Riscos de contaminação ocasionados por acidentes detrabalho com material pérfuro-cortante entretrabalhadores de enfermagem

Riscos de contaminação ocasionados por acidentes detrabalho com material...

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Maria Helena Palucci Marziale1

Karina Yukari Namioka Nishimura2 Mônica Miguel Ferreira2

Marziale MHP, Nishimura KYN, Ferreira M. Riscos de contaminação ocasionados por acidentes de trabalho com material pérfuro-cortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem 2004 janeiro-fevereiro; 12(1):36-42.

Esta pesquisa teve por objetivo identificar dentre os trabalhadores de enfermagem, de quatro hospitais da região de

Ribeirão Preto-SP, aqueles que foram acometidos por acidente de trabalho com material pérfuro-cortante e encaminhados para avaliação a um serviço especializado no tratamento de doenças infecciosas, os que foram contaminados e as condutas adotadas diante do acidente. Trata-se de pesquisa de campo de caráter descritivo. A amostra foi constituída por 30 sujeitos e os dados foram coletados através de consulta ao prontuário médico dos trabalhadores. Os resultados revelaram que nenhum dos trabalhadores foi contaminado pelos vírus HBV, HCV, ou HIV, no entanto, foi observado que apenas 23,3% dos trabalhadores compareceram a todos os retornos agendados para verificação de possível soroconversão. Em relação às condutas tomadas diante do acidente, foi indicado o uso de quimioprofilaxia em 76,67% dos casos, exames sorológicos em 100% dos casos e imunização contra hepatite em 9,9% dos casos. Devido à grande ocorrência de acidentes percutâneos, segundo estimativas oficiais de outros países, concluímos que maior atenção deva ser direcionada para a prevenção desses acidentes, bem como ao rigor do seguimento pós-exposição ocupacional.

DESCRITORES: acidentes de trabalho; riscos ocupacionais; enfermagem

This study aimed to identify, among nursing workers from four hospitals in the region of Ribeirão Preto-SP, Brazil, victims of occupational accidents with cutting and piercing material, who were sent for evaluation at a service specialized in treating infectious diseases, individuals who were contaminated and the conduct adopted as a result of the accidents. This is a descriptive field research. The sample consisted of 30 subjects and data were collected by consulting the workers’ medical files. The results showed that none of the workers had been contaminated by HBV, HCV or HIV. However, it was observed that only 23.3% of them had kept all the scheduled appointments in order to verify a possible serum conversion. Concerning the conducts adopted as a result of the accident, the use of chemoprophylaxis was recommended in 76.67% of the cases, serological tests in 100% and immunization against Hepatitis in 9.9%. Due to the high occurrence of percutaneous accidents, according to official estimates from other countries, it was concluded that more attention must be given to the prevention of these accidents, as well as to the strict follow-up of workers after occupational exposure.

DESCRIPTORS: accidents, occupational; occupational risks; nursing

Esta investigación tuvo como objetivo identificar entre los trabajadores de enfermería de cuatro hospitales de la región de Ribeirão Preto, SP, Brasil, afectados por accidente de trabajo con material corto-punzante y remitidos para evaluación a un servicio especializado en el tratamiento de enfermedades infecciosas, los que fueron contaminados y las conductas adoptadas con relación al accidente. Se trata de una investigación de campo de carácter descriptivo. La muestra estuvo constituida por 30 sujetos y los datos fueron recolectados a través de consulta al informe médico de los trabajadores. Los resultados revelaron que ninguno de los trabajadores fue contaminado por el virus HBV, HCV o HIV, además se observó que solamente 23,3% de los trabajadores comparecieron a todos los controles programados para la verificación de una posible suero-conversión. En relación con las conductas tomadas con relación al accidente se indicó el uso de la quimioprofilaxia en 76.67% de los casos, exámenes serológicos en 100% de los casos e inmunización para Hepatitis en solamente 9.9% de los casos. Debido a la gran ocurrencia de accidentes percutáneos según estimativas oficiales de otros países, concluimos que una mayor atención debe ser dada a la prevención de accidentes así como también al rigor del seguimiento después de la exposición ocupacional.

DESCRIPTORES: accidentes de trabajo; riesgos laborales; enfermería

1 Enfermeira, Professor Livre-Docente, e-mail: marziale@eerp.usp.br; 2 Graduandas em Enfermagem, Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem

Artigo OriginalRev Latino-am Enfermagem 2004 janeiro-fevereiro; 12(1):36-42 w.eerp.usp.br/rlaenf

37 INTRODUÇÃO

Os acidentes de trabalho ocasionados por material pérfuro-cortante entre trabalhadores de enfermagem são freqüentes, devido ao número elevado de manipulação, principalmente de agulhas, e representam prejuízos aos trabalhadores e às instituições. Tais acidentes podem oferecer riscos à saúde física e mental dos trabalhadores.

