Manaual de Tratamento para pacientes portadores de síndrome do pânico e ansiedade

Manaual de Tratamento para pacientes portadores de síndrome do pânico e ansiedade

(Parte 1 de 5)

Vencendo o Pânico

Instruções Passo a Passo para quem

Sofre de Ataques de Pânico

Bernard Rangé

Professor do Departamento de Psicologia Clínica

Instituto de Psicologia

UFRJ

Mensagem Importante

ESTE TEXTO NÃO É RECOMENDADO COMO

UM SUBSTITUTO DE UM TRATAMENTO MÉDICO OU PSICOLÓGICO!

Caso você esteja experimentando ataques de pânico, um exame médico completo é essencial. Desse modo, pode-se identificar qualquer transtorno físico que possa estar contribuindo para seus sintomas.

Nestas próximas páginas você aprenderá técnicas e meios de superar o pânico e encarar seus medos, permitindo-lhe voltar a uma vida normal e confortável. Certas pessoas, com a ajuda de amigos ou familiares, poderão sentir que são capazes de superar seus ataques de pânico, apenas realizando os exercícios deste livro. Outras pessoas podem necessitar de uma orientação adicional vinda de um profissional da área de saúde mental. Se você desejar informações de como encontrar uma orientação de um profissional em sua comunidade, por favor faça contato comigo.

Bernard Rangé

Rua Visconde de Pirajá 547 sala 608

Rio de Janeiro, RJ 22415-900

Telefax: (021) 259-7949

e-mail: brange@zaz.com.br

Introdução

Um ataque de pânico acontece quando uma pessoa sente, de repente, fortes sensações em seu corpo acompanhadas de pensamentos catastróficos de que está perdendo o controle ou de que está morrendo. A Tabela 1, abaixo, identifica diversos desses sentimentos:

Tabela 1. Sentimentos e sensações experimentados durante um Ataque de Pânico

  • palpitações ou ritmo cardíaco acelerado;

  • suor;

  • tremores;

  • sensações de falta de ar;

  • sensações de asfixia;

  • dor ou desconforto no peito;

  • náusea ou mal estar abdominal;

  • sentir-se tonto, desequilibrado, desmaiando;

  • desrealização (sentimentos de irrealidade)

  • despersonalização (sentir-se destacado de si mesmo);

  • parestesias (sensações de dormência ou formigamento);

  • calafrios ou ondas de frio e calor

Pensamentos assustadores também acompanham estas sensações físicas. Veja alguns deles na Tabela 2, abaixo:

Tabela 2. Pensamentos assustadores durante um Ataque de Pânico

  • Desmaiar

  • Perder o controle

  • Confundir-se

  • Ter um ataque cardíaco

  • Morrer

  • Ficar preso em algum lugar

  • Causar uma cena embaraçosa

  • Enlouquecer

  • Não conseguir respirar, sufocar

  • Não conseguir chegar em casa ou a qualquer outro “lugar seguro”

Estes “ataques” são comuns em vários problemas psicológicos, incluindo o transtorno do pânico, agorafobia e outras fobias. A Tabela 3, define resumidamente cada um desses transtornos.

Sem levar em conta a causa de seus sintomas, o ataque de pânico é um trauma para qualquer um que o experimente. Com o tempo, o pânico pode desenvolver uma vida própria através de um ciclo de reforço. Neste livro você aprenderá sobre o Ciclo do Pânico e os diversos meios que existem para rompê-lo, para também aprender a recuperar o controle sobre sua vida.

Tabela 3: Ataques de Pânico em Transtornos Psicológicos

  • Transtorno do Pânico - o único problema psicológico cujo sintoma predominante é a aparição repetida de ataques de pânico onde necessariamente alguns são do tipo não sinalizados.

  • Agorafobia - há um medo intenso de novos ataques de pânico. Decorre daí uma tendência a evitar estar sozinho e/ou a estar em certos lugares públicos. A vida normal de agorafóbicos fica significativamente limitada por evitarem espaços fechados (lojas, restaurantes), viagens de carro, aviões, passar por pontes; espaços abertos (avenidas largas, campos); confinamento ou restrição de movimentos (cadeira de cabeleireiro ou do dentista, filas, multidões).

  • Fobias Específicas - são medos irracionais de um objeto ou situação em particular, com grande tendência a evitar estes objetos ou situações. As fobias predominantes são medos de animais específicos ou insetos; de elementos naturais (tempestades, água); altura; espaços fechados. Um ataque de pânico pode ocorrer pelo confronto com o objeto ou situação temida.

  • Fobia Social - medo excessivo e irracional de que algum tipo de ação pública do indivíduo será notada pelos outros. Exemplos: medo de falar em público, medo de se apresentar em um palco, medo de urinar em banheiros públicos, de assinar seu próprio nome, de ser observado enquanto come. O pânico pode ocorrer diante do confronto com a situação temida.

  • Transtorno do Estresse Pós-Traumático - um estresse emocional específico que pode vir seguindo um evento psicologicamente traumático, como por exemplo um estupro ou assalto violento, seqüestros, um desastre natural, um acidente grave, uma cirurgia perigosa. O pânico pode ser observado como um dentre diversos sintomas.

  • Transtorno Obsessivo-Compulsivo - caracterizado por pensamentos negativos e persistentes, involuntários, incontroláveis e/ou repetitivos, e por rituais improdutivos usados para reduzir a ansiedade. Fortes ataques de ansiedade podem ocorrer sempre que o indivíduo tentar impedir tais obsessões ou rituais.

  • Transtorno da Ansiedade Generalizada - sintomas generalizados de ansiedade e preocupação, usualmente relacionados a possíveis ocorrências ameaçadoras da vida diária. Ocasionalmente a pessoa poderá sofrer ataques de ansiedade.

A melhor forma para utilizar este livro é seguir cada passo proposto, um de cada vez, antes de prosseguir para o seguinte. Desse modo, você não só estará construindo confiança em si próprio, como também, suas habilidades estarão baseadas em um sólido fundamento. Os seis passos são:

PASSO 1: Conhecer o problema e reconhecer o ciclo do seu pânico

PASSO 2: Aumentar seu conhecimento sobre as reações de emergência do corpo

PASSO 3: Praticar diariamente atividades que relaxam fisicamente o seu corpo

PASSO 4: Dar acesso a seus objetivos através de pequenas tarefas

PASSO 5: Desenvolver confiança através de imagens positivas

PASSO 6: Encarar suas tarefas uma de cada vez

Assim, vamos ao PASSO 1.

PASSO 1

Informação sobre o Transtorno do Pânico

Você tem um problema bastante conhecido, que tem até um nome, é muito comum e é bastante bem tratável. O nome deste problema é Transtorno de Pânico e ele consiste em crises de pânico súbitas, repentinas, imprevistas, espontâneas e recorrentes que incluem várias sensações como vertigem, tonteira, taquicardia, sudorese, sensações de falta de ar, formigamento, calafrios e muitas outras. Por causa delas, as pessoas tendem a acreditar que estão frente a um perigo como morte iminente, por ataque cardíaco ou asfixia, ou desmaio, queda, perda de controle, loucura etc. É tão freqüente que atinge cerca de 3% da população. Você não é o(a) único(a): aqui no Grande Rio isso representa cerca de 300.000 pessoas.

Como estas crises acontecem de repente, em situações variadas, e são muito assustadoras, as pessoas tendem a procurar, no início deste processo, ajuda médica, em geral cardiológica, por pensarem que se trata de um problema cardíaco. Aos poucos, com a repetição delas, começam a se sentir inseguras e pouco confiantes em ficar sozinhas ou saírem à rua desacompanhadas. Com isso passam a fazer muitas coisas apenas com a companhia de alguém, na idéia de que se acontecer algo, o acompanhante poderá tomar providências, como levá-las a um médico ou para casa ou outro local sentido como seguro.

