Manual para amantes desesperados

Manual para amantes desesperados

(Parte 1 de 5)

Manual para amantes desesperados

Mantém a tua mão

No rigor das dunas

Andar no arame

Não é próprio de desertos

Cruzas sobre mim

As pontes do vento

E orienta-as a sul

Pelo sol

Mantém a tua mão

Perpendicular às dunas

E encontra o equilíbrio

No corredor do vento

A nossa conversa percorrerá oásis

Os lábios a sede

Quando saíres

Deixa encostadas

As portas do Kalahari.

Pode ser que me encontres

Se caminhares pelas dunas

Sobre a ardência da areia

Por entre as plantas rasteiras

Pode ser que me encontres

Por detrás das dunas

Talvez me encontres

Na décima curva do vento

Molhada ainda do sangue das virgens do sacrifício

Por entre a febre

A arder

Pode ser que me encontres

Como ao escaravelho negro

Dobrada ao chão da décima duna

No corpo as gotas da salvação

Na exacta medida da tua sede

Pode ser que me encontres

No lugar da aranha do deserto

A tecer a teia

Da sede e areia

Deixa-a a Mao pousada na duna

Enquanto dura a tempestade de areia

A sede colherá o mel do corpo

Renasceremos tranqüilos

De cada morte dos corpos

Eu em ti

Tu em mim

O deserto à volta

Dormias

Enquanto cantava a rola

O cuco e o bem-te-vi

Dormias

Enquanto duas vacas

Pariam no curral

Dormias

Quando a hiena entrou no cercado

Levou o cabrito pequeno

E partiu a cabaça dos sacrifícios

Dormias

Quando a água chegou à mulola grande

Dormias

E lá ia alto

O canto da rola

Do cuco e do bem-te-vi.

Devia olhar o rei

Mas foi o escravo que chegou

Para me semear o corpo de erva rasteira

Devia sentar-se na cadeira ao lado do rei

Mas foi no chão que deixei a marca de meu corpo

Penteei-me para o rei

Mas foi ao escravo que dei as tranças de meu cabelo

O escravo era novo

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