Utilização da gliricídia na alimentação de ruminantes

Utilização da gliricídia na alimentação de ruminantes

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ESCOLA DE VETERINÁRIA

Utilização da gliricídia (Gliricidia sepium) na alimentação de ruminantes

Alex Santos Lustosa de Aragão1; Rogério Martins Maurício2

1Aluno de doutorado em Nutrição Animal, Departamento de Zootecnia,

Escola de Veterinária, UFMG, Brasil

E-mail: aslaragao@hotmail.com

2Professor Adjunto da Universidade Federal de São João Del-Rei

Orientador, UFMG, Brasil

1. INTRODUÇÃO

A produção de forragem nos trópicos é estacional, tanto em quantidade quanto em qualidade, sendo que a qualidade da forrageira é alterada à medida que a planta amadurece, e geralmente coincide com o início da estação seca. As alterações na planta consistem em alongamento das hastes e floração, resultando em aumentos no teor de fibra, liginina e redução no teor proteíco, com a conseqüente redução no consumo animal.

O animal em pastagem de baixa qualidade não consegue alcançar sua demanda em nutrientes para manter uma curva crescente de crescimento. Tal condição pode acarretar em uma redução geral dos índices produtivos do rebanho, comprometendo a eficiência econômica desta atividade. Portanto, índices produtivos e econômicos satisfatórios em sistemas de produção animal a pasto só serão alcançados se houver um ajuste nutricional entre a curva sazonal de oferta das pastagens e a curva crescente de demanda do animal por nutrientes. Nessa situação, como alternativa, a suplementação alimentar é utilizada.

Tradicionalmente a suplementação no Brasil é feita com grãos, entretanto nem sempre esta prática é economicamente viável. Uma das possibilidades de redução dos efeitos dessas situações sazonais é reduzir o custo das dietas empregadas nos diversos sistemas de criação através da utilização de leguminosas forrageiras de elevado teor protéico.

A gliricídia (Gliricidia sepium) é uma leguminosa arbórea de fácil estabelecimento e cultivo, além de ser perene, o que acarreta menor custo de produção. É uma espécie de clima tropical que se adapta desde o nível do mar até 1.600 m de altitude em regiões sub-úmidas e secas, apresentando ampla tolerância à variação de precipitação pluviométrica, elevada produtividade de matéria seca (7,7 t/ha/ano), e elevado teor de proteína bruta (24%), destacando-se como opção para o plantio com fins forrageiros.

O uso da gliricídia como fonte de nutrientes tem resultado em aumentos de produção animal (Abdulrazak et al., 1997; Ondiek et al., 1999; Juma et al., 2006), estimulando sua utilização principalmente pela sua ampla capacidade de adaptação, mesmo em regiões com baixa precipitação pluviométrica, devido ao sistema radicular profundo desta espécie que propicia a reciclagem dos nutrientes do subsolo como também a absorção de água das camadas profundas, além de seu elevado valor protéico como forrageira, caracterizando-a como uma opção econômica de alimento para a produção animal.

Face às considerações citadas, este seminário visa abordar a viabilidade da utilização da gliricídia (Gliricidia sepium) na dieta de ruminantes.

2. REVISÃO DE LITERATURA

2.1. Descrição da espécie

A Gliricidia sepium (Jacq.) Steud. é uma leguminosa arbórea nativa da América do Sul e Central, com ampla distribuição pelas regiões tropicais (Sumberg, 1985). Segundo Duque (1998), esta espécie ocorre naturalmente no México, Colômbia, Venezuela e Guianas. Desde os tempos pré-colombianos, a G. sepium já era cultivada além das áreas de ocorrência natural, tendo sido naturalizada em Cuba, Jamaica, Havaí, África Ocidental e Meridional, Índia, Siri Lanka, Tailândia, Filipinas, Indonésia e Austrália (Parrotta, 1992).

