior de processos de análise morfológica.

Na abordagem estruturalista. a noção de morfema é básica: o morfema é definido como a unidade significativa (p. 18) mínima da língua. Em síntese, a análise morfológica consiste na depreensão dos morfemas e de suas possíveis combinações na formação de palavras. Naturalmente, morfemas podem constituir diferentes classes, de acordo com suas propriedades de combinação.

Essa abordagem, mais uma vez, preocupa-se apenas com a determinação da estrutura das palavras ia formadas pelo menos implicitamente. Ou seja, a preocupação da análise morfológica estruturalista seria apenas a de estabelecer formulações gerais que correspondessem as formações já existentes na língua,

O problema maior que observamos no tipo de análise morfológica desenvolvido no estruturalismo reside no conceito básico de morfema. Como o morfema é definido em relação ao significado, cria-se um problema grave análise, ia que no léxico as palavras apresentam um significado global. que não é necessariamente uma função exclusiva do significado das partes. como conseqüência, muitas vezes não podemos isolar o significado das partes do significado global, ou seja, muitas vezes temos os elementos constituintes de palavras que não podem ser definidos em termos de significado.

Abordagem gerativa

A teoria gerativa transformacional nunca se preocupou muito com fenômenos morfológicos enquanto tais, neste ponto sendo semelhante aos modelos clássicos análise gramatical. Na verdade, nas primeiras fases desenvolvimento da teoria, considerou-se que não era conveniente estabelecer um componente morfológico autônomo na gramática de uma língua. Esta situação, no entanto, não persiste, e já há bastante tempo o léxico vem sendo estudado dentro da teoria gerativa transformacional. (p.19)

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