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Regina Maria Vinhais Gutierrez Dulce Corrêa Monteiro Filha Maria Elizabeth T. M. Stussi Neves*

* Respectivamente, gerente e economistas do Departamento da Indústria Eletrônica do BNDES. As autoras agradecem especialmente a colaboração das estagiárias de engenharia Camila Pinto Caldeira, Priscila Marques do Couto e Maria Fernanda Silva Restier. Agradecem, também, ao bibliotecário Arthur Adolfo Guarido Garbayo do Centro de Pesquisa de Informações e Dados do BNDES, ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, à Embrapa, ao professor Dr. Nilton Itiro Morinoto e às empresas Ideatec, Philips, Splice e ST.

A identificação eletrônica por radiofreqüência

(RFID) surgiu, há muito tempo, como uma forma de leitura remota de dados de identificação. Porém, só na década de 1980 foi associada a técnicas digitais de tratamento da informação, o que tornou tecnicamente viável a sua ampla disseminação.

A tecnologia RFID digital vem sendo utilizada em algumas aplicações familiares como o controle de acesso em prédios ou o ingresso em meios de transporte, embora ainda seja elevado o custo das instalações em geral. Apesar disso, a possibilidade de ser aplicada a inúmeras situações tornou a tecnologia objeto de diversos projetos pilotos, em diferentes lugares no mundo.

Prevê-se, para os próximos anos, uma grande intensificação no uso da RFID digital em aplicações em logística e no comércio varejista, principalmente aquelas voltadas à cadeia de suprimentos.

No Brasil, em 2002, foi criado o Sisbov como resposta às exigências de rastreabilidade da União Européia, maior importador individual de carne bovina brasileira. Esse sistema está agora em redefinição. O uso da RFID digital poderá não somente prover o atendimento das questões legais como impulsionar fortemente o processo de produção da carne, por meio de um aumento da produtividade e da agregação de valor ao produto. Esta aplicação pode abrir novas oportunidades também para a indústria brasileira de componentes especializados – de microeletrônica a software – e sistemas de gestão.

Complexo Eletrônico: Identificação Digital por Radiofreqüência

Resumo 30

A tecnologia de identificação eletrônica por radiofreqüência (Radio Frequence Identification – RFID) surgiu há muito tempo, como uma forma de leitura remota de dados (de identificação) armazenados em pequenos objetos anexados a bens ou seres vivos. Sua primeira grande aplicação deu-se durante a Segunda Guerra Mundial, quando foi usada pelas forças britânicas para identificar aviões amigos – respondendo ou não a pedidos de identificação por meio de ondas de rádio.

Foram necessários mais de trinta anos de evolução da eletrônica, levando à associação da RFID a técnicas digitais de tratamento da informação, até que se chegasse à possibilidade da sua ampla disseminação. Desta feita, envolvendo de componentes eletrônicos – microeletrônica – a softwares especializados, compondo um sistema de identificação digital.

A tecnologia RFID digital já é utilizada em algumas aplicações familiares como o controle de acesso a prédios e ambientes corporativos e o ingresso em meios de transporte, ambos por meio de cartões de aproximação – sem tarjas magnéticas, códigos de barras ou fendas para leitura direta de chips. São igualmente conhecidos as etiquetas em livros e os pequenos objetos plásticos presos em bens no comércio para evitar o furto à saída das lojas. Entretanto, uma gama infinitamente maior de aplicações é possível, sendo objeto de projetos pilotos em diferentes lugares no mundo.

Foi o Wal-Mart, o supermercadista líder mundial, quem colocou a identificação RFID digital sob o foco das atenções ao exigir que 100 de seus fornecedores passassem a fazer uso obrigatório de etiquetas inteligentes em suas entregas, e dando-lhes um prazo para adequação de seus processos e sistemas ao novo padrão EPC-Global. Tendo em vista as dificuldades enfrentadas na implantação das novas soluções, o prazo, inicialmente fixado em janeiro de 2005, acabou sendo estendido para 2006. A exigência suscitou reações nas grandes organizações do comércio e nas indústrias que as atendem.

Todo esse movimento tem sido também alimentado pelas grandes empresas de consultoria, que vêem na tecnologia RFID digital a possibilidade de realização de novos negócios na adaptação desses sistemas de identificação aos sistemas de gestão corporativos e seus módulos de SCM (Supply Chain Management). Convém lembrar que o grande movimento de implantação de sistemas integrados de gestão ocorreu no mundo durante a década de 1990, como descrito em artigo do BNDES Setorial nº 21,1 cuja leitura recomenda-se.

BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 2, p. 29-70, set. 2005

Introdução

1Gutierrez e Alexandre (2005).

No Brasil, uma outra aplicação da RFID digital vem sendo debatida em função de suas implicações econômicas para o País. Trata-se da rastreabilidade animal, em especial a do gado bovino. A regulamentação específica foi decretada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento em janeiro de 2002. Todavia, o uso da nova tecnologia eletrônica pode não apenas prover o atendimento das questões legais como impulsionar fortemente o processo brasileiro de produção da carne, por meio de um aumento da produtividade, da melhoria da qualidade do produto e da ocupação de nichos de mercado consumidor.

