Assistência Farmacêutica e resistência bacteriana

Assistência Farmacêutica e resistência bacteriana

(Parte 2 de 2)

Nos hospitais, a falta de informação disponível para a enfermagem é responsável por vários eventos adversos, tais como administração intravenosa de fármacos incompatíveis, fazendo com que a terapêutica seja ineficaz, o que é grave, principalmente no caso de infecção por bactéria multirresistente 6,29,31.

Aspectos sobre a estabilidade dos antimicrobianos também devem ser enfatizados para o paciente, especialmente sobre preparações extemporâneas reconstituídas, colírios, gotas nasais e otológicas e frascos de soluções e suspensões orais que já se encontrem abertos. É freqüente o armazenamento dessas preparações, depois de abertas e subutilizadas, no domicílio do paciente, que acredita poder utiliza-las futuramente. Porém, preparações líquidas depois de abertas, rapidamente perdem sua estabilidade físico-química, além de sofrerem contaminação microbiológica, tornando-se ineficazes. Assim, preparações líquidas devem ser utilizadas o mais breve possível, sendo descartadas eventuais “sobras” 29,40.

Ações para solução dos problemas apresentados

As ações regulatórias devem ser intensificadas, para garantir o cumprimento das boas práticas de fabricação dos antimicrobianos. As indústrias devem melhorar seus laboratórios de controle de qualidade, ou fazer convênios com universidades para a realização de testes que garantam a qualidade de seus produtos 1,42.

A bioequivalência entre medicamentos de referência, genéricos e similares também deve ser garantida por meio de ensaios específicos 1,28,34,43.

Deve-se coibir o registro de antimicrobianos associados a antiinflamatórios, mucolíticos ou com outros antimicrobianos, exceto aqueles em que a associação é comprovadamente eficaz 12.

Devem ser intensificadas as ações de vigilância epidemiológica de forma que o setor produtivo possua informações oportunas sobre os padrões de resistência de patógenos importan- tes e sobre as deficiências do arsenal de antimicrobianos para a saúde pública 1,12,20.

Faz-se necessária a elaboração de protocolos de tratamento dos principais tipos de doenças infecciosas e para profilaxia cirúrgica 1,7,2,34,35. Comitês científicos multidisciplinares, formados por representantes dos órgãos públicos de saúde, universidades e profissionais de saúde seriam responsáveis por esta ação 6,8,12,20,4.

Deve ser elaborada uma lista de antibióticos de uso restrito, levando-se em conta o custo do tratamento, o potencial de induzir resistência, a toxicidade e os padrões de sensibilidade dos germes 7,20,21,29. Estes antimicrobianos seriam utilizados somente em caso de falha da terapia clássica ou na vigência de cepas multirresistentes 7,10,20,4.

É necessário monitorar os padrões de uso dos antimicrobianos. Assim, poderá ser notado o impacto das medidas implementadas e também serão avaliadas as variações nas taxas de resistência 6,7,1,12,14,23,32.

A capacitação de todos os profissionais envolvidos nas etapas do ciclo da assistência farmacêutica, bem como daqueles responsáveis pela elaboração das políticas de saúde, é essencial. Contribui para a sensibilização dos profissionais perante o problema da resistência bacteriana, motivando seu comprometimento com a busca e a execução de ações para conter a franca expansão desse fenômeno 12,20,24,3,37,42,4.

A comunidade científica deve efetuar investigações sobre os padrões de resistência bacteriana e disseminar as informações entre os profissionais de saúde pública, indústria e outros. Além disso, as técnicas laboratoriais em microbiologia clínica deveriam ser revisadas, permitindo um diagnóstico confiável 6,8,1,12,27,36,37.

Os antimicrobianos essenciais para o tratamento das doenças infecciosas mais importantes devem estar disponíveis para a população, para que o tratamento seja cumprido da melhor forma possível. As listas de antimicrobianos padronizados em cada região ou instituição devem ser periodicamente revistas e modificadas quando necessário. Os mecanismos de programação, aquisição, armazenamento e distribuição no serviço público devem ser repensados, de modo a garantir o acesso da população a antimicrobianos na quantidade adequada e com qualidade confiável 2,4-6,9,24,3,42. Essas ações de garantia de acesso são essenciais, já que as doenças infecciosas constituem, na atenção primária, uma das principais causas de procura por cuidados médicos 5,8.

