Tratamento de Esgoto

Tratamento de Esgoto

Tamires Tramontin Tayrini Marcelino

A água é um recurso necessário a todos os aspectos da vida e ao desenvolvimento das atividades humanas. As diversas utilizações da água resultam em esgoto, seja ele de origem doméstica, hospitalar, industrial, entre outros. O esgoto doméstico contém cerca de 9% de água, sendo comum a presença de microorganismos patogênicos, responsáveis por algumas doenças de veiculação hídrica. A reutilização da água encontra-se como uma gama significativa de aplicações potenciais. O uso de efluentes tratados na agricultura, para fins não potáveis, se constitui em instrumento poderoso para restaurar o equilíbrio entre oferta e demanda de água em diversas regiões, sendo esta a maior consumidora. Cabe entanto, institucionalizar, regulamentar e promover o reuso de água, fazendo com que a prática se desenvolva de acordo com princípios técnicos adequados, seja economicamente viável, socialmente aceita, e segura, em termos de preservação ambiental e de proteção dos grupos de riscos envolvidos.

Palavras-chave: Água. Esgoto. Reuso. Conservação. Agricultura.

A devolução das águas residuais ao meio ambiente deverá prever, se necessário, o seu tratamento, seguido do lançamento adequado no corpo receptor que pode ser um rio , um lago ou mar. Esgoto são as águas que, após a utilização humana, apresentam as suas características naturais alteradas. Conforme o uso predominante: comercial, industrial ou doméstico essas águas apresentarão características diferentes. A preservação do meio ambiente e o cuidado com a saúde da população são fatores importantes que são cuidados ao tratar o esgoto. O lançamento indiscriminado de águas residuais domésticas no costuma ser um dos maiores problemas ambientais e de saúde pública. À medida que os recursos hídricos vão se tornando escassos, mais se buscam maneiras para a reutilização da água disponível. Um dos procedimentos é o reaproveitamento da água proveniente do tratamento de esgoto, principalmente para fins agrícolas, por ser este o maior consumidor de água e também por não exigir água com referência à sua qualidade. Com as consequências da falta de água, usar recursos e meios sustentáveis estão sendo imprescindíveis e de grande valor.

Este artigo tem como objetivo apresentar as alternativas para uso do esgoto tratado. O tratamento de esgoto é uma das alternativas para amenizar o problema da escassez da água. A agricultura é o setor com maior demanda de água, portanto utilizando o esgoto tratado alguns benefícios poderão ser alcançados, como a redução do volume da água retirado dos mananciais; a economia com o uso de fertilizantes industrializados; a conservação do solo e redução de contaminação de águas. Sendo assim, a importância do tratamento de esgoto e economia sustentável é essencial para a conscientização de todos, pois há reflexos na economia, no ambiente e na saúde da população quando o esgoto passa a ser devidamente tratado.

Tratamento do esgoto

Esgoto, efluente ou águas servidas são todos os resíduos líquidos provenientes de indústrias e domicílios e que necessitam de tratamento adequado para que sejam removidas as impurezas e assim possam ser devolvidos à natureza sem causar danos ambientais e à saúde humana. Geralmente a própria natureza possui a capacidade de decompor a matéria orgânica presente nos rios, lagos e no mar. No entanto, no caso dos efluentes essa matéria em grande quantidade exigi um tratamento mais eficaz em uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) que, basicamente, reproduz a ação da natureza de maneira mais rápida (Von Sperling, 1995).

É importante destacar que o tratamento dos efluentes pode variar muito dependendo do tipo de efluente tratado e da classificação do corpo de água que irá receber esse efluente, de acordo com a Resolução CONAMA 20/86. Quanto ao tipo, o esgoto industrial costuma ser mais difícil e caro de tratar devido à grande quantidade de produtos químicos presentes. Quanto à classificação, o efluente deve ser devolvido ao rio, tão limpo ou mais limpo do que ele próprio, de forma que não altere suas características físicas, químicas e biológicas. Em alguns casos, como por exemplo, quando a bacia hidrográfica está classificada como sendo de classe especial, nenhum tipo de efluente pode ser jogado ali, mesmo que tratado. Isso porque esse tipo de classe se refere aos corpos de água usados para abastecimento.

