Doenças da soja e seu controle

Doenças da soja e seu controle

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INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS - Nº 6 - JUNHO/94 9

1. DOENÇAS FÚNGICAS

Entre os principais fatores que limitam o rendimento da soja, as doenças são os mais importantes e de difícil controle. Cerca de 40 doenças causadas por fungos, bactérias, nematóides e vírus afetam a cultura no Brasil. A importância econômica de cada doença varia de ano para ano e de região para região, dependendo da condição climática de cada safra. Ao nível nacional, o valor das perdas anuais por doenças é estimada em cerca de US$ 2 bilhões.

A maioria dos patógenos da soja é transmitida através das sementes, e o uso de sementes contaminadas, originadas de diferentes áreas de produção, tem sido importante causa de introdução e aumento de novas doenças ou de raças fisiológicas de patógenos. O uso de sementes sadias, ou o seu tratamento químico, evitaria a disseminação.

O controle das doenças através de resistência genética é o modo mais eficaz e econômico, porém, para a maioria das doenças, não existem cultivares resistentes. A eliminação ou a manutenção das doenças, ao nível de dano econômico, depende do conhecimento das exigências específicas de cada uma delas e da integração de várias práticas culturais, onde se incluem: rotação/sucessão de culturas, tratamento químico da semente, resistência varietal, calagem e adubação equilibrada, população adequada e melhor época de semeadura, controle de plantas daninhas e, eventualmente, o tratamento químico da parte aérea.

1.1. Mancha “olho-de-rã” (Cercospora sojina) (Foto 27)

Já foi uma das mais sérias da cultura da soja e poderá voltar a causar grandes prejuízos se não houver diversificação genética das cultivares, principalmente no Cerrado, onde cerca de 60% é representada por uma cultivar, a “FT-Cristalina”. O fungo C. sojina ataca toda a parte aérea, porém, é mais visível nas folhas onde produz manchas circulares, medindo de 1 a 4 m de diâmetro.

Controle: cultivares resistentes e tratamento químico da semente.

1.2. Doenças de final de ciclo: mancha parda (Septoria glycines) (Fotos 28 e 29) e crestamento foliar e mancha púrpura da semente (Cercospora kikuchii) (Fotos 30 e 31)

Tanto a mancha parda como o crestamento foliar de

Cercospora/mancha púrpura da semente são de ocorrência generalizada, mas são mais perigosas nas regiões quentes e chuvosas do Cerrado. Seus efeitos são mais visíveis na fase de maturação e reduzem o rendimento por causarem desfolha prematura. Sob condições favoráveis, a redução da produtividade pode atingir a mais de 30%.

Controle: Rotação/sucessão de culturas, incorporação dos restos culturais, tratamento de semente e adubação equilibrada, com ênfase no potássio. O controle pode também ser obtido com uma ou duas aplicações preventivas de fungicidas, iniciando no estádio R5.5 (75% de vagem formada). A segunda deve ser feita 10-12 dias após a primeira (estádio R6). Os fungicidas e dosagens (i.a./ha) são: a) benomil (50PM) (500 g); b) benomil (50PM) + mancozeb (80PM) (250g + 1.600 g); c) carbendazim (75PM) (250 g); d) fentin hidróxido de estanho (40F) (200 g); e) tiabendazol (40F) (400 g).

1.3. Cancro da haste (Diaporthe phaseolorum f. sp. meridionalis/Phomopsis phaseoli f. sp. meridionalis) (Fotos 32, 3 e 34)

O fungo é disseminado por sementes contaminadas, multiplica-se nas primeiras plantas infectadas e, posteriormente, nos restos culturais. A ocorrência da doença depende da suscetibilidade da cultivar e de chuvas freqüentes nos primeiros 40-50 após a emergência.

Controle: Uso de cultivar resistente. A atual falta de semente de cultivares resistentes exige a adoção de medidas capazes de reduzir o potencial de inóculo do patógeno e de melhorar as condições nutricionais das plantas. Assim, além de cultivar resistente, é essencial complementar com tratamento de semente, rotação/sucessão de culturas, incorporação dos restos culturais, semeadura tardia, população e espaçamento que evitem o estiolamento e o acamamento e adubação potássica equilibrada.

