Psicologia da Educação e Desenvolvimento Infantil

Psicologia da Educação e Desenvolvimento Infantil

(Parte 1 de 6)

– 1 –

Ana Valéria Marques Fortes Lustosa

Apresentação

Este texto é destinado aos estudantes aprendizes que participam do programa de Educação a Distância da Universidade Aberta do Piauí (UAPI) vinculada ao consórcio formado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Centro Federal de Ensino Tecnológico do Piauí (CEFET-PI), com apoio do Governo do Estado do Piauí, através da Secretaria de Educação.

A educação representa, desde os tempos mais remotos e, principalmente na atualidade, o recurso mais precioso que a sociedade tem, haja vista que tudo o que somos hoje, não apenas como indivíduos, mas como coletividade, como sociedade globalizada decorre dos infindáveis esforços feitos pelas gerações precedentes para educar as novas gerações. Frente a esse fato, faz-se relevante destacar que não haveria sociedade se não houvesse educação no significado mais amplo desse termo. Nesse sentido, o papel do professor é vital para a constituição desse processo. Não obstante tais considerações, não há como negar que a educação é um macro-fenômeno, ao qual somente se pode ter acesso a partir de uma perspectiva multidisciplinar. À psicologia da educação, assim como à sociologia da educação e à filosofia da educação, entre outras disciplinas, cabe a responsabilidade de contribuir para uma maior compreensão desse fenômeno.

Desse modo, a psicologia da educação constitui campo do conhecimento que historicamente vem atuando no sentido de subsidiar a prática educacional a partir dos conhecimentos produzidos não apenas no âmbito da escola, mas em outros contextos também, ou melhor, em todos os contextos nos quais o homem torna-se humano, como por exemplo, a família.

histórico e a dinâmica existente entre indivíduo e sociedade

Os conhecimentos teóricos acerca dos processos de desenvolvimento e aprendizagem, base dessa disciplina, são considerados em relação estreita com o contexto sócio-

O objetivo deste texto é possibilitar que você, leitor, apreenda as contribuições da psicologia da educação para a compreensão do ser humano e do processo ensinoaprendizagem, de forma a adotar em sua prática docente uma postura crítica, reflexiva e comprometida. Para que isso ocorra é importante que você reflita sobre a importância da sua própria formação, pois o professor transmite conhecimentos, mas também valores e crenças, até mesmo de forma inconsciente.

Considera-se que muitos temas que serão trabalhados nesse livro, já sejam do seu conhecimento, pois se referem a como nós seres humanos somos, sentimos, agimos, desejamos, aprendemos e vivemos. Assim, uma constatação importante é que a psicologia é uma das ciências que mais se aproxima do conhecimento acerca do homem. Nesse sentido, o que se pretende no decorrer dessas páginas, à medida que você for lendo os capítulos desse livro, é que o seu conhecimento se torne sistemático, aprofundado e útil para a sua prática pedagógica.

A apropriação do conhecimento exige do sujeito que ele não apenas leia o que lhe é sugerido, mas discuta, questione-se, procure novas fontes de pesquisa e, sobretudo, que atue sobre o conteúdo, ou seja, pratique-o. Por essa razão, é vital que você participe dos chats, envie suas dúvidas, comente o que aprendeu, aprofunde o conhecimento a partir dos textos sugeridos e faça os exercícios indicados.

serem estudadosNa primeira unidade, você estudará co-

O texto está organizado em seis unidades, dispostas em capítulos, os quais apresentam os diferentes temas a mo se deu a evolução histórica da psicologia, desde o momento em que esta existia apenas nas indagações filosóficas que diferentes pensadores desenvolveram ao longo da história da humanidade, até os nossos dias, quando se torna ciência. O processo de construção da ciência psicológica implicou uma diversidade de abordagens teóricometodológicas, decorrentes, sobretudo, das diferentes visões de homem, de mundo e de sociedade existentes. Você perceberá também a importância da psicologia para as práticas sociais, em particular para as pedagógicas.

influenciar a educação brasileira

Na segunda unidade, você conhecerá as peculiaridades da constituição da psicologia no Brasil, conhecendo a sua evolução histórica e as tendências que terminaram por

A terceira unidade aborda a subjetividade, objeto de estudo da psicologia e que a diferencia das demais ciências humanas, assim como compreenderá os processos básicos de constituição do psiquismo e os processos que mediam essa constituição.

