Psicologia da Educação e Desenvolvimento Infantil

Psicologia da Educação e Desenvolvimento Infantil

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Quanto aos hospitais psiquiátricos e faculdades de Medicina, pode-se afirmar que inicialmente difundiam as idéias psicológicas de forma estreitamente vinculada à Medicina e, só posteriormente, observa-se gradativamente um distanciamento dessa ciência, com a adoção de idéias propriamente psicológicas.

Desse modo, a disciplina Psicologia da Educação destaca-se no cenário brasileiro a partir de meados da década de 1920, acompanhando as reformas educacionais que ocorriam em alguns Estados do país. Em 1924, foi criada a Associação Brasileira de Educação que pretendia promover uma discussão mais ampla acerca dos problemas educacionais. A inclusão da psicologia nas Escolas Normais resultou dessa mobilização, passando a ser considerada a base do ensino primário. Sua tarefa consistia em formar o educador para lidar com a criança a partir do conhecimento adquirido sobre sua personalidade e o processo de aprendizagem. Essas idéias eram a base do que se convencionou denominar Escola Nova, movimento que ocorreu no período entre 1925 e 1950. A luta por uma escola pública gratuita para todos, leiga e obrigatória era o ideal da Escola Nova.

Esse movimento tinha por suporte o pensamento liberal, que enfatizava o papel da educação na construção de uma sociedade democrática, acentuando o individualismo e a preparação para a autonomia, de modo que atuou no sentido de desmobilizar os movimentos populares, legitimando os ideais da classe dominante e auxiliando o Governo de Getúlio Vargas.

A Constituição Federal sofreu várias modificações no decorrer do tempo, sendo importante destacar que ora estava a favor da educação, ora contrária. É o que se pode observar nas Constituições de 1934 e 1937, pois a primeira garantiu a escola pública, já a segunda significou um retro-

Hospital Juqueri (séc.XIX) http://compartilhado s.blogspot.com/2007 /12/franco‐da‐rocha‐ no‐um‐ patinho.feio.html

Escola Normal (1901) w.skyscrapercity.com

Para saber mais sobre a Escola Nova http://www.cpdoc.fgv.br/nav _historia/htm/anos20/ev_que social_refedu.htm

– 39 – cesso uma vez que limitou o ensino à seleção por testes de QI e à capacidade da escola para receber os alunos.

O início da Segunda Guerra Mundial em 1939 ampliou o uso dos testes psicológicos, importados dos Estados Unidos. Politicamente, foi o início do fim do Estado Novo, sendo que Getúlio Vargas convocou eleições diretas ao final da guerra, sendo deposto por um golpe militar antes que estas se realizassem.

As décadas de 40 e 50 assistiram ao surgimento dos cursos de Filosofia e de Pedagogia, que impulsionaram o desenvolvimento da Psicologia da Educação, assim como a ida de professores aos Estados Unidos e à Europa para se aperfeiçoarem e que ao retornar traziam consigo as novas tendências.

Após o governo de Eurico Gaspar Dutra, que havia sucedido Getúlio Vargas, este retornou ao poder, mas, pressionado por todos os lado, terminar por cometer suicídio em 1954.

Os anos seguintes foram de otimismo em função do

Governo de Juscelino Kubitschek, ainda que a dívida externa aumentasse em um ritmo galopante. De qualquer modo, ao final do seu governo, dois novos presidentes o sucederam, mas sem conseguir terminar o mandato, Jânio Quadros e João Goulart. Nas Universidades, a Psicologia disputava espaço com a Política e a Sociologia e, até mesmo nas escolas, o clima era de discussão crítica.

O ano de 1964 foi marcado pela deposição de João

Goulart e a ascensão do regime militar, que nos anos posteriores, estabeleceu a ditadura, reprimindo os movimentos estudantis e toda e qualquer forma de oposição a partir dos famosos atos institucionais. O sistema educacional sofreu modificações para se adequar ao novo modelo desenvolvimentista, que necessitava de mão-de-obra qualificada para trabalhar nas multinacionais instaladas no país. Somente no início dessa década é que foram criados os cursos de Psicologia, como já foi comentado anteriormente, ao passo que a Filosofia perdeu o espaço outrora conquistado.

