(Parte 3 de 6)

No sentido de antecipação à que o enfoque preventivo reporta, os fundamentos entre os modelos propostos ou existentes de prevenção precisam considerar a complexidade do trabalhar, onde o ato produtivo toma uma dimensão ampla e o contexto global onde está inserido determina as condicionantes deste processo. Portanto, a identificação da prevenção como uma abordagem sistêmica proposta pela Ergonomia e a análise dos diferentes modelos propostos de prevenção, podem fornecer elementos para o melhor entendimento e compreensão dos alcances reais dessas iniciativas. As definições, princípios e fundamentos encontrados da GL,

possam ser feitas as relações com a prática a que se propõe o estudo

como método proposto de prevenção de LER/DORT, são abordados para que 2.1.1 Nomenclatura – LER ou DORT ?

Neste estudo será usada a denominação LER/DORT - Lesões por

Esforços Repetitivos / Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. A sigla LER, foi utilizada durante vários anos, sendo ainda melhor identificada, frente a isso, ainda são muitos os autores que utilizam esta denominação, mesmo após a edição da atualização da Norma Técnica de 1997 do Instituto Nacional de Seguridade Social

(INSS). Baseando-se no termo inglês “work-related musculoskeletal disorders”, foi proposta a sigla DORT, ficando desta forma enquadrada na categoria das doenças relacionadas ao trabalho proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para GALAFASSI (1998), a sigla LER pode ter conotação errônea, uma vez que já confirmaria a presença de uma alteração anatomopatológica, explicando a preferência pelo termo DORT. Sobre o mesmo assunto BORGES (2000), opta pelo uso de LER, concordando com as críticas à dicotomia entre as chamadas doenças profissionais (cujo nexo causal entre fator de ambiente de trabalho e efeito à saúde é imediatamente realizado) e as doenças relacionadas ao trabalho (cujo nexo causal, por ser mais complexo é de difícil comprovação), o que tem dificultado a identificação e prevenção deste fenômeno.

Segundo RANNEY (2000), sobre o uso da denominação DORT, quando existem no trabalho múltiplos fatores associados à doença e até quando as exposições não ocupacionais podem produzi-la, o termo “doença relacionada ao trabalho” é o mais adequado. Por outro lado, se o resultado para a saúde apresenta um claro processo ou agente patológico, então o termo “doença” poderia ser aceito.

Mas quando alguns dos resultados são de patogênese incerta, podendo consistir de sintomas sem sinais óbvios, então o termo “distúrbio” é mais preciso, concordando com o que dispõe a norma técnica. Sobre o mesmo assunto, BORGES (2000) discorre que o reconhecimento social de qualquer doença nas sociedades ocidentais passa pelo reconhecimento médico. O diagnóstico médico é utilizado como critério normativo da existência ou não das doenças e distúrbios da saúde, onde as normatizações expressam um campo de lutas políticas e de produção de conhecimentos.

Além das circunstâncias técnicas específicas do reconhecimento como doença estão as questões sociais e políticas envolvendo LER/DORT. SZNELWAR

(2001) cogita a existência de um profundo processo de “taylorização” do nosso tecido social, onde cada ator social faria sua parte sem se importar com as conseqüências do seu ato profissional, estando tal reação intimamente relacionada com a forma como a sociedade vem tratando a questão. Segundo o mesmo autor, um exemplo da influência política no significado social de LER/DORT, está ligada aos limites dos seguros sociais. A crise existente no sistema de seguridade social seria devida, em boa parte, ao desenvolvimento de uma prevalência da ótica financeira em detrimento de uma ótica do lastro social construída através dos anos para mediar conflitos e injustiças. Fica evidente assim, que trata-se de um fenômeno que transcende a

abordagem médica técnica, sofrendo influências sociais e políticas

O termo LER é tradicionalmente conhecido pelos diversos atores sociais no país, principalmente melhor identificado pela classe trabalhadora. Já DORT é o que sugere a normatização brasileira atual, sendo uma terminologia que vem ganhando espaço progressivo. Por serem as denominações duplamente usadas e difundidas no Brasil, esta dissertação refere-se ao fenômeno como LER/DORT. A respeito, BAWA (1997), refere-se à LER/DORT como sendo um fenômeno social moderno. 3

2.1.2 Contextualização Social do Fenômeno

A grande diversidade de aspectos envolvidos na compreensão das LER/DORT, tem sido objeto de atenção há alguns anos no Brasil e no mundo. Frente à complexidade dos fatores contributivos envolvidos na gênese deste fenômeno, a sociedade busca soluções e adequações de toda a sorte, que passam por diversos ramos de atividade e do conhecimento. A luta pela compreensão aprofundada sobre as queixas dos trabalhadores e suas conseqüências, inicialmente foco da atenção apenas de profissionais da segurança e da saúde do trabalho, no decorrer da evolução histórica, passa a ser preocupação também de sindicatos, empresários, governo, ONG’s, pesquisadores, associações de trabalhadores lesados, poder

judiciário, entre outros

mês de outubro de 2001 e envolvendo representantes de diversos segmentos e regiões do país, este tema foi tratado como um fenômeno social. Sendo chamado assim, de fenômeno LER/DORT.

