Psicologia da Educação e Desenvolvimento Infantil

Psicologia da Educação e Desenvolvimento Infantil

(Parte 4 de 6)

Essa compreensão deu origem a um dos conceitos mais importantes da teoria freudiana, o de repressão, que consiste no processo de impedir que passem para o consciente as idéias, desejos ou memórias que não são admissíveis, limitando-as ao inconsciente.

O grande mérito de Freud foi, portanto, criar uma forma de estudar o inconsciente, seja através da análise dos sonhos, seja a partir dos lapsos cotidianos. Esse conceito

Mecanismos de defesa são utilizados para eliminar ou reduzir a ansiedade e a angústia.

Museu de Freud

Londres http://cache02.storm ap.sapo.pt/fotostore 01/fotos//b2/ae/d7/1 715105_raNZs.jpeg

– 29 – significa a expressão de idéias inconscientes que eram mantidas reprimidas, mas que se faziam notar em lapsos lingüísticos, como por exemplo, quando cumprimentar alguém que sofreu a perda do esposo, ao invés de dizer “meus pêsames”, diz-se “meus parabéns”. Isso ocorre por que de fato, a pessoa pode considerar que o esposo da outra a fazia sofrer e que não a merecia, logo ela estava livre desse “problema”.

Freud, a partir de seus estudos, criou uma teoria acerca da vida mental, na qual inicialmente constavam como elementos o pré-consciente, consciente e o inconsciente. O primeiro dizia respeito a fatos, idéias ou lembranças que embora não estivessem disponíveis poderiam assomar à consciência desde que a pessoa fizesse um pequeno esforço. Um exemplo pode ser perguntar a você o que comeu hoje no café da manhã. Você não estava pensando nisso, mas a pergunta o faz lembrar instantaneamente.

No caso do consciente, este é representado pelos aspectos a que se tem acesso livremente, sejam eles vindos do exterior, seja do mundo interior. E quanto ao inconsciente, só se tem acesso ao seu conteúdo de forma indireta, pois não se tem acesso a eles por estarem reprimidos. A imagem que podemos associar a essa distinção da vida mental é a do iceberg. Quando o vemos, a parte superior visível pode ser considerada como o consciente, mas a parte submersa, infinitamente maior, representa o inconsciente. Com essa representação, Freud demonstrou que, contrariamente ao que se acredita, quem domina a vida psíquica é o inconsciente. Essa metáfora do inconsciente é atribuída a Fechner, contemporâneo de Freud e psicofísico.

Posteriormente, entre 1920 e 1923, Freud elaborou uma segunda teoria do aparelho psíquico, introduzindo novos conceitos (id, ego e superego) que serão discutidos a seguir.

O primeiro conceito é o de Id, que pode ser caracterizado como o reservatório de energia psíquica do indivíduo, sendo constituído pelos instintos. No Id se encontram reprimidos os conteúdos aos quais o indivíduo não pode ter acesso, sob pena de desestruturar seu psiquismo. Essa estrutura psíquica é regida pelo princípio do prazer, pois para o id não existem proibições, sentimentos de culpa etc. è irracional, alógico, impulsivo, não conhecendo nem a moral nem a ética. Deseja satisfação imediata para os seus desejos e não ploring‐the‐iceberg/

Freud define instinto como os representantes psíquicos dos estímulos que se originam no organismo e chegam à mente

– 30 – tolera frustrações. Sua linguagem são as imagens e se encontra quase que inteiramente no inconsciente.

O Ego, ao contrário, é regido pelo princípio da realidade. É ele que é responsável pela conduta consciente do indivíduo e que tenta conciliar as exigências (desejos) do Id com as proibições excessivas do Superego, de forma que exerce controle sobre os instintos, impulsos do Id de modo a conseguir realizá-los de forma realista. Nele estão os mecanismos de defesa.