Durante o período do regime militar, a Psicologia da

Educação ganhou forte impulso por apresentar um discurso que não se contrapunha ao do governo, pelo contrário, justi-

– 40 – ficava-o ao desviar o foco dos problemas sociais para as diferenças individuais.

Na década de 70 tem início a abertura política, mas é somente no final da década que esta se efetiva. É um período de perda de prestígio da Psicologia, que assim como ocorreu em outros países, não conseguia dar resposta aos problemas sociais que emergiam, sobressaindo-se então a Sociologia.

A década de 80 trouxe consigo um novo interesse pela

Jean Piaget

Psicologia, em especial pela Psicanálise e pela teoria de

A Psicologia da Educação esteve presente, como você pôde ver, em vários períodos da nossa história e continua nos dias atuais a produzir conhecimento e a subsidiar a prática pedagógica. Sua atualidade, da década de 90até hoje, será abordada em outro tópico, pois agora iremos ver quais as tendências teóricas que influenciaram o processo educativo no Brasil.

2.2 – Tendências teóricas que influenciaram a educação brasileira

Não se pode deixar de notar a influência do funcionalismo americano e do experimentalismo europeu, fundamentados nas idéias de John Dewey e Claparède, respectivamente na educação brasileira, mas são as idéias de John Dewey que irão subsidiar a primeira tendência.

Na instituição da primeira tendência, observa-se que a preocupação de Dewey centrava-se no trabalho desenvolvido na sala de aula, de modo a englobar não apenas os recursos metodológicos, a avaliação, o raciocínio das crianças, mas, sobretudo, visava prepará-la para uma sociedade democrática.

Essa tendência foi absorvida com facilidade no meio educacional em função do momento histórico que o país vivia, recém saído da ditadura militar, e adotando nova Constituição (1946), a qual retomava as premissas dos direitos civis e apontava a educação como dever do Estado. Foi nesse período que foram criados os Institutos de Educação

DEWEY http://grandesnomesed uca‐ cao.files.wordpress.com /2008/02/dewey.gif

– 41 – que substituíram as Escolas Normais e nos quais a Psicologia da Educação ocupou lugar central.

A segunda tendência originou-se das idéias de Skinner, ou seja, do Comportamentalismo americano. Inicialmente esta tendência encontrou solo fértil nas faculdades de Filosofia nos anos 50 e, posteriormente, na década de 60 quando deu origem à tecnologia educacional.

Foi a partir do experimentalismo europeu que tomou impulso no Brasil a terceira tendência, a Psicometria, ou seja, a mensuração de comportamentos a partir de testes psicológicos. A concepção existente por trás dessa área da psicologia é de que é possível medir, por exemplo, a inteligência dos indivíduos e em função disso, enquadrá-los em determinado grupo, como os mais inteligentes e os menos inteligentes.

Nas décadas de 30 e 40, O Brasil fez amplo uso dos testes de inteligência (quociente intelectual – QI) nas escolas, com o intuito de separar os “anormais” dos normais. Essa utilização, contudo, tinha outro propósito, qual seja, o de mascarar as desigualdades sociais, explicando-as como decorrentes de diferenças individuais, mais especificamente de diferenças psicológicas. Tal fato servia muito bem aos interesses dominantes, pois diminuía a responsabilidade do governo em relação às péssimas condições de vida da população e, ao mesmo tempo, o desobrigava de ter que adotar medidas para solucionar os problemas de aprendizagem. A culpa por não aprender era atribuída única e exclusivamente ao aluno e não à escola, aos métodos adotados, à postura do professor, ou mais grave ainda, a sua condição sócioeconômica.