Às vezes este problema começa de forma mais gradual, sem grandes crises, mas com um progressivo aumento na insegurança de fazer coisas sozinho(a) ou de enfrentar certas situações como passar em túneis, andar em conduções públicas (como ônibus, metrô, trens, aviões), freqüentar cinemas, teatros ou casas de espetáculos, andar em elevadores, pegar engarrafamentos etc. A idéia costuma ser a de que, como alguma crise ou mal estar pode acontecer numa situação dessas e, como a fuga delas é muitas vezes difícil, o melhor é evitá-las, para não correr o risco, seja de acontecer o perigo imaginado, seja de experimentar o intenso desconforto das sensações.

Há debates ainda sobre as causas desse problema. Alguns médicos defendem que se trata de um problema bioquímico que só é tratável com remédios. Há argumentos fortes a favor desta posição, mas também há problemas, como os efeitos secundários que estas medicações produzem, o fato de quase 2/3 dos pacientes voltarem a ter crises, uma vez suspenso o tratamento, e ainda as evidências de cura de tratamentos não medicamentosos como a psicoterapia cognitivo-comportamental. A nossa posição é que, quando as crises são muito intensas e freqüentes, o uso de medicação torna-se necessário. Mas quando são menos freqüentes ou mais brandas, uma intervenção estritamente psicológica é mais desejável. Por que? Porque pensamos que a causa deste problema é psicológica (o que não exclui a ocorrência de processos bioquímicos cerebrais). São dois motivos principais:

Em primeiro lugar, é preciso a gente entender que o modo da gente pensar afeta, isto é, determina o que se sente. Qualquer situação com que nos deparamos, automaticamente nos faz pensar coisas boas ou ruins sobre ela. Numa situação, se eu penso que estou em perigo, sinto medo; se penso que vai acontecer uma coisa ótima, fico alegre. Assim, qualquer sentimento é sempre causado por algum pensamento. Mas as duas avaliações contidas nestes pensamentos podem estar erradas: de repente, eu descubro que não estou em perigo e o medo passa; e o que eu pensei que iria acontecer de bom era um engano, e não fico mais alegre. É assim que muitas vezes as coisas se passam na nossa cabeça e na nossa vida.

Quando ficamos preocupados com certos problemas, tendemos a sentir ansiedade. Sentir medo ou ansiedade significa ter aquelas sensações. Se, com certas sensações do corpo, eu ou você pensamos que vamos ter um ataque cardíaco, como é que não vamos ficar apavorados? Estamos acreditando mesmo que corremos perigo. E se corremos perigo (ou pensamos que corremos), como não sentir medo? A ocorrência daquelas sensações (produzidas por idéias de perigo) confirma mais ainda a idéia de um ataque cardíaco iminente, o que faz aumentar ainda mais a intensidade das sensações, e assim por diante. Rapidamente, portanto, numa espiral, acontece a crise de pânico. Mas, já reparou que tudo aquilo de pior que você prevê nunca acontece? Ora, isto significa que estamos avaliando mal ou pensando errado sobre estas situações. As avaliações que fazemos sobre estas sensações estão incorretas e precisam, portanto, ser reformuladas. Todas estas coisas fazem com que fiquemos meio como um radar reparando em tudo em volta e, sobretudo, em tudo no nosso próprio corpo. Por causa disso qualquer alteração ou sensação "estranha" no nosso corpo quase sempre acaba sendo interpretada como um sinal de uma doença perigosíssima ou de um perigo fatal e iminente. Mas a gente pensar que alguma coisa é perigosa não quer dizer que, obrigatoriamente, ela seja, por mais que o nosso pensamento pareça verdadeiro. Às vezes nos enganamos mesmo quando pensamos que estamos certíssimos. Por isso, o tratamento consiste, em parte, em ensinar a você a descobrir quando você está pensando certo e quando está pensando errado, para você poder deixar de ter medo de coisas que não são verdadeiras ou reais. Por isso nós vamos discutir os seus pensamentos que ocorrem nas sessões e os que ocorrem fora delas (e que você vai trazer anotados). Você vai aprender a testá-los para ver se são verdadeiros ou se são lógicos. Por exemplo, eu quero que você respire forte e rápido por dois minutos. Após 30 ou 40 segundos, ou mais um pouco, pare e preste atenção no que você está sentindo. Não são sensações semelhantes às que você teve quando em pânico? (Ex.: taquicardia, sudorese, boca seca etc.). Veja, primeiro, como você pode fazer coisas com seu corpo, sem querer. Mesmo sem perceber, numa situação de estresse ou preocupação, respiramos profundamente. Isto pode, como vimos neste exercício, provocar sensações "estranhas" no nosso corpo (como essas que você acabou de sentir, semelhantes às de ansiedade). Assim, fica fácil interpretá-las (erradamente) como sinais de ataque cardíaco ou desmaio, por exemplo, e não apenas como (verdadeiramente) sinais de ansiedade decorrente de preocupações.

Você vai aprender que uma coisa é algo ser perigoso e outra é algo ser desagradável. Você já viu e sabe que o que se passou com você é algo muito desagradável. Mas é perigoso? Se apesar de sentir as sensações desagradáveis, nunca acontece nada do que você pensa que vai acontecer, isto não será uma prova de que as suas sensações não são sinais de perigo? Descobrir isso significa que você pode ter estas sensações, apesar delas serem muito desagradáveis, e que você não precisa fugir delas de qualquer modo, desesperadamente, pois nada de perigoso está acontecendo. O problema se reduz apenas a você aprender a minimizar a intensidade com que elas aparecem, para não serem tão desconfortáveis. Para isso você vai aprender a relaxar e a respirar de uma forma que produza relaxamento; vai aprender a examinar os seus pensamentos para poder torná-los mais realistas e verdadeiros de modo que não possuam idéias de ameaça irreais e falsas. Conseguir mudar seus pensamentos ajudará, como vimos, você a deixar de sentir medo. Para exercitar tudo isso, será necessário você se expor gradualmente às situações que produzem ansiedade e às sensações que ela produz no seu corpo, de modo que você passe a reconhecer e compreender o que se passa com você, nos seus pensamentos e no seu corpo. Assim, você vai conseguir se acalmar nas próprias situações.

Com isso, você poderá (1) testar suas idéias distorcidas; (2) verificar que são falsas; (3) descobrir que não precisa fugir desesperadamente em busca de ajuda; (4) reconhecer que, sozinho(a), você poderá superar e resolver tudo até se acalmar; e (5) reconhecer que você não precisa de um acompanhante para ter segurança. Você terá então aprendido a manejar seu medo/ansiedade/pânico e estará praticamente bom(boa).

Mas faltará ainda alguma coisa. O outro aspecto é que ficamos assim, com Transtorno de Pânico, quando temos medo de tomar decisões ou agir de modo independente, autônomo, confiante e seguro em nossas vidas. Principalmente quando uma ou mais coisas estão insatisfatórias ou ruins em nossa vida e não sabemos o que fazer para mudá-las (ou sabemos, mas temos medo de fazer o que queremos). Elas nos incomodam e provocam sentimentos ruins, desagradáveis, que a gente tenta negar, evitando percebê-los. Aí, qualquer situação que nos faça pensar que podemos perder o controle sobre estes sentimentos nos ameaça, pelo contato com eles e pela idéia de perda de controle que pode nos levar a fazer o que desejamos mas temos medo de fazer. Isto pode produzir crises de pânico que seguem a espiral que descrevi antes. Vamos precisar ver o que está insatisfatório na sua vida e o que falta para que ela fique satisfatória, como você quer que ela seja. Vamos precisar ajudar a você a se reorientar na vida: em vez de ficar se preocupando com o que há de ruim, com o que pode acontecer de ruim, vamos tentar fazer com que você consiga se orientar para o que há de bom, gostoso, positivo, desejável, realizador. Só manejar crises, não é o suficiente; é preciso acabar com aquilo que começou a provocá-las. E isto, só com essa reorientação de vida.