O potencial de surgimento de novas aplicações da RFID digital, os movimentos de criação de parceria entre atores da nova cadeia produtiva e a possibilidade de demandas localizadas trazem consigo oportunidades únicas para o Brasil, seja na produção de componentes microeletrônicos e equipamentos seja no desenvolvimento de software especializado e sistemas de gestão.

Assim, neste artigo são apresentados os conceitos básicos da RFID digital, os elementos constituintes de um sistema típico, suas principais aplicações e os aspectos mercadológicos gerais ligados a essa tecnologia, com destaque para a rastreabilidade bovina. Por fim, são apresentadas possibilidades de negócios e de participação do BNDES na concretização dos novos investimentos.

O sistema de identificação por radiofreqüência (RFID) permite recuperar, a distância, sem fio (wireless), informações armazenadas em um pequeno objeto preso ou incorporado a bens, produtos ou seres vivos. O objeto identificador é capaz de reconhecer e responder a um sinal recebido do sistema de identificação. Este é classificado como digital quando as informações armazenadas no objeto identificador e processadas no sistema possuem essa forma.

De maneira geral, um sistema de RFID digital possui o seguinte funcionamento, ilustrado pela Figura 1. Um aparelho com função de leitura envia, por meio de uma antena, sinais de radiofreqüência em busca de objetos identificadores. No momento em que um daqueles objetos é atingido pela radiação, ocorre um acoplamento eletromagnético entre ele e a antena, o que possibilita que os dados armazenados no objeto sejam recebidos pela leitora. Esta trata a informação recebida (identificação) e a envia a um computador.

Um sistema RFID digital funciona como um sistema poderoso de aquisição de dados em tempo real. Porém, para ser explorado em toda sua potencialidade é necessário que a informação

Complexo Eletrônico: Identificação Digital por Radiofreqüência

O Sistema de RFID Digital

Funcionamento

adquirida seja processada rapidamente e repassada a outros sistemas que dela venham a fazer uso. Assim, associada à tecnologia RFID existe uma forte demanda de Tecnologia da Informação (TI)2 para processamento, armazenamento e análise dos dados gerados.

O sistema de identificação é somente a ponta avançada (front-end) da solução total, à qual disponibiliza sua capacidade de coletar um grande número de informações precisas, contribuindo para aumentar o controle e a agilidade do processo. Seu impacto sobre o sistema total dá-se na medida da capacidade deste último utilizar adequadamente funções ligadas ao acompanhamento e rastreamento de bens, produtos ou seres vivos.

De um outro lado, o funcionamento autônomo de um sistema RFID digital é bem exemplificado por aplicações simples como dispositivos antifurto de bens em lojas, alarmes domésticos etc.

Trata-se do objeto identificador pronto para utilização. É um dispositivo que contém um circuito integrado (chip) não encapsulado3 – basicamente uma memória –, conectado a uma pequena antena de cobre que provê o seu acoplamento eletromagnético ao sistema.

BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 2, p. 29-70, set. 2005

Componentes do Sistema

Tag ou Transponder

2Expressão que compreende todas as formas de criar, guardar, trocar e usar informação, em qualquer de suas formas, nascida da confluência entre informática e telecomunicações.

3Apenas o die ou lasca de silício.

objeto tag antena leitora módulo deRF módulo de controle computador

Figura 1 Funcionamento de um Sistema RFID

Captura de

Dados

Comunicação Middleware Sistema de

Gestão

Figura 2 Integração do RFID ao Sistema de Gestão

Cabe observar que a tecnologia microeletrônica necessária para a construção de um chip RFID é madura (trailing – edge), associada a porte de fábrica e investimentos médios – entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão.4

O conjunto constituído pelo circuito integrado e pela antena, ambos presos a um filme plástico adesivo, recebe o nome de inlay, cuja figura esquemática é mostrada na Figura 3. Algumas aplicações permitem a utilização do inlay diretamente sobre o objeto a ser acompanhado ou rastreado. É o caso de livros e de CDs, por exemplo.

A maioria das aplicações, contudo, faz uso de tags, produzidos com base em inlays encapsulados em epóxi, plástico resistente, cerâmica, borracha ou outro material que seja adequado à maneira de utilização e ao ambiente de uso. Os tags podem tomar formas externas variadas como cartões sem contato, pastilhas, argolas e etiquetas. As etiquetas são um tipo de encapsulamento especial, em geral de filme de plástico, sobre o qual é impresso um desenho apropriado.

Os tags podem ser classificados como ativos ou passivos.

Os primeiros possuem uma fonte interna de energia que os alimenta, os outros não. Espera-se que, no curto prazo, os tags passivos sejam adotados em mais larga escala por serem de preço muito inferior aos tags ativos, como será detalhado mais adiante.

Os tags podem ser classificados, também, quanto à sua operação, como de somente leitura – gravado uma vez e utilizado somente para leitura, a qual pode ocorrer múltiplas vezes – ou de leitura e gravação – os dados podem ser gravados e lidos múltiplas vezes. É importante observar que os tags de somente leitura possuem capacidade de armazenamento de dados limitada a pouco

Complexo Eletrônico: Identificação Digital por Radiofreqüência34

4A esse respeito, consultar Gutierrez e Leal (2004).

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