(SZNELWAR, 2001)

Para BORGES (2000), este fenômeno chamou mais atenção quando adquiriu a característica de ocorrer em diferentes processos produtivos, particularmente a partir das mudanças tecnológicas e organizacionais dos últimos 30 anos. Tais transformações foram induzidas pela automatização e informatização da

quem o executa

produção, além das diferentes formas de gestão da força de trabalho que acompanham os processos de reestruturação produtiva no mundo globalizado, com conseqüências marcantes para aqueles que desenham o trabalho e sobretudo para Sobre um prisma sistêmico, o fenômeno LER/DORT tem aspectos sociais amplos, que ultrapassam os limites da doença e suas conseqüências e manifestações. DUARTE (apud SATO, 2001), com base em um estudo de caso de um trabalhador acometido, acompanha o movimento da consciência do mesmo. Conclui o autor, que a autoconsciência desse trabalhador sofre um processo de transformação ao encontrar interlocutores que o reconheçam como pessoa e dêem espaço para refletir sobre sua condição de trabalho e de vida, dando novo significado à sua estória. LIMA, ARAÚJO & LIMA (1997) focalizam o processo de construção social da militância de trabalhadores vitimados, através do caso de uma associação de portadores das lesões. Em ambos os estudos está presente a constatação de que a vivência como portador de LER/DORT e a interação em ambientes sociais confirmadores dessa percepção são situações facilitadoras para a emergência de sujeitos com a potencialidade para transformar os contextos de vida e os scripts socialmente definidos. Para SATO (2001, p.149), “são essas relações interpessoais e sociais compreensivas e solidárias que possibilitam criar um substrato para práticas coletivas e individuais que questionem os papéis sociais.”

Observa-se que não é difícil traçar um paralelo entre a leitura histórica desse fenômeno e o comportamento que os atores sociais envolvidos têm demonstrado, com adaptações constantes na interpretação e reação ao mesmo, do reconhecimento à negação, da supernotificação à subnotificação, da sinceridade à simulação, do apoio à discriminação, da punição e denúncia ao descaso. Nos extremos da compreensão e das atitudes de enfrentamento, parece haver, ainda, um processo de ajuste social. O que confirma a definição de que a abordagem deste fenômeno no Brasil, a exemplo da Itália, é a actancial (dos atores sociais), embora em vários aspectos atualmente já existam consensos entre todas as linhas de interpretação. Tais fatores, confirmam a necessidade de amplas revisões e estudos acerca deste tema, contrariando os posicionamentos de que LER/DORT trata-se de

assunto já esgotado e sem novos horizontes

2.1.3 O Trabalho e LER/DORT

As manifestações somáticas em quem trabalha são um grito de alerta, mostrando que não é o homem quem está doente, mas sim o trabalho. (OLIVEIRA,

1998). O trabalho é uma necessidade humana, ou seja, um processo entre o homem e a natureza que está determinado pela forma concreta em que se dá a produção, distribuição, intercâmbio e consumo dos meios de vida pelos diferentes grupos humanos. O trabalho implica em um processo de reprodução social. (MARX, 1985). Portanto, a compreensão do “trabalhar”, do “produzir”, no sentido mais amplo e

irrestrito, parece fundamental

ASSUNÇÃO & ROCHA (1993), BORGES (2000) e GRANDO (1999) destacam as bases que fundamentam o trabalho e suas relações com os distúrbios musculoesqueléticos, onde os trabalhadores são submetidos a um trabalho que não é organizado por eles e para eles, mas dentro dos princípios tayloristas e suas características. As potencialidades intelectuais são colocadas em segundo plano e as condições de trabalho inibem as relações humanas, o que pode levar à fragilização afetiva e intelectual de quem o executa. Nesta mesma linha, CORD (1999) afirma que o homem procura sua realização por meio do trabalho e é na ação transformadora que encontra momentos de satisfação, de realização de seus projetos. No momento em que ele completa um projeto qualquer, realiza uma vontade e isso o faz feliz, estimulando-o a iniciar um projeto. A problemática reside no fato de que o trabalhador de hoje realiza atividades que não são projetos seus, como também não são seus os frutos dos esforços. Longe de ser criativo, o trabalho que desenvolve torna-se opressivo e estafante.