Aumentando seu Conhecimento sobre a

Fisiologia e Psicologia do Medo e da Ansiedade

Embora uma definição verdadeira da ansiedade que cubra todos os seus aspectos seja muito difícil de ser alcançada (apesar das muitas publicações referentes ao assunto), todos conhecem este sentimento. Não há uma só pessoa que nunca tenha experimentado algum grau de ansiedade, seja por estar entrando em uma sala de aula justo antes de uma prova, ou por acordar no meio da noite certo de que ouviu algum ruído estranho do lado de fora da casa. Contudo, o que é menos conhecido é que sensações, tais como fortes tonteiras, visão borrada ou desfocada, formigamentos ou dormências, músculos duros e quase paralisados e sentimentos de falta de ar que podem levar até a sensações de engasgar ou sufocar, podem também fazer parte da reação de ansiedade. Quando estas sensações ocorrem e as pessoas não entendem o porquê a ansiedade pode aumentar até níveis de pânico já que elas imaginam que podem estar tendo alguma doença.

Ansiedade é a reação ao perigo ou à ameaça. Cientificamente, ansiedades imediatas ou de curto período são definidas como reações de luta-e-fuga. São assim denominadas porque todos os seus efeitos estão diretamente voltados para lutar ou fugir de um perigo. Assim, o objetivo número um da ansiedade é o de proteger o organismo. Quando nossos ancestrais viviam em cavernas, era-lhes vital uma reação automática para que, quando estivessem defrontados com um perigo, fossem capazes de uma ação imediata (atacar ou fugir). Mas mesmo nos dias agitados de hoje, este é um mecanismo necessário. Imagine que você está atravessando a rua quando de repente um carro, à toda velocidade, vem em sua direção, buzinando freneticamente. Se você não experimentasse absolutamente nenhuma ansiedade, você seria morto. Contudo, mais provavelmente, sua reação de luta-e-fuga tomaria conta de você e você correria para sair do caminho dele para ficar em segurança. A moral desta estória é simples a função da ansiedade é proteger o organismo, não prejudicá-lo. Seria totalmente ridículo da parte da natureza desenvolver um mecanismo cuja função primordial fosse a de proteger o organismo e, por assim fazer, o prejudicar.

A melhor forma de pensar sobre todos os sistemas de resposta de luta-e-fuga (ansiedade) é lembrar que todos estão voltados para deixar o organismo preparado para uma ação imediata e que seu objetivo primordial é protegê-lo.

Quando alguma forma de perigo é percebida ou antecipada, o cérebro envia mensagens à uma seção de nervos chamada de sistema nervoso autônomo. Este sistema possui duas subsecções ou ramos: o sistema nervoso simpático e o sistema nervoso parassimpático. São exatamente estas duas subsecções que estão diretamente relacionadas no controle dos níveis de energia do corpo e de sua preparação para a ação. Colocado de uma forma mais simples, o sistema nervoso simpático é o sistema da reação de luta-e-fuga que libera energia e coloca o corpo pronto para ação; enquanto que o parassimpático, é o sistema de restauração que traz o corpo a seu estado normal.

Um aspecto importante é que o sistema nervoso simpático tende a ser um sistema “tudo-ou-nada”. Isto é, quando ativado, todas as suas partes vão reagir. Em outras palavras: ou todos os sintomas são experimentados ou nenhum deles o são. É raro que ocorra mudanças em apenas uma parte do corpo somente. Isto talvez explique o fato de ataques de pânico envolverem tantos sintomas e não apenas um ou dois.

Um dos efeitos principais do sistema nervoso simpático é a liberação de duas substâncias químicas no organismo: adrenalina e noradrenalina, fabricadas pelas glândulas supra-renais. Estas substâncias, por sua vez, são usadas como mensageiras pelo sistema nervoso simpático para continuar a atividade de modo que, uma vez que estas atividades comecem, elas freqüentemente continuam e aumentam durante um certo período de tempo. Contudo, é muito importante observar que a atividade no sistema nervoso simpático é interrompida de duas formas. Primeiramente, as substâncias que serviam como mensageiras — adrenalina e noradrenalina são de alguma forma destruídas por outras substâncias do corpo. Segundo, o sistema nervoso parassimpático que geralmente tem efeitos opostos ao sistema nervoso simpático fica ativado e restaura uma sensação de relaxamento. É importante perceber que, em algum momento, o corpo cansará da reação de luta-ou-fuga e ele próprio ativará o sistema nervoso parassimpático para restaurar um estado de relaxamento. Em outras palavras, a ansiedade não pode continuar sempre aumentando e entrar numa espiral sempre crescente que conduza a níveis possivelmente prejudiciais. O sistema nervoso parassimpático é um protetor “embutido” que impede o sistema nervoso simpático de se desgovernar. Outra observação importante é que as substâncias mensageiras, adrenalina e noradrenalina, levam algum tempo para serem destruídas. Assim, mesmo depois que o perigo tenha passado e que seu sistema nervoso simpático já tenha parado de reagir, você ainda se sentirá alerta e apreensivo por algum tempo, porque as substâncias ainda estão “flutuando” em seu sistema. Você deve sempre lembrar-se que isto é absolutamente natural e sem perigo. Aliás, isto é uma função adaptativa porque, num ambiente selvagem, o perigo geralmente tem o hábito de atacar de novo, e é útil ao organismo estar preparado para ativar o mais rápido possível a reação de luta-e-fuga.

A atividade no sistema nervoso simpático produz uma aceleração do batimento cardíaco, como também um aumento na sua força. Isto é vital para a preparação da luta-ou-fuga, já que ajuda a tornar mais veloz o fluxo de sangue e assim melhora a distribuição de oxigênio nos tecidos e a remoção de produtos inúteis nos mesmos. É devido a isso que experimentamos um batimento cardíaco acelerado ou muito forte típicos de períodos de alta ansiedade ou pânico. Além da aceleração do batimento cardíaco, há também uma mudança no fluxo do sangue. Basicamente, o sangue é redirigido sendo “reduzido” em algumas partes do corpo onde ele não é tão essencial naquele momento (através do estreitamento dos vasos sangüíneos) e é direcionado às partes onde é mais essencial (através da expansão dos vasos sangüíneos). Por exemplo, o fluxo de sangue é reduzido na pele, nos dedos das mãos e dos pés. Este mecanismo é útil para que, se a pessoa for atacada ou ferida de alguma forma, este mesmo mecanismo impedirá que a pessoa morra por hemorragia. Por isso, durante a ansiedade, a pele fica pálida e sentimos frio em nossas mãos e pés, e até mesmo algumas vezes, podemos sentir dormências ou formigamentos. Por outro lado, o sangue é direcionado aos músculos grandes, como os das coxas ou os bíceps, o que ajuda o corpo em sua preparação para ação.

A reação de luta-e-fuga está associada também com o crescimento da velocidade e profundidade da respiração. Isto tem uma importância óbvia para a defesa do organismo, já que os tecidos precisam de mais oxigênio para estarem preparados para a ação. As sensações provocadas por este aumento na função respiratória podem, contudo, incluir sensações de falta de ar, de engasgar ou sufocar, e até mesmo dores e pressões no peito. Também importante é o efeito colateral decorrente do crescimento na função respiratória, especialmente se nenhuma atividade real ocorra, que é a de haver uma redução real do fluxo de sangue para a cabeça. Por ser uma quantidade insignificante, não chega a ser perigoso para a saúde, mas produz uma série de sintomas desagradáveis (mas sem prejuízo algum) e que podem incluir tonteiras, visão borrada, confusão, fuga da realidade e sensações de frio e calor fortes.

A ativação da reação de luta-e-fuga produz um aumento na transpiração. Isto tem funções adaptativas importantes, como por exemplo, tornar a pele mais escorregadia para que, dessa forma, fique mais difícil para um predador agarrar um corpo e também para resfriá-lo de modo a evitar um superaquecimento.

