E vão-se os anéis e ficam os dedos

E vão-se os anéis e ficam os dedos

E vão-se os anéis Reflexões de uma noite

Antonio Fernando Navarro

Mas sobra algo muito mais valioso, Valioso para apontar, Para acariciar, Para apertar, Para afagar.

E vão-se os anéis E com eles as vaidades, A soberba, As glórias de um passado que não tem mais volta, As discussões pela herança, e quem sabe pela bonança, e talvez pela desesperança. Ah! Quantas bobagens ditas sem pensar, ou quantos pensamentos ditos para magoar!

E vão-se os anéis, E sobram os dedos, Sobram aquilo com que viemos a este mundo, Sobram aquilo com que poderemos recomeçar. Recomeçar a escrever, a reconstruir, a entregar, a oferecer em apoio.

Recomeçar, Triste e bom, Penoso e fácil, Orgulho e vergonha.

E vão-se os anéis E sobram os dedos.

Hoje, depois de um longo inverno, que parecia não ter fim em meu coração, decidi recomeçar a escrever uma carta, que iniciei em um banco de rodoviária, lá distante, durante uma noite sem fim, sozinho só com os meus pensamentos, e com lágrimas a rolar pelas faces, da dor da perda, da dor da desesperança e da dor da incompreensão. Decidi, porque, naquele momento e dentro de mim já não existiam os anéis com o que me preocupar. Não existia mais a vergonha de chorar pela solidão ou pela perda. Não existia mais a preocupação com a perda de algo que se deixou para trás. Que algo? Material? Já não fazia mais sentido.

Existiam e existem sim, dedos fortes para recomeçar, não dedos para apontar ou para incriminar, sim, porque, no recomeço as forças são débeis.

Já se vão anos em que um vazio começou a brotar dentro de m. Não foi algo expontâneo, ou algo que estivesse sob o meu controle. De repente, no copo das mágoas as gotas sobraram, transbordando todo o conteúdo sem que pudesse conter um pouco daquilo que um dia lá esteve.

Também já não era mais importante juntar mágoas, que nunca conduziram a nada, somente a uma terrível e grande separação. Mágoas que geraram um vácuo, onde nem o som dos pensamentos era possível ouvir-se. Não só por mim, mas por aqueles a quem amava.

Creio que razões devam haver de ambos os lados, porém, com a velhice, os anéis se vão porque os dedos já não seguram nada. Ë pele sobre ossos expondo cruelmente a nossa outrora forma e vaidade diante de uma vida. É um vigor perdido para o qual guerras não há a vencer. É a decrepitude assinalando o fim da jornada. Por isso, não existem ganhadores ou perdedores, somente frustrados. Frustrados do tempo perdido, frustrados das angústias passadas, frustrados da saudade.

Ah! Saudade! Daquilo que temos em nosso peito, De dormir ao relento sob uma árvore, De nos abraçar sem termos uma razão para isso. Só isso. Saudade de risos expontâneos. Saudade de carinhos sem obrigações. Saudade de tempos que não voltam mais.

A vida não tem sido fácil para nós. Têm nos pregado peças a cada volta da estrada e a cada sombra do caminho. E a estrada está chegando ao fim. E no fim não há nada, só um grande vazio. É o tempo de olharmos, não para trás, porque aquilo que lá ficou não mais estará ao nosso lado.

Não há mais tempo para esperar. É tempo de olhar para o lado, para certificar-se de que ainda resta uma saudade. Sim, porque se essa ainda existir há esperança.

Tenho saudades daqueles com quem convivi, com quem brinquei ou briguei, daqueles a quem amei. Saudades dos apertos de mão e abraços, das orientações, dos sorrisos.

Tenho saudades de minha Mãe, que quando criança acolhia-me no colo para passar os seus dedos, sem anéis, sobre os meus cabelos.

Tenho saudades de meu Pai, que não teve a oportunidade de compreender-me, de escutar-me. Sim, o velho chefe não foi criado no tempo em que podia ouvir os seus subordinados. Lembro-me dando ordens no seu trabalho, na sua mesa imponente, quase ao centro de um salão imponente, com um prendedor de gravata imponente. Era tudo imponente, impotente com o tempo. O medo de criança transformou-se no orgulho do rapaz e no vazio do adulto.

Sinto que o tempo para o fim da estrada é chegado para todos. Para alguns mais rápido do que para os outros. Do outro lado, onde já estive, e para onde vou voltar a qualquer um momento desses, sei que antes do fim deveremos olhar para os lados e nos dar as mãos. Não as mãos de remorso ou rancor, mas sim as de um recomeço.

As mãos com os dedos já sem os anéis. A vida não termina quando cerramos os olhos, não aquela material que sempre teimamos em acreditar. E quando essa acaba há uma nova, para que recomecemos, já sem os erros do passado.

Que bom que há um dia sempre depois de uma noite. Quem bom que ainda há um sol depois da chuva. Que bom que depois que a planta é podada ainda tem força para rebrotar.

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