No Brasil é conhecida como gliricídia e há vários anos vem sendo cultivada na região sudoeste da Bahia para o sombreamento do cacau. Segundo Drumond et al. (1999), a gliricídia foi introduzida na região semi-árida do nordeste brasileiro, em Petrolina-PE no ano de 1985, através de estacas procedentes da CEPLAC, localizada no município de Ilhéus-BA. Estes autores relataram que em 1988, esta espécie foi introduzida em outras localidades do nordeste, como: Aracajú-SE, Limoeiro do Norte e Tianguá-CE e Parnaíba-PI. Atualmente, a gliricídia está praticamente em quase todo o Brasil tropical, devido a suas características que permitem múltiplos usos: sombreamento, cerca - viva e em especial produção de forragem.

A Gliricidia sepium pertence à família Fabaceae sendo caracterizada como uma planta perene, que se reproduz sexuada (por semente) e assexuadamente (por estacas). Apresenta porte arbóreo variando de 12 a 15 m de altura, com diâmetros de até 30 cm (National Academy Sciences, 1980) e crescimento cespitoso, formando em média 4 a 5 fustes. Possui casca fina, lisa e esbranquiçada. Sua copa, em geral, é ampla; entretanto, a forma da árvore é bastante variável, dependendo da procedência e manejo.

As raízes de gliricídia associam-se a bactérias do gênero Rhizobium, com as quais entram em simbiose, originando umgrande número de nódulos, responsáveis pela fixação de nitrogênio (Franco, 1988).

As folhas são alternas imparipinadas, constituídas por 7 a 17 folíolos de 3 a 7 cm de comprimento. As flores estão reunidas em inflorescências terminais, do tipo cacho ou racemo e apresentam constituição típica das Papilionaceas. As pétalas são predominantemente de cor lilás, com a porção central de estandarte em tom creme, que funcionam como guias de néctar. Os frutos são vagens chatas, que geralmente apresentam cor verde pálido, podendo apresentar tonalidades arroxeadas em função da exposição solar (Drumond e Carvalho Filho, 1999)

As vagens variam de 10 a 17 cm de comprimento e contêm três a oito sementes. As sementes são lisas, com média de 0,9 cm de diâmetro, em geral, de cor marrom e apresentam dormência tegumentar quando armazenadas por mais de um ano. A floração e a frutificação iniciam-se entre um e cinco anos de idade.

2.2. Clima e solo

A Gliricídia é uma espécie de clima tropical que se adapta desde o nível do mar até 1.600 m de altitude em regiões sub-úmidas e secas, apresentando desenvolvimento satisfatório em regiões de baixa precipitação, contudo, desenvolvendo-se melhor em clima com precipitação anual entre 1.500 e 2.000 mm e estação seca definida (Quintero de Vallejo, 1993).

Apesar de tolerar secas, esta espécie não resiste a geadas (Kaibaija e Smith, 1989). Temperaturas entre 22 e 28 oC são características das áreas de distribuição natural e artificial desta espécie, com temperatura máxima entre 34 e 41 oC e mínima variando entre 14 e 20 oC (Kaibaija e Smith, 1989)

Em sua área de distribuição natural a gliricídia cresce em vários tipos de solos, desde solos arenosos e pedregosos sem estratificação até vertissolos negro profundo. Não apresenta bom desenvolvimento em subsolo exposto e pobre em matéria orgânica, não tolera solos de má drenagem, assim como solos compactados. Tolera solos ácidos (pH 4,3 a 5,0) e não desenvolve-se bem em solos muito alcalinos (Hughes, 1987)

Apesar da gliricídia vegetar bem em solos de baixa fertilidade, apresenta melhor desempenho naqueles de melhor fertilidade e profundos (Carvalho Filho et al., 1988)

2.3. Pragas e doenças

No Brasil não se tem relatos de pragas e doenças que sejam limitantes para a gliricídia, entretanto, segundo Franco (1988), no Rio de Janeiro ocorre intenso ataque de pulgões na floração, prejudicando a produção de vagens e sementes sem afetar o crescimento vegetativo.

