Por uma outra globalização

Por uma outra globalização

Curso: Eletrônica / Turma: 9821

Disciplina: Geografia / Professora: Aline Barbosa Aluno: Rodrigo Rosário dos Santos (nº23)

Resenha do documentário:

“Encontro com Milton

Santos, O mundo global visto do lado de cá”

Salvador, 31 de maio de 2010

Biografia de Milton Santos:

O baiano Milton Santos nasceu na região da Chapada Diamantina. A família era de classe média, e tanto o pai como a mãe eram professores primários. Aos dez anos, prestou exame para o Instituto Baiano de Ensino (Salvador) e passou em primeiro lugar. Depois, durante o curso secundário, criou e dirigiu dois jornais de escola, "O Farol" e "O Luzeiro". Ingressou na faculdade de direito e atuou na política estudantil, chegando a ser eleito vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em 1948, formou-se pela Universidade Federal da Bahia. Foi professor em Salvador e depois em Ilhéus. Nessa última cidade, foi correspondente do jornal "A Tarde". Também publicou seu primeiro livro, "A Zona do Cacau", tratando daquela monocultura na região. Ainda em Ilhéus, conheceu Jandira Rocha, com quem se casou e teria um filho, Milton Filho. Retornou para Salvador, tornou-se professor na Faculdade Católica de Filosofia e editorialista do "A Tarde" e publicou mais de uma centena de artigos de geografia. Em 1956, foi convidado pelo professor Jean Tricart a realizar seu doutorado em Estrasburgo (França). Tendo viajado pela Europa e pela África, publicou em 1960 o estudo "Mariana em Preto e Branco". Após o doutorado (com a tese "O Centro da Cidade de Salvador"), regressou para o Brasil. Novamente professor da Católica de Filosofia, criou uma ambiente intelectual dinâmico, que atraiu dezenas de estudiosos estrangeiros para darem conferências e cursos. No final dos anos 1950, Milton participou de um concurso (que acabou não se realizando) para livre-docente na Universidade Federal da Bahia. Após ter recorrido à Justiça, conseguiu prestar o exame, defendendo brilhantemente a tese "Os Estudos Regionais e o Futuro da Geografia". Na época, Milton Santos foi um dos fundadores do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da Universidade da Bahia, que demonstraria grande vitalidade na promoção dos estudos da área. Com o golpe militar de 1964, Milton Santos foi preso e depois exilado. Convidado a lecionar na Universidade de Toulouse (França), ficou ali três anos. Seguiu então para Bordeaux (também na França), onde conheceu Marie-Hélène, a geógrafa que se tornaria sua companheira e com quem teria o filho Rafael. A década de 1970 foi um período intelectualmente bastante fértil para Milton Santos, que estudou e trabalhou em universidades no Peru, na Venezuela e nos EUA. Nesse último país, entre 1975 e 1976, foi pesquisador no “Massachusetts Institute of Technology” (MIT). Em 1977, retornou para o Brasil, trazendo já completa a obra "Por uma Geografia Nova". Começou então um período difícil. Atuou como consultor e professor assistente e realizou trabalhos esporádicos até que, em 1984, conseguiu o posto de professor titular na Universidade de São Paulo (USP). Em 1994, recebeu o Prêmio Vautrim Lud, considerado "o Nobel da geografia". Continuou trabalhando ativamente até o fim da vida e foi agraciado com inúmeras honrarias, títulos e medalhas. Milton Santos morreu aos 75 anos, legando obras e atividades que foram um marco nos estudos geográficos no Brasil.

