Idéias para ensinar português para alunos Surdos

Idéias para ensinar português para alunos Surdos

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Idéias para ensinar português para alunos surdos

Ronice Müller de QuadrosRonice Müller de QuadrosRonice Müller de QuadrosRonice Müller de QuadrosRonice Müller de Quadros Magali L. P. SchmiedtMagali L. P. SchmiedtMagali L. P. SchmiedtMagali L. P. SchmiedtMagali L. P. Schmiedt

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Centro de Informação e Biblioteca em Educação (CIBEC)

Idéias para ensinar português para alunos surdos / Ronice Muller Quadros, Magali L. P.

Quadros,Ronice Müller de. Schmiedt. – Brasília : MEC, SEESP, 2006.

120 p.

1. Educação de surdos. 2. Ensino da língua portuguesa I.Schmiedt, Magali L. P. I. Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. I. Título.

CDU 376.3

Capa:Capa:Capa:Capa:Capa: Victor Emmanuel Carlson Projeto Gráfico: Projeto Gráfico: Projeto Gráfico: Projeto Gráfico: Projeto Gráfico: Lagoa Editora Impressão:Impressão:Impressão:Impressão:Impressão: Gráfica Pallotti (Porto Alegre/RS)

Agradecemos a todos colegas professores que direta ou indiretamente contribuíram com as idéias expostas aqui. Nós, enquanto professoras, entre os corredores e reuniões, conversávamos sobre como ensinar português para surdos. Aqui, então, registramos nossas idéias que resultam de milhares de idéias.

Agradecemos também às escolas que nos deram oportunidades de criar, trocar, ensinar e aprender sobre a educação de surdos: Escola Especial Concórdia, Escola Municipal Helen Keller, Escola Frei Pacífico, Escola Estadual Lilian Mazeron, Escola Estadual Nossa Senhora da Conceição e Fundação Catarinense de Educação Especial.

Agradecemos também aos nossos professores de vários cursos que fizemos ao longo da nossa atuação enquanto professoras do ensino fundamental.

ApresentaçãoApresentaçãoApresentaçãoApresentaçãoApresentação7
PrefácioPrefácioPrefácioPrefácioPrefácio9
CapítuloCapítuloCapítuloCapítuloCapítulo1. 1. 1. 1. 1. As línguas no contexto da educação de surdos13
1.1 1.1 1.1 1.1 1.1 Introdução13
1.2 1.2 1.2 1.2 1.2 Educação bilíngüe no contexto do aluno surdo18
1.2.1 1.2.1 1.2.1 1.2.1 1.2.1 O que é afinal educação bilíngüe18
1.2.2 1.2.2 1.2.2 1.2.2 1.2.2 Aquisição das línguas e a criança surda19

SumárioSumárioSumárioSumárioSumário

alfabetização em língua portuguesa25

1.2.3 1.2.3 1.2.3 1.2.3 1.2.3 A libras e a sua importância no processo de

da língua portuguesa32

1.2.4 1.2.4 1.2.4 1.2.4 1.2.4 Estágios de interlíngua na aprendizagem

do aluno surdo40
portuguesa para surdos45
2.12.12.12.12.1 Trabalhando com o “saco das novidades”45
2.2 2.2 2.2 2.2 2.2 Trabalhando com o “saco surpresa”54
2.3 2.3 2.3 2.3 2.3 Trabalhando com “mesas diversificadas”60
2.42.42.42.42.4 Trabalhando com “vivências”67
2.5 2.5 2.5 2.5 2.5 Trabalhando com “leitura e vocabulário”74
2.62.62.62.62.6 Trabalhando com “produção escrita”84
CapítuloCapítuloCapítuloCapítuloCapítulo 3.3.3.3.3. Recursos didáticos9

CapítuloCapítuloCapítuloCapítuloCapítulo2. 2. 2. 2. 2. Sugestões de atividades para o ensino da língua ReferênciasReferênciasReferênciasReferênciasReferências.............................................................................................................118

ApresentaçãoApresentaçãoApresentaçãoApresentaçãoApresentação

A educação constitui direito de todos os cidadãos brasileiros, surdos ou não, e cabe aos sistemas de ensino viabilizar as condições de comunicação que garantam o acesso ao currículo e à informação.

A Língua Brasileira de Sinais - Libras e a Língua Portuguesa são as línguas que permeiam a educação de surdos e se situam politicamente enquanto direito. A aquisição dos conhecimentos em língua de sinais é uma das formas de garantir a aquisição da leitura e escrita da língua portuguesa pela criança surda. O ensino da língua de sinais e o ensino de português, de forma consciente, é um modo de promover o processo educativo.