Na quarta unidade, você estudará o processo de desenvolvimento humano e suas implicações para a educação, de modo a apreender as concepções existentes, seu conceito, os princípios que o regulamentam e suas principais fases, a partir do olhar de teóricos como Freud, Erik Erikson, Piaget e Wallon.

A quinta unidade retomará a questão do desenvolvimento, acrescida com a discussão referente às relações que este tem com o processo de aprendizagem, o qual será estudado em suas dimensões individual e social, assim como as diferenças e semelhanças existentes entre aprendizagem escolar e instrucional.

Por último, a sexta unidade apresentará a proposta socioconstrutivista de aprendizagem, com as conseqüentes influências para diversas áreas do conhecimento.

É importante destacar que o seu envolvimento com a disciplina é fundamental para o bom aproveitamento desta e, conseqüentemente, para a sua formação como educador. Assim, só nos resta desejar um excelente aprendizado. Boa leitura!

– 6 –

UNIDADE 1: A evolução histórica da Psicologia9
1.1 – A história da psicologia9
1.1.1 – O conhecimento psicológico na Antiguidade1
1.1.2 – O conhecimento psicológico na Idade Média12
1.1.3 – O conhecimento psicológico no Renascimento14
1.2 – O surgimento da Psicologia como ciência – Origens15
1.2.1 – Estruturalismo17
1.2.2. – Funcionalismo17
1.3 – As principais escolas psicológicas da atualidade18
1.3.1 – Behaviorismo18
1.3.2. – Gestalt2
1.3.3. Psicanálise27
UNIDADE 2: A Psicologia da Educação no Brasil34
2.1 – A evolução histórica da Psicologia da Educação34

SUMÁRIO 2.1.1 – Influências antecedentes: a instituição da Psicologia da Educação no

mundo34
2.1.2 – História da Psicologia da Educação no Brasil37
2.2 – Tendências teóricas que influenciaram a educação brasileira40
2.3. A Psicologia da Educação hoje42
UNIDADE 3: A Constituição da Subjetividade46
3.1 – A subjetividade como objeto de estudo da Psicologia47
3.2 – Processos básicos da constituição do psiquismo:Atividade, Consciência e
Identidade49
3.2.1 Atividade51
3.2.3. Consciência53
3.2.2. Identidade54
3.3 – Processos mediadores na constituição dopsiquismo: linguagem e emoções. 57
3.3.1 Linguagem57
3.3.2 Emoções60
UNIDADE 4: Desenvolvimento humano e as implicações para a educação6
4.1 – O processo de desenvolvimento humano6
4.2 – Concepções do desenvolvimento humano6
4.3 – Fatores do desenvolvimento humano69
4.3.1 – Hereditariedade e Meio70
4.3.2 Maturação e Aprendizagem72
4.3.4 – Princípios do desenvolvimento73
4.4 – Teorias do desenvolvimento humano76
4.4.1. – Teoria Psicossexual de Sigmund Freud76
4.4.2 – Teoria psicossocial de Erik Erikson81
4.4.3 Teoria do Desenvolvimento cognitivo de Jean85
UNIDADE 5: Desenvolvimento e Aprendizagem108
5.1. Conceituação e caracterização da Aprendizagem110
5.2. Dimensões individual e social da aprendizagem112

5.3. Proposta construtivista de aprendizagem ............................................................... 112

A sociologia e a Sociologia da EducaçãoA sociologia e a Sociologia da Educação

Resumo

Essa unidade apresenta a evolução histórica da psicologia, enfocando os antecedentes históricos e filosóficos de sua constituição como ciência. Além disso, apresenta as escolas que estão na origem do seu surgimento, assim como as principais escolas da atualidade. Compreender essa evolução é fundamental para seu aproveitamento da disciplina, pois nenhum campo do conhecimento pode prescindir de estudar suas raízes, tendo em vista que não há conhecimento que não esteja vinculado a uma determinada sociedade, aos seus costumes e tradições e, igualmente, aos fatores econômicos. Para atingir esse objetivo, esta unidade está dividida em tópicos que mostram de forma clara o processo de constituição da psicologia como ciência e sua importância para a formação e prática pedagógica.