Além disso, o fornecimento regular dos antimicrobianos selecionados implica em uma melhor adesão dos prescritores aos protocolos de tratamento de infecções bacterianas existentes na região ou instituição 7,14,15,31,45.

Quanto ao aspecto da viabilidade ações propostas, depende-se fundamentalmente de vontade política. A indústria farmacêutica exerce um grande poder na economia brasileira, mas o Estado deve assumir sua função regulatória, na tentativa de conter as arbitrariedades deste setor. A vigilância sanitária deve ser aprimorada, no sentido de conhecer as inovações tecnológicas do setor produtivo e estar preparada para desempenhar seu papel fiscalizador 8,9,36,42,43.

O cumprimento integral do tratamento com antimicrobianos deve ser enfatizado, para consolidar o uso correto do medicamento. Apenas na vigência de reação adversa grave ou de reação de hipersensibilidade há justificativa para a interrupção do tratamento, mas não sem antes entrar em contato com o prescritor 8,9,24,32.

Para que ocorra a educação do paciente é necessária uma mudança cultural na educação dos formadores de opinião - prescritores e dispensadores. A atenção ao paciente deve ser executada de maneira mais integrada, para que o paciente compreenda a importância de sua participação no sucesso do tratamento, ao utilizar o antimicrobiano de maneira correta 8,9,12,20,45.

Concluímos que a utilização correta dos antimicrobianos, produzidos com qualidade e indicados para uma condições clínicas bem estabelecidas, pode prolongar sua vida útil, retardando o desenvolvimento da resistência bacteriana. As ações de assistência farmacêutica influenciam bastante o uso dos antimicrobianos, sendo fundamental a garantia da qualidade no desenvolvimento de todas as suas etapas.

Agradecimentos. Agradecemos aos colegas do Departamento de Farmácia Social da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais e a todos os que, direta ou indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho.

1.Perini, E., J.A.A. Dupim, R.E. Righi, R.M.C. Silva, W.F. Silveira, S.O. Diniz & V.L. Bontempo (1996)“A assistência farmacêutica no âmbito do Sistema Único de Saúde de Minas Gerais: avaliação e alternativas para reorientação”. Belo Horizonte: CEMED/ Faculdade de Farmácia da UFMG, relatório de pesquisa. 2.Cosendey, M.A.E., J.A.Z. Bermudez, A.L.A.

Reis, H.F. Silva, M.A. Oliveira & V.L. Luíza (2000)Cad. Saúde Pública 16: 171-82. 3.Milagres, L.G.“Reorganização da assistência farmacêutica no município de Patos de Minas - MG”. (2000) Belo Horizonte: Curso de Especialização em Saúde Pública - área de concentração: medicamentos, UFMG, monografia 4.Abrantes, P.M. (2003) “Estudo da prescrição de antibacterianos de uso sistêmico em unidades da Gerência de Saúde Centro Sul (GERSA CS) - Belo Horizonte - MG”. Belo Horizonte: Programa de Pós Graduação em Ciências Farmacêuticas, UFMG, Tese. 5.Farias, A.D., M.A.A. Cardoso, A.C.D. Medeiros,

L.F. Belém & M.O.S. Simões (2007) Rev. Brás. Epidemiol. 10: 149-56. 6.Marques, D.C. & P. Zucchi (2006) Rev. Panam.

Salud Publica 19: 58-63 7.Marra, F., D.M. Patrick, R. White, H. Ng, W. R.

