Educação fisica - os motivos dessa escolha profissional

Educação fisica - os motivos dessa escolha profissional

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REVISTA DE EDUCAÇÃO FÍSICA - Nº 131 - AGOSTO DE 2005 - PÁG.

Nº 131 AGOSTO DE 2005

Miguel Posso Coutinho1, 2, Fabio Alves Machado3 - Sgt Ex, Leandro Kegler Nardes3

1Universidade Estácio de Sá (UNESA) - RJ - Brasil 2Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) - RJ - Brasil 3Diretoria de Pesquisa e Estudos de Pessoal (DPEP) - RJ - Brasil

Resumo

A escolha da profissão é um dos maiores desafios com o qual nos defrontamos na vida devido à importância de que se reveste e das dificuldades que enfrentamos. Além disso, nem sempre estamos preparados para realizar essa escolha. Uma boa escolha profissional é valiosa tanto para o indivíduo, quanto para a comunidade em que o mesmo está inserido, pois é através da profissão que desempenhamos uma função social. Os objetivos deste estudo visam identificar que motivos levaram jovens universitários a escolher a Educação Física como profissão, bem com verificar se essa escolha está ligada a situações de escape. Participaram 449 discentes, recém ingressos no Curso de Educação Física de quatro Universidades privadas da cidade do Rio de Janeiro. Os discentes, todos voluntários, foram submetidos a um questionário, previamente validado, com perguntas objetivas e subjetivas, assistidos e orientados pelo pesquisador. Os dados foram tratados e analisados no software Graphpad Instat, utilizando os testes Qui-quadrado com correção de Yates e o teste exato de Fisher para verificar se existe associação entre gênero sexual e turno cursado, sendo considerado significativo quando apresentaram p = 0,05. A escolha da Educação Física como profissão, predominantemente, não está ligada a situações de escape, sendo que a maioria absoluta dos indivíduos que escolhe esta carreira, o faz porque realmente deseja trabalhar nesta área. Em contrapartida, os indivíduos que ingressam no curso de Educação Física não têm a menor idéia do que é a profissão e qual sua importância na sociedade, realizando, portanto, a escolha sem informação.

Palavras-chave: Escolha Profissional, Profissão, Escolha, Educação Física.

_ Recebido em 25/03/2004. Aceito em 1/05/2005.

Abstract

The choice of profession is one of the greatest challenges we confront in life due to the importance it represents and the difficulties that we face. As well as this, we are not always prepared to make this choice.

A good choice of profession is valuable to the individual as well as to the community of which he is part, for it is through the profession we perform a social function. The aim of this study is to identify the motives that lead young university students to select Physical Education as a profession, as well as to verify if this choice is linked to escape situations. 449 students participated, being recent admissions to the Course of Physical Education at four private Universities in the city of Rio de Janeiro. The students, all volunteers, were submitted to a questionnaire, previously validated, with

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Nº 131 AGOSTO DE 2005

A escolha da profissão é um dos maiores desafios com o qual nos defrontamos na vida, em função da importância de que se reveste e das dificuldades que temos a enfrentar. De acordo com Nardes, Machado e Babinski (2003), "nem sempre estamos preparados para realizar essa escolha e uma boa escolha profissional deve ser valiosa para o indivíduo e para a comunidade em que está inserido, porque através da profissão desempenhamos uma função social". Uma escolha adequada é almejada por todos e acarreta benefícios para as pessoas e para a sociedade . (Primi, Bighetti, Nucci, Pelegrini e Moggi ,2000)".

A escolha deve buscar contemplar seus anseios pessoais sem, contudo, desconsiderar a realidade do mercado de trabalho. (Gati, Krausz e Osipow, 1996). Deve, também, assumir grande importância no plano individual, já que envolve a definição das futuras experiências profissionais, significando, principalmente, a definição "de quem ser", muito mais do que a escolha "do que fazer", segundo Bohoslavsky (1987), assim como visar a integração de nosso auto-conceito, incluindo as necessidades individuais, identificações, aptidões, estilos de defesa e valores com o papel profissional. (Bordin & Kopplin , 1973)

Arbex (1997) diz que essa escolha deve ser o resultado de um processo que envolve a investigação e a ponderação de interesses, habilidades e valores do futuro profissional, as oportunidades do sistema de educação e as possibilidades e limites do mundo do trabalho. Já Novaes (1999) afirma que esta escolha deve ser realizada levando-se em consideração as aptidões, personalidade e características individuais, assim como o tipo de atividade que a especialidade envolve no seu cotidiano, sendo o ideal que o indivíduo esteja sempre trabalhando na área em que gosta.