A quarta tendência baseou-se nas idéias de Carl Rogers, que defendia um ensino não diretivo, no qual o professor deveria buscar um relacionamento afetuoso com os alunos, pois segundo esse autor, a aprendizagem só pode ocorrer em um contexto no qual haja afeto, valorização das emoções e não apenas do aspecto cognitivo. O professor deveria despertar o interesse do aluno pelo saber e, a partir daí desenvolver com este uma troca, sem autoritarismo. Essas idéias, contudo, não foram tão difundidas no Brasil.

Teste de QI http://mariapereir a.blogs.sapo.pt/41 45.html

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2.3. A Psicologia da Educação hoje

O campo da Psicologia da Educação foi durante muito tempo caracterizado por uma polêmica discussão entre os estudiosos que a ele se dedicam, em função das distintas concepções existentes acerca da posição que esta ciência ocupa.

De um lado, alguns estudiosos defendiam que a Psicologia da Educação se limitava a ser uma mera aplicação dos conhecimentos obtidos pela Psicologia Científica ao campo da Educação, não tendo, portanto, nem método, nem objeto de estudo próprios. Essa posição predominou até a década de 1950, mas ainda existem, embora em menor número autores que a defendem na atualidade. Uma forma de compreender melhor essa posição seria se pensássemos, por exemplo, em uma Psicanálise aplicada à Educação.

ATIVIDADE 3

01. Como se desenvolveu a Psicologia da Educação no Bra‐ sil?

02. Faça um esquema mostrando a evolução da Psicologia da Educação nas diferentes décadas.

03. Quais as tendências desenvolvidas no Brasil a partir da Psicologia da Educação?

Para saber mais http://pt.wikipedia.org/wiki/Psicometria_(Psicologia) http://www.ginasiomental.com/iq_tests/Matrix%20test%20A.htm QUER FAZER UM TESTE DE QI? USE O SITE ACIMA http://www.multirio.rj.gov.br/cime/ME01/ME01_028.html ROGERS http://www.clubedoprofessor.com.br/recursos/teorias/index.htm

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Outra corrente defende que a Psicologia da Educação é uma disciplina-ponte entre a Educação e a Psicologia, de forma que seria assim uma ciência com objeto de estudo, algumas teorias e métodos próprios. Como esse autor afirma um dos defensores mais importantes dessa corrente é Robert Glaser que considera que o caso da Psicologia da Educação assemelha-se ao da Arquitetura, da Engenharia e mesmo da Medicina, as quais não podem ser compreendidas sem os conhecimentos provenientes da Matemática, da Física ou da Biologia, mas que não podem ser simplesmente reduzidas a elas. Glaser a denomina Psicologia da Instrução.

Outros autores que compartilham dessa idéia consideram, entretanto, que a atuação da Psicologia da Educação vai além, pois contribui com novos conhecimentos para a Psicologia e para a Pedagogia.

Se limitarmos o alcance da Psicologia da Educação aos aspectos relativos apenas aos processos instrucionais, estaremos excluindo outros contextos que também atuam de forma educativa, como por exemplo, aqueles que acontecem na família. Essa tem sido a tendência mais geral, ampliar ao invés de limitar. Não obstante esse questionamento, ele também considera que a posição mais apropriada é ver a Psicologia da Educação como uma disciplina-ponte.

rido a partir da educação

Para finalizarmos essa unidade, apresentaremos a definição do objeto de estudo da Psicologia da Educação: mudança comportamental provocada pelo conhecimento adqui-

Esperamos que ao final dessa unidade você possa ter compreendido o que de fato vem a ser a disciplina que você está estudando. A próxima unidade aproximará você ainda mais de temas abordados por essa disciplina e que são fundamentais para o seu trabalho como docente.