A ativação do sistema nervoso simpático produz uma série de outros efeitos, nenhum dos quais sendo de modo algum prejudiciais ao corpo. Por exemplo, as pupilas se dilatam para permitir a entrada de mais luminosidade, o que pode resultar em uma visão borrada, manchas na frente dos olhos e assim por diante. Ocorre também uma redução na produção de saliva, resultando em uma boca seca. Há uma redução na atividade do sistema digestivo, o que geralmente produz náuseas, uma sensação de peso no estômago e também constipação ou diarréia. Por fim, diversos grupos de músculos se tencionam preparando-se para a reação de luta-e-fuga e isso resulta em sintomas de tensão, muitas vezes estendendo-se a dores reais como também a tremores.

Acima de tudo, a reação de luta-e-fuga resulta em uma ativação geral do metabolismo corporal. Por isso uma pessoa pode sentir sensações de calor e frio e, porque este processo utiliza muita energia, depois a pessoa se sente geralmente cansada e esgotada.

Como já mencionado antes, a reação de luta-e-fuga, prepara o corpo para a ação seja atacar ou fugir. Por isso, não é surpreendente que os impulsos avassaladores associados com esta reação sejam os de agressão e de desejo de fugir. Quando estes não são capazes de serem realizados (devidos à coação social), os estímulos serão freqüentemente expressos por comportamentos como bater os pés, marcar passos ou insultar pessoas. Isto é, os sentimentos produzidos são como os de quem está preso e está precisando fugir.

O efeito número um da reação de luta-e-fuga é alertar o organismo para a possível existência do perigo. Portanto, há uma mudança automática e imediata na atenção para pesquisar o ambiente em busca de ameaças em potencial. Por isso, passa a ser muito difícil concentrar-se em tarefas diárias quando alguém está ansioso. Pessoas ansiosas freqüentemente se queixam de ficarem facilmente distraídas durante tarefas do dia-a-dia; de não conseguirem se concentrar e de terem problemas de memória. Às vezes uma ameaça óbvia não pode ser encontrada. Infelizmente, a maioria das pessoas não aceita o fato de não encontrar uma explicação para alguma coisa. Portanto, em muitos casos, quando as pessoas não conseguem explicar seus sentimentos, elas tendem a procurar em si próprias. Em outras palavras, “se nada exterior está me deixando ansioso, então deve haver algo de errado comigo mesmo”. Neste caso, o cérebro inventa uma explicação como “eu devo estar morrendo, perdendo controle ou ficando louco”. Como já vimos, nada poderia ser menos verdadeiro, já que a função primordial da reação de luta-e-fuga é a de proteger o organismo, e não de prejudicá-lo. Por isso mesmo, são pensamentos compreensíveis.

Até agora, nós observamos as reações e os componentes da ansiedade em geral ou da reação de luta-e-fuga. Contudo, você pode estar se perguntando como tudo isto se aplica a ataques de pânico. Afinal, por que a reação de luta-e-fuga é ativada durante um ataque de pânico, já que não há, aparentemente, nada a temer?

De acordo com uma grande quantidade de pesquisas, parece que pessoas que experimentam ataques de pânico têm medo (i.é, o que causa o pânico) das próprias sensações da reação de luta-e-fuga. Assim, ataques de pânico podem ser vistos como uma série de sintomas físicos inesperados e uma reação de pânico ou de medo desses sintomas. A segunda parte deste modelo é fácil de ser compreendida. Como já visto antes, a reação de luta-e-fuga (onde os sintomas físicos têm um papel importante) levam o cérebro a procurar perigos. Quando o cérebro não consegue encontrar nenhum perigo óbvio, ele passa a procurar no interior da pessoa e inventa um perigo como “estou morrendo, estou perdendo controle, etc.”. Como as interpretações dos sintomas físicos são assustadoras, é compreensível o aparecimento do medo e do pânico. Por sua vez, estes dois sentimentos produzem mais sintomas físicos, e por isso se introduz um ciclo de sintomas, medo, sintomas, medo e assim por diante. A primeira parte do modelo é mais difícil de ser compreendida: por que você experimenta os sintomas físicos da reação de luta-e-fuga se você não está com medo? Existem muitas formas para que estes sintomas sejam produzidos; não apenas através do medo. Por exemplo, você está estressado e isto resulta em um aumento da produção de adrenalina e outras substâncias que, de tempo em tempo, produzem estes sintomas. Este aumento na produção de adrenalina pode ser quimicamente mantido no organismo, mesmo depois do desaparecimento do fator que gerava este estresse. Outra possibilidade, é que você tende a respirar um pouco mais rápido (hiperventilação sutil) devido a um hábito já aprendido, e isto também pode produzir estes sintomas. Como a hiper-respiração é menos intensa, você pode se acostumar com esta forma de respiração, e não reparar que você está hiper-ventilando. Uma terceira possibilidade é que você esteja experimentando mudanças naturais em seu corpo (o que todos experimentam, mas nem todos as percebem) e, justamente por estar constantemente verificando e monitorando seu corpo, você passa a reparar muito mais nestas sensações do que outras pessoas. Além das duas outras razões já descritas que produzem sintomas físicos (estresse e hiper-respiração), você também poderá se tornar consciente destes sintomas físicos como resultado de um processo denominado condicionamento interoceptivo. Como os sintomas físicos ficaram associados com o trauma do pânico, eles se tornaram sinais significativos de perigos e ameaças a você (isto é, eles se tornaram estímulos condicionados). Como resultado, é muito provável que você se torne altamente sensível a estes sintomas e reaja com receio, simplesmente devido à experiências passadas de pânico com as quais elas foram associadas. Como conseqüência deste tipo de associação condicionada, é possível que sintomas produzidos por atividades regulares sejam também levadas ao ponto de uma crise de pânico.

Mesmo que não estejamos certos do fato do por que alguém experimenta os sintomas iniciais, assegure-se de que eles são uma parte da reação de luta-e-fuga e por isso inofensivos a qualquer pessoa.

Obviamente então, uma vez acreditando convictamente (100%) que estas sensações físicas não são perigosas, o medo e o pânico desaparecerão e você não mais experimentará ataques de pânico. É claro que, quando diversos ataques já tenham sido experimentados por você, e que você tenha interpretado erradamente estes sintomas muitas vezes, esta interpretação errada torna-se bastante automática, e assim passa a ser muito difícil de, conscientemente, convencer-se de que estes sintomas são inofensivos.

Resumindo, a ansiedade é cientificamente conhecida como a reação de luta-e-fuga, sendo sua função primordial a de ativar o organismo e de protegê-lo do perigo. Associadas à esta reação, estão uma série de mudanças mentais, físicas e comportamentais. É importante notar que, uma vez que o perigo tenha desaparecido, muitas dessas mudanças (especialmente as físicas) continuarão, praticamente com controle autônomo sobre si próprias, devido ao aprendizado e a outras mudanças corporais de longo prazo. Quando os sintomas físicos surgem na ausência de uma explicação óbvia, as pessoas costumam interpretar erradamente os sintomas de luta-e-fuga como indicativos de sérios problemas mentais ou físicos. Neste caso, as próprias sensações podem se tornar ameaçadoras e, justamente por isso, podem desencadear uma nova reação de luta-e-fuga. Muitas pessoas, quando experimentam os sintomas da reação de luta-e-fuga, acreditam estar ficando loucas. Elas costumam mais freqüentemente relacionar tais sintomas com uma doença mental grave, conhecida como esquizofrenia. Observemos um pouco a esquizofrenia para compararmos o quão freqüente isto ocorre.

Esquizofrenia é um transtorno grave caracterizado por fortes sintomas como por exemplo, fala e pensamento deslocados, algumas vezes levando a balbucios, delírios ou crenças estranhas (p.ex., que mensagens estão sendo recebidas desde o espaço) e alucinações (ouvir vozes falarem dentro da própria cabeça). Também, a esquizofrenia parece ser em grande parte um transtorno com base genética, ocorrendo fortemente em famílias.