Considerando a escolha profissional como uma "válvula de escape" para pessoas que se encontram em situações difíceis, uma educação e formação que desenvolvam habilidades básicas no plano do conhecimento, das atitudes e dos valores, produz competências para a gestão da qualidade, para a produtividade e competitividade e, conseqüentemente, para a empregabilidade (Frigotto, 2000).

Estudos realizados entre jovens, a respeito de suas escolhas profissionais, sempre têm indicado concentrações em torno de profissões socialmente prestigiadas, já que estas se associam a valores como satisfação, maior segurança, melhores rendimentos, maior realização pessoal e maior autonomia. Entretanto, as escolhas ocupacionais não são realizadas com base apenas no prestígio social das profissões. Fatores como aptidões, disponibilidades econômicas, necessidades pessoais, oportunidades de estudo, conhecimento das profissões, valores morais e sociais participam em maior ou menor grau deste processo e acabam por influenciar, consciente ou inconscientemente, a decisão final (Ferretti, 1976; Castro, 1984).

Especialistas estão convencidos de que os pais são os vilões do processo de escolha profissional dos filhos. É comum o jovem escolher uma profissão pela qual os pais demonstram maior apreço, mesmo que a opção não tenha nada a ver com seus interesses pessoais e personalidade. Embora importante, a influência da família é apenas uma parte do problema. Bem maior é o número de adolescentes objective and subjective questions, attended and orientated by the researcher. The data was treated and analyzed on the software Graphpad Instat, utilizing the Qui-square tests with correction of Yates and the exact test of Fisher to verify if an association existed between the sexual class and the course period, being considered significant when presenting p -< 0.05. The choice of Physical Education as profession, predominately, is not linked to escape situations, the absolute majority of individuals who chose this career being those who did so because they really wished to work in this area. On the other hand, the individuals who entered for the Physical Education course had not the slightest idea of what the profession is and what importance it has in society, making the choice, therefore, without information.

Key words: Professional Choice, Profession, Choice; Physical Education.

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Nº 131 AGOSTO DE 2005 que optam pelo curso errado, por uma questão de desinformação ou por terem uma imagem distorcida das profissões (Muller, 2003).

Um número crescente de especialistas tem defendido a idéia de que a indecisão não ocorre somente por força de uma crise pessoal, é um problema social envolvendo a família, amigos e até a mídia, ajudando a causar o dilema, e que o próprio modelo brasileiro de ensino pode estar transformando a universidade num purgatório de jovens à procura de seu verdadeiro ofício. Na prática, isso significa que a culpa de uma escolha mal-sucedida nem sempre é do aluno, existindo todo um mecanismo de interferência neste processo, direcionando o indivíduo a uma decisão errônea (Macedo, 1998).

A busca de uma identidade profissional própria sempre esteve em foco, mas com pouco êxito. O documento MEC-PCNs (1999) propõe que a Educação Física precisa buscar sua identidade como área de estudo fundamental para a compreensão do ser humano enquanto produtor de cultura.

Face ao exposto nesta temática, os objetivos deste estudo são identificar quais motivos levaram jovens universitários a escolher a Educação Física como profissão, bem como verificar se esta opção profissional está ligada a "situações de escape". Entendemos que o processo de busca da identidade da Educação Física e a compreensão do ser humano produtor de cultura, inserido neste universo, passa pela identificação dos motivos desta escolha profissional.