A evolução histórica da PsicologiaA evolução histórica da Psicologia

Unidade 1Unidade 1

UNIDADE 1: A evolução histórica da Psicologia9
1.1 – A história da psicologia9
1.1.1 – O conhecimento psicológico na Antiguidade1
1.1.2 – O conhecimento psicológico na Idade Média12
1.1.3 – O conhecimento psicológico no Renascimento14
1.2 – O surgimento da Psicologia como ciência – Origens15
1.2.1 Estruturalismo17
1.2.2. Funcionalismo17
1.3 – As principais escolas psicológicas da atualidade18
1.3.1. Behaviorismo18
1.3.2. Gestalt2

SUMÁRIO 1.3.3. Psicanálise ............................................................................... 27

– 9 –

UNIDADE 1: A evolução histórica da Psicologia 1.1 – A história da psicologia

Para compreendermos a evolução de qualquer ciência, faz-se necessário conhecer sua história, pois nenhuma ciência nasce pronta, mas sim é resultado da construção por diferentes indivíduos que, no decorrer do tempo, deram suas contribuições para um maior entendimento das questões emergentes no seu tempo. Nesse sentido, podemos afirmar que a história da psicologia tem um longo período, aproximadamente dois mil anos.

No decorrer da história, a psicologia foi sendo construída em função das exigências de cada momento histórico; momento este relacionado com as necessidades de conhecimento da humanidade, com os desafios e limites existentes, assim como em decorrência dos questionamentos incessantes que o homem fez acerca de si mesmo. Somente tendo acesso a essa história é que podemos entender como a psicologia se apresenta atualmente.

Ao iniciarmos esse percurso, é interessante observar que o homem, ao contrário do que se poderia imaginar, desenvolveu primeiro as ciências que diziam respeito a temas que estavam mais distantes do autoconhecimento, como a astronomia, por exemplo, e só depois, voltou o seu olhar para si mesmo.

Do mesmo modo, é possível afirmar ainda que a psicologia é uma das disciplinas mais antigas e, ao mesmo tempo, uma das mais modernas, como apontam Schultz e S- chultz (2005), o que constitui um paradoxo, pois é somente a partir do século V a.C, com os filósofos gregos, em particular Sócrates e Platão, que se pode encontrar uma sistematização acerca de temas que intrigam os psicólogos até hoje, tais como a memória, a motivação e a aprendizagem.

Antes de abordarmos esse período, contudo, é importante destacar que entre os povos primitivos uma experiência subjetiva que podemos encontrar é a idéia de alma, decorrente dos sonhos vivenciados e da experiência com a morte. A concepção de alma, contudo, não pode ser considerada naquele período como espiritualista, pois para eles esta possuía natureza material e não espiritual. É o que se pode constatar na forma como eram tratados os mortos, os

– 10 – quais eram enterrados em posição fetal, acompanhados de suas armas, vestimentas e de alimentos, indícios da crença em outra vida, na qual eles precisariam utilizar esses elementos.

Essa concepção apresenta sinais de mudança no início da Antiguidade. Entre os pré-socráticos predominava o interesse pela descoberta da substância (phúsis) que dera origem ao universo, (fogo, água, terra ou ar), ao passo que a natureza humana ficava em segundo plano. Para eles a alma era apenas um dos elementos que fazia parte da mesma substância que dera origem a todas as coisas e à qual todas elas retornavam. Em outras palavras, a alma não existia ainda como concepção espiritualista, logo “não era espiritual nem imortal, tendo apenas uma composição mais sutil e podendo sobreviver por algum tempo”. (PENNA, 1981, p. 54). A idéia de alma não se apresentava para os pré-socráticos (anteriores a Sócrates ou cosmologistas), mas existia na religião. Na filosofia coube a Pitágoras introduzir a concepção de alma e, posteriormente, a Sócrates.

De certo modo, havia uma nítida divisão entre os filósofos no que diz respeito à forma como concebiam a relação existente entre o homem e o mundo, com base na percepção. A grande questão que se punha era se o homem vê um mundo que já existe ou o mundo existe porque o homem é capaz de vê-lo. Essa discussão deu origem a duas correntes de pensamento, os idealistas, para quem a idéia dá origem ao mundo e os materialistas, que consideravam que a matéria de que é feita o mundo já existe e por essa razão é percebida pelo homem. Fig. 1 –Panteon

– 1 –

1.1.1 – O conhecimento psicológico na Antiguidade

Você deve estar se perguntando por que estamos discutindo o conceito de alma, qual é de fato sua importância para a história da psicologia. O que podemos afirmar é que foi a partir dele que a psicologia evoluiu através dos tempos, em especial, até a Idade Média.