Atividade 4

01. Explique as concepções existentes acerca da Psicologia da Educação.

02. Qual a sua opinião: a Psicologia da Educação deve se li‐ mitar a estudar o que ocorre na escola?

A sociologia e a Sociologia da EducaçãoA sociologia e a Sociologia da Educação

Resumo

Nesta unidade falaremos sobre a subjetividade, objeto de estudo da Psicologia, procurando demonstrar a relevância desse conceito para a compreensão do ser humano e de seu psiquismo. Aliado a esse conceito serão abordados também as categorias constituintes do psiquismo, como a atividade, a consciência e a identidade, as quais são mediadas pelas emoções e pela linguagem. A teoria que fundamenta essa discussão é a abordagem histórico-cultural, que diferentemente das teorias anteriores considera a importância do contexto histórico e social no qual o homem está inserido como essencial para o seu desenvolvimento.

A constituição da subjetividadeA constituição da subjetividade

Unidade 3Unidade 3

UNIDADE 3: A Constituição da Subjetividade46
3.1 – A subjetividade como objeto de estudo da Psicologia47
3.2 – Processos básicos da constituição do psiquismo:Atividade,
Consciência e Identidade49
3.2.1 Atividade51
3.2.3. Consciência53
3.2.2. Identidade54
3.3 – Processos mediadores na constituição dopsiquismo: linguagem
e emoções57
3.3.1 Linguagem57

Sumário 3.3.2 Emoções ................................................................................... 60

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UNIDADE 3: A Constituição da Subjetividade

Na Unidade I você conheceu algumas escolas da Psicologia e percebeu que cada uma delas apresentava um objeto de estudo diferente, ou um mesmo objeto, mas visto de outra perspectiva. Em função dessa constatação, a Psicologia tem recebido muitas críticas, que são contestadas com o argumento de que esta é uma ciência relativamente jovem, que ainda não conseguiu apresentar teorias prontas.

Além desse argumento, costuma-se afirmar também que a dificuldade em definir o objeto de estudo da Psicologia deve-se ao fato de que seu objeto se mistura com o próprio pesquisador.

Por outro lado, o que você deve compreender é que a

Psicologia estuda diferentes fenômenos psicológicos a partir de distintos métodos, assim torna-se difícil precisar seu objeto, a não ser que este seja capaz de reunir em si a maior variedade de fenômenos possíveis. É o que ocorre com o conceito de subjetividade.

Outro ponto que merece sua atenção é que a escolha do objeto de estudo varia de acordo com a visão de mundo e de homem que cada escola possui. Assim, poderíamos exemplificar com o Behaviorismo, cuja visão de homem é a de um sujeito passivo, que sofre a ação do ambiente e simplesmente reage a ela. Do mesmo modo, a visão de sociedade é limitada, pois não leva em conta o processo histórico, como se o homem de todas as épocas fosse exatamente igual, o que não é verdade. Pensar dessa forma significa considerar o homem de forma universal, abstrata, como se este não fosse influenciado pelo contexto sócio-histórico em que vive de forma concreta e que exerce poderosa influência sobre ele, modificando-o ao longo tempo.

Você pode observar esse fato prestando atenção às diferenças existentes entre as gerações, pois as mudanças são muito claras. A sua geração é extremamente diferente da geração dos seus pais e, em parte, isso se deve às mudanças pelas quais passou a sociedade.

No próximo tópico você aprenderá mais sobre o objeto de estudo da Psicologia.

Para relembrar

Estruturalismo

Estrutura da Consciência

Funcionalismo

Funções da consciência que permitem ao homem se adaptar ao mundo

Behaviorismo Comportamento como resultado da relação S-R

Gestalt

Comportamento visto de forma global

Psicanálise Inconsciente

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A preocupação com a subjetividade foi, durante muito tempo, relegada a um segundo plano na Psicologia, em função da ênfase no modelo das ciências naturais que preconizava como princípios absolutos a objetividade e a neutralidade do pesquisador.

Atualmente, há certo consenso de que o objeto de estudo da Psicologia é a subjetividade, objeto esse que a diferencia de outras áreas das ciências humanas como a Sociologia e a Antropologia que também estudam o ser humano. Além disso, esse conceito é capaz de eliminar as dicotomias existentes nas outras escolas, tais como: interno x externo; social x individual; afetivo x cognitivo etc.

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