Defesa das idéias:

Dentre as diversas entrevistas feitas no decorrer deste “filme” a fala do coordenador nacional do MST, João Pedro Stédele me inspirou a defender as idéias da dissertação abaixo. Ele disse: - “O Milton Santos nos ajudou muito e, sobretudo porque foi uma voz destoante quando na universidade havia o pensamento único de que só era “chique”; só tinha espaço nos jornais, na televisão quem falasse a favor do neoliberalismo, quem falasse a favor do governo. Milton teve a coragem de se levantar contra, e nos alertou que as bases de uma sociedade que quer se dizer moderna não pode ser baseada em relações mercantis, não pode ser baseada em relações de exploração, não pode ser baseada na lógica do lucro. Ele teve a coragem de se insurgir contra a maré, erguer a sua voz e dizer: “há outro caminho. Não é o pensamento único. Há outras possibilidades do povo brasileiro se organizar nas cidades, no campo e resolver seus problemas. ” ”.

A globalização e seus efeitos nos países periféricos (visão de Milton Santos):

O documentário inicia com uma fatídica frase do intelectual: “Estamos enfrentando uma crise urbana. As cidades não prestam mais para o capital e nem para o homem”. Milton Santos descreve a situação real e atual dos centros urbanos mostrando que os estados não dispunham de recursos para atender às populações e com isso as mesmas tornam-se inviáveis para o homem. Se pensarmos que essa introdução do conceituado autor está fora de contexto estamos enganados, pois ele apenas pré-conceitua aquilo que irá defender logo após. “Há desigualdade tanto nos países periféricos quanto nos países desenvolvidos. Porém, nestes há uma dispersão maior das acumulações e naqueles uma concentração das acumulações em regiões específicas. Isto deixa explicita a sua situação de pobreza.”. E este fato é notoriamente observado por todos nós quando comparamos, por exemplo, o PIB per capita de um país desenvolvido com o de um menos desenvolvido (esse é apenas um dos critérios para percebermos a qualidade de vida nesses países). Outra animação demonstra a perversidade da globalização atual (algo que será discutido mais adiante) quando mostra o êxodo rural de uma família que seduzida pelos meios de comunicação (consideradas fontes de perversidade) vão para a cidade com esperança de encontrar aquilo que foi retirado do seu trabalho, mas, evidentemente, desprovidos dos meios de produção continuam migrando dentro dela e , ao contrário do que esperavam, não encontram a dignidade perdida. É este o cenário prévio apresentado para os telespectadores sobre como a globalização ameaçadora aos homens, regida pelo seu objeto semi-áureo: a manipulação através dos meios de comunicação (utilizo o termo semi-áureo, pois veremos mais adiante que este é apenas um adjunto do principal objeto especulativo da globalização). Estamos vivendo uma expropriação legalizada das possibilidades, ou seja, perdemos os direitos que nos foram instituídos desde antes da instalação do rude capitalismo. Aquilo que é nosso por direito é mal administrado por falsos detentores do poder (é sob esse aspecto que Milton Santos enxerga a globalização). “14 milhões de pessoas morrem antes do quinto ano de vida, dois bilhões de pessoas não têm água potável, desemprego é considerado como algo normal, aumento absurdo no número de pobres, um bilhão e meio de pessoas vivem com menos de um dólar por dia (naquele ano -2000- o dólar equivalia a R$ 1,80), 1,4% de pessoas não têm emprego nas metrópoles brasileiras”. São absurdos esses dados, sim, mas é esta a realidade do atual proletariado brasileiro (não englobando a todos, pois, a maioria deles, não consegue ser intitulados como tal) que diante de uma devastadora expansão de valores e informações se vê cotidianamente menosprezados e esmagados pela concorrência (algo que Milton Santos também trata e chama-a de “idiota concorrência”). Milton Santos insere a globalização neste contexto e intitula-a como uma globalização perversa. Ora, você que pensa que o estado é o único culpado por isso deve, em um bom sentido, rever seus conceitos. Os estados, diante da expansão das multinacionais (decorridas em muitos casos da fusão de diversas empresas) se veem impotentes diante da tirania das empresas que