A prevenção do uso de drogas e a terapia comunitária

A prevenção do uso de drogas e a terapia comunitária

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A Prevenção do uso de Drogas e a Terapia Comunitária

Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e Presidente do Conselho Nacional Antidrogas Jorge Armando Felix

Secretário Nacional Antidrogas Paulo Roberto Yog de Miranda Uchôa

Diretora de Políticas de Prevenção e Tratamento Paulina do Carmo Arruda Vieira Duarte

Coordenadora Geral de Prevenção Doralice Oliveira Gomes

Universidade Federal do Ceará (UFC)

Reitor René Teixeira Barreira

Faculdade de Medicina - Departamento de Saúde Comunitária

Coordenador do Departamento Luciano Lima Correa

Coordenador Técnico-Científico do Projeto Adalberto de Paula Barreto

Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária do Ceará (MISMEC-CE)

Diretora Fabiana Mariano Costa

M 294 A Prevenção do Uso de Drogas e a Terapia Comunitária.
Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas, 2006.
24 p.
1. Droga - prevenção. 2. Terapia comunitária . 3. Reinserção social
Brasil. I. Título

CDD – 361.8

Catalogação feita pela Biblioteca da Presidência da República

Panorama Epidemiológico -------------------------------------------------------------------------------6

SumárioA Terapia Comunitária nas Políticas de Prevenção do Uso Indevido de Drogas ------------------- 4 Apresentação --------------------------------------------------------------------------------------------------- 5 A Prevalência do Consumo das Drogas Lícitas ----------------------------------------------------- 6 Quanto à Prevalência de outras Drogas Psicotrópicas ----------------------------------------------- 7 As Drogas e seus Efeitos --------------------------------------------------------------------------------- 8 As Drogas e seus Efeitos no Sistema Nervoso Central -------------------------------------------- 8 As Drogas e a Legislação: Drogas Lícitas e Ilícitas ------------------------------------------------- 9 O Uso Indevido de Drogas ------------------------------------------------------------------------------ 10 Fatores de Risco e de Proteção -------------------------------------------------------------------------- 10 Como identificar os Fatores de Risco e de Proteção na Prevenção do Uso Indevido de Drogas? --- 1 Fatores de Risco e de Proteção no Domínio dos Pares --------------------------------------------- 12 Fatores de Risco e de Proteção no Domínio Familiar ---------------------------------------------- 13 Fatores de Risco e de Proteção no Domínio Comunitário -------------------------------------------- 14 Fatores de Risco e de Proteção no Domínio Escolar -------------------------------------------------- 15 Os Diferentes Tipos de Usuários ou de Envolvimento com as Drogas ---------------------------- 16 A Terapia Comunitária na Abordagem Preventiva --------------------------------------------------- 17 A Terapia Comunitária Ampliando a Prevenção em Rede ------------------------------------------- 17 A Terapia Comunitária e o Tratamento de Dependentes de Drogas -------------------------------- 18 Como o Terapeuta Comunitário pode contribuir para o Tratamento de Dependentes de Drogas?-- 19 O Tratamento Propriamente Dito ------------------------------------------------------------------------- 19 A Reinserção Social ---------------------------------------------------------------------------------------- 20 O Papel do Terapeuta Comunitário junto aos Serviços de Saúde ----------------------------------- 20 Sugestões de Dinâmicas de Mobilização e Abordagem sobre o Tema Drogas -------------- 21 Exemplos de Motes --------------------------------------------------------------------------------------- 21 Rituais -------------------------------------------------------------------------------------------------------- 2 Sugestões de Ditados Populares ------------------------------------------------------------------------- 2 Recursos da Comunidade --------------------------------------------------------------------------------- 23 Filmes -------------------------------------------------------------------------------------------------------- 24

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A Terapia Comunitária nas Políticas de Prevenção do Uso Indevido de Drogas

A perspectiva do trabalho comunitário apresenta relevância na efetivação dos objetivos da atual Política Nacional Sobre Drogas (PNAD) do Governo Federal. A PNAD propõe a conscientização da sociedade brasileira sobre os prejuízos sociais e as implicações negativas representadas pelo uso indevido de drogas e suas conseqüências, bem como a educação, informação, capacitação e formação de pessoas em todos os segmentos sociais para a ação efetiva e eficaz de redução da demanda e da oferta de drogas fundamentada em conhecimentos científicos validados e experiências bem-sucedidas, adequadas à nossa realidade.

Neste sentido, o trabalho comunitário revela-se como uma importante estratégia na otimização dos recursos da comunidade o que é de extrema importância no atual cenário brasileiro em que a rede de serviços existentes nesta área ainda é insuficiente para atender às tantas demandas, especialmente quando se trata de comunidades ou populações com menos recursos econômicos.

A Prevenção do uso de Drogas e a Terapia Comunitária

Apresentação

Esta publicação constitui material de apoio pedagógico da Secretaria Nacional Antidrogas - SENAD para o “Curso de Formação em Terapia Comunitária - com ênfase nas questões relativas ao uso do álcool e outras drogas”, realizado em parceira com o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária do Ceará – MISMEC-CE. Tem como objetivo preparar os terapeutas comunitários para responder às questões apresentadas pelos participantes das terapias sobre esta temática.