Já o Superego é constituído pelos valores, normas e padrões morais e costumes da sociedade e pelos ideais valorizados pela sociedade, internalizados pela criança a partir dos pais. Nesse sentido, entra em constante conflito com o Id que busca a todo custo realizar seus instintos impulsivos. Esses conflitos são mediados pelo ego, que tenta adequálos à realidade.

Utilizando novamente uma metáfora proposta por S- chultz e Schultz (2005), poderíamos comparar o Id a um cavalo, cujo cavaleiro é o Ego, ou seja, enquanto o primeiro é puro instinto, o segundo representa a razão. Ainda, com o intuito de levar a uma maior compreensão, podemos associar o id a uma prisão de segurança máxima, da qual querem escapar de qualquer forma, os instintos e os conteúdos reprimidos, os quais são barrados pela repressão, mecanismo de defesa. Em outras palavras, o Id pode ser comparado à criança; o Ego ao adulto e o Superego ao pai.

Quando a criança nasce é puro instinto (Id) e, somente gradativamente vai internalizando os valores da sociedade, formando assim o Ego e, posteriormente o Superego, que vem a ser a interpretação das proibições transmitidas pelos pais, as quais, depois de internalizadas não necessitam mais ser reapresentadas continuamente pelos adultos, porque a criança já desenvolveu a noção de certo e errado.

A teoria psicanalítica deu origem a diversas outras teorias, neopsicanalíticas, as quais não serão objeto de estudo em função dos objetivos desse módulo. Além disso, a teoria freudiana será abordada novamente, em momento posterior.

Finalizamos esse módulo e gostaríamos de poder levar você ainda mais longe, mas antes precisamos verificar o que

– 31 – você aprendeu nesse breve passeio por uma história que já tem mais de 2000 anos.

ATIVIDADE 1

Revendo o conteúdo que você estudou, reflita um pouco e tente identificar em que momentos da sua prática como professor, a psicologia exerceu algum tipo de influência e se esta influência tem relação com as teorias que você estudou.

http://www.sobresites.com/psicologia/teorias/behaviorismo.htm w.sobresites.com/psicologia http://www.psicologia‐online.org.br/main/index.cfm

A sociologia e a Sociologia da EducaçãoA sociologia e a Sociologia da Educação

Resumo

Nesta unidade será abordada a Psicologia da Educação a partir de seu desenvolvimento histórico no Brasil, de modo que ao final da unidade você terá aprendido sobre seu fundamento científico, campo de estudo, conteúdos e objetivos. De posse deste conhecimento, compreenderá melhor a relevância dessa disciplina para o exercício da docência.

A Psicologia da Educação no Brasil

A Psicologia da Educação no Brasil

Unidade 2Unidade 2

UNIDADE 2: A Psicologia da Educação no Brasil34
2.1 – A evolução histórica da Psicologia da Educação34

Sumário 2.1.1 – Influências antecedentes: a instituição da Psicologia da

Educação no mundo34
2.1.2 – História da Psicologia da Educação no Brasil37
2.2 – Tendências teóricas que influenciaram a educação brasileira40

2.3. A Psicologia da Educação hoje ........................................................ 42

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UNIDADE 2: A Psicologia da Educação no Brasil 2.1 – A evolução histórica da Psicologia da Educação

2.1.1 – Influências antecedentes: a instituição da Psicologia da Educação no mundo

A compreensão da constituição da Psicologia da Educação no Brasil exige sua contextualização em um quadro histórico mais amplo, de modo que você possa verificar as origens desse campo do conhecimento humano tão essencial para a Educação, que juntamente com outras áreas, permite entender melhor o fenômeno educacional.