2.4. Propagação

No que diz respeito à propagação, a gliricídia pode ser estabelecida por sementes ou por estacas, diretamente no campo (semeadura na cova) ou através de mudas previamente desenvolvidas em viveiros com dois meses de antecedência. A escolha do método vai depender do uso que se pretende dar à planta, das condições climáticas e da disponibilidade de sementes.

Segundo Carvalho Filho et al. (1997), na seleção de estacas para propagação vegetativa, devem ser considerados: a idade da estaca, de preferência superior a seis meses de crescimento, evitando-se estacas demasiadamente velhas; o diâmetro, estacas de maior diâmetro (3 a 4 cm) propiciam maior reserva de nutrientes para serem utilizados na germinação das gemas axilares; a posição no ramo, estacas provenientes da base apresentam melhor índice de estabelecimento; e comprimento não devendo ser menor que 30 cm para que o número de gemas seja suficiente para o estabelecimento da planta. Na operação de plantio, para se obter um bom índice de estabelecimento, deve-se plantar as estacas imediatamente após seu corte, colocando-as nas covas, em posição vertical e enterrando-as a 15-20 cm de profundidade, observando-se para que as gemas fiquem voltadas para cima.

No estabelecimento via sementes, para garantir uma semente de boa qualidade, recomenda-se coletar as vargens quando apresentarem coloração amarelo-parda ou imediatamente no início da deiscência (Drumond e Carvalho Filho, 1999).

Recomenda-se usar tratamento para a quebra de dormência tegumentar, apenas em sementes armazenadas por mais de um ano, deixando-as de molho por 24 horas em água fria, ou mergulhando-as em água quente (90 oC) por dois a três minutos (Drumond e Carvalho Filho, 1999).

Os espaçamentos devem ser adotados de acordo com o objetivo de produção. Espaçamentos menores (densidades de 2.500 a 5.000 árvores/ha) são utilizados para árvores destinadas à produção de biomassa forrageira, obtendo-se árvores de menor tamanho em menor tempo, e espaçamentos maiores (densidades de 2.500 a 1.100 árvores/ha) são utilizados para produção de lenha, estacas e sombreamento (Drumond e Carvalho Filho, 1999).

2.5. Produtividade

A gliricídia apresenta crescimento rápido e enraizamento profundo além de suportar muito bem a realização de cortes periódicos, conseqüência da sua alta capacidade de rebrota.

Segundo Barreto et al. (2004), em torno de quatro meses após corte, em geral, a gliricídia recompõe toda sua parte aérea, sendo possível realizar três ou mais cortes por ano, de acordo com a fertilidade do solo e distribuição pluviométrica da região.

Barreto e Fernandes (2001) avaliando a biomassa da parte aérea de gliricídia cultivada em faixas no espaçamento 3x1 (3.333 plantas/m2), sendo o primeiro corte realizado um ano após o plantio, à altura de 50 cm da superfície do solo, e os cortes seguintes, a intervalos de três a cinco meses, em média, quando as plantas atingiam 2,5 metros de altura, relataram a alta produtividade de biomassa seca da gliricídia (5.800 kg/ha) na média de quatro anos.

Ella et al. (1989) avaliando o efeito de quatro densidades de plantio (5.000, 10.000, 20.000 e 40.000 plantas/ha) e duas freqüências de corte (6 e 12 semanas), sobre a produção forrageira degliricídia em duas épocas do ano (seca e chuvosa) obtiveram uma produção média de MS igual a 7,7 t/ha/ano. Além disso, estes autores constataram que as produções relacionaram-se positivamente com a precipitação, e que a produção de folha e caule foi positivamente relacionada com a densidade e com o intervalo entre cortes, ou seja, os melhores rendimentos (11,2 t/ha/ano) foram observados na densidade de 40.000 plantas/ha e 12 semanas de intervalo entre cortes. Segundo os mesmos autores, quando o espaçamento entre plantas foi reduzido, a produção por planta diminuiu devido à concorrência, entretanto a produção de forragem total por unidade de área aumentou, sendo observada maior produção na densidade de 40.000 plantas/ha, a maior densidade testada.

