historia da Surdez - UFSM

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(Parte 1 de 5)

Professoras conteudistas/pesquisadoras: MELÄNIA DE MELO CASARIN Acadêmica: FERNANDA DE CAMARGO MACHADO Carga Horária: 30h

Resumo

A disciplina pretende mapear as representações culturais que tramam a história da surdez e dos surdos, problematizando os enredamentos discursivos que se articulam para constituir estes sujeitos, bem como as diversas imbricações do saberfazer de sua educação. Para tanto, entende-se a noção de cultura como um terreno de disputa política em torno das representações que transitam no circuito social. Sendo assim, as possibilidades de narração da surdez estão inscritas no campo conflitivo do discurso e, portanto, produzem a identidade destes sujeitos. Assim, as narrativas sobre a surdez - tecidas na e pela cultura - vêm se reconfigurando, o que exige outras alternativas educacionais e de acesso dos surdos a informação e a cultura, no sentido de contemplar a condição visual inerente aos educandos surdos.

Palavras-chave: Surdez – Cultura – Representações

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Unidade A – REPRESENTAÇÕES HISTÓRICAS DA SURDEZ

Essa unidade propõe uma discussão sobre as representações históricas da surdez, detalhando aspectos filosóficos, sociais, educacionais e culturais que determinaram diferentes olhares sobre os surdos e a educação dessas pessoas. A Unidade A, visa constituir as bases para a compreensão da surdez como um discurso produzido pelas representações culturais de sua época.

A.1 – Pressupostos filosóficos, sociais, educacionais e culturais da história da surdez

Um estudo acerca da história da educação de surdos implica a compreensão da influência das representações culturais e dos pressupostos políticos e filosóficos que vêm permeando este tema. Nesse sentido, as narrativas que se articulam para abordar a surdez foram produzidas a partir das significações culturais inscritas no campo discursivo de sua época.

Sabemos que, na Antiguidade, ocorria o sacrifício de surdos em função do ideal grego de beleza e perfeição. Ademais, o nascimento de uma pessoa narrada como "deficiente" era concebido como um castigo dos deuses, o que justificava a sua eliminação1.

Além disso, a produção da alteridade2 surda como "falta" era reforçada pela concepção filosófica de então, em que a fala era considerada o único meio de expressão do pensamento. Desse modo, a partir da significação cultural característica dessa época, os surdos são nomeados como sujeitos incompletos e, portanto, incapazes de aprender.

Apenas no século XVI, o médico italiano Girolamo Cardano (1501-1576) advoga a favor da capacidade de aprendizado dos sujeitos surdos. Entretanto, o monge beneditino Pedro Ponce de Léon (1520 – 1584) é o primeiro professor de surdos de que se tem registro histórico.

1 (ASSUNTO) - Aspectos Históricos da Educação Especial - para saber mais sobre o assunto, leia a obra Educação Especial no Brasil: história e políticas e públicas, de Marcos

José Silveira Mazzotta (5.ed. São Paulo Cortez, 2005).

2 (GLOSSÁRIO): Alteridade - "resulta de uma produção histórica e lingüística, da invenção desses Outros que não somos, em aparência, nós mesmos” (Skliar, 1999, p.18).

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Ponce de León viveu no monastério de San Salvador, em Oña, na Espanha, onde se dedicou à instrução dos dois irmãos surdos de um conde. Esta educação caracterizava-se, portanto, pelo regime de preceptorado. Era, então, uma educação voltada para assegurar os direitos dos descendentes da nobreza (Botelho, 1998). Contemplando esse tópico, comenta Sérgio André Lulkin (2000, p.53):

Assim como a Espanha preserva a memória do Frei Pedro Ponce de León como um "mito paternal" da educação de surdos, autorizando a comunicação sinalizada e criando métodos de ensino da fala e da escrita, na França temos uma outra figura lendária que assume esse papel: o abade Charles Michel de L'Epée.

Na segunda metade do século XVIII, o abade de L'Epée (1712-1789) inicia um trabalho pedagógico relacionado à surdez ao deparar-se casualmente com duas irmãs surdas. Inicialmente, seu intuito era apenas catequizador. No entanto, mais tarde, comovido com a situação de pobreza dos surdos da capital francesa, funda em 1760 o estabelecimento que viria a se tornar a primeira escola pública para surdos no Ocidente: o Instituto Nacional de Surdos-Mudos de Paris.

Portanto, é possível vincular o contexto de criação de tal instituto com o discurso caritativo e de salvação religiosa. Como toda discursividade está imbricada no exercício do poder, neste caso, aquele que ajuda os "necessitados" está inevitavelmente numa posição de superioridade.

A respeito do trabalho realizado pelo abade de L'Epée, Góes (1996) ressalta o uso de um método chamado de "signos metódicos", o qual foi criado a partir dos gestos dos alunos e de elementos da língua oral. Há quem considere L’Epée o "Pai da língua de sinais". No entanto, antes disso, é considerado como um de seus grandes defensores, pois a língua de sinais era utilizada pelos surdos desde a Antigüidade.