FERREIRA & MENDES (2001) estudando as relações entre ergonomia e psicodinâmica, em abordagem sobre as relações do homem com o trabalho, destacam que prazer e sofrimento são uma vivência subjetiva do próprio trabalhador, compartilhada coletivamente e influenciada pela atividade de trabalho. Nessa perspectiva analítica, todo o trabalho veicula implicitamente um custo humano que se expressa sob a forma de carga de trabalho, e as vivências de prazer e sofrimento têm como um dos resultantes, o confronto do sujeito com essa carga que, por conseguinte, é conflitante com o seu bem-estar. Segundo KUORINKA et al (1998), atualmente LER/DORT constitui um tema de preocupação central em bom número de países industrializados. Acrescentam ainda, que quando ocorram as primeiras correlações sobre a cadência imposta e o estresse ligado ao trabalho, pensava-se que as atividades caracterizadas pelas tarefas repetitivas iriam diminuir com o passar do tempo, o que levaria a uma redução de seus efeitos negativos, inclusive LER/DORT. Mas, tem ocorrido o que pode-se chamar de inversão de expectativas. O que se verifica é que esse fenômeno continua sendo um dos principais problemas relacionado ao trabalho.

O mercado atual prioriza a diminuição dos custos de produção, com menor investimento em mão de obra e visa o aumento da produtividade. Para isso, introduz novas formas de organização, novas tecnologias e equipamentos. Na prática, isso pode trazer limitação da autonomia dos trabalhadores sobre os movimentos do próprio corpo e redução de sua criatividade e liberdade de expressão nas atividades que desenvolve.

O enfoque dado ao trabalho na maioria das vezes, também ajuda a explicar a gênese dos conflitos do ser humano com o trabalhar, isto fica evidente

nesta reflexão de SZNELWAR (2001, p. 2):

Sempre causa espanto quando são mostradas no espaço público, as atividades desenvolvidas pelos trabalhadores, nas mais diversas profissões e ambientes de trabalho. Mais grave ainda, é que quando se trata do trabalhar a referência é ligada à produção e, de uma maneira mais restrita, ao resultado. Resultado este que poderia ser considerado como a síntese de tudo que é feito pelos mais diversos atores da produção, mas que jamais retrata o que as pessoas fizeram para produzir.

25 2.1.4 Histórico e Reconhecimento

Vários são os registros históricos mencionando lesões ou queixas osteomusculares relacionadas com a atividade ocupacional, como as citações de Ellenborg em 1473, fazendo alusão à alterações em trabalhadores de ourivesaria, bem como de Paracelsus em mineiros, em 1567 (RIO et ali, 1998). As conhecidas referências do século XVII, do considerado pai da medicina do trabalho, o italiano Bernardino Ramazini, exprimem não tratar-se de um mal dos tempos modernos

(RAMAZZINI, 1988 e 2000). Pode-se encontrar referências interessantes também em registros brasileiros, como do conselheiro do Império, Francisco Gomes da Silva, o “Chalaça”, secretário particular de D. Pedro I, seu amigo e confidente. Quando foi designado para elaborar e redigir a Constituição do Império, com grande urgência (levou menos de um mês) e assim se expressa após entregar o trabalho solicitado:

No dia seguinte, o generoso monarca concedeu-me um muito honroso galardão: o postode

oficial da Secretaria dos Negócios do Império. Essa gratificação, somada ao meu soldo de capitão da guarda de honra e o de criado efetivo do paço, deu-me com que viver mais folgadamente e, mesmo tendo muitas dores na mão direita, pude enfim levar uma vida mais condigna à minha natureza (FOREIO, apud OLIVEIRA, 1998, p. 27).

“Charles Bell, em 1833, descreveu a “cãimbra do escrivão”, caracterizada pela alta incidência de espasmos na mão. E em 1882, Robinson descreveu a “cãimbra do telegrafista” e notou sua semelhança com a emergente

“cãimbra do escrivão” (IRELAND, 1995, p. 3; RIO et ali, 1998, p.25).