A esquizofrenia geralmente se inicia de forma gradual e não de repente (como em um ataque de pânico). Também, justamente porque ocorre em famílias, apenas uma certa proporção de pessoas tende a tornar-se esquizofrênica, e ainda, em outras pessoas, nenhuma quantidade de estresse causaria como conseqüência o transtorno em questão. Um terceiro ponto também muito importante, é que pessoas esquizofrênicas exibem alguns dos sintomas leves do transtorno por grande parte de suas vidas (p.ex., pensamentos estranhos e fala florida). Desta forma, se essas características não tiverem sido ainda percebidas em sua personalidade, a maior probabilidade é de você não se tornar esquizofrênico. Esta chance diminui mais ainda se você já tem mais de 25 anos, já que a esquizofrenia surge geralmente no final da adolescência até os 20 anos. Finalmente, se você já passou por entrevistas com um psicólogo ou psiquiatra, você pode estar certo de que eles saberiam imediatamente diagnosticá-lo como esquizofrênico.

Algumas pessoas acreditam que vão “perder o controle” quando entrarem em pânico. Presumivelmente, elas acham que vão se paralisar completamente e ficarão incapazes de se mover, ou que não vão saber o que estão fazendo e por isso vão sair disparados matando pessoas, ou gritando obscenidades e se envergonhando diante de outros. Por outro lado, podem não saber o que possa acontecer, mas podem também experimentar um sentimento dominante de “catástrofe iminente”.

Considerando nossas discussões anteriores, podemos agora saber de onde surge este sentimento. Durante uma crise de ansiedade o corpo está preparado para ação e neste momento há um enorme desejo de fuga. Contudo, a reação de luta-e-fuga não está preparada e treinada a prejudicar terceiros (que não sejam uma ameaça) e não produzirá paralisia. Ao invés disso, toda a reação é direcionada a afastar o organismo. Além disso, nunca houve nenhum caso registrado de alguém que tenha se descontrolado a tal ponto. Mesmo que a reação de luta-e-fuga o faça sentir-se um pouco confuso, irreal e distraído, você ainda é capaz de pensar e funcionar normalmente. Simplesmente pense sobre quão freqüentemente as outras pessoas nem notam que você está tendo um ataque de pânico.

Muitas pessoas têm receio do que lhes pode acontecer como conseqüência a seus sintomas, talvez devido a alguma crença de que seus nervos podem se esgotar e elas possam talvez entrar em colapso. Como já discutido anteriormente, a reação de luta-e-fuga é produzida predominantemente pelo sistema nervoso simpático, que é combatido pelo sistema nervoso parassimpático. O sistema parassimpático é, de certa forma, uma salvaguarda contra a possibilidade do sistema simpático “danificar-se”. Os nervos não são como fios elétricos e a ansiedade não é capaz de danificá-los, prejudicá-los ou desgastá-los. E a pior coisa que poderia acontecer durante um ataque de pânico seria a pessoa desmaiar, sendo que, se isso acontecesse, o sistema nervoso simpático interromperia sua atividade e a pessoa recuperaria seus sentidos em poucos segundos. Contudo, desmaiar em conseqüência da reação de luta-e-fuga é extremamente raro, mas se isso acontecer, é um modo adaptativo de impedir que o sistema nervoso simpático fique fora de controle.

Muitas pessoas interpretam erradamente os sintomas da reação de luta-ou-fuga e acreditam que elas estejam morrendo de um ataque cardíaco. Isto é porque talvez muitas pessoas não tenham um conhecimento suficiente sobre ataques cardíacos. Vamos rever os fatos sobre a doença coronariana e ver como isso difere de ataques de pânico.

Os sintomas principais de ataques cardíacos são falta de ar e dores no peito, como também, ocasionalmente, palpitações e desmaio. Os sintomas de ataques cardíacos estão geralmente relacionados diretamente com esforço. Isto é, com quanto mais esforço você se exercitar, piores serão os sintomas; e quanto menos você se esforçar, melhores. Os sintomas desaparecerão de forma relativamente rápida com descanso. Isto é muito diferente dos sintomas associados com ataques de pânico, que freqüentemente ocorrem durante um estado de repouso e parecem ter vida própria. Certamente, ataques de pânico podem ocorrer durante exercícios ou podem inclusive piorar com exercícios, mas são diferentes de ataques cardíacos, pois podem se produzir também freqüentemente durante repouso. Mais importante ainda é notar que um ataque cardíaco irá quase sempre produzir mudanças elétricas no coração que podem ser detectadas em eletrocardiogramas (ECG). Em ataques de pânico, a única mudança que é detectada por um ECG é um pequeno aumento no ritmo cardíaco. Por isso, se você já passou por um eletrocardiograma e o doutor lhe disse que tudo está bem, esteja certo de que você não sofre de nenhum problema no coração. Também, se seus sintomas ocorrem a qualquer momento e não apenas após algum esforço físico, isto é uma evidência adicional contra a possibilidade de um ataque cardíaco.

(Traduzido de Craske e Barlow, 1994 por Bernard Rangé)

A fisiologia da hiperventilação

O corpo precisa de oxigênio para sobreviver. Quando uma pessoa inspira, o oxigênio é levado para os pulmões onde é apanhado pela hemoglobina (a substância química “colada-ao-oxigênio” no sangue). A hemoglobina leva o oxigênio pelo corpo onde é liberada para ser usada pelas células. As células usam o oxigênio para as suas reações de energia, produzindo conseqüentemente um subproduto de dióxido de carbono (CO2) que é por sua vez devolvido ao sangue, transportado novamente aos pulmões e finalmente expirado.

Um controle eficiente das reações de energia do corpo, depende da manutenção de um equilíbrio específico entre oxigênio e CO2. Este equilíbrio pode ser mantido principalmente através do ritmo e da profundidade da respiração. Obviamente, respirar “demais” terá um efeito de aumentar os níveis de oxigênio (apenas no sangue) e de reduzir os níveis de CO2; enquanto que respirar “de menos” terá o efeito contrário, ou seja, reduzir a quantidade de oxigênio no sangue e aumentar a quantidade de CO2. A taxa apropriada de respiração durante um repouso deve ser de 10-14 respirações por minuto.

A hiperventilação é definida como um ritmo e uma profundidade de respiração exagerada para as necessidades do corpo em um momento específico. Naturalmente, se a necessidade de oxigênio e a produção de CO2 aumentarem (como durante um exercício físico), a respiração deveria aumentar correspondentemente. Alternadamente, se a necessidade de oxigênio e a produção de CO2 ficarem ambas reduzidas (como durante um período de relaxamento), a respiração deve respectivamente reduzir-se também.

Enquanto que a maioria dos mecanismos corporais são controlados por meios químicos e físicos “automáticos” (e respirar não é uma exceção), a respiração tem uma propriedade adicional que é a de ser capaz de ser submetida a um controle voluntário. Por exemplo, é muito fácil para nós prender a respiração (nadando debaixo d’água) ou aumentar o ritmo da respiração (soprando um balão). Uma série de fatores “não-automáticos” como as emoções, o estresse ou o hábito, podem causar um aumento no ritmo de nossa respiração. Estes fatores podem ser especialmente importantes para pessoas que sofrem de ataques de pânico, causando uma tendência a respirar “demais”.

Também interessante, é que enquanto a maioria de nós considera que o oxigênio é o fator determinante em nossa respiração, o corpo, na realidade, utiliza o CO2 como seu “marcador” para uma respiração apropriada. O efeito mais importante da hiperventilação então, é realizar uma queda na produção de CO2. Isto, por sua vez, leva a uma redução do conteúdo ácido do sangue, o que conduz ao que é conhecido como sangue alcalino. São estes dois efeitos uma redução de CO2 no sangue e um aumento da alcalinidade do sangue - que são os responsáveis pela maioria das mudanças físicas que ocorrem durante a hiperventilação.