Quando o acidente ocorre com material contaminado pode acarretar doenças como a Hepatite B (transmitida pelo vírus HBV), Hepatite C (transmitida pelo vírus HCV) e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – AIDS (transmitida pelo vírus HIV). O acidente pode ter repercussões psicossociais, levando a mudanças nas relações sociais, familiares e de trabalho. As reações psicossomáticas pós-profilaxia, utilizada devido à exposição ocupacional e ao impacto emocional, também são aspectos preocupantes(1).

A conseqüência da exposição ocupacional aos patógenos transmitidos pelo sangue não está somente relacionada à infecção. A cada ano milhares de trabalhadores de saúde são afetados por trauma psicológico que perduram durante os meses de espera dos resultados dos exames sorológicos. Dentre outras conseqüências, estão ainda as alterações das práticas sexuais, os efeitos colaterais das drogas profiláticas e a perda do emprego(2).

Os acidentes ocasionados por picada de agulhas são responsáveis por 80 a 90% das transmissões de doenças infecciosas entre trabalhadores de saúde. O risco de transmissão de infecção, através de uma agulha contaminada, é de um em três para Hepatite B, um em trinta para Hepatite C e um em trezentos para HIV(3).

Os trabalhadores de enfermagem suprem a maior porção do cuidado direto ao paciente 24 horas por dia nos hospitais e, conseqüentemente, possuem constante risco para ferimentos ocupacionais, assim poderão ser os trabalhadores mais afetados pelos vírus HBV, HCV e HIV(4).

Entre 1985 e 1998, o CENTERS FOR DISEASE

CONTROL AND PREVENTION(5) registrou 5 casos confirmados de infecção pelo HIV e 136 casos de possíveis contaminações entre trabalhadores de enfermagem e técnicos de laboratórios, nos Estados Unidos, onde os acidentes percutâneos foram associados a 89% dos acidentes registrados.

A referida instituição estimou que cerca de 800 trabalhadores de saúde tornavam-se anualmente infectados pelo vírus HBV, e que, de 2 a 4% das infecções pelo HCV, ocorridas naquele país em 1995, ocorreram em ambiente hospitalar pós-exposição a sangue.

O risco de infecção pelo HBV, adquiridos ocupacionalmente, representa 4% do total de casos, demonstrando ser a aquisição ocupacional da infecção por Hepatite B um modo importante de transmissão, dada a partir de fluidos corpóreos, principalmente o sangue, sendo que a transmissão do HIV e do HBV pode ocorrer através de um único episódio de exposição(6).

Após exposição ocupacional com presença de sangue, ou fluídos corpóreos, uma criteriosa avaliação deve ser feita quanto ao risco de transmissão do vírus HIV, em função do tipo de acidente ocorrido e em relação à toxicidade das medicações usadas na quimioprofilaxia. O acompanhamento sorológico anti-HIV deverá ser realizado no momento do acidente, sendo repetido após seis e doze semanas e pelo menos seis meses depois. O teste deverá ser feito após aconselhamento pré- e pósteste sorológico(1).

A soroconversão é alta para exposições envolvendo ferimentos profundos, sangue visível sobre o objeto que causou o ferimento, agulha que havia estado na veia, ou artéria, do paciente fonte, ou morte por AIDS de paciente fonte(7).

Em relação à quimioprofilaxia para Hepatite B, uma das principais medidas de prevenção é a vacinação pré-exposição, indicada a todos os profissionais da área da saúde. A vacinação segue um esquema de três doses, administradas no intervalo de zero, um e seis meses. Quando da ocorrência de exposição ocupacional, maior eficácia na profilaxia é obtida com o uso precoce da Gamaglobulina Hiperimune (HBIG), dentro do período de 24 a 48 horas após o acidente(1).

Quanto à Hepatite C, não existe nenhuma medida específica para a redução do risco de transmissão pósexposição ao vírus HCV. Nenhuma imunoprofilaxia tem provado ser efetiva para pré- ou pós-exposição ao referido vírus, como prevenção à infecção(8).

Segundo os referidos autores, após exposição ocupacional as recomendações são limitadas ao seguimento de testes para níveis de Alanine Aminotransferase, soroconversão de anti-HCV e tratamento antiviral prematuro para prevenir cronicidade. O risco de infecção por HCV entre trabalhadores

Rev Latino-am Enfermagem 2004 janeiro-fevereiro; 12(1):36-42www.eerp.usp.br/rlaenfRiscos de contaminação... Marziale MHP, Nishimura KYN, Ferreira M.

de saúde, que têm exposição ocupacional à sangue HCV positivo, é baixo, e o índice de soroconversão é entre 0 e 2,8%, assim, recomendam que o seguimento de trabalhadores de saúde pós-exposição ocupacional deva ser baseado em testes periódicos de Alanine Aminotransferase (atividade) e anti-HCV, durante um período de 6 meses, sempre comparando dados de evidência clínica e/ou bioquímica de Hepatite(8).