Nesse sentido, as origens da Psicologia da Educação remontam ao Funcionalismo norte-americano, sob a influência de uma das primeiras escolas da Psicologia que você já estudou na unidade anterior. Como nós já vimos, em função das características próprias da sociedade americana, em especial o pragmatismo, só era valorizado o que era útil. Por essa razão, a Psicologia da Educação surge inicialmente para resolver os problemas da educação nos Estados Unidos, por volta de 1894. A partir dessa década, o número de psicólogos voltados para esse campo teve um crescimento admirável. Stanley Hall e Edward Thorndike são considerados como os que mais contribuíram para o desenvolvimento desse campo, embora partissem de posições teoricamente distintas.

Em 1905 tem início o uso de testes de inteligência para aferir o desempenho dos alunos, a partir do teste criado por Alfred Binet (psicólogo francês) e Théodore Simon, os quais receberam essa incumbência do Ministro de Instrução da França que desejava separar os alunos que tinham um bom desempenho, daqueles que apresentavam dificuldades de aprendizagem. É o sinal para o desenvolvimento espetacular dos testes de inteligência.

A Psicologia passa a ser considerada a solução para todos os problemas da educação, o que fez com que se tornasse uma espécie de mania nacional nos Estados Unidos, sendo amplamente divulgada não apenas em periódicos científicos, mas também em revistas populares e em outros meios de comunicação, como jornais, por exemplo. Essa psicologia aplicada se estendeu a campos outros, tais como: à clínica, ao Direito e à publicidade.

Escola da Filosofia tem como fundamento a concepção de que os atos e as idéias somente são verdadeiros se permitem solucionar os problemas do indivíduo.

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Essa fase de euforia em relação à Psicologia como um todo começa a diminuir quando se comprova que essa promessa não se cumpre. Nas décadas de 20 e 30, a Psicologia passa, assim, por um período de severas críticas, as quais só diminuem na Segunda Guerra Mundial, quando é chamada a solucionar outros problemas.

Especificamente no que se refere à Psicologia da Educação, observa-se sua influência em outros países, como a Suíça, por exemplo, sob a iniciativa de Claparède que cria o Instituto de Pesquisa Psicológica Jean Jacques Rosseau.

A Psicologia da Educação alcança enorme desenvolvimento em três áreas: psicologia da criança, medida das diferenças individuais e aprendizagem. Tal fato é decisivo para que esta assuma um lugar de destaque no cenário educacional, chegando a ser considerada a rainha das ciências da educação, contribuindo para que se acreditasse que seria possível, a partir dessa disciplina estabelecer o estatuto de cientificidade da Pedagogia.

No início da década de 50, a Psicologia da Educação apresenta um enorme paradoxo: por um lado, oficialmente, é considerada a disciplina que mais coopera com a Pedagogia no sentido de esclarecer os fenômenos educativos; por outro, ao ampliar desmedidamente seu campo de atuação, torna imprecisos seus limites, ou seja, o seu objeto de estudo se perde e, conseqüentemente, sua identidade.

É nesse contexto, no decorrer dessa década que a Psicologia da Educação passa por um período de severas críticas, as quais aliadas ao contexto sócio-histórico do momento terminam por colocá-la em xeque. Entre as críticas que sofreu está o número de escolas que a compõem e que apresentam visões distintas sobre o mesmo fenômeno. Aliado a isso, o surgimento de disciplinas como Planejamento educativo, Sociologia da Educação e Economia da Educação acentuam o fato de que a Psicologia da Educação não era capaz de dar resposta a todas as questões levantadas pela Educação.

No decorrer da década de 50, inúmeras transformações nos mais diversos domínios terminaram por favorecer novamente a Psicologia da Educação, como por exemplo, o final da guerra fria e a prosperidade econômica do período,

– 36 – que culminaram em mais recursos para a educação e, conseqüentemente, para a psicologia.

Não obstante tal fato, a Psicologia da Educação ao verse obrigada a dividir o espaço conquistado com outras disciplinas, passa por modificações que podem ser consideradas positivas, tendo em vista que foi nesse período que delimitou seu objeto de estudo, precisou seus conteúdos e explorou novos aspectos do fenômeno educativo. Um exemplo é o interesse desenvolvido pela aprendizagem de disciplinas específicas no contexto escolar, como a matemática, e os elementos envolvidos nesse processo.