O tratamento pode atingir diferentes níveis denominados tecnicamente de tratamento primário, secundário ou terciário. O tratamento primário envolve a remoção de sólidos grosseiros através de grades, geralmente, e a sedimentação (caixa retentora de areia e decantadoras) ou flotação de materiais constituídos principalmente de partículas em suspensão. Essa fase produz quantidade de sólidos que devem ser dispostos adequadamente. De maneira geral, os sólidos retirados em caixas retentoras de areia são enterrados, e aqueles retirados em decantadores devem ser adensados e digeridos adequadamente para posterior secagem e disposição em locais apropriados. As formas de tratamento desse lodo variam de maneira bastante ampla.

O tratamento secundário, por sua vez, destina-se a degradação biológica de compostos carbonáceos. Quando é feita essa degradação, naturalmente ocorre a decomposição de carboidratos, óleos e graxas e proteínas a compostos mais simples, tais como: CO2, H2O, NH3, CH4, H2S, etc, dependendo do tipo de processo predominante. As bactérias que efetuam o tratamento, por outro lado, se reproduzem e têm sua massa total aumentada em função da quantidade de matéria degradada.

Caso se empregue o processo aeróbio, para cada quilograma de DBO

(Demanda Bioquímica de Oxigênio - consumo de oxigênio, através de reações biológicas e químicas) removida ocorre a formação de cerca de 0,4 a 0,7 quilograma de bactérias (matéria seca) e, caso se opte pelo processo anaeróbico, tem-se para cada quilograma de DBO removida a formação de 0,2 a 0,20 quilograma de bactérias aproximadamente. A pequena formação de biomassa do processo anaeróbio em relação ao aeróbio é uma das grandes vantagens ao uso das bactérias que proliferam em ambiente anaeróbio pelo tratamento de efluentes, pois o custo e a dificuldade para tratamento, transporte e disposição final do lodo biológico são bastante reduzidos, no caso.

adensamento, digestão, secagem e disposição adequadaDependendo do tipo

Geralmente, o volume de lodo no processo anaeróbio, em termos práticos é menor que 20% do volume produzido no processo aeróbio, para um mesmo efluente líquido. Após a fase em que é feita a degradação biológica, os sólidos produzidos devem ser removidas em unidades específicas para esse fim (lagoas de sedimentação, decantadores, flotadores, etc.) e, posteriormente são submetidos a de processo adotado pode-se recircular uma parcela da massa de bactérias ativas, de volta ao reator biológico. Essa alternativa permite o aumento da produtividade do sistema e maior estabilidade no seu desempenho.

De maneira geral, a maioria das estações construídas alcança apenas o nível de tratamento secundário, aqui descrito, porém, em muitas situações, é obrigatório que esse tratamento alcance o nível denominado terciário. O efluente do tratamento secundário ainda possui Nitrogênio e Fósforo em quantidade, concentração e formas que podem provocar problemas no corpo receptor, dependendo de suas condições especificas, dando origem ao fenômeno conhecido como eutrofização, que é sentido pela intensa proliferação de algas.

O Tratamento terciário tem por objetivo, no caso de esgotos sanitários, a redução das concentrações de Nitrogênio e Fósforo, é geralmente fundamentada em processos biológicos realizados em duas fazes subsequentes denominadas nitrificação e desnitrificação. A remoção de fósforo também pode ser efetuada através de tratamento químico, com sulfato de alumínio, por exemplo. Na nitrificação, o nitrogênio é levado á forma de nitrato e posteriormente, na desnitrificação, é levado à produção de N2, principalmente, que é volatizado para o ar. O tratamento terciário também produz lodo, que deve ser adensado, digerido, secado e disposto corretamente. Em essência, as operações e os processos descritos destinam-se a remoção de sólidos em suspensão e da carga orgânica, restando agora, para completar o tratamento, que se cuide da remoção de organismos patogênicos.

Sistemas de tratamento que envolve disposição no solo ou lagoas de estabilização, em muitos casos, já têm a capacidade de efetuar redução considerável no número de patogênicos, dispensando assim um sistema especifico para desinfecção. Nos outros casos, ainda se faz necessária a previsão de instalações para a desinfecção, que geralmente é efetuada através do uso do cloro, ozônio e, mais recentemente, radiação ultravioleta.