O Português é a língua oficial do País, uma segunda língua para pessoas surdas o que exige um processo formal para sua aprendizagem.

Idéias para ensinar Português para surdos na educação regular, de Ronice

Müller de Quadros e Magali Schmiedt, é um livro que permite a reflexão de professores de alunos surdos que se encontram nos anos iniciais do ensino fundamental que buscam uma perspectiva bilíngüe.

O objetivo deste livro é apresentar essas questões, pensar sobre elas e apresentar sugestões de como desenvolver atividades para ensinar o Português considerando o contexto apresentado.

O ensino de Português para alunos surdos fundamenta-se em bases teóricas e em práticas de professores. Trata-se de um material que aborda a forma bilíngüe de efetivar a alfabetização de crianças com surdez, podendo colaborar com a formação continuada de professores, de forma a melhorar a qualidade da educação.

Estamos certos de que o respeito à diferença lingüística e sociocultural das crianças surdas está assegurado.

Cláudia Dutra

Secretária da Educação Especial MEC/SEESP

Idéias para ensinar português para alunos surdos

PrefácioPrefácioPrefácioPrefácioPrefácio

Este livro foi pensado para os professores que estão diante do aluno surdo.

Temos tido contato com professores de diferentes partes do país e percebemos que eles necessitam de idéias, “dicas” mais concretas, para introduzir a língua portuguesa para crianças surdas.

Esses professores dão aula no ensino fundamental, ministram aulas na rede regular de ensino, ou em turmas em que a língua de instrução é a língua de sinais, ou são professores em escolas regulares de surdos, ou, ainda, são professores da sala de recursos. Normalmente, não são professores surdos e não são falantes nativos da língua brasileira de sinais. E são estes professores que usam a língua de sinais com as crianças surdas no contexto educacional. Faz-se necessário reconhecer que a língua de sinais é uma segunda língua para eles e, portanto, requer anos de estudo e prática para ser bem compreendida e produzida. Não basta ter um vocabulário enorme de uma língua, a pessoa precisa “entrar” na língua, “viver” a língua para poder ensinar por meio dela. Como isso está em processo, normalmente os professores que trabalham com surdos são modelos de sistemas de interlíngua.

Entre a primeira e a segunda língua, vários autores identificam a existência da interlíngua, um sistema que apresenta características lingüísticas específicas com diferentes níveis de sofisticação até se aproximarem da língua alvo, no caso, a língua brasileira de sinais (para mais detalhes ver Ellis, 1993).

Muitas vezes, esses professores acreditam que o que usam seja a língua de sinais. Isso tem implicações no processo educacional da criança surda. A escola deve buscar alternativas para garantir à criança acesso aos conhecimentos escolares na língua de sinais e o ensino da língua portuguesa como segunda língua.

Observamos que a maioria dos professores quer garantir um ensino da língua portuguesa mais eficiente para o seu aluno surdo, atentando para o seu processo de aprendizagem. Além disso, eles buscam tornarem-se bons professores de língua portuguesa em uma perspectiva bilíngüe e querem saber como se ensina português como segunda língua para surdos.

Primeiramente, a proposta deste livro é situar o professor na educação bilíngüe (língua de sinais e língua portuguesa) no contexto sócio-cultural do processo educacional do aluno surdo. No capítulo 1, apresentamos alguns conceitos e discutimos o contexto da educação de surdos no Brasil na perspectiva da educação bilíngüe tendo a língua de sinais como língua de instrução e a língua portuguesa escrita como segunda língua.

No capítulo 2, foco principal deste livro, apresentamos várias propostas de atividades que foram amplamente usadas na educação de surdos. Todas as atividades estão relacionadas com o ensino da língua portuguesa, mesmo que indiretamente.

Muitas das idéias apresentadas foram criadas a partir de jogos e brincadeiras infantis ou adaptadas de dinâmicas utilizadas no ensino da língua portuguesa para crianças ouvintes e outras ainda foram criadas especificamente para as crianças surdas. No entanto, sempre tivemos a preocupação de contextualizar todo o processo na perspectiva do ensino de segunda língua. Assim, as atividades propostas estão planejadas considerando o contexto bilíngüe da criança surda.