Uma das mudanças mais importantes que ocorre durante a hiperventilação é a constrição ou o estreitamento de certos vasos sangüíneos do corpo. Particularmente, o sangue enviado ao cérebro é de certa forma reduzido. Aliado a este estreitamento dos vasos, a hemoglobina aumenta sua “pegajosidade” com o oxigênio. Por isso, não apenas o sangue alcança menos áreas do corpo, como o oxigênio carregado pelo sangue também é menos liberado para os tecidos. Paradoxalmente, então, enquanto que uma respiração aumentada significa mais oxigênio está sendo levado para dentro do organismo, menos oxigênio alcança certas áreas de nosso cérebro e do corpo. Este efeito resulta em duas categorias de sintomas: (1) centralmente, alguns sintomas são produzidos pela ligeira redução de oxigênio à certas partes do cérebro (que incluem tonteira, sensação de vazio na cabeça, confusão, falta de ar, visão borrada, e desrealização); (2) perifericamente, outros sintomas são produzidos pela ligeira redução de oxigênio à certas partes do corpo (que incluem um aumento no batimento cardíaco para bombear mais sangue pelo corpo; dormências e formigamentos nas extremidades; mãos frias e suadas e algumas vezes enrijecimento muscular). É muito importante lembrar que as reduções de oxigênio são ligeiras e totalmente sem perigo. Também é muito importante observar que hiperventilar pode produzir uma sensação de falta de ar, extendendo-se algumas vezes à sensações de engasgar ou sufocar, de modo que possa parecer como se a pessoa não estivesse, de fato, conseguindo ar suficiente. Possivelmente, isto acontece devido a redução de oxigênio em certas partes do cérebro.

A hiperventilação é também responsável por uma série de efeitos generalizados. Em primeiro lugar, o ato de hiper-respirar é um trabalho físico “pesado”. Portanto, o indivíduo pode sentir-se freqüentemente encalorado e suado. Segundo, justamente pelo esforço de hiper-respirar, períodos prolongados de hiper-respiração resultarão quase sempre em sensações de cansaço e exaustão. Em terceiro, pessoas que hiper-respiram geralmente tendem a respirar pelos pulmões, ao invés de respirar pelo diafragma. Isto significa que os músculos do peito tendem a se tornar cansados e tensos. Assim, elas tendem a experimentar sintomas de pressão e até de dores severas no peito. Finalmente, muitas pessoas que hiper-respiram, costumam manter um hábito de constantemente suspirarem ou bocejarem. Estes cacoetes são na realidade, formas de hiperventilação, já que sempre que alguém suspira ou boceja, elas estão “jogando” uma grande quantidade de O2 no organismo de maneira bem rápida. Por isso, quando tratando deste problema, é importante perceber hábitos diários como suspirar ou bocejar e assim tentar suprimi-los.

Um ponto importante a se notar sobre a hiperventilação é que ela não é fácil de ser percebida por um observador. Em muitos casos, a hiper-ventilação pode ser muito sutil. Isto é especialmente verdadeiro se o indivíduo esteve hiper-respirando por um longo período. Neste caso, pode haver uma redução acentuada de CO2, mas devido à compensação no corpo, há pouca mudança na alcalinidade. Assim, nenhum sintoma será produzido. Contudo, devido às baixas taxas de CO2 , o corpo perde sua capacidade de lidar com as mudanças de CO2 de modo que até uma pequena alteração na respiração (como um bocejo por exemplo) pode ser suficiente para disparar os sintomas. Isto pode estar relacionado com a natureza repentina de muitos ataques de pânico, por exemplo, durante o sono, e isso é uma razão para o porquê de muitos dos que sofrem deste problema geralmente relatarem: “Não me sinto como se estivesse hiperventilando”.

Provavelmente o ponto mais importante a se fazer sobre a hiperventilação seja mostrar que ela não é perigosa. A hiperventilação é uma parte integral da reação de luta-e-fuga e por isso sua função é a de proteger o corpo do perigo, e não ser perigosa. As mudanças associadas com a hiperventilação são aquelas que preparam o corpo para ação de modo a escapar de um perigo em potencial. Assim, é uma reação automática do cérebro para imediatamente esperar o perigo e, claro, para o indivíduo sentir a premência de escapar. Conseqüentemente, é perfeitamente compreensível, que o sofredor acredite que o problema é interno. De qualquer forma, as coisas não acontecem assim. É importante lembrar que longe de ser prejudicial, a hiperventilação é parte de uma resposta natural, biológica voltada para proteger o corpo de qualquer prejuízo.

(Traduzido de Craske e Barlow (1994) por Bernard Rangé)

Como vimos nos textos acima, o primeiro ataque de pânico pode surgir de repente. Na seção sobre Transtornos da Ansiedade, você também viu que ataques de pânico podem ser uma reação a uma situação de ansiedade provocada, como por exemplo, estar preso por alguns instantes em um elevador ou iniciando uma palestra.

Se você continua experimentando episódios de pânico imprevisíveis, sua reação a eles começa a se alterar. Após uma certo período, talvez você passe a experimentar o que chamo de Ciclos de Pânico, como ilustrado no Gráfico 1:

Gráfico 1: CICLOS DE PÂNICO

1. ANSIEDADE 2. ATAQUES DE ANTECIPATÓRIA PÂNICO

T

E

N

S

Ã

O

3. AUTO-DESCONFIANÇA E 3. FUGA E

AUTOCRÍTICA ALÍVIO

TEMPO

Já que um ataque de pânico pode ser tão traumático (algumas pessoas pensam que estão morrendo), a memória daquela experiência pode ser facilmente relembrada. Poucos estímulos são necessários para que você relembre sua reação. A simples idéia de passar por uma situação similar àquela pode produzir sensações condicionadas e pensamentos ansiogênicos e assustadores. Quanto mais tempo você passar antecipando isso, mais assustado você vai ficar. Esta experiência é denominada ansiedade antecipatória.

Já vimos que o corpo humano reage a certos eventos baseado na interpretação que ele faz deles. Por exemplo, você diz a si próprio(a), “Vou ter que entrar nessa loja cheia de gente... já tive ataques de pânico em lojas assim... acho que não vou conseguir...”. Você se torna mais alerta das reações do seu corpo e dos seus pensamentos. Quando você percebe estas sensações físicas crescentes, você se preocupa mais ainda. Isso ainda vem acompanhado do desejo de nunca mais passar por aquela experiência de novo. O seu próximo pensamento pode ser, “Acho que estou entrando em pânico agora”. Essencialmente, esses pensamentos ansiogênicos e essas sensações físicas revelam o início do Ciclo do Pânico em seu primeiro estágio: a ansiedade antecipatória.

Se realmente um ataque de pânico ocorrer, ele será o segundo estágio traumático deste ciclo.

Durante um ataque de pânico, a frase mais freqüente é: “Eu tenho que sair daqui”. A fuga daquela situação provocadora do pânico parece ser sua única saída. Apenas com o fato de abandonar o local, você já se sente aliviado(a). O seu corpo então retoma, aos poucos, seu nível normal de funcionamento: o batimento cardíaco diminui, a respiração volta ao normal, e você não se sente mais tonto(a) ou tremendo. Você pensa: “Graças a Deus eu saí de lá !”. O terceiro estágio do Ciclo do Pânico é o da fuga e alívio.

O gráfico da página anterior demonstra que a fuga do ambiente causador da ansiedade justamente reforça o pânico. O eixo vertical representa o grau de tensão na pessoa, variando de calmo a pânico grave (0 - 10). O eixo horizontal por sua vez, representa o tempo.

Existem três partes desta seqüência especial de fuga: a fase da ansiedade antecipatória (A), quando você sente um desconforto crescente, ao imaginar o eventual fracasso ao tentar lidar com a situação; a fase da fuga (B), quando seu medo se torna tão forte que você prefere abandonar o local para conseguir manter o controle; e finalmente a fase da imagem catastrófica (C), quando, depois de escapar para um “lugar seguro”, você cria uma imagem mental de como coisas terríveis poderiam ter acontecido se você não tivesse fugido.