Quando se trata de efluentes industriais a própria empresa que faz o tratamento de esgoto exige que a indústria monitore a qualidade dos efluentes mandados para e estação. No caso de haver substâncias muito tóxicas ou que não podem ser removidas pelo tratamento oferecido pela ETE, a indústria é obrigada a construir a sua própria ETE para tratar seu próprio efluente.

A importância do esgoto tratado

A falta de tratamento dos esgotos e condições inadequadas de saneamento pode contribuir para a proliferação de inúmeras doenças parasitárias e infecciosas além da degradação do corpo da água. A disposição adequada dos esgotos é essencial para a proteção da saúde pública.

Aproximadamente, cinquenta tipos de infecções podem ser transmitidas de uma pessoa doente para uma sadia por diferentes caminhos, envolvendo os excretos humanos. Os esgotos, ou excretos, podem contaminar a água, o alimento, os utensílios domésticos, as mãos, o solo ou ser transportados por moscas, baratas, roedores, provocando novas infecções.

No Brasil, apenas 20% do esgoto passa por tratamento. O restante é despejado em rios e córregos, contribuindo para aumentar a sujeira, as enchentes e as doenças. Epidemias de febre tifóide, cólera, disenterias, hepatite infecciosa e inúmeros casos de verminoses - doenças transmitidas pela disposição inadequada dos esgotos - são responsáveis por elevados índices de mortalidade em países do terceiro mundo. As crianças são suas vítimas mais frequentes, uma vez que a associação dessas doenças à subnutrição é, geralmente, fatal. A elevação da expectativa de vida e a redução da prevalência das verminoses que, via de regra, não é letal, mas desgastam o ser humano, somente podem ser pretendida através da correta disposição dos esgotos.

Outra importante razão para tratar os esgotos é a preservação do meio ambiente. As substâncias presentes nos esgotos exercem ação deletéria nos corpos de água: a matéria orgânica pode causar a diminuição da concentração de oxigênio dissolvido provocando a morte de peixes e outros organismos aquáticos, escurecimento da água e exalação de odores desagradáveis; é possível que os detergentes presentes nos esgotos provoquem a formação de espumas em locais de maior turbulência da massa líquida; defensivos agrícolas determinam a morte de peixes e outros animais. Há ainda a possibilidade de eutrofização pela presença de nutrientes, provocando o crescimento acelerado de algas que conferem odor, gosto e biotoxinas à água. Em nosso país ainda se usa o sistema de sumidouro ou de fossa de concreto, que como vem mostrando são corroídos pelos gases que se formam nesses locais, vazando e contaminando solo e lençóis freáticos.

Alternativa para uso do esgoto tratado.

A indisponibilidade de recursos hídricos em todas as regiões do mundo tem diminuído no sentido quantitativo e qualitativo, devido ao crescimento demográfico e econômico das sociedades modernas. Estes efeitos são mais expressivos nas regiões áridas e semi-áridas, pois a escassez de água para usos diversos compromete a sobrevivência do próprio homem. Porém, essa carência favorece a discussão sobre a necessidade urgente da utilização de águas de qualidade inferior, como por exemplo, os esgotos domésticos tratados, em atividades menos exigentes em qualidade, como a irrigação. Além do controle da poluição, da economia de água e de fertilizantes, da reciclagem de nutrientes e do aumento da produção agrícola, os inegáveis atrativos do reuso planejado de efluentes despertam cada vez mais o interesse em países com escassez de água para abastecimento público. Os exemplos a nível mundial vão desde o reuso planejado como parte de políticas governamentais para otimização dos recursos hídricos (como os Estados Unidos e Israel), até as práticas espontâneas por parte de pequenos agricultores com riscos sérios de saúde pública (como Índia e Peru).

O setor que exerce maior demanda de água é a agricultura, com cerca de 63% do total, seguindo-se o setor industrial (25%, cidades (8%) e evaporação em reservatórios (4%). Contudo, estas proporções variam com o desenvolvimento econômico dos países. Tendo em vista as crescentes dificuldades em atender as enormes quantidades de água requeridas para irrigação. O uso de águas residuárias, especificamente, esgostos tratados, na agricultura é uma alternativa atraente, embora o volume total de esgotos seja pequeno em relação à demanda da agricultura e haja consideráveis obstáculos para sua viabilização. Mas qualquer alternativa que promova um uso mais eficiente da água na agricultura apresenta potencial para trazer benefícios. A explosão demográfica e a crescente preocupação com os problemas ambientais exigem soluções rápidas que possam dar um destino final adequado aos esgotos gerados nos centros urbanos. Entre as várias soluções destaca-se a reutilização na agricultura dos esgotos tratados para suprir a falta de mananciais para a irrigação (Konig, 1997)

No Brasil, a demanda de água para irrigação equivale a dois terços do total.

