Piaget e Vigotsky

Piaget e Vigotsky

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Gladis Maia gladis.maia@terra.com.br

FACISA – Coordenação de Pós-graduação – Especialização em Psicopedagogia Institucional

1. SINOPSE

O presente artigo, em sua primeira parte, delineia o perfil da escola ideal, explicitando o seu papel ao longo da história e reverenciando como especificidade a sua tonalidade democrática, aberta a todos os segmentos da sociedade, e viva, em constante construção. Sintetiza também a abordagem neopiagetina do processamento de informações, nas suas perspectivas cognitiva e contextual. Na segunda parte, tentamos resumir a vida e a obra de Jean Piaget e de Lev Vygostsky, respectivamente, levantando os principais aspectos de seus estudos, identificando as suas constribuições na construção do sujeito cognoscente. No item três, assinalamos as diversidades mais marcantes, e as convergências dos pressupostos teóricos, nas abordagens destes pesquisadores, apontando algumas saídas pedagógicas para o planejamento de ensino e a práxis no dia a dia na escola. E, por último, abordamos as conclusões a que chegamos através da retomada da bibliografia destes dois autores, com a finalidade de elaborar este estudo.

Sujeito - construção do conhecimento – desenvolvimento - interação social linguagem – pensamento – inteligência

1. O PERFILDA ESCOLA IDEAL

“Se sou, na verdade, social e politicamente responsável, não posso me acomodar às estruturas injustas da sociedade. Não posso, traindo a vida, bendizê-la. ”

Paulo Freire. Política e Educação. São Paulo, Cortez, 1993. p.8. .

criança socialize-se, eduque-se, humanize-se

Com a responsabilidade de fazer a mediação entre o indivíduo e a sociedade, a escola apresenta-se, nos dias de hoje, como uma das mais importantes instituições, por ter na sua práxis a responsabilidade de fazer a mediação entre o indivíduo e a sociedade. Ao transmitir, através da cultura, modelos sociais de comportamento, e valores morais, a escola permite que a

Convém lembrar que essa instituição nem sempre existiu e também não foi fruto de uma descoberta, mas uma invenção social do homem! Portanto, deve servir a ele, interessar-se por ele, ajudar na sua construção.

Há tempos atrás o saber era transmitido de outra forma, cabia aos mais velhos ensinarem aos mais moços o que sabiam fazer, o meio social era o contexto educativo. Foi na Idade Média que a educação tornou-se produto da escola. Com esta finalidade, pessoas especializaram-se na tarefa de transmitir o saber, em espaços específicos, reservados para essa atividade destinada às elites. O ensino serviu aos nobres e depois à burguesia e, com raras exceções, continua, até os dias de hoje, servindo às classes estabelecidas no alto da pirâmide social.

Nos seus primórdios, o desempenho principal da escola era o ensino das atividades executadas pelos grupos dominantes da sociedade. Isso fez dela um lugar de aprendizado: da guerra, das atividades cavalheirescas, do saber intelectual, humanístico ou religioso.

As revoluções do século XIX trouxeram transformações à escola, sendo a principal delas a tendência à universalização. O estudo deixa de ser privilégio da aristocracia e da igreja. A escola muda para atender a demanda que a Revolução Industrial trouxe no seu bojo, ao sofisticar o trabalho com a implantação de máquinas, exigindo do trabalhador o aprendizado da tecnologia. A escola ganha então importância com suas novas funções no preparo da mão-de-obra.

A luta pela democratização da escola empreendida pelas classes trabalhadoras - até então alijadas desta instituição - foi um outro fator gerador de mudanças. A classe trabalhadora organizada passa a exigir o direito de ter seus filhos na escola, o direito à cultura e ao conhecimento dominantes, não deixando à escola outra alternativa a não ser a de abrir suas portas às classes sociais menos privilegiadas.

Estes fatores contribuíram para que a escola adquirisse as características que possui atualmente. Tornou-se uma instituição da sociedade, que trabalha a serviço desta mesma sociedade e por ela é sustentada, com a finalidade de preparar as crianças para viver no mundo adulto. Na escola a criança aprende a trabalhar, a assimilar as regras sociais, os conhecimentos básicos, os valores morais coletivos, os modelos de comportamento considerados adequados pela sociedade. A escola é a forma moderna de operar esta transmissão.