Já quanto aos pressupostos filosóficos que embasariam seu trabalho, Skliar (1997a, p.25-26) declara: "no queda otra posibilidad que enserñarles la lengua escrita a través del uso de gestos, el medio natural que poseen para expressar sus sentimientos, ideas y emociones."

Diante disso, evidencia-se a concepção de língua de sinais inerente ao Instituto: ela é considerada a forma natural de comunicação dos sujeitos surdos. Convém

PDF created with pdfFactory Pro trial version w.pdffactory.com destacar, no entanto, que ela apenas serviu de base para a elaboração dos signos metódicos – linguagem gestual inventada pelo abade de L'Epée.

Em meados do século XIX, chega, ainda que por um curto período, à sede do

Instituto Nacional de Surdos-Mudos, que na época estava sob regência do abade Sicard, um caso de grande repercussão: o Selvagem de Aveyron. Luci Banks-Leite e Izabel Galvão (2000, p.12) narram o fato:

Sobre aquele que receberia o nome de Victor, sabe-se que nos primeiros dias do ano de 1800, autoridades do Departamento do Aveyron informaram Paris que havia sido encontrado, nas florestas de La Caune, um menino nu, aparentando ter de 12 a 15 anos, mudo e que parecia surdo. Não fazia mais do que emitir grunhidos e sons estranhos, não reagia às interpelações nem a fortes ruídos, cheirava tudo que levava às mãos. Sua locomoção era mais próxima do galope, andando também de quatro, quando alcançava grande velocidade.

Com base no discurso que transitava na chamada Época das Luzes, segundo o qual o saber científico poderia "desvelar" os mistérios do mundo, é dada a um médico a responsabilidade de instruir o garoto e de, ao mesmo tempo, pesquisar sobre ele.

A partir disso, podemos analisar a escolha do psiquiatra Jean-Marc-Gaspard

Itard (1774-1838). O profissional em questão era médico-residente no Instituto Nacional de Surdos-Mudos. Estava, portanto, em início de carreira. Dessa forma, representava a nova geração do conhecimento. Ademais, visava aos benefícios que a repercussão de um caso desta complexidade poderia trazer a sua carreira. Os relatos das experiências educacionais realizadas com Victor3 após a sua saída da instituição do abade de L'Epée constituem um rico material de informações acerca dos discursos que circulavam naquele período histórico.

Nas palavras do próprio Jean Itard (apud Banks-Leite e Galvão, 2000), um dos cinco objetivos do ensino de Victor consistia em "levá-lo ao uso da fala, determinando o exercício da imitação pela lei imperiosa da necessidade”.

3 (ASSUNTO): Para saber mais sobre Victor ou Selvagem do Aveyron, leia A educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean Itard, obra organizada por Luci Banks- Leite e Izabel Galvão (São Paulo: Cortez, 2000).

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Dessa forma, o médico tentou desenvolver - sem sucesso, conforme seus depoimentos – a oralização em seu aluno, utilizando como pressupostos teóricos seus estudos sobre a fisiologia da audição.

Após desistir do caso Victor, já que a capacidade da fala era, para Itard, prérequisito fundamental para tornar o ser humano civilizado, o médico continuou suas pesquisas a respeito da organicidade do ouvido, defendendo a necessidade de os surdos receberem instrução destinada à articulação da palavra. Com isso, foi grande defensor da corrente pedagógica chamada de Oralismo.

A oficialização da metodologia oralista ocorreu durante a realização de um evento que marcou uma grande ruptura na educação de surdos: o I Congresso Internacional de Milão4.

No período de 6 a 1 de setembro de 1880, ouvintes debateram e elegeram o Methodo Oral Puro como a forma mais adequada de organizar a instrução de pessoas surdas.

Nesse contexto, o uso de qualquer tipo de manifestação gestual pelos surdos fora proibido por ser considerado prejudicial ao ensino da língua majoritária oral. Torna-se extremamente relevante destacar aqui a ausência de membros da comunidade surda em tal decisão, os quais foram impedidos de opinar a respeito dela.

No tocante ao jogo de correlação de forças inerente à oficialização do Oralismo no Congresso de Milão, Carlos Bernardo Skliar (1997) aponta razões políticas, filosóficas e religiosas.

As primeiras dizem respeito ao plano das autoridades italianas de padronização lingüística. Assim, a utilização de qualquer língua diferente da língua oral daquela nação tornaria o projeto inviável.

Ademais, conforme a concepção aristotélica, a palavra seria o único meio de acesso à razão, o que convergia com o pensamento religioso da época, o qual previa a necessidade de perdão divino nas confissões.

Além disso, o uso dos sinais era concebido como vulgar, não sendo considerada uma forma de comunicação admissível, o que se torna claro no depoimento de um dos congressistas, citado por Lulkin (2000, p.67):

4 (ASSUNTO): Congresso de Milão – Sugerimos a leitura das páginas 4 e 5 do artigo Um pouco da história das diferentes abordagens na educação dos surdos, de Cristina B.F. Lacerda. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101- 32621998000300007.