3Facilitar a identificação da

A SENAD, ao reconhecer esta metodologia, está oportunizando a efetivação de ações de âmbito comunitário nas políticas públicas destinadas à redução da demanda do uso de drogas. Neste sentido, a Terapia Comunitária (TC) coloca-se como um serviço à comunidade que possibilita intervir em vários níveis: 1. Antecipar-se ao uso indevido de drogas, trabalhando possíveis motivadores para o consumo, analisando riscos e fortalecendo fatores de proteção; 2. Oferecer, para aqueles que já são usuários e suas famílias, um espaço de acolhimento, amparo e auxílio na mudança da compreensão quanto ao uso ou abuso de drogas e contribuir para a redução dos riscos e danos associadas ao uso; necessidade e dos meios para o tratamento de dependentes ou usuários e suas famílias e contribuir para a adesão e permanência no atendimento;

4. Favorecer a criação ou o resgate da rede social do usuário.

São beneficiários diretos deste projeto os profissionais das áreas de saúde, de educação e da área social, do setor governamental e não governamental, e as lideranças comunitárias, que receberão a capacitação. E os beneficiários indiretos as instituições as quais os cursistas estão vinculados e, em última instância, a própria comunidade atendida.

Isto amplia as possibilidades de atuação da rede de atenção à comunidade que será fortalecida com mais um serviço disponibilizado.

A publicação “A Prevenção do uso de

Drogas e a Terapia Comunitária” estabelece uma relação estreita entre a proposta da TC e as orientações da Política Nacional sobre Drogas quanto à prevenção, o tratamento e a reinserção social do dependente químico.

Desejamos que esta iniciativa, somada às demais que o governo brasileiro vem adotando, contribua de fato com o fortalecimento de uma rede de atenção às questões relativas ao uso de álcool e outras drogas numa perspectiva inclusiva, de respeito à diversidade, humanista, de acolhimento e não estigmatização do usuário e familiares.

Panorama Epidemiológico

No cenário brasileiro, há um destaque com relação ao consumo de drogas lícitas, em especial o álcool. Mas as drogas ilícitas também merecem atenção, uma vez que as substâncias citadas (lícitas e ilícitas) podem estar associadas ao contexto de violência.

Esta publicação tem como um dos objetivos capacitar os terapeutas comunitários para lidarem com a temática das drogas nas suas reuniões, com especial ênfase para o seu caráter preventivo e também pelas possibilidades de complementar ações de tratamento e favorecer a reinserção social.

Dentre as drogas que serão estudadas, o álcool terá destaque pela sua dimensão epidemiológica e de custos econômicos e sociais. Sendo considerado uma importante questão de saúde pública e, necessitando, portanto, de medidas efetivas no contexto político e social.

A Prevalência do Consumo das Drogas Lícitas

A seguir serão apresentados alguns dados obtidos de levantamentos epidemiológicos realizados no Brasil quanto ao consumo de drogas. O álcool e o tabaco aparecem com destaque, sendo as drogas mais consumidas no Brasil e as responsáveis pelos maiores índices de problemas decorrentes de seu uso indevido.

No “I Levantamento Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil”, realizado no ano de 2001, foram entrevistados moradores das 107 maiores cidades do país (aquelas com mais de 200 mil habitantes), representando 47% da população total do país. Os principais resultados obtidos foram:

68,7% dos entrevistados informa-

ram que já fizeram uso de álcool pelo menos uma vez na vida;

• A estimativa de dependentes de álcool foi de 1,2%, com predominância para o sexo masculino, numa proporção de três homens usuários para uma mulher usuária;

• 41,1% dos entrevistados informaram que já fizeram uso de tabaco pelo menos uma vez na vida;

• A estimativa de dependência de tabaco foi de 9,0%.

No ano de 2004, foi realizado o

“V Levantamento Nacional sobre o uso de Drogas Psicotrópicas entre estudantes do Ensino Fundamental e Médio”, nas 27 capitais brasileiras, atingindo 48.155 estudantes que, em sua maioria, tinham entre 13 e 15 anos de idade. Este levantamento apresentou dois resultados que merecem destaque:

• Cerca de 65% dos estudantes afirmaram ter consumido bebidas alcoólicas pelo menos uma vez na vida, o que significa dizer que mais da metade dos estudantes ouvidos já haviam experimentado algum tipo de bebida;

Cerca de 12% dos estudantes faziam

uso freqüente de bebidas, ou seja, haviam consumido álcool seis ou mais vezes no mês que antecedeu a pesquisa, o que significa dizer que dez em cada cem estudantes podiam ser incluídos na categoria de usuário abusivo.

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Quanto à Prevalência de outras Drogas Psicotrópicas

O “I Levantamento Domiciliar sobre o uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil” (2001), apresentou resultados importantes sobre o consumo de outras drogas psicotrópicas pela população geral, dos quais merecem destaque:

O uso de pelo menos uma vez na vida de medicamentos, sem prescrição médica, apresentou um fato em comum: o número de mulheres que usou foi maior que o número de homens, em todas as faixas etárias estudadas.