2.6. Fatores anti-nutricionais e aceitabilidade

Os efeitos tóxicos de gliricídia são conhecidos na sua área de distribuição natural na América Central, onde as folhas ou a casca da raiz misturadas com o milho cozido, são usados tradicionalmente como raticida (Standley e Steyermark, 1946, citados por Simmons e Stewart, 1994).

As propriedades tóxicas dessa leguminosa são atribuídas à presença de cumarina e sua conversão em um produto hemorrágico, o dicumerol, por bactérias, durante sua fermentação (Simons e Stewart, 1994). Contudo, existem poucas evidências destes efeitos tóxicos sobre ruminantes.

Segundo Lowry (1990), a única restrição real ao valor de alimentação da gliricídia para ruminantes esta na baixa aceitabilidade inicial desta leguminosa por parte dos animais. Os ruminantes rejeitam inicialmente suas folhas, provavelmente em razão de seu odor, sugerindo que o problema esteja nos compostos voláteis liberados da sua superfície.

De acordo com Simmons e Stewart (1994), alguns métodos têm sido usados para melhorar sua a aceitabilidade, como a desidratação, adição de melaço ou sal, além de adaptação dos animais à nova dieta ou seu confinamento junto a outros animais já adaptados ao consumo desta leguminosa.

A variação aparente na aceitabilidade da gliricídia para animais é um importante enigma. Carew (1983) avaliou o uso desta forrageira como único alimento para pequenos ruminantes, durante 21 semanas, utilizando no experimento ovelhas e cabras. Para ambas as espécies houve perda de peso nas três primeiras semanas e recuperação com ganho de peso nas semanas subseqüentes, não encontrando nenhum efeito adverso à saúde dos animais.

Contudo, Costa et al. (2009) avaliaram o consumo de matéria seca de ovinos Santa Inês alimentados com capim elefante (Penissetum purpureum) com 14% PB a vontade, capim elefante mais folhas fresca de gliricídia ( 2 ou 4% do PV na MS) e no terceiro tratamento folhas frescas de gliricídia a vontade. Os resultados não demonstraram diferença significativa para o consumo de matéria seca, entre os animais alimentados exclusivamente com glirícidia e os animais alimentados exclusivamente com capim elefante.

Vargas et al. (1987), avaliando o consumo voluntário de vacas em lactação, observaram consumos de gliricídiasuperiores aos de leucena (Leucaena leucocephala), considerada uma leguminosa de alta aceitabilidade pelos animais.

2.7. Formas de utilização

A gliricídia pode ser utilizada como banco protéico, onde se corta os ramos verdes, sempre deixando gemas aptas ao crescimento. O início do corte é feito quando a planta alcança 1,5 m de altura (Murgueitio et al., 1999). Uma opção de uso da gliricídia, dentro do conceito de bancos de proteína, seria o estabelecimento de bosques, permitindo neste caso, que as plantas atinjam porte arbóreo, em espaçamentos maiores (4 x 4 m) com colonização dos espaços entre plantas por gramíneas cultivadas ou nativas. Nesse sistema, a maior parte da copa ficaria indisponível para o pastejo direto, devendo ser utilizada através de podas da folhagem + ramos finos e fornecimento aos animais, em circunstâncias emergenciais. Apesar deste sistema não explorar todo o potencial de produção de forragem da planta, ele propicia benefícios adicionais de sombreamento para o rebanho, além de melhoramento do solo (Carvalho Filho et al., 1997).

Outras formas de utilização são em consorciação com gramíneas (sistemas silvipastoris) e como cercas vivas (Murgueitio et al., 1999). Cercas vivas forrageiras podem ser construídas com estacas de madeira intercaladas com estacas de gliricídia de 4,0 cm de diâmetro e 2 m de comprimento (distanciadas 2,5 m) enterradas em covas de 30 cm de profundidade (Carvalho Filho et al., 1997).