Na verdade, a escola como instituição social estabelece um vínculo ambíguo com a sociedade. É parte dela e, por isso, trabalha para ela formando os indivíduos necessários à sua manutenção. No entanto é também tarefa desta mesma escola zelar pelo desenvolvimento da sociedade. Para transfomar um novo mundo. Diante deste desafio, ela não pode mais ficar presa ao passado, à tradição. E isto abre um espaço para o surgimento de uma escola crítica e inovadora: transformadora, que, para tanto, precisa conhecer a sociedade, os seus modelos e os seus valores.

Ao partirmos das diversidades culturais presentes na sociedade, a escola – a pública, mais especialmente – precisa estar pronta para dar conta de qualquer criança ou jovem, independente de sua condição de classe, etnia, raça, religião. Não há mais como se tolerar a interpretação errônea, dada muitas vezes, nas salas de aula – porque leva facilmente à discriminação – quando o professor trata como deficiência do aluno as suas diferenças culturais. Esta falta de tato implica na despotencialização da criança.

É necessário que a escola realize uma proposta pedagógica mais comprometida, que dê vez e voz também às crianças das classes populares, que muitas vezes se entediam com as tarefas que lhe são impostas na sala de aula. A escola precisa estar mais atenta para trabalhar em consonância com os conhecimentos, valores, maneiras de ser e estar no mundo que estas crianças constróem no seu cotidiano. Elas precisam contar a sua história no meio escolar, para poderem acreditar na luta por uma sociedade mais igualitária.

A escola tem que ouvir e compartilhar das múltiplas vozes que se cruzam na sala de aula, advindas de uma cultura híbrida, constituída das interações realizadas pelos alunos em diferentes espaços e tempos, onde eles vivem, trabalham, brincam, estudam. Uma escuta sensível para a história das crianças que estão na escola e ao mesmo tempo já enfrentam o trabalho, na luta pela sobrevivência, por exemplo, pode construir um outro olhar para esta realidade que, compreendida, pode ser trazida para a sala de aula enriquecendo o ambiente escolar.

Os novos tempos exigem uma escola democrática, voltada para a formação de sujeitos cidadãos. Uma escola competente na construção do conhecimento, enquanto processo que se constrói e reconstrói permanentemente, fruto da ação individual e interativa dos sujeitos com o outro. Um conhecimento socialmente útil, que respeita as questões culturais, os saberes e as experiências das comunidades, criando condições para a produção e o acesso aos novos saberes, e ao conhecimento socialmente produzido e sistematizado, contraposto à concepção de conhecimento pronto e acabado, que pode ser guardado, transmitido e acumulado, bancário, no dizer de Paulo Freire.

garantindo a participação de toda a comunidade escolarUma escola que

Os tempos escolares atuais recheados de evasão e repetência gritam por uma nova escola. Uma escola que propicie práticas coletivas de discussão, centralize o poder nas definições do seu projeto escolar. Uma escola que lute pela superação de todo tipo de opressão, discriminação, exploração. Uma escola que expanda os valores éticos de liberdade, respeito à diferença e à pessoa humana, solidariedade e preservação do meio ambiente. Do ponto de vista prático há um consenso, quase que geral, de que a escola não pode mais fechar os olhos diante dos dramas de nossa realidade: a devastação ambiental, o racismo, a intolerância, as drogas, a violência, a incidência de doenças sexualmente transmissíveis, a gravidez precoce ...

e responsável

A realidade das nossas escolas hoje em dia deixa ao século XXI o desafio de colocar a pedagogia a serviço das metas educacionais, visando o equilíbrio entre o sujeito cognoscente e o sujeito social, consciente, equilibrado

A revisão dos projetos pedagógicos e as reformas curriculares legitimamse pela busca de uma nova relação entre o homem e o conhecimento, rumo à democratização do saber e sua transformação numa bússola capaz de nortear a formação de posturas críticas e as tomadas de decisão. Seja no plano teórico, seja na dimensão prática. A educação do futuro clama pela aproximação entre o ser e o saber, pelo rompimento dos muros que separam a escola do mundo. O desafio que hoje se coloca, ultrapassa a esfera da simples aquisição de conhecimento para dar sentido e aplicabilidade ao que é aprendido.

E para que a escola esteja cumprindo o papel que lhe é destinado, a cada época, é necessário que ela própria se constitua em um espaço permanen- temente aberto à formação, especialização e atualização dos seus educadores, visando a maior qualificação da ação pedagógica. Os educadores devem sempre estar atentos a tudo que surge de novo nas áreas do desenvolvimento psicológico, do desenvolvimento cognitivo, do desenvolvimento da inteligência e do pensamento.