Gráfico 2: Como a Fuga Reforça o Pânico

10

Imagens

Catastróficas

Fuga

Nível

de

tensão - 5 Ansiedade

Antecipatória

0

Imagine que uma mulher - chamemos ela de Carolina - já tenha passado por diversos ataques de pânico em supermercados durante os últimos dois anos. Hoje ela tentará novamente realizar suas compras em um supermercado.

A. A Fase da Ansiedade Antecipatória.Enquanto ela está nesta fase, ela pode ter a idéia de ir às compras, mas de repente ela se lembra de seu último ataque de pânico. Em reação a esta lembrança, Carolina começa a se sentir um pouco nervosa e hesitante em relação à tentativa de hoje. Este é o início de sua ansiedade antecipatória. Ela se pergunta: “Será que eu posso mesmo fazer isso? E se eu tiver um outro ataque?”. Mas apesar de seu medo, ela resolve fazer o melhor que estiver a seu alcance.

Ao chegar ao supermercado, ela hesita novamente e pensa no que aconteceria se ela perdesse o controle. O grau de sua ansiedade neste momento também aumenta respectivamente. Ao entrar na loja e empurrar o carrinho, ela se sente um pouco aliviada, e assim seu grau de ansiedade cai ligeiramente. Contudo, enquanto ela coloca os produtos em seu carrinho, ela começa a imaginar como será demorada a espera no caixa e como ela detesta ficar presa nessas filas. Neste instante, nota seu senso crescente de tensão física. Ao dar uma volta pelo supermercado, nota que cada caixa tem muitas pessoas esperando. Ao mesmo tempo ela percebe seu coração disparado, “Meu coração disparou! Ele está batendo tão forte! Ai, meu Deus, vou ter outro ataque!”

B. A Fase da Fuga. Continuando a volta pelo supermercado, Carolina sente sua tensão subir. Ela fica mais e mais atenta às mudanças de seu corpo e a seus arredores. Em seguida, percebe que está tonta e diz a si própria, “Isso é demais! Não agüento mais! Tenho que sair daqui antes que eu desmaie ou morra!”. Larga seu carrinho, abandona bruscamente o supermercado e corre para seu carro, onde ela se sente “segura”. Carolina escolheu a fuga como a única opção para controlar seu iminente ataque de pânico.

C. A Fase da Imagem Catastrófica. Depois de alguns minutos, Carolina volta a se sentir mais calma. Ela está a salvo fora da loja. Ela imagina as conseqüências assustadores que poderiam ter acontecido se ela tivesse permanecido no supermercado: “Do modo como estava, certamente teria desmaiado ou teria feito um papelão na frente de todos!”. Esta imagem catastrófica — do que teria acontecido se ela tivesse permanecido na loja — reforça ainda mais sua decisão de fugir novamente no futuro.

Com estes exemplos, você pode perceber como seus pensamentos assustadores podem aumentar as sensações físicas da ansiedade. Prestar atenção à estas sensações e antecipar o aumento destes sintomas desconfortáveis, só irá fazer com que você se amedronte ainda mais. E cada vez que você abandonar o local, achando que dessa forma poderá controlar melhor ou prevenir um ataque, você estará apenas reforçando a crença de que a fuga é sua única opção.

O estágio final do Ciclo do Pânico é a autodesconfiança e a autocrítica. Depois da derrota na batalha contra o pânico, as pessoas tendem a ficar covardes e desmoralizadas. Questionam-se quanto à sua capacidade de lutar contra este problema: “O que tem de errado comigo? Por que tenho tanto medo?”. Reforçam ainda mais esta idéia se seus médicos não encontram nenhum indício físico para os sintomas sentidos durante a experiência. “Sou tão fraca por ter estes receios, mas não consigo controlá-los! Ninguém mais passa por este mesmo problema. Eu nunca vou melhorar. Eu nunca serei a mesma novamente.”

Este estágio final do Ciclo do Pânico comporta, na verdade, a ansiedade antecipatória, que é a primeira fase do próximo ciclo. Vamos continuar com o exemplo de Carolina. Imagine você, que mesmo semanas depois do ocorrido, ela continua se punindo e se repetindo: “Nunca vou melhorar. O que tem de errado comigo, afinal? Sou muito fraca para suportar estes medos”. Passando muito tempo reforçando a idéia de sua falta de controle, na próxima vez que ela se defrontar com uma situação estressante, se recordará de sua incapacidade em lidar com esta situação. Imaginando sua incapacidade de dominar este problema, naturalmente se tornará ansiosa ao se defrontar com o problema em sua próxima tentativa.

Se pessoas como Carolina, passam por diversos ataques de pânico sem aprender meios de como controlar suas reações, então um novo ciclo estará em evolução: o Ciclo da Esquiva (ver Gráfico 3). O primeiro estágio continua como no ciclo anterior: elas antecipam ansiosamente o acontecimento. Contudo, agora já estão convencidas de que não conseguem reagir com sucesso a seus pensamentos e à suas sensações desconfortáveis. Tentando, elas sem dúvida fracassarão. Já o segundo estágio, torna-se a esquiva: elas decidem manter distância de qualquer situação que posa transformar-se em uma reação de pânico. No estágio final, elas continuam com autodesconfiança e a autocrítica. Sabendo que estas pessoas evitam totalmente estas situações, podemos então também denominar este ciclo de: Ciclo Fóbico.

Gráfico 3: O Ciclo da Esquiva (Ciclo Fóbico)

AUTO-DESCONFIANÇA e ANSIEDADE

AUTOCRÍTICA ANTECIPATÓRIA

ESQUIVA

PASSO 2

Rompendo O Ciclo do Pânico

Você encontrará uma certa quantidade de tarefas de auxílio nas páginas seguintes, que poderão ajudar-lhe a ganhar controle sobre seus sentimentos. Considerando que o pânico ocorre em diversos estágios e praticando técnicas específicas para cada um deles, você estará apto(a) a aplicar estas tarefas com mais facilidade e com resultados mais positivos.

Estas tarefas não são mágicas. O estresse e a tensão fazem parte da nossa vida e nenhuma tarefa eliminará as preocupações de uma pessoa responsável em seu dia-a-dia. Contudo, a vida de ninguém deve ser controlada por ataques de pânico. Com a ajuda de bons profissionais e com a sua persistência dedicada, você poderá romper este Ciclo de Pânico, aparentemente perpétuo, e voltar a ter uma vida positiva e ativa.

Agora você está informado/a sobre os mecanismos fisiológicos e psicológicos relacionados ao pânico. Será necessário, então, ajudá-lo a fortalecer algumas habilidades que ajudam a enfrentar esses ataques.

A primeira delas é a ESTRATÉGIA A.C.A.L.M.E.-S.E. . Veja o quadro 1.

Durante a leitura da ESTRATÉGIA A.C.A.L.M.E.-S.E., ao chegar no passo da respiração, respire de forma ofegante durante dois minutos, como você faria depois de uma longa corrida, para fazer um experimento importante.

Ao longo do exercício, preste atenção nas sensações que você está sentindo sucessivamente. Fique atento(a) aos pensamentos que vêem à sua cabeça depois do reconhecimento de cada nova sensação.

Verifique como são sensações semelhantes às que você teve quando em pânico. (ex.: taquicardia, suor nas mãos, tonteira, boca seca etc.). Veja como, primeiro, você pode, mesmo sem se dar conta, fazer com que seu corpo reaja de modo semelhante aos ataques. Mesmo sem perceber, numa situação de estresse ou preocupação, respiramos (suspiramos) profundamente. Isto pode, como vimos neste exercício, provocar sensações "estranhas" no nosso corpo (como essas que você acabou de sentir, semelhantes às de ansiedade). Assim, fica fácil interpretá-las (erradamente) como sinais de ataque cardíaco, perda de controle ou desmaio, por exemplo, e não apenas como (verdadeiramente) sinais de ansiedade decorrente de preocupações.