O material comestível (folhas + ramos finos) produzido pela gliricídia pode ser conservado na forma de silagem ou feno. O processo de fenação pode ser feito deixando-se secar ao sol, quando então o material fenado é enfardado ou armazenado em medas. No processo de ensilagem, apenas as folhas e extremidades dos ramos são utilizadas (Carvalho Filho et al., 1997).

2.8. Valor nutricional e desempenho animal

Por desenvolver-se bem em solos ácidos, apresentar completa resistência ao pisilídeo da leucena (Heteropsylla cubana), praga que devastou a leucena em determinadas áreas nos trópicos, possuir elevado teor protéico e alta produção de forragem, em muitos casos superior a leucena (Stewart et al., 1992), a gliricídia tem demonstrado ser uma importante opção forrageira para a região tropical, entretanto no Brasil essa espécie é ainda muito pouco difundida e utilizada.

Segundo Camero (1994) e Gómez et al. (1995), a forragem de gliricídia é constituída de folhas e hastes tenras e possui 20% a 30% de PB, 53% de FDN, 33% de FDA e digestibilidade in vitro da MS de 54 a 70 %.

Chagas et al,. (2006) avaliaram a composição química e pH de silagens de forrageiras nativas e adaptadas ao semi-árido brasileiro nordestino e encontraram valores para pH, MS, PB, FDN e NDT de 4,8; 34,17; 19,09; 52,72 e 61,79 %, respectivamente, para a silagem de gliricídia.

Ash (1990) avaliando o efeito da suplementação com folhas de Sesbania grandiflora, Albizia chinensis e gliricídia, sobre o consumo e digestibilidade do feno de capim colonião em caprinos na Ilha de Samoa, observou que a suplementação com feno de gliricídia (100 gMS/dia) aumentou significativamente (P <0,05) o consumo de MS total, assim como a digestibilidade da PB do feno de capim colonião.

Nozella (2001) avaliou a concentração de tanino em plantas com potencial forrageiro para ruminantes e observou que a gliricídia apresenta baixos teores de fenóis (13,72 g/kg MS), taninos (6,86 g/kg MS) e taninos condensados (0,30 g/kg MS), quando comparados com a leucena que apresentou teores de fenóis (92,85 g/kg MS), taninos (79,33 g/kg MS) e taninos condensados (65,40 g/kg MS) mais elevados.

Van Hao e Ledin (2001) estudando o desempenho de caprinos alimentados com níveis decrescentes de folhas de Gliricídia maculata com 24,8% de PB e 43,5% de FDN, fornecidas in natura, em níveis de 0; 30; 40 e 50% da MS, em rações compostas de raspa de mandioca, caroço de algodão, farelo e palha de arroz, observaram que, aos 30% de inclusão, o consumo de matéria seca e ganhos de peso foram os mais elevados (105 g/animal/dia)

Ondiek et al. (1999) estudando o consumo, digestibilidade e desempenho de caprinos mestiços (Toggenburg x Saanen) alimentos exclusivamente com feno de capim de Rhodes (Chloris gayana) ou suplementados com farelo de gliricídia (120 g MS/dia), farelo de gliricídia mais farelo de milho na proporção 1:1 (120 gMS/dia) e farelo de milho (120 gMS/dia), observou que a suplementação com farelo de gliricídia aumentou (P<0,05) o consumo de MS total, assim como a digestibilidade da MS e da PB. Os ganhos de peso vivo foram maiores (P< 0,05) em caprinos suplementados com a mistura de gliricídia e milho (69 g/dia) e menor para o controle (26 g/dia), indicando que a gliricídia é mais eficiente na alimentação de ruminantes quando oferecida associada a um alimento energético.

Costa et al. (2009) avaliaram o consumo de matéria seca total, ganho de peso diário, ganho de peso total e conversão alimentar de ovinos da raça Santa Inês alimentados com capim elefante a vontade, capim elefante mais folhas fresca de gliricídia ( 2% PV na MS ou 4% PV na MS) e folhas frescas de gliricídia a vontade. Foi observado que as folhas de gliricídia como fonte exclusiva de alimento são consumidas por ovinos da raça Santa Inês, entretanto, os maiores consumos de MS foram registrados quando a folha de gliricídia foi oferecida associada ao capim elefante. Além disso, estes autores relataram que inclusão da gliricídia como suplemento em dietas de capim-elefante elevou o ganho de peso dos animais e melhorou a conversão alimentar.