E neste sentido, a mais nova abordagem, que está sendo construída ainda, é a dos psicólogos do desenvolvimento neopiagetianos , que ampliaram e modificaram a teoria de Piaget integrando-a com a abordagem do processamento de informações , que concentra-se nas diferenças individuais quanto ao modo pelo qual os indivíduos usam sua inteligência, buscando descobrir os processos envolvidos na percepção e no manuseio da informação. Analisa os processos mentais subjacentes ao comportamento inteligente: a atenção, a memória e a resolução de problemas. Seu estudo básico refere-se ao processo de aquisição, transformação e uso das informações sensoriais por meio da manipulação ativa de símbolos ou imagens mentais.

Segundo Papalia & Olds (2000, p. 48 –54; 126 -139), os neopiagetianos criticam Piaget por acharem que seus estudos focalizam basicamente a criança mediana, dando pouca importância às diferenças individuais ou as maneiras pelas quais a cultura , a educação e a motivação afetam o seu desempenho. Combatem-no também por considerarem sua abordagem sobre o desenvolvimento emocional e da personalidade superficiais; e suas pesquisas pouco rigorosas, por serem baseadas em observações informais.

Embora a abordagem neopiagetinana ainda esteja sendo desenvolvida por psicólogos contemporâneos - que questionam a idéia dos estágios de desenvolvimento cognitivo claramente demarcados, vendo-o como mais gradual e contínuo - o modelo de um renomado neopiagetiano, Robbie Case, mais especialmente, tenta explicar os processos pelos quais as mudanças qualitativas ocorrem na cognição e os limites da aprendizagem em qualquer estágio. Case delineou uma série de estágios semelhantes aos de Piaget, sob a perspectiva cognitiva, mas sua teoria se estende também ao campo emocional e às deficiências de aprendizagem. Sua ênfase na eficiência do pro- cessamento, ajuda a explicar as diferenças individuais na capacidade cognitiva.

Já abordagem neopiagetina sob a perspectiva contextual pressupõe que o desenvolvimento humano só pode ser estudado e compreendido em seu contexto social, porque considera que o indivíduo é uma parte inseparável do ambiente com quem interage. O indivíduo em desenvolvimento atua e muda o ambiente e este em constante transformação atua mudando o indivíduo. Esta ênfase no contexto do desenvolvimento contrasta com os teóricos do processamento de informações. Os contextualistas enfatizam as diferenças individuais. Segundo eles, os indivíduos estabelecem objetivos dentro de um determinado contexto e da forma como o percebem, e então selecionam novos objetivos dentro de um novo contexto que procuram, ou que se apresenta. Nesta perspectiva, o sucesso depende da apropriação do comportamento para cada contexto selecionado.

A perspectiva contextual e a teoria de Vygotsky, em particular, sugere que o desenvolvimento das crianças de uma cultura ou de um grupo dentro de uma cultura pode não ser um norma apropriada para crianças de outras sociedades ou grupos culturais.

encerra em si mesmo

Considerando-se isso, do ponto de vista teórico, os educadores não podem mais desconsiderar a contribuição de importantes teorias que dão conta da função do ambiente social no desenvolvimento e na aprendizagem, como é o caso do interacionismo construtivista de Piaget, para quem a aprendizagem depende de um processo pessoal e ativo de constante abertura para o novo em um contexto de significados – razão pela qual o ensino não se

Além dele, a abordagem sociointeracionista de Vygotsky, que prestou enorme contribuição às concepções de intervenção escolar, pela ênfase no poder das mediações entre sujeito e o objeto de conhecimento, mecanismo essencial para o descobrimento do mundo e construção de si mesmo.

Embora nenhum dos dois pesquisadores tenha pretendido elaborar uma pedagogia propriamente dita, ambos deixaram contribuições incalculáveis para a Educação. Os dois cientistas vem influenciando o fazer pedagógico das salas de aulas no ensino brasileiro, e conseqüentemente, às mudanças pedagógicas na escolas, tendo em vista a nova Lei de Diretrizes e Bases, em vigor desde 1996.