A partir da década de 70 até os dias atuais, a Psicologia da Educação começa a desenvolver estudos mais intensos na área da aprendizagem, aproximando-se da Psicologia da Instrução (que trata dos aspectos instrumentais do processo de aprendizagem), assim como esta última se aproxima da Psicologia Cognitiva.

Esse breve percurso pela história da Psicologia da E- ducação no contexto mundial permite-nos agora, focalizar o desenvolvimento desta no Brasil, o que será feito no próximo tópico, mas antes disso, seria interessante que você resolvesse a seguinte atividade.

ATIVIDADE 2

01. Quais as condições que permitiram o surgimento da Psicologia da Educação nos Estados Unidos?

02. Que conteúdos essa disciplina pesquisava quando surgiu?

03. Por que razão a Psicologia da Educação foi chama‐ da de “Rainha das Ciências da Educação”?

04. Quais as críticas que esta disciplina sofreu?

05. Especifique os períodos de crescimento e os de cri‐ se do seu surgimento até hoje.

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2.1.2 – História da Psicologia da Educação no Brasil

É curioso observar que no Brasil a Psicologia da Educação surgiu antes da Psicologia propriamente dita, fato inteiramente diferente do que aconteceu no resto do mundo. Isso ocorreu por que a Psicologia se estabeleceu no Brasil a partir de uma forte ligação com a Educação. A Psicologia só se institui como ciência na década de 60, quando os primeiros cursos de Psicologia são criados.

Antes de examinarmos a Psicologia da Educação, contudo, cabe ressaltar que alguns estudiosos desse tema, como Massimi e Guedes (2004) e Antunes (2001), encontraram indícios de uma preocupação com os fenômenos psicológicos desde o período colonial, ainda que não tivessem caráter científico.

O pensamento psicológico no Brasil tem sua origem marcada pela contribuição de diferentes campos do saber; campos estes a que a Psicologia, enquanto ciência já constituída, manteve-se atrelada durante longo período. São exemplos desses campos trabalhos desenvolvidos nas áreas de Medicina, de Teologia, de Pedagogia e da Moral, entre outras, os quais abordavam temas como as emoções, a educação de crianças, o trabalho etc.

Faz-se importante ressaltar, como vimos mostrando desde a primeira unidade, a relevância do contexto sóciohistórico e econômico no processo de constituição de uma ciência, que, por essa razão, não pode ser considerada neutra. É o caso dos momentos iniciais do pensamento psicológico no Brasil se considerarmos que como colônia obedecia à lógica e aos interesses de Portugal, assim como surpreendia pela originalidade de suas posições, as quais, muitas vezes entravam em confronto com as idéias daquele país.

No século XIX, o Brasil torna-se um império e tal acontecimento traz como conseqüência algumas modificações profundas na sociedade, que se refletem também na natureza do pensamento psicológico da época. Uma das alterações diz respeito ao fato de que a partir desse evento, esse pensamento passa a vincular-se às instituições, diferenciando-se do período antecedente denominado por Pessotti (apud Antunes, 2001, p. 17) como período pré-institucional da psicologia, pois não estava ligado a nenhuma instituição.

Tarsila do Amaral

Paisagem com touro

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Nesse sentido, a Psicologia desenvolveu-se nesse período principalmente nas Escolas Normais e nos hospitais psiquiátricos. Nas primeiras formou-se a base para o ensino de psicologia, a partir da tradução de obras importantes, da vinda de eminentes psicólogos ao Brasil para darem palestras e também em função das discussões referentes às distintas abordagens teóricas da época. As primeiras pesquisas e trabalhos desenvolvidos na área também o foram nas Escolas Normais, além das primeiras Faculdades de Medicina.

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