Eniorolunda et al. (2008) estudaram níveis crescentes de inclusão (0, 25, 50, 75 e 100%) de folhas de gliricídia em dietas de caprinos alimentados com forragem fresca de Panicum maximum e suplementados com concentrado a base de mandioca. Os autores relataram que os maiores ganhos de peso diário e eficiência alimentar foram obtidos para os níveis de inclusão de 75 e 100% de gliricídia na dieta.

Abdulrazak et al. (1997) avaliaram novilhos alimentados com palhada de milho suplementados com concentrado composto exclusivamente de farelo de milho ou farelo de milho associado a gliricídia (7,5, 15, 22,5 ou 30 gMS/kg de PV). Estes autores observaram que a suplementação melhorou o consumo de matéria seca e os ganhos de peso vivo para todos os níveis inclusão.

Os dados sumarizados da composição químico-bromatológica da forragem de gliricídia estão representados na tabela 1.

Tabela 1. Composição químico-bromatológica e digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) da forragem de gliricídia (Gliricidia sepium)

Autores

Composição (%)

MS1

MO2

MM3

PB4

FDN5

FDA6

LIG7

CT8

DIVMS9

Tanino

Barreiros, 2008

28,01

90,77

9,23

25,88

45,19

37,91

6,25

58,17

50,25

****

Costa et al., 2009

23,11

****

****

24,11

38,81

24,30

****

****

****

****

Ondiek et al., 1998

90,5

78,9

11,6

20,8

24

16,4

****

****

****

****

Juma et al., 2006

25,0

91,1

8,9

23,2

50,6

30,3

****

****

****

2,23

Abdulrazak.,

25,4

92,1

7,9

19,2

42,1

****

****

****

****

****

Cabral et al., 2007

21,26

****

****

24,56

62,43

****

****

****

52,36

****

1- matéria seca; 2- matéria orgânica; 3- matéria mineral; 4- proteína bruta, 5- Fibra em detergente neutro; 6- Fibra em detergente ácido; 7- lignina; 8- Carboidratos totais, 9- Digestibilidade in vitro da matéria seca.

Richards et al. (1993) estudaram níveis crescentes de inclusão (0, 50 e 100%) de folhas de glirícidia (23,2% PB)em substituição a um concentrado comercial (14% PB) em dietas de caprinos alimentados com capim elefante (Pennisetum purpureum). Segundo os mesmos autores a digestibilidade da proteína e o ganho de peso diminuíram linearmente com a inclusão dos níveis de gliricídia, entretanto todos os animais suplementados com gliricídia ganharam peso e mantiveram o balanço de nitrogênio positivo indicando que a gliricídia tem potencial para substituir parte de concentrados comerciais utilizados na alimentação de caprinos em fase de crescimento.

Juma et al. (2006) avaliaram o consumo, a digestibilidade e o desempenho de vacas Jersey em lactação. Os tratamentos consistiram em dieta base (palhada de milho + três quilos de farelo de milho), dieta base suplementada com oito quilos na matéria natural de Clitoria ternatea, gliricídia ou Mucuna pruriens. A suplementação com leguminosas incrementou o consumo de matéria seca e de matéria orgânica, assim como melhorou suas digestibilidades. Vacas suplementadas com gliricídia produziram 20% mais leite quando comparadas a aquelas alimentadas apenas com a dieta base.

3. Considerações Finais

A ampla adaptabilidade da gliricídia a diferentes condições edafoclimáticas, assim como seu alto valor nutricional, demonstrado pelos resultados positivos em experimentos envolvendo resposta animal, evidenciam a viabilidade da utilização desta leguminosa na alimentação de ruminantes, sobretudo, como uma fonte protéica de baixo custo.

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