Em algumas regiões do nosso país, as demandas de água já superaram as disponibilidades e, portanto, uma das soluções para superar os déficits é utilizar, na agricultura, águas que recebem esgoto sanitário, tratado ou simplesmente diluído.

O desenvolvimento de uma cultura está intimamente relacionado à disponibilidade de água, ao solo e ao clima da região. A água é elemento fundamental ao metabolismo vegetal, pois participa ativamente do processo de absorção radicular e da reação de fotossíntese. A planta, contudo, transfere para a atmosfera aproximadamente 98% da quantidade de água que retira do solo (Souza, 2003).

A utilização de corpos da água que recebem efluentes de esgoto, na irrigação é prática antiga, mas que há um bom tempo não se utilizava. Diversos fatores vieram a contribuir para que, mais recentemente, o interesse pela irrigação utilizando corpos da água que recebem esgoto fosse renovado:

Avanço do conhecimento sobre o potencial e as limitações do reuso agrícola e sua vantagens;

Controle da poluição;

Racionalização do uso da água;

Economia de fertilizantes;

Reciclagem de nutrientes;

Aumento da produção agrícola;

Cobrança pelo uso da água e pelo lançamento de esgotos.

A Organização Mundial de Saúde – OMS chegou à conclusão de que o tratamento primário das águas que recebem esgotos é suficiente para sua utilização na irrigação de culturas que não sejam de consumo humano direto.

Já o tratamento secundário e provavelmente, a desinfecção e filtração, são considerados necessários quando estás águas forem utilizadas na irrigação das culturas para consumo direto.

O crescente aumento na de manda de água provocada pelo crescimento populacional, desenvolvimento industrial e expansão agrícola, tem exercido estresse sobre os recursos hídricos existentes na terra. Em muitos locais, devido à falta de alternativas, os recursos hídricos têm explorados de maneira não sustentável. Neste contexto, o reuso do esgoto é uma alternativa bastante atraente a ser avaliada no contexto da gestão integrada dos recursos hídricos.

A agricultura é o setor com maior demanda de água. Qualquer alternativa que promova um uso mai eficiente da água na agricultura apresenta potencial para trazer benefícios. A utilização de esgotos tratados para a irrigação de culturas pode ser favorável sob os seguintes aspectos: redução do volume da água retirado dos mananciais, economia no uso de fertilizantes industrializados, conservação do solo, redução da contaminação de águas superficiais.

A utilização de esgotos tratados na agricultura deve ser bem planejada de modo a garantir à saúde dos trabalhadores e dos consumidores, assim como prevenir a deterioração da qualidade do solo devido à salinização e das águas superficiais e subterrâneas por contaminantes químicos e biológicos. Atualmente. Já existe acúmulo de conhecimento suficiente para permitir a implantação de projetos de irrigação com o uso de esgoto tratado. Dois fatores que podem limitar o uso de esgotos na agricultura são o custo para transportar os esgotos das cidades até as áreas agrícolas e a sazonalidade da demanda de água para irrigar as culturas. Essas limitações deverão ser avaliadas no estudo de viabilidade do projeto.

KÖNIG, Annemarie; CEBALLOS, Beatriz Suzana Ovruski de; SANTOS, Altemar Vilar Dos. Uso de esgoto tratado como fonte de água não convencional a irrigação de agriculturas. Campina Grande: 19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, 1997. 10 p.

SOUSA, J. T.; LEITE, V. D. Tratamento e utilização de esgotos domésticos na agricultura. 2 ed. Campina Grande: EDUEP, 2003, 135p.

VON SPERLING, Marcos. Princípios do Tratamento Biológico de Águas Residuárias - Introdução à qualidade das águas e ao tratamento de esgotos, v.01. Minas Gerais: ABES, 1995.

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