1.4. Antracnose (Colletotrichum dematium var. truncata) (Fotos 35 e 36)

A antracnose é uma das principais doenças do Cerrado.

Pode causar perda total mas, com maior freqüência, reduz o número de vagens e induz a planta à retenção foliar e haste verde. O sintoma na haste (Foto 36) é facilmente confundido com a fase inicial do cancro da haste (Foto 37).

Controle: Rotação/sucessão de culturas, maior espaçamento entre as linhas e população adequada, controle de plantas daninhas, tratamento da semente e manejo adequado do solo, com ênfase na adubação potássica.

1.5. Seca da haste e da vagem ou Phomopsis da semente (Phomopsis sojae e outras espécies) (Fotos 37 e 38)

É uma das doenças mais tradicionais da soja e, anualmente, junto com a antracnose, é responsável pelo descarte de grande número de lotes de sementes. Ocorre principalmente em anos chuvosos, causando morte prematura (Foto 37) ou apodrecimento das vagens e sementes quando ocorre retardamento de colheita por excesso de umidade (Foto 38).

Controle: Idem ao da antracnose.

1.6. Mancha alvo e podridão da raiz (Corynespora cassiicola) (Fotos 39 e 40)

Presente em todas as regiões produtoras de soja, além de manchas foliares (Foto 39), o fungo causa podridão da raiz (Foto 40), forçando a planta à maturação antecipada. Aparentemente há variação de patogenicidade entre a Corynespora cassiicola que causa a mancha foliar e a podridão da raiz. Essa hipótese está sendo investigada.

Controle: A maioria das cultivares comerciais são tolerantes à mancha foliar, porém, não há informação detalhada sobre a reação à podridão da raiz. Como o fungo C. cassiicola possui uma

10 INFORMAÇÕES AGRONÔMICAS - Nº 6 - JUNHO/94 ampla gama de hospedeiros e sobrevive por muitos anos no solo, evitar a semeadura direta em monocultura, adotando-se a rotação/ sucessão de culturas.

1.7. Podridão branca da haste ou podridão de Sclerotinia (Sclerotinia sclerotiorum) (Foto 41)

Uma das mais antigas doenças da soja, a podridão de

Sclerotinia continua causando perdas significativas na Região Sul e nas regiões altas do Cerrado. Além da redução do rendimento, a doença é importante por ocorrer nas principais regiões produtoras de semente.

Controle: Tratamento químico das sementes; aumentar o espaçamento (50-60 cm) e adequar a população para evitar acamamento; rotação/sucessão de soja com espécies resistentes como o milho, aveia branca ou trigo e eliminar as plantas daninhas. Evitar a sucessão da soja em áreas cultivadas com girassol, nabo e canola.

1.8. Podridão parda da haste (Phialophora gregata) (Foto 42)

A podridão parda da haste foi identificada pela primeira vez em Passo Fundo-RS e municípios vizinhos, em 1989/90 (COSTAMILAN et al., 1991). Desde então, tem causado sérios danos em diversos municípios do Planalto Central do Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Controle: Cultivares resistentes e rotação/sucessão com milho, sorgo, arroz, trigo, aveia preta e cevada. As cultivares mais resistentes no Rio Grande do Sul são: BR-16, Davis, EMBRAPA-1, EMBRAPA-4, EMBRAPA-19, Ivorá e OCEPAR-4=Iguaçú (COSTAMILAN & BONATO, 1993).

1.9. Podridão radicular vermelha ou síndrome da morte súbita-SDS (Fusarium solani) (Fotos 43 e 4)

Observada pela primeira vez em São Gotardo (MG) na safra 1981/82, na cultivar UFV-1, a podridão vermelha da raiz é hoje um problema nacional. Ocorre nas principais regiões produtoras de semente de Goiás, Minas Gerais, sul do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Além da soja, causa sérios prejuízos em feijão irrigado sob pivô central.

Controle: A semeadura direta e a monocultura da soja parecem favorecer a doença, porém, não se dispõe de dados experimentais mais concretos para uma recomendação de manejo. Entre as cultivares testadas, IAC-1 e IAC-4 foram resistentes.