Idéias para ensinar português para alunos surdos

As atividades podem ser utilizadas desde o início do processso de aquisição da leitura e escrita, ou seja, com aquelas crianças que ainda não tiveram nenhum contato com o português, até o final das séries iniciais, em que a criança já se encontra alfabetizada. A diferença vai estar no nível de profundidade trabalhada. Assim, sempre daremos algumas dicas dizendo o que seria mais adequado para as crianças no início e durante o processo de alfabetização.

No capítulo 3, apresentamos alguns recursos didáticos que podem ser explorados de diferentes maneiras para o ensino da língua portuguesa e demais áreas de conhecimento.

Trazemos este livro pensando no professor dentro da sala de aula. O objetivo é de que as atividades propostas sirvam de referência. Assim, a partir delas, os próprios professores podem criar a sua versão de acordo com a sua realidade.

Ronice Müller de Quadros Magali L. P. Schmiedt

Apresentação

Capítulo 1Capítulo 1Capítulo 1Capítulo 1Capítulo 1 As línguas no contexto da educação de surdos

1.1 Introdução1.1 Introdução1.1 Introdução1.1 Introdução1.1 Introdução

As línguas expressam a capacidade específica dos seres humanos para a linguagem, expressam as culturas, os valores e os padrões sociais de um determinado grupo social. Os surdos brasileiros usam a língua de sinais brasileira, uma língua visual-espacial que apresenta todas as propriedades específicas das línguas humanas. É uma língua utilizada nos espaços criados pelos próprios surdos, como por exemplo, nas associações, nos pontos de encontros espalhados pelas grandes cidades, nos seus lares e nas escolas. Sim, também nas escolas. Este é o contexto do qual se ocupará este livro, as línguas na escola em que a criança surda está inserida.

O contexto bilíngüe da criança surda configura-se diante da co-existência da língua brasileira de sinais e da língua portuguesa. No cenário nacional, não basta simplesmente decidir se uma ou outra língua passará a fazer ou não parte do programa escolar, mas sim tornar possível a co-existência dessas línguas reconhecendo-as de fato atendando-se para as diferentes funções que apresentam no dia-a-dia da pessoa surda que se está formando.

Parte-se de pressupostos básicos que não serão discutidos em mais detalhes no presente livro, uma vez que se dispõe de razoável literatura que aborda tais aspectos (por exemplo, Ferreira-Brito, 1993; Perlin, 1998, 2000; Quadros, 1997; Quadros e Karnopp, 2004; Skliar, 1997a, 1997b; Souza, 1998). Apresenta-se a seguir de forma sintetizada tais pressupostos, simplesmente no sentido de situar o leitor a respeito do lugar do qual se está partindo.

zEstudos Surdos – Um novo campo teórico que prima pela aproximação com o conhecimento e com os discursos sobre a surdez e sobre o mundo surdo (Skliar, 1998). A narrativa da inclusão no campo dos estudos culturais ou estudos surdos vai assumir a narrativa dos surdos. Através dos relatos, ela vai captar as formas de sofrimento e manifestações de resistência diante da inclusão que refletem a história vivida pelos surdos em épocas que não se respeitava o direito lingüístico, o direito ao uso e ensino de libras. Os estudos surdos aproximando-se dos estudos culturais vão traduzir estes espaços de resistência e buscar traduzir que aí sobrevive um grupo resgatando sua cultura. Nesse sentido, vale destacar que a diferença se reconhece por meio de processos de tradução. O ser é interpretado como diferente (ou como deficiente) dependendo da posição ou do lugar que ocupa quem define essa diferença e da posição ou do lugar que ocupa aquele que está sendo definido (Perlin, 2000).

zIdentidades/culturas surdas – Entende-se culturas surdas como identidades culturais de grupos de surdos que se definem enquanto grupos diferentes de outros grupos. “Identidade” é entendida aqui no sentido explicitado por Silva (2000:69): como o conjunto de características que distinguem os diferentes grupos sociais e culturais entre si. No campo dos estudos culturais, a identidade cultural só pode ser entendida como um processo social discursivo. Como diz Perlin (1998:54), os surdos são surdos em relação à experiência visual e longe da experiência auditiva. Essas culturas são multifacetadas, mas apresentam características que são específicas em relação às experiências surdas, elas são visuais, elas traduzem-se de forma visual, traduzem-se por meio da língua de sinais. As formas de organizar o pensamento e a linguagem transcendem as

Idéias para ensinar português para alunos surdos formas ouvintes. Elas são de outra ordem, uma ordem com base visual e por isso têm características que podem ser ininteligíveis aos ouvintes. Elas se manifestam mediante a coletividade que se constitui a partir dos próprios surdos.

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