Piaget e Vygotsky, comparando suas teorias, destacando seus conceitos e os
educadoresQue escola é essa que estamos apresentando às crianças que
começarmos a nos questionar com maior freqüência sobre o assunto

Ao final do prelúdio deste artigo, que pretende analisar as propostas de princípios que os determinaram, bem como suas convergências e divergências, fica esta interrogação difícil de ser engolida por nós, que nos dizemos - em sua essência ativas e curiosas - quando chegam à sala de aula perdem a vontade aprender ? Esperamos que este artigo sirva de inspiração para

2. CONTRIBUIÇÕES DE PIAGET E VIGOTKSKY NA CONSTRUÇÃO DO SUJEITO COGNOSCENTE

2.1.O LEGADO PIAGETIANO

de morreu aos 80 anos de idade, deixando publicada uma vasta obra. Ainda

Jean Piaget nasceu em uma família rica e culta, em 1896, na Suíça, onadolescente, iniciou suas leituras nas áreas de Filosofia, Lógica e Religião. Biólogo de formação, estudou filosofia e doutorou-se em Ciências Naturais aos 2 anos. Estudou Filosofia com Breuler e trabalhou nos laboratórios da G. E. Lipps e Wreschner com Psicologia Experimental, em Zurich.

Permaneceu dois anos na Sorbone, em Paris, onde estudou com

Lalande e mais tarde veio a lecionar Psicologia da Criança. Lá também trabalhou na padronização de testes de inteligência, com Binet e Simon. Insatisfeito com este tipo de mensuração, criou o Método Clínico, inspirado em dois outros métodos, o Experimental e o de Interrogação Clínica, largamente utilizados à época, especialmente por Freud e Jung.

Piaget foi professor titular de Filosofia na Universidade de Neuchâtel, na

Suíça, onde lecionou também Psicologia e Sociologia. Na Universidade de Genebra – onde foi diretor do Departamento Internacional da Educação e do Laboratório de Psicologia Experimental - foi professor de História do Pensamento Científico e de Sociologia. Em 1936, Piaget foi condecorado, pela Universidade de Harvard, com o título de Doutor Honoris Causa. Ainda foi presidente da Sociedade Suíça de Psicologia e professor catedrático de Psicologia e Sociologia da universidade de Lausane.

explicar a gênese do conhecimento

A obra de Piaget explicita o processo de desenvolvimento do pensamento atribuindo uma importância capital à estruturação do pensamento, à linguagem e à interação entre as pessoas. Constrói o modelo psicogenético de estruturação do pensamento, focalizando o trabalho na ação e manipulação dos objetos que passam a constituir, juntamente com a maturação biológica, os fatores essenciais na estruturação do pensamento. Piaget ao teorizar sobre as estruturas cognitivas para a dimensão lógico-formal, desenvolve uma visão original através do estudo do desenvolvimento cognitivo da criança, para

O trabalho de Piaget se desenvolve numa época em que a Psicologia se dividia basicamente em três correntes: o behaviorismo, a Gestalt e a Psicanálise. A ciência psicológica tinha como objeto de estudo um sujeito cindido em material e espiritual - e, conseqüentemente - uma comunidade científica dividida, quando ele realiza suas primeiras pesquisas em psicologia.

Jean Piaget deixa transparecer, nos princípios básicos que orientam seus estudos, a influência de sua formação como biólogo. Na sua teoria está implícita a idéia de uma espécie de estrutura, semelhante às estruturas específicas para cada função do organismo, que seria responsável pelo ato de conhecer. Piaget acredita ainda que estas estruturas não aparecem prontas, possuindo uma gênese que justificaria as diferenças entre a lógica infantil e a adulta. Ele postula que a ação da criança, a partir dos reflexos biológicos que se transformam em esquemas motores, constrói, paulatinamente, suas estruturas cognitivas através dos estágios seqüenciais do desenvolvimento cognitivo.

educação; e o fator de equilibração das ações

Piaget descreve quatro fatores como sendo os responsáveis pela psicogênese do intelecto infantil: o fator biológico, particularmente o crescimento orgânico e a maturação do sistema nervoso; o exercício e a experiência física, adquiridos na ação empreendida sobre os objetos; as intera- ções e transmissões sociais, que se dão basicamente pela linguagem e pela