Os estimulantes aparecem em 1,5% de entrevistados que fizeram uso na vida. Os benzodiazepínicos (medicamento para reduzir a ansiedade) em 3,3%, bastante próxima ao observado nos Estados Unidos, cujo índice chega a 5,8%. A dependência de benzodiazepínicos foi estimada em 1,0% no Brasil.

Em relação aos orexígenos (medicamentos utilizados para estimular o apetite), 4,3% dos entrevistados já fizeram uso pelo menos uma vez na vida.

Um alerta deve ser feito:

Cada vez mais, a idade de experimentação tem caído, revelando que o consumo de drogas entre crianças e adolescentes é uma realidade que exige medidas preventivas urgentes.

Um dado que constata esta questão é a média de experimentação do álcool pela primeira vez. No Brasil, esta média é de 12,5 anos, o que é preocupante, visto que o fornecimento de bebidas alcoólicas a menores é proibido por lei

Os dados epidemiológicos acima apresentados retratam uma realidade desafiadora para os terapeutas comunitários e para a sociedade brasileira como um todo.

Média de Idade do Primeiro Uso de Drogas no Brasil (Média)

Álcool 12,5 Tabaco 12,8 Solvente 13,1 Maconha 13,9 Anfetamínicos 13,4 Ansiolíticos 13,5 Cocaína 14,4

A Prevenção do uso de Drogas e a Terapia Comunitária

6,9% dos entrevistados já fizeram uso de maconha pelo menos uma vez na vida;

2,3% dos entrevistados já fizeram uso de cocaína pelo menos uma vez na vida;

0,7% dos entrevistados já fizeram uso de crack pelo menos uma vez na vida;

O uso da merla (um derivado de cocaína) apareceu, na região Norte, em 1,0% dos entrevistados, sendo o maior índice do Brasil;

5,8% dos entrevistados já fizeram uso de solventes pelo menos uma vez na vida.

Estes dados estão disponibilizados no site do

Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas - OBID w.obid.senad.gov.br

As Drogas e seus Efeitos

Para uma compreensão ampla dos efeitos das drogas é necessário considerar a inter-relação existente entre as características da droga, as do usuário e as características do contexto.

Além dos efeitos psicotrópicos causados pelas diferentes drogas, ou seja, dos efeitos químicos específicos do produto na atividade do Sistema Nervoso Central, destacamos os outros fatores que interferem nas sensações e no comportamento do usuário. Estes outros fatores dizem respeito ao usuário e o lugar que este se encontra.

É primordial considerar o que cada pessoa sente e busca quando faz uso de drogas, pois neste consumo está presente as crenças das pessoas sobre o que vão obter a partir disto.

Outro fator de destaque é o lugar onde este consumo se realiza. Diz respeito às condições do ambiente, que também vão interferir no resultado final, ou seja, no efeito que a pessoa irá sentir. A pessoa fez seu consumo num ambiente coletivo? Qual? Estava só? Onde? Num local onde o consumo é aceito ou repudiado? Todas estas questões interferem na relação do usuário com a droga.

Compreender estes aspectos presentes na pessoa do usuário, no lugar onde o consumo se dá, nas crenças e valores presentes, possibilita uma intervenção mais adequada tanto na prevenção do uso indevido de drogas como no tratamento e na reinserção social.

Se por um lado não se pode reduzir a avaliação dos usuários de drogas, considerando apenas os efeitos da substância psicoativa consumida, por outro, deve-se conhecer esses efeitos, ou seja, a dimensão toxicológica de cada droga.

As Drogas e seus Efeitos no Sistema Nervoso Central

A Organização Mundial de Saúde –

OMS – possui uma classificação de substâncias consideradas drogas, capazes de produzir alterações no funcionamento do cérebro. Esta classificação faz parte da Classificação Internacional de Doenças da OMS e está na sua 10ª revisão, sendo designada por CID-10.

Apresentamos, a seguir, uma classificação baseada nos efeitos das substâncias psicoativas no Sistema Nervoso Central, considerada a mais abrangente e também a mais utilizada.

Essa classificação é de interesse didático e se baseia nas ações aparentes das drogas sobre o Sistema Nervoso Central (SNC), conforme as modificações observáveis na atividade mental:

Drogas depressoras da atividade mental • Álcool

• Barbitúricos (calmantes e sedativos)

• Opióides (ex.: morfina)

• Benzodiazepínicos (medicamentos para reduzir a ansiedade)

• Solventes ou inalantes

(ex.: cola de sapateiro, esmalte, lança perfume).

Drogas capazes de produzir alterações no funcionamento do cérebro

• Álcool

• Opióides (morfina, heroína, codeína e substâncias sintéticas)

• Canabinóides (maconha)

• Sedativos ou hipnóticos

• Cocaína

• Alucinógenos

•Tabaco • Solventes

• Inalantes

• Estimulantes (cafeína) Etc.

O detalhamento dos efeitos de cada tipo de droga é encontrado no “Livreto Informativo sobre Drogas Psicotrópicas” produzido pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - CEBRID em parceria com a Senad.

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