usam aparelhos já conhecidos por todos para “dominar o mundo”. Eles são obrigados a deixar o campo livre para o mercado (pregação do neoliberalismo) e são entregues a elas. Pensa que a atuação das transnacionais acabou por aqui? Não, não. Como se já não bastasse a sua tomada do “mundo consumidor”, elas estabelecem normas de convivência entre as pessoas sem ter mandato da sociedade. E já é de se supor que com essa brutal expansão, a solidariedade é assassinada (como diz o corriqueiro adágio: cada um por si e Deus por todos); a competitividade entre as grandes empresas “escorre” para a população que compete bestamente; e a sociedade é desorganizada moral e socialmente. Ilustríssimo Milton Santos, destaca, sem cometer erros, a contaminação que as grandes corporações transmitem para o povo que sem aparato econômico são seduzidos (como já citei no inicio) pela moda e pelos modelos internacionais pré-moldados pelo marketing empresarial. O autor ainda coloca que nunca houve cidadania no Brasil. Além disso, o consumo é o grande fundamentalismo e o capital a áurea da globalização. A partir disto ele concretiza o seu pensamento sobre uma outra globalização: “ O centro do mundo deixou de ser ocupado pelo homem e passou a ser ocupado pelo dinheiro em estado puro”. Segundo a opinião de diversos professores sociólogos e geógrafos, “Milton Santos não se posiciona contra nem a favor da globalização. Ele aponta para a dimensão de que não se deve se colocar contra ela”. E isso é o mais destacável em seu pensamento. Algo que se processa como a globalização não deve ter conclusões formuladas. É mais sábio diante de qualquer tema nos posicionar apontando uma solução diferente da conhecida por todos ou até mesmo aquela que todos conhecem, mas não concretizam historicamente. “Milton quer trocar essa globalização “financeirizada”, sob o domínio do capital financeiro, que suga os países do 3º mundo por uma globalização que tenha como centralidade e elemento fundamental o homem. Que possa ser capaz de fazer com que o homem seja feliz a partir do uso correto dos recursos naturais e dos recursos humanos.” O geógrafo deixa subentendido, segundo esse professor, que o homem deve se apropriar daquilo que sempre foi seu, o direito aos recursos. Quero fazer um rápido paralelo entre essa conclusão ideal sobre a outra globalização de Milton Santos e um assunto bastante pertinente. Na revolução Francesa foram estabelecidos “os direitos do homem e do cidadão” que garantia a igualdade perante a lei e o direito de voto a todos os cidadãos, porém, a burguesia, detentora do poder, não colocou em prática aquilo que estava pré-estabelecido. A maioria das pessoas continuou sem a posse das terras e sem direito a voto. Exatamente o mesmo acontece hoje. Ilusoriamente temos direito a algo que não podemos administrar e nem se apropriar. Somos regidos por uma constituição que nos garante uma série de benefícios, os quais são invisíveis diante das nossas necessidades. E ainda analisando esse quadro lamentável em que vivemos, nós temos uma enorme dificuldade para entender o mundo, e isso nos deixa tolos diante da história que está se formando. Mas por que isso acontece se o tal fato está nu diante dos nossos olhos? “Nós decidimos ser europeus e insistimos em ser europeus. Recusamos-nos a pensar como nós próprios porque achamos mais “chique” pensar como os europeus e americanos”. Isto segundo Milton Santos, nos deixa com escamas nos olhos sem poder desenvolver o sentimento de revolução. Aliás, não pensemos alto demais. Uma pequena mudança já resolveria boa parte dos nossos problemas. Para finalizar, Milton Santos conclui seu discurso dizendo que uma marca de nosso tempo é a carência de liberdade que compromete o exercício da cidadania. E essa carência, mais cedo ou mais tarde nos fará chegar ao limite máximo, assim como os totalitarismos (nazismo, fascismo, etc.) tiveram o seu nível auge.

Fonte: Documentário – “Encontro com Milton Santos, o mundo visto do lado de cá” Ano 2000. (Declaro que a fonte consultada foi o próprio documentário. Não foi utilizada nenhuma outra fonte para o desenvolvimento acima, somente para a bibliografia de Milton Santos)

Rodrigo Rosário dos Santos.

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