A contaminação por patógenos veiculados pelo sangue pós-exposição ocupacional entre trabalhadores de enfermagem tem sido descrita na literatura por vários autores(9-13). Em estudo sobre acidentes com material pérfuro-cortante entre trabalhadores de enfermagem de hospitais da região de Ribeirão Preto-SP, encontramos que, dentre 1662 trabalhadores de enfermagem, lotados em quatro hospitais da região, foram registrados 46 acidentes com material pérfuro-cortante durante o ano de 1999. Tais resultados nos motivaram a prosseguir com as investigações em relação aos fatores associados à ocorrência dos acidentes, à possível subnotificação, às conseqüências do acidente para os trabalhadores e à busca de medidas para prevenir a ocorrência dos acidentes(14).

- Identificar dentre os trabalhadores de enfermagem, acometidos por inoculações acidentais, durante o ano de 1999, em quatro hospitais da região de Ribeirão Preto- SP, aqueles contaminados pelos vírus HBV, HCV e HIV e as conseqüências de tais contaminações. - Identificar as condutas adotadas frente à exposição ocupacional ao sangue e fluídos corpóreos dos trabalhadores de enfermagem.

Trata-se de pesquisa de campo de caráter descritivo e análise quantitativa dos dados.

Local

O estudo foi realizado junto a um Serviço Especializado (SE) no tratamento de doenças infecciosas de um Hospital Universitário do interior do Estado de São Paulo.

População/Amostra

A população foi composta pelos trabalhadores de enfermagem, acometidos por inoculações acidentais, durante o ano de 1999, em quatro hospitais da região de Ribeirão Preto-SP, os quais tiveram os acidentes notificados através da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e foram encaminhados para atendimento no SE, para o atendimento pós-exposição ocupacional com contato com sangue, ou fluídos corpóreos, veiculadores de infecções.

Conforme resultados obtidos em estudo realizado com a mesma população(14), foram registrados, durante o ano de 1999, e encaminhados ao SE 46 trabalhadores acidentados, no entanto, através de levantamento documental no Banco de Registro do Hospital, foi constatado o atendimento junto ao SE de apenas 30 dos trabalhadores (65%), os quais constituíram a amostra estudada.

Coleta de dados

Os dados foram coletados no primeiro semestre de 2001, através de observação documental junto à CAT e dos prontuários médicos dos trabalhadores, sendo identificados os dados gerais do acidente, as causas e as providências realizadas.

Aspectos éticos

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário, sendo consideradas todas as exigências contidas na resolução 196, que normatiza as pesquisas que envolvem seres humanos em nosso país(15).

A Tabela 1 mostra os registros de encaminhamento de trabalhadores de enfermagem, acometidos por inoculações acidentais nos hospitais, e o número de trabalhadores atendidos efetivamente no SE, em 1999.

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Tabela1 - Número de trabalhadores de enfermagem, acometidos por inoculações acidentais com material pérfuro-cortante, em quatro hospitais da região de Ribeirão Preto-SP segundo o registro de atendimento no Serviço Especializado (SE). Ribeirão Preto-SP, 1999

Local de trabalho Trabalhadores acidentados e encaminhados ao SE n

n%
Trabalhadores
n%
Hospital Universitário de Ribeirão Preto 2020 10 0 0
Hospital privado de Ribeirão Preto 0704 57,14 03 42,86
Hospital filantrópico de Batatais 1004 40,0 06 60,0
Hospital filantrópico de Sertãozinho 09 02 2,207 7,78
Total 46 30 65,216 34,78

Trabalhadores atendidos no SE sem registro de atendimento

Os dados obtidos na Tabela 1 indicam a existência de fatores que não possibilitaram o comparecimento dos trabalhadores para avaliação no SE pós-inoculações acidentais e, conseqüentemente, sobre as condutas adotadas. A distância de cerca de 80 km entre as cidades e o SE, os horários de trabalho e a falta de conhecimento de alguns trabalhadores sobre os potenciais riscos de acidentes podem figurar entre os fatores.

Dos 30 trabalhadores que possuíam registro de atendimento, 27 (90%) eram do sexo feminino e 03 (10%) do sexo masculino. Quanto ao local de trabalho 20 (6,6%) sujeitos trabalhavam no Hospital Universitário, 04 (13,3%) trabalhavam em um Hospital de Ribeirão Preto, 04 (13,3%) trabalhavam em um Hospital de Batatais e 02 (6,68%) trabalhavam em Hospital de Sertãozinho. Desses 30 acidentados, 2 (73,3%) trabalhavam em turnos alternantes entre os períodos manhã, tarde e noite, 08 (26,6%) trabalhadores atuavam em turnos fixos, sendo

04 (13,3%) lotados no turno da manhã, 02 (6,6%) no turno da tarde e 02 (6,6%) no turno da noite.

Dentre os acidentados 09 (30%) atuavam em unidade de internação de Clínica Médico-Cirúrgica, 05 (16,6%) em Clínica Médica, 03 (10%) em Unidade de Doenças Transmissíveis, 03 (10%) no Centro Cirúrgico, 02 (6,6%) em Clínica Cirúrgica, 02 (6,6%) em Pediatria, 02 (6,6%) em Neurologia e 01 (3,3%) trabalhador respectivamente nas unidades de Terapia Intensiva, Terapia Renal, Moléstias Infecciosas e Ginecologia.

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