Bowie & J.M. Hutchinson (2005) J. Antimicrob. Chemother. 5: 95-101. 8.Menezes, F.G., P. Nicolini, J.W.L. Nascimento

& K.V. Greco (2006) Ciência & Saúde Coletiva - Disponível em: http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br. Acesso em 2007. 9.Oliveira. A.O.T., C.F. Pedroso, M.D. Miguel,

D.P. Monstrucchio, S.M.W. Zanin & D. Dorneles (2004) Visão Acadêmica 5: 7-14. 10.Mevius, D.J., M. J. W. Sprenger & H. C. Wegener (1999)Intern. J. Antimicrob. Agents 1: 101-5 1.Norrby, R., C.E. Nord & R. Finch (2005) Lancet

F.D. Daschner (1990)Rev. Infect. Dis. 12: 12-8. 16.Tenover, D.A. (2001) Clin. Infect. Dis. 3: S108-5. 17.Travers, K. & M. Barza (2002) Clin. Infect. Dis. 34: S131-4. 18. Fauci, A.S. (2001) Clin. Inf. Dis. 32: 675-85.

Latin American Journal of Pharmacy -27 (1) - 2008

Bras. Med. 69: 38-42. 24.Flexa, B.S.C. (1982) “Indústria Farmacêutica no Brasil: condições históricas de existência e reprodução”. Brasília: Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais, UnB, Tese. 25.Dupim, J.A.A. (1999)“Assistência farmacêutica - um modelo de organização”.Belo Horizonte: Segrac. 26.Luíza, V.L., C.G.S.O. Castro & J.M. Nunes (1999) Cad. Saúde Pública 15: 769-76. 27.Maurice, J. (1992) British Med. J. 304: 1398. 28.Pádua, L.O. (2003)“Antibioticoprofilaxia da endocardite bacteriana em procedimentos realizados na Odontologia”.Belo Horizonte: Curso de Especialização em Saúde Pública - área de concentração: medicamentos, UFMG, monografia. 29.Gomes, M.J.V.M. & A.M.M. Reis (2000)“Ciências farmacêuticas: uma abordagem em farmácia hospitalar”. São Paulo: Atheneu. 30.Perini, E. (2003) “Assistência farmacêutica: fundamentos teóricos e conceituais”.In: Acurcio, F. A. (org.). “Medicamentos e Assistência Farmacêutica”. Belo Horizonte: COOPMED. 31.Manenti, S., A.B. Chaves, R.S. Leopoldino &

32.MacDougall, C. & R.E. Polk (2005) Clin. Microbiol. Rew. 18: 638-56. 3.Acurcio, F.A. (org.). (2003)“Medicamentos e

Assistência Farmacêutica”. Belo Horizonte: Coopmed. 34.Moellering Jr., R.C. (2001 ) Clin. Infect. Dis. 3: S108-15. 35.Dajani, A.S. (1996) Pediatrics 97: 976-80. 36.Brasil (1998) Ministério da Saúde. Portaria GM 3916. D.O.U., Brasília, 31/10/1998. 37.Balkrishnan, R. & C.D. Furberg (2001)J. Int.

I.C. Koutroumpa & I.A. Giannakakis (2001) Clin. Inf. Dis. 3: 76-82. 39.Giancomini, A., D.A. Kliemann, F.F. Tavares,

G.U. Rodrigues & P.L. Coser (2001) Pediatria Moderna 36: 177-82. 40.Stratchonski, L.S., I.V. Andreeva, S.A. Ratchina,

D.V. Galkin, N.A. Petrotchenkova, A.A. Demin, V.B. Kuzin, S.T. Kusnetsova, R.Y. Likhatcheva, S.V. Nedogoda, A.S. Belikov & I.A. Toropova (2003) Clin. Infect. Dis. 37: 498-505. 41.Mcmahon, S.R., M.E. Rimsza & R. C. Bay (1997) Pediatrics 100: 330-3. 42.Bonfim, J.R.A. & V.L Mercucci (org.) (1997)“A construção da política de medicamentos”.São Paulo: Hucitec-Sobravime, págs. 49-102. 43.Rosenfeld, S. (org.) (2000)“Fundamentos da vigilância sanitária”.Rio de Janeiro: Fiocruz págs. 13-48. 4.Couper, M.R. (1997) Clin. Inf. Dis. 24: 54-6. 45.Godshall, C.J. (2002) Am. J. Surgery 183: 2-3.

(Parte 2 de 2)

Comentários