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Em todas as instituições onde se deseja sincera e eficazmente introduzir o verdadeiro método da palavra, devemos inicialmente, separando os iniciantes dos outros alunos, e por todos os meios possíveis, desenraizar a erva daninha da língua de sinais.

A transição desses discursos e o seu estabelecimento como regime de verdade produziu a subjetividade surda como um déficit sensorial que deve ser corrigido a partir do treinamento da fala, já que esta é apontada como condição indispensável para a aceitação social.

O paradigma educacional em questão constitui a surdez como uma patologia que deve receber tratamento médico. Nessa perspectiva, os dispositivos educacionais formam a chamada pedagogia corretiva, com vistas à reabilitação do surdo.

Para tanto, o ensino com orientação oralista emprega métodos educacionais com teor clínico, a saber: o verbotonal, o audio-fonatório, o multissensorial, o acupédico, etc. Nessa perspectiva, os alunos devem sentar sobre as mãos, para que não haja a menor possibilidade de uso dos sinais. Além disso, os professores são considerados "audistas", pois priorizam a articulação da palavra e submetem o aluno surdo a uma avaliação diagnóstica de sua perda auditiva.

O Oralismo serviu de pressuposto teórico para a primeira instituição educacional para surdos fundada no Brasil: o Imperial Instituto de Surdos Mudos, o qual foi criado - com apoio estatal - pelo professor surdo francês Ernest Huet, em 1857, no Rio de Janeiro. Esta instituição continua a existir hoje em dia, porém com a denominação de Instituto Nacional de Educação de Surdos5.

5 (ASSUNTO): Instituto Nacional de Educação de Surdos – w.ines.gov.br. PDF created with pdfFactory Pro trial version w.pdffactory.com

Figura 1: INES - Instituto Nacional de Educação de Surdos

Nessa instituição, começaram as primeiras ações educacionais dirigidas ao público surdo no Brasil. As propostas tinham um caráter reeducador e de desenvolvimentos da fala. Paula Botelho (1998, p.21) contempla este tema ao afirmar que:

Assim é traçado o desenho do Oralismo, abordagem cujo discurso propõe a superação da surdez e a aceitação social do surdo por meio da oralização, banindo desde então a língua de sinais dos modelos educacionais. (...) O ensino da fala passa a ocupar centralidade máxima, e converte-se em meio e fim da educação do surdo.

Todavia, a partir de meados da década de 1970, a mãe de uma menina surda idealiza uma filosofia educacional como contraponto ao radicalismo imposto pela visão oralista. Trata-se da Comunicação Total6.

6 (GLOSSÁRIO): Comunicação Total – De acordo com esta abordagem, todos os dispositivos lingüísticos são plausíveis de utilização no contexto escolar com o intuito de facilitar o entendimento entre surdos e ouvintes.

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Ciccone (apud Maria de Moura Ruschel, 1999) enumera as várias técnicas que podem compor o paradigma da Comunicação Total, tais como: estimulação auditiva, adaptação de aparelho e amplificação sonora individual, leitura labial, oralização, leitura, escrita e soletração manual. Pode-se ainda referir a permissão de uso de poucos sinais, que servem apenas para complementar a comunicação, que passa de total a bimodal7.

No entanto, as práticas pedagógicas que têm o Oralismo como pressuposto teórico não foram substituídas pela Comunicação Total, pois possuem a mesma matriz discursiva, isto é, integrar os surdos à sociedade. Em outras palavras, tanto o Oralismo como a Comunicação Total procuram ajustar os surdos à ordem vigente, aproximando-os o máximo possível do padrão de referência ouvinte, o que será debatido com mais profundidade na Unidade B.

A.2 – A Educação Especial e a surdez

Os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade inerentes à Revolução

Francesa demonstram a busca dos intelectuais desse período por uma nova educação, uma educação moderna. Ao abordar esse tema, Maura Corcini Lopes (2004, p.34) escreve:

Ir à escola na modernidade passou a ser condição para que a ordem social se mantenha e para que o controle, o disciplinamento e a correção dos sujeitos que não correspondem as fases e as classificações pré-definidas para dizer de um desenvolvimento normal, aconteça.

Nesse sentido, a necessidade de corrigir os indivíduos anômalos para a manutenção da coesão social corresponde ao anseio da ciência, da religião e da clínica. Sendo assim, a instituição escolar alia-se a esses discursos, constituindo-se num dos espaços de correção desses sujeitos.

De acordo com Lulkin (2000), o discurso religioso tem como propósito a humanização da deficiência. Dessa forma, os surdos são concebidos como sujeitos

7 (GLOSSÁRIO): Comunicação Bimodal – Produção de uma mensagem pelos canais oralauditivo e espaço-manual, simultaneamente.

PDF created with pdfFactory Pro trial version w.pdffactory.com necessitados do milagre da salvação divina e os mestres - geralmente religiosos - seriam seres iluminados, cuja vocação sagrada consistia em libertá-los.

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