Na Antiguidade, até o domínio do Império Romano, os gregos eram o povo que apresentava o maior desenvolvimento em todos os domínios do saber humano. Foram eles que criaram as primeiras cidades-estados (pólis), independentes entre si e com características próprias, assim como criaram o governo democrático. A imensa riqueza obtida através da conquista de outros povos permitiu que os gregos se dedicassem à busca de soluções para os problemas que surgiam na organização social, na agricultura e na arquitetura. Foi justamente em decorrência das necessidades que se manifestavam que os gregos produziram uma civilização avançada em distintas áreas do conhecimento, tais como na Geometria e na Física.

A cultura grega se consolida com esse progresso, pois fomenta a Filosofia e a arte, possibilitando que os filósofos gregos empreendessem a primeira tentativa de sistematizar uma teoria acerca da alma, melhor dizendo da psicologia. A origem etimológica do termo psicologia é, portanto, grega, em que psyché significa alma, e logos significa estudo. Nesse sentido, psicologia significa “estudo da alma”.

Como afirmamos anteriormente, somente a partir de

teriores

Sócrates (469-399 a.C.), a alma passa a ser considerada como a parte imaterial do homem, sendo vista então como a sede do pensamento, dos sentimentos, da percepção e da sensação. Para esse filósofo era importante diferenciar o homem dos animais, o que ele faz ao afirmar que os últimos não tinham a razão, característica essencialmente humana que possibilitava que o homem tivesse domínio sobre os instintos, diferentemente dos animais. Essa primeira constatação se tornaria a base de várias escolas psicológicas pos-

Sócrates http://w3.ualg.pt/~lnun es/Pessoal/Disciplinas/ IntEngAmb.htm

– 12 –

Platão (427-347 a. C) reconstituiu a obra de Sócrates, respeito ao pensamento psicológico desse filósofo, é possível encontra indícios em vários diálogos escritos por ele, tais como: A República, Fédon, Fedro, Mênon etc. Nestes, Platão discute a imortalidade e natureza da alma, a linguagem, os processos mentais entre outros temas.

Acompanhando o raciocínio de Sócrates, Platão buscou explicitar onde era a sede da razão no corpo humano, chegando à conclusão de que esta ficava na cabeça, local que seria também a sede da alma, a qual ficaria ligada ao corpo pela medula. Para Platão, a alma era separada do corpo, tendo natureza imortal. A morte somente fazia desaparecer o corpo (matéria), mas a alma podia continuar livre, em movimento. Sua teoria pode ser denominada platônica.

Já para Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, a psicologia passa a ser vista como o estudo dos seres vivos. O primeiro tratado de psicologia Da anima foi sistematizado por ele. Diferentemente de Platão, Aristóteles concebia a alma indissoluvelmente ligada ao corpo. Para ele, não era apenas o homem que tinha alma, mas todos os seres vivos, embora houvesse distinção entre eles. No caso dos vegetais, a alma seria vegetativa, cuja função era a reprodução e a alimentação; nos animais, além da alma vegetativa, haveria também a alma sensitiva, que permitia que estes tivessem acesso à percepção e ao movimento e, por fim, o homem teria os dois tipos anteriores e além desses a alma racional, cuja função primordial era pensar. Em suma, para esse filósofo, a psyché estava presente em todos os seres vivos. É a denominada teoria aristotélica.

1.1.2 – O conhecimento psicológico na Idade Média

O nascimento do Império Romano traz consigo uma nova perspectiva no âmbito psicológico, pois embora fosse originariamente politeísta, com deuses semelhantes aos dos gregos, mas com nomes diferentes, Roma cede ao forte apelo da religião cristã, que passa a ter influência sobre o império, até ser alçada ao topo como religião oficial pelo imperador Teodósio I (379-395 d. C.). Quando as invasões bárbaras (povos cujo idioma não era o latim) põem fim ao

Aristóteles http://paginas.terra.c om.br/arte/fisiklain/A ristoteles.htm

Platão http://www.cdcc.sc.usp

br/ciencia/artigos/art_26 /proporcao.html

– 13 – império romano, o Cristianismo sobrevive e se perpetua com o início da Idade Média no século V.

A Idade Média teve início na Europa no século V com a queda do Império Romano do Ocidente e termina com a queda do Império Romano do Oriente, mas especificamente a queda de Constantinopla no século XVI. Esse período é caracterizado por uma intensa hegemonia da Igreja, uma sociedade hierarquizada e sem mobilidade social nenhuma e por uma economia baseada na agricultura.

(Parte 1 de 6)

Comentários