“Cowers posteriormente, escreveu sobre a “cãimbra do escrivão” em 1888, chamando-a de “neurose ocupacional” na sua extensa monografia “Doenças do

Sistema Nervoso” (IRELAND, 1995, p. 3)

Em 1895, a tendinite das estruturas do primeiro compartimento dorsal da mão foi mencionada por Fritz DeQuervain como “entorse das lavadeiras”, ao detectar

tendões e músculos do polegar (SILVERSTEIN, 1987)

o quadro em mulheres que lavavam a roupa com conseqüente desgaste sobre os

queixas ou supostas lesões relacionando-as com a atividade desenvolvida:

Os relatos da adolescente Miles Franklin, em 1901, fazem menção de

Entre os pequenos fedelhos, assim que crescem o suficiente para carregar o balde, aprendem a tirar o leite. Assim suas mãos se acostumam com o movimento, e isto não os afeta. Conosco era diferente. Sendo quase adultos quando começamos a tirar o leite, e só então mergulhamos pesadamente neste exercício, um efeito doloroso caía sobre nós. Nossas mãos e braços,

interrompido pela dor (CODO & ALMEIDA, 1998, p.8)

até os cotovelos inchavam, de maneira que o nosso sono era constantemente

Na Itália, em 1902, uma comissão especial definiu como doença ocupacional aquela causada diretamente por atividades desenvolvidas exclusivamente no campo de determinada profissão ou decorrente da tarefa executada (TAGLIAVINI & POI, 1998).

Existem registros de que em 1908 a “caimbra do telegrafista” foi incluída na lista de doenças cobertas pela previdência social britânica (British Workman’s Compensation act), que levou à criação de um comitê pelo Departamento dos

Correios da Inglaterra e Irlanda (IRELAND, 1995)

O Ministério do Trabalho do Japão, em 1964, estabeleceu recomendações normativas relacionadas a limites para repetitividade e ritmo de trabalho, período de exposição diária, período de tempo máximo de atividade ininterrupta e período mínimo de tempo para recuperação (NAKASEKO, TOKUNAGA

& HOKOGAWA, 1982). Mais recentemente, em 1974, a Japan Association of Industrial Health, fixou a denominação de Occupacional Cervicobrachial Disorder (O.C.D.), para as

(ROCHA et al, 1986)

patologias relacionadas com movimentos repetitivos dos membros superiores

Na Austrália, nos anos 80, ocorreu um fenômeno por muitos chamado de “febre epidêmica”, com relação às LER/DORT, lá então denominada “neurose ocupacional”, o que levou a um determinado esforço para não se discutir a questão. Foi estabelecida uma moratória, em 1987, que por muitos anos impediu a publicação de artigos sobre LER/DORT no Medical Journal of Australia, e no mesmo ano, o Australian Public Service interrompeu a publicação dos registros de incidência de

lesões (BAMMER apud RANNEY, 2000)

Em 1985, o Australian Council of Hand Surgery aprovou algumas resoluções referentes às lesões, chamando-as de “neurose ocupacional” e “síndrome da fadiga reversível”, no entanto os trabalhadores continuaram a sofrer lesões e muitos proeminentes cirurgiões da mão não concordaram com essas resoluções. O problema foi amplamente discutido e as resoluções não foram aprovadas com apoio unânime (RANNEY, 2000). Ainda neste ano, a OMS classificou as “doenças

partir de pesquisas clínicas realizadas com músicos (RIO & cols, 1998)

relacionadas ao trabalho” (worked-related diseases), como multifatoriais, considerando existirem vários fatores envolvidos na gênese destas lesões. Em 1986, Fry apresenta a hipótese da “overuse syndrome” – síndrome do uso excessivo, a 2.1.4.1 O Histórico Brasileiro e o Reconhecimento

Entre outros dados históricos o reconhecimento como doença profissional no Brasil, em 6 de agosto de 1987, através da portaria 4062, em especial das tenossinovites, levou a um grande aumento sazonal do registro de casos no final da década de 80. (COUTO, 1994). Esse reconhecimento, ocorreu para atender a reivindicação dos sindicatos e embora utilizasse a expressão “tenossinovite do digitador”, estendia a possibilidade do reconhecimento das outras categorias profissionais que “exercitam os movimentos repetidos dos punhos” (SETTIMI,

2001)

Segundo MARTINS (1995), entre os anos de 1986 e 1990, houve um processo de análise e discussão sobre o trabalho de processamento de dados, envolvendo o

Sindicato de Empregados de Empresas de Processamentos de Dados (SINDPD), Delegacia Regional do Trabalho de São Paulo (DRT/SP), entre outras entidades.

Em fevereiro de 1987, o SINDPD/SP organizou uma Semana de Saúde, com a participação de várias entidades para uma discussão com os trabalhadores sobre os problemas relacionados ao trabalho em processamento de dados. Sendo lançado, nessa ocasião, um Manual sobre Doenças Profissionais em

Processamento de Dados, provavelmente o primeiro a ser publicado sobre o tema no Brasil.

(Parte 3 de 6)

Comentários