2. DOENÇAS CAUSADAS POR NEMATÓIDES

2.1. Nematóides de galhas (Meloidogyne incognita, M. javanica e M. arenaria) (Foto 45)

Os nematóides de galhas estão entre os maiores responsáveis por redução de rendimento em soja. A espécie mais predominante é a M. javanica.

Controle: O controle, através de resistência genética, apresenta possibilidades limitadas. A forma mais eficiente e duradoura de conviver com os nematóides de galhas é através da rotação/sucessão de culturas com espécies resistentes (algodão, milho, sorgo, aveia, trigo, etc.) e adubação verde com espécies de Crotalaria e mucuna preta (Styzolobium atterrimum).

2.2. Nematóide de cisto (Heterodera glycines) (Fotos 46, 47 e 48)

Distribuição geográfica: Identificado pela primeira vez no

Brasil na safra 1991/92, o nematóide de cisto da soja expandiu-se de forma assustadora nas safras seguintes.

Importância econômica: Na safra 1991/92, a área afetada foi estimada em 10 mil hectares, com perda avaliada em US$ 1 milhão. Na safra 1993/94, a área infestada foi estimada em cerca de 1 milhão de hectares e os prejuízos só não foram catastróficos devido à semeadura do milho.

Nos Estados Unidos, os níveis de danos econômicos são observados após seis a sete anos do início da infestação. No Brasil, são relatadas perdas totais em áreas de três a cinco anos de cultivo de soja. Geralmente, essas áreas apresentam forte infestação de plantas daninhas.

Sintoma: A presença do nematóide de cisto é caracterizada por reboleiras de plantas amareladas de diferentes tamanhos. As plantas infestadas podem morrer aos 30-40 dias da semeadura. Geralmente, o sintoma mais característico é o amarelecimento das folhas com acentuado sintoma de deficiência de manganês, acompanhado de nanismo das plantas, abortamento de flores e vagens. O sintoma de deficiência de manganês é mais visível nos solos sob cerrado, enquanto no latossolo roxo (Palmital, SP) a deficiência de potássio se acentua. As características mais distintas para diagnóstico do nematóide é a presença típica dos cistos (fêmeas) de coloração branca a amarela nas raízes e castanha no solo (Foto 48).

Controle: A primeira medida a ser adotada é a de evitar a dispersão do nematóide para novas áreas. As principais formas de disseminação para áreas indenes são: a) movimentação e transporte de solo infestado aderido a máquinas e implementos agrícolas, veículos e calçados; b) erosão eólica; c) erosão por água de chuva; d) sementes com partículas de solo contendo cistos; e) aves e animais silvestres; e f) transporte de soja não beneficiada, contendo torrões e resíduos contaminados, distribuídos por caminhões, ao longo das rodovias. A identificação do nematóide na fase inicial de infestação é fundamental para o controle.

Manejo integrado: A alternativa de controle mais viável e duradoura é o manejo integrado, cujo objetivo é a redução da população do nematóide a um nível de convivência através da combinação de diversas práticas agronômicas: a) rotação/sucessão de culturas com hospedeiros não suscetíveis (algodão, amendoim, arroz, cana-de-açúcar, girassol, mandioca, milho, sorgo/aveia, cevada, trigo, milheto e pastagem); b) adubação verde (mucuna, Crotalaria); c) controle de plantas daninhas; e d) retardamento da semeadura de cultivares precoces.

Na maioria das regiões, a rotação com o milho é a opção econômica mais viável, porém, sua expansão já está apresentando sérios problemas de armazenamento e comercialização. As sucessões mais viáveis são as culturas de inverno ou de entressafra, com finalidades econômicas ou de cobertura, adubação verde ou complementação de pastagem, como o milheto, sorgo, aveia preta, a mucuna e espécies de Crotalaria. A principal limitação no uso dessas espécies é a pouca disponibilidade de semente, por falta de demanda e de estrutura de produção.

Observações preliminares em lavouras com altas populações de nematóides têm mostrado que apenas um ano de rotação com milho não é suficiente para reduzir os prejuízos ao nível de dano econômico. Portanto, é fundamental que a presença do nematóide seja detectada na fase inicial de infestação, para que um ano de rotação seja eficaz.

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