Em segundo lugar, constate como respirar dentro das mãos ajudou a reduzir dramaticamente a intensidade das suas sensações desconfortáveis. Este é um poder efetivo, rápido, portátil e seguro para você lidar com seus ataques. Você pode usá-lo em qualquer momento e em qualquer situação: no ônibus, no supermercado, num shopping, num túnel, caminhando etc. Melhor ainda, o ideal, em termos respiratórios, é você fazer sempre a respiração diafragmática.”

  • Fazer agora o exercício de Hiperventilação.

  • Depois de 2 minutos, interromper e respirar suavemente com as mãos envolvendo o nariz e a boca, durante 30 segundos.

Quadro 1. ESTRATÉGIA A.C.A.L.M.E.-S.E.

A chave para lidar com um estado de ansiedade éaceitá-lo totalmente. Permanecer no presente e aceitar a sua ansiedade fazem-na desaparecer. Para lidar com sucesso com sua ansiedade você pode utilizar a estratégia "A.C.A.L.M.E.-S.E.", de oito passos.

Aceite a sua ansiedade. Um dicionário define aceitar como dar “consentimento em receber”. Concorde em receber as suas sensações de ansiedade. Mesmo que lhe pareça absurdo no momento, aceite as sensações em seu corpo assim como você aceitaria em sua casa um visitante inesperado ou desconhecido ou uma dor incômoda. Substitua seu medo, raiva e rejeição por aceitação. Não lute contra as sensações. Resistindo você estará prolongando e intensificando o seu desconforto. Ao invés disso, flua com elas.

Contemple as coisas em sua volta. Não fique olhando para dentro de você, observando tudo e cada coisa que você sente. Deixe acontecer com o seu corpo o que ele quiser que aconteça, sem julgamento: nem bom nem mau. Olhe em volta de você, observando cada detalhe da situação em que você está. Descreva-os minuciosamente para você, como um meio de afastar-se de sua observação interna. Lembre-se: você não é sua ansiedade. Quanto mais você puder separar-se de sua experiência interna e ligar-se nos acontecimento externos, melhor você se sentirá. Esteja com ansiedade, mas não seja ela; seja apenas observador.

Aja com sua ansiedade. Aja como se você não estivesse ansioso(a), isto é, funcione com as suas sensações de ansiedade. Diminua o ritmo, a velocidade com que você faz as suas coisas, mas mantenha-se ativo(a)! Não se desespere, interrompendo tudo para fugir. Se você fugir, a sua ansiedade vai diminuir mas o seu medo vai aumentar: donde na próxima vez a sua ansiedade vai ser pior. Se você ficar onde está - e continuar fazendo as suas coisas bem devagar - tanto a sua ansiedade quanto o seu medo vão diminuir. Continue agindo, bem devagar !

Libere o ar de seus pulmões! Respire bem devagar, calmamente, inspirando pouco ar pelo nariz e expirando longa e suavemente pela boca. Conte até três, devagarinho, na inspiração, outra vez até três, prendendo um pouco a respiração e até seis, na expiração. Faça o ar ir para o seu abdômen, estufando-o ao inspirar e deixando-o encolher-se ao expirar. Não encha os pulmões. Ao exalar, não sopre: apenas deixe o ar sair lentamente por sua boca. Procure descobrir o ritmo ideal de sua respiração, neste estilo e nesse ritmo, e você descobrirá como isso é agradável.

Mantenha os passos anteriores. Repita cada um, passo a passo. Continue a: (1) aceitar sua ansiedade; (2) contemplar; (3) agir com ela e (4) respirar calma e suavemente até que ela diminua e atinja um nível confortável. E ela irá, se você continuar repetindo estes quatro passos: aceitar, contemplar, agir e respirar.

Examine seus pensamentos. Você talvez esteja antecipando coisas catastróficas. Você sabe que elas não acontecem. Você mesmo já passou por isso muitas vezes e sabe que nunca aconteceu nada do que você pensou que fosse acontecer. Examine o que você está dizendo para você mesmo(a) e reflita racionalmente para ver se o que você pensa é verdade ou não: você tem provas de que o seu pensamento é verdadeiro? Há outras maneiras de você entender o que está lhe acontecendo? Lembre-se: você está apenas ansioso(a): isto pode ser desagradável,mas não é perigoso. Você está pensando que está em perigo, mas você tem provas reais e definitivas disso?

Sorria, você conseguiu! Você merece todo o seu crédito e todo o seu reconhecimento. Você conseguiu, sozinho(a) e com seus próprios recursos, tranqüilizar-se e superar este momento. Não é uma vitória pois não havia um inimigo, apenas um visitante de hábitos estranhos que você passou a compreendê-lo e aceitá-lo melhor. Você agora saberá como lidar com visitantes estranhos.

Espere o futuro com aceitação. Livre-se do pensamento mágico de que você terá se livrado definitivamente de sua ansiedade, para sempre. Ela é necessária para você viver e continuar vivo(a). Em vez de se considerar livre dela, surpreenda-se pelo jeito como você a maneja, como você acabou de fazer agora. Esperando a ocorrência de ansiedade no futuro, você estará em uma boa posição para lidar com ela novamente.

© Bernard Rangé, 1992b.

Quadro 2. Instruções: Treino Respiratório e Respiração Diafragmática

  1. Colocar a mão um pouco acima do estômago para sentir o ar passar pelo diafragma e o abdômen expandir-se e encolher-se em cada respiração.

  2. Inspirar lentamente pelo nariz contando até 3, bem devagar.

  3. Prender a respiração, contando também até 3, bem devagar.

  4. Exalar lentamente o ar pela boca, contando até 6, bem devagar.

  5. Fazer com que o ar passe pelo diafragma estufando o abdômen, durante a inspiração.

  6. Fazer com que o ar que é exalado deixe o abdômen cada vez mais encolhido.

  7. Procure o ritmo ideal da sua respiração dentro deste estilo (variar a contagem para 4-4-8 ou 5-5-10, conforme seu conforto maior ou menor).

  • Faça exercícios de respiração diafragmática várias vezes em cada dia, durante 3 minutos cada vez. Aplique esta respiração em qualquer ocorrência de ansiedade.

Agora vamos analisar os pensamentos que você teve durante o exercício e compreender como eles podem ter causado suas sensações. Conforme a descrição do quadro 3, relacione no quadro 4 as sensações (S), pensamentos automáticos (PA) e emoções / comportamentos (EC) que você teve e verifique como cada um pode ter contribuído para as experiências que você teve, conforme sugerido no quadro 5.

Quadro 3: Estratégia S-PA-EC

  1. Identifique ou descreva para si mesmo cada sensação que sentiu durante o exercício de hiperventilação; ex.: taquicardia, dormências, tonteira etc.

  2. Identifique os pensamentos automáticos (PA) delas decorrentes; ex.: “lá vem de novo”, “vou passar mal”, “quero parar”, “quero fugir daqui” etc.

  3. Identifique as emoções (E) experimentadas ou comportamentos (C) intencionados; ex.: medo, “quero parar”.

  4. Identificar novas sensações decorrentes de E/C.

  5. Identifique os novos PA que foram sugindo e assim sucessivamente.

© Dattilio, 1994

Quadro 4: Sua Seqüência de Sensações no Exercício de Hiperventilação

Sensações

(S)

Pensamentos Automáticos

(PA)

Emoções / Comportamentos

(EC)

Quadro 5: Seqüência de Pânico de Carolina

Sensação

(S)

Pensamento

Automático

Emoção

Comportamento

Aumento “espontâneo” no ritmo cardíaco

"Lá vem de novo"

Preocupação

Aumento na dificuldade de respirar

"Estou piorando!"

Medo

Ondas de calor e sudorese

"Estou perdendo o controle!"

Choro, medo

Mãos tremendo e pernas bambas

"Vou desmaiar, com certeza!"

Vigilância

(Parte 1 de 5)

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