Ao trabalhar por mais de 50 anos com o psiquismo infantil, Piaget descobriu que cada indivíduo constrói o seu próprio modelo de mundo, através do processo de desenvolvimento, que se concretiza pela ação do sujeito e pela formação de uma estrutura interna, em contínua expansão. Para ele, a criança, desde o nascimento, exerce o controle sobre a obtenção e organização de sua experiência do mundo exterior, mesmo que inicialmente apenas em forma de exploração do mundo; só mais tarde estas ações passarão - aos poucos - a integrar os esquemas psíquicos ou modelos elaborados por ela. Estes esquemas simples – tais como o reflexo de sucção – vão se organizando e integrando-se a outros, e formando esquemas complexos, resultando numa série de esquemas integrados, que através da interação com o ambiente promovem o desenvolvimento das estruturas psicológicas.

ocorrendo simultaneamente, o sujeito está adaptado, ou seja, em equilíbrio

Baseado na biologia, Piaget explica esta interação do homem com o meio ambiente através dos conceitos de assimilação, acomodação e adaptação. Entendendo : assimilação, como a incorporação de um novo objeto ou idéia ao esquema que a criança já possui a respeito de algo; acomodação , como a modificação necessária dos esquemas adquiridos anteriormente pelo indivíduo, no caso a criança, para que ela possa lidar com o ambiente, adaptando-se à nova situação; e , por último, do equilíbrio entre estes dois processos, surge uma organização mental e uma adequação ao mundo , ou seja, a adaptação. Quando a assimilação e a acomodação estão em harmonia,

O desenvolvimento cognitivo processa-se através de todas as atividades infantis, controlado por esses fatores. Desde o início da vida portanto, construímos em nossa mente uma espécie de modelo interior do mundo que nos rodeia, que vamos construindo, completando, organizando à medida que amadurecemos. Para Piaget, o desenvolvimento cognitivo constitui-se num processo social. A cooperação , como ele mesmo grafa, separadamente, através da interação com outras pessoas, no convívio social, durante o processo de desenvolvimento, tem um papel relevante, que influencia significativamente a visão do mundo do sujeito, permitindo-lhe evoluir de uma perspectiva subjetivista para a objetividade.

A teoria do desenvolvimento da inteligência humana de Piaget - baseada na epistemologia genética - postula que todas as crianças passam por quatro estágios de estruturação do pensamento, que vai se tornando, a medida que o tempo passa, cada vez mais complexo: sensório-motor ( de 0 a 2 anos aproximadamente); pré-operatório ( de 2 a 7 anos aproximadamente); estágio das operações concretas ( de 7 a 9/12 anos aproximadamente) ; e lógico-formal (a partir de 12 anos aproximadamente).

O primeiro estágio denomina-se sensório-motor porque “à falta de

Entre um estágio e outro existe um intermediário, onde convivem - em estado de desequilíbrio - as concepções do nível anterior ou do posterior. Durante o desenrolar dos estágios, apesar do caráter global do desenvolvimento, distingue-se certas funções diferenciadas. A primeira, designada como: funções de conhecimento - responsável pelo pensamento lógico - que vai dos reflexos ao pensamento operatório - e pela organização da realidade , estendendo-se da fase de indiferenciação entre o eu e o mundo até a construção de conceitos. A segunda denominada : funções de representação, que serve para representar objetos, acontecimentos, pessoas, através de um significante (palavra, gesto, desenho, etc.). E por último, as funções afetivas, analisadas do ponto de vista da relação com o outro, distinguindo etapas que vão desde a anomia (ausência de regras morais) , passam pela heteronomia (regras impostas pelo outro) e atingem a autonomia moral. função simbólica o bebê ainda não apresenta pensamento nem afetividade ligados a representações, que permitam evocar pessoas ou objetos na ausência deles.”(Piaget e Inhleder, 1986, p. 1). Por isto mesmo, no início do desenvolvimento, a inteligência se desenvolve de uma forma prática. A criança, através da percepção e dos movimentos, conquista todo o universo que a cerca. Nessa fase o conhecimento se dá pelo contato físico dela com o objeto. Centrada em si mesma vê o mundo a partir de sua própria perspectiva e não imagina que haja outros pontos de vista possíveis.

No final do estágio, ou início do seguinte, ela já começa a voltar-se para a realidade exterior, indo do subjetivo para o objetivo, sendo capaz de usar um instrumento como meio para atingir um objeto. A principal característica do nível sensório-motor é o desenvolvimento de permanência do objeto . É nele que a criança elabora o conjunto das subestruturas cognitivas que deverão orientar as construções perceptivas e intelectuais posteriores.

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