Participaram deste estudo 449 discentes, recém ingressos no Curso de Educação Física de quatro Universidades privadas da cidade do Rio de Janeiro, sendo a amostra estabelecida através da técnica casual simples (Vieira, 2001). Os discentes, todos voluntários, foram submetidos a um questionário aberto, previamente validado por pré-teste, com perguntas objetivas e subjetivas, assistidos e orientados pelos pesquisadores. Os dados foram analisados no software Graphpad Instat, utilizando os testes Qui-quadrado com correção de Yates e o teste exato de Fisher, a fim de verificar se existe associação entre o turno cursado e o gênero sexual nos três motivos mais votados, sendo considerado significativo quando apresentaram p = 0,05.

Participaram deste estudo 449 discentes, com idades entre 17 e 53 anos (média = 2,3), sendo 285 (63,5%) discentes do gênero masculino, com idades entre 17 e 53 anos (média = 2,5), dos quais 155 (54,4%) freqüentam o turno da manhã e 130 (45,6%), o turno da noite. O restante, 164 (36,5%), pertencem ao gênero feminino, com idades entre 16 e 3 anos (média = 2,1), das quais 109 (6,5%) freqüentam o turno da manhã e 5 (3,5%), o turno da noite.

Do total de discentes (449) que participaram deste estudo, 225 (50,1%) exercem uma profissão paralelamente ao curso de Educação Física. A distribuição quanto ao turno cursado turno e gênero sexual destes discentes encontra-se no GRÁFICO 1.

GRÁFICO 1

Discentes que Exercem Profissão Paralela ao Curso de Educação Física

Total de Discentes = 225

Quanto a já possuir outra graduação, além da que está sendo obtida com a realização do Curso de Educação Física, 27 (6%) dos 449 discentes, responderam que já são graduados em outra profissão (GRÁFICO 2).

GRÁFICO 2 Discentes que Possuem Outra Graduação

Total de discentes = 27

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Observou-se que existiam inúmeras profissões desejadas, algumas não tendo nenhuma ligação ou afinidade com a Educação Física, não sendo sequer pertencentes à área de saúde, formando um grupo de 146 (32,5%) discentes. Dentre as profissões citadas, os cursos mais pretendidos foram Direito 25 (17,1%), Informática 19 (13%), Fisioterapia 16 (1%) e Administração 15 (10,3%). Em contrapartida, 303 (67,5%) realizaram vestibular para Educação Física como sua primeira opção.

Os dados referentes à variável "motivo que levou os discentes a escolher a Educação Física como profissão" demonstraram que a realização pessoal (8,6%), contribuir para a sociedade (26,5%) e independência financeira (2,9%) são os principais motivos da escolha da Educação Física como profissão, em ambos os gêneros sexuais (TABELAS 1,2 e 6). As análises estatísticas destes dados encontram-se nas TABELAS 3,4 e 5. Outros motivos, como tentativa frustrada em outra profissão ou vestibular (3,7%), influência de amigos ou parentes (5,3%), aquisição de status (5,1%), entre outros, somaram juntas um percentual de 21,2% da amostra, encontrando-se consubstanciados na tabela de dados centralizados (TABELA 6).

TABELA 1 Motivos Mais Votados no Gênero Sexual Feminino

Realização pessoal94 (65,7%)49 (34,3%)143 (31,8%) Contribuir para a sociedade32 (65,3%)17 (34,7%)49 (10,9%)

Independência financeira27 (69,2%)12 (30,8%)39 (8,7%)

TABELA 2 Motivos Mais Votados no Gênero Sexual Maculino

MotivosManhã (%)Noite (%)Total (%) Realização pessoal137 (53,7%)118 (46,3%)255 (8,8%) Contribuir para a sociedade36 (51,4%)34 (48,6%)70 (24,4%)

Independência financeira34 (53,1%)30 (46,9%)64 (2,3%)

TABELA 3 Dados Referentes ao Motivo "Realização Pessoal"

MotivosManhã (%)Noite (%)Total (%) Realização pessoal 137(34%) 118(30%) 255 (64%) Contribuir para a sociedade 94 (24%)49(12%)143 (36%)

Independência financeira 231(58%) 167(42%) 398 (100%) A associação entre gênero sexual/turno é estatisticamente significante (p=0.0262)

TABELA 4

Dados Referentes ao Motivo “Contribuir para a Sociedade”

Manhã Noite Total

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