A Ferida Invisível: Um estudo sobre o abuso sexual e suas consequências nos relacionamentos amorosos

A Ferida Invisível: Um estudo sobre o abuso sexual e suas consequências nos...

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CENTRO DE ESTUDOS DA FAMÍLIA E DO INDIVÍDUO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM TERAPIA DE FAMÍLIA E CASAL

A Ferida Invisível:

Um Estudo sobre o Abuso Sexual e suas Consequências nos Relacionamentos Amorosos

Patricia Jacob

Cuiabá

2009

Patricia Jacob

A FERIDA INVISÍVEL:

Um Estudo Sobre o Abuso Sexual e suas Consequências nos Relacionamentos Amorosos

Monografia apresentada ao Programa de Especialização em Terapia de Família e Casal do CEFI – Centro de Estudos da Família e do Indivíduo, como requisito para a conclusão do 3º ano, sob orientação da Profª. Maria de Fátima G. Rosa.

Cuiabá

2009

Canção para a menina maltratadaNão, não será com métricanem com rima.Uma coisa sem nome violentou uma menina.Ação barata sem a pratado pensamento o ouro do sentimentoo dia da empatia. Noite.Uma coisa. Não era o lobonem o ogro nem a bruxa,era a fúria do realsem o carinho do símbolo.Stop, a poesia parou.Ou foi a humanidade?Stop nada, a menina sente e seguecom métrica, rima, graça, vida.Onde está tua vitória, ignomínia?Uma prosa continuapoética como erasaltitante o bastantepara não perder a poesia.A coisa (homem?) é punida como um lobono conto de verdade. E imprime-se um nomena ignomínia.A menina liberta expressari e chora, volta a serqualquer (única) menina.Pronta para a métricapronta para a rimapronta para a vida(canto de cicatriz),pronta para o amor a dois,à espera, suave, escolhido.

Celso Gutfreind

(extraído do documentário Canto de Cicatriz)

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 38

2 DESENVOLVIMENTO 38

2.1 Conceito 38

2.2 O legado do abuso 38

2.2.1 Efeitos no desenvolvimento infantil 38

2.2.3 Fatores agravantes 38

2.2.4 Vítimas masculinas 38

2.3 Os custos e as consequências para o amor: a ferida invisível 38

2.3.1 Distúrbios psiquiátricos e psicológicos 38

2.3.2 Dificuldades no relacionamento amoroso 38

2.3.2.2 Revitimização 38

2.3.3 Dificuldades na sexualidade 38

2.3.3.1 Disfunções e problemas sexuais 38

2.3.3.2 Compulsão sexual 38

2.4 Parceiros como colaboradores no processo de terapia 38

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS 38

4 BIBLIOGRAFIA 38

1 INTRODUÇÃO

Em algum lugar, bem no fundo de cada um de nós, está a criança que era

inocente e livre e que sabia que a dádiva da vida era a dádiva da alegria.”

(Alexander Lowen)

O presente trabalho tem como objetivo fazer um estudo e trazer uma reflexão sobre como o abuso sexual contra crianças e adolescentes afeta os relacionamentos íntimos futuros. O curso de Formação em Terapia Familiar e de Casais do CEFI “tirou meus óculos escuros”, como dizia a Profª Mara Lins, em relação à complexidade do tema abuso sexual. O conteúdo apresentado no segundo ano do curso trouxe descobertas de extrema importância tanto para minha vida pessoal, quanto para a profissional. E com o atendimento de casais no terceiro ano, pudemos acompanhar e observar com alguns casos - que infelizmente tiveram desistência e duraram somente uma ou duas sessões - como são grandes os prejuízos para os relacionamentos afetivos quando algum dos membros foi vítima de abuso sexual. O desejo de conhecer mais sobre o assunto somado à ressonância em minha vida pessoal foram essenciais para a escolha do tema.

O abuso sexual é um tema que choca. É um ato praticamente desumano que traz feridas profundas, porém muitas vezes ‘invisíveis’ aos olhos dos terapeutas. No atendimento psicológico tanto individual quanto de casal, muitos terapeutas tendem a focar na queixa principal trazida pelo paciente sem explorar suficientemente para determinar se este tem uma história de abuso. Devido à dificuldade de falar sobre o tema, muitos pacientes se silenciam e ficam na espera que o terapeuta traga o assunto, ou não associam seus sintomas com o acontecido e então não acham importante relatar sua experiência abusiva. Há também a situação em que o paciente vem à terapia especificamente para tratar dos sintomas do abuso, e o terapeuta falha em não investigar o funcionamento do relacionamento amoroso e como a situação de abuso pode estar influenciando nesta área de sua vida também.

Muito tem sido pesquisado, estudado e falado sobre o tema nos últimos anos. Estudos e pesquisas sobre as conseqüências, a epidemiologia e os possíveis tratamentos para o abuso têm acontecido no mundo todo. No entanto, a maioria das pesquisas foca na relação entre o abuso e sua sintomatologia intrapsíquica, mas ainda há pouco material sobre as consequências deste para os relacionamentos interpessoais. Pela dificuldade em encontrar literatura específica sobre o tema no Brasil, como referência bibliográfica utilizei em sua maioria artigos de revistas e periódicos internacionais que pude encontrar em uma extensa pesquisa em sites de artigos científicos.

Por conta desta atenção ainda limitada aos sintomas interpessoais, a maior parte da literatura específica em relação a isso descreve mais observações clínicas de atendimentos feitos com vítimas de abuso, do que pesquisas. Além disso, a maioria dos trabalhos -principalmente as pesquisas- tem como sujeito de estudo as mulheres e os efeitos do abuso na vida emocional feminina dentro de relacionamentos heterossexuais. Por esta razão, muitas vezes a descrição dos resultados de pesquisas virão mais tarde no desenvolvimento do trabalho considerando vítimas femininas e abusadores masculinos somente e casais heterossexuais. Gostaria de frisar que isso não se trata de preconceito –tanto em relação aos homens, quanto a relacionamentos homossexuais, mas sim uma dificuldade em encontrar dados referentes a essa parcela da população.

Espero que este trabalho ajude a “tirar os óculos escuros” de muitos outros terapeutas de casal em relação ao tema e que traga um conteúdo a somar no entendimento dos casais que procuram por nossa ajuda.

2 DESENVOLVIMENTO

O erotismo é uma interrogação e sempre será, o que quer que diga qualquer determinação futura. Por um lado, ele pertence à natureza animal primitiva do homem, que existirá sempre enquanto o homem tiver um corpo animal. Por outro lado, porém, ele é aparentado às formas mais elevadas do espírito. Mas ele só floresce quando espírito e instinto estão na sintonia correta. Quando falta um desses aspectos, ocorre um dano, ou pelo menos uma unilateralidade, um desequilíbrio, que pode facilmente desembocar em algo doentio. (JUNG, 2005, p. 31)

A violência sexual é uma violência contra a vida. Como sabiamente coloca Lowen (1997, p.147) “o abuso sexual é a forma mais hedionda da traição ao amor, posto que a sexualidade é normalmente uma expressão de amor.”

Esta dissociação entre o aspecto instintivo e o aspecto espiritual do erotismo, citada por Jung acima e fortemente estimulada pela sociedade ocidental atual, faz com que a sexualidade fique cindida, expressando-se mais como uma ação mecanizada do pênis e da vagina e uma descarga pulsional, do que como um encontro entre dois seres buscando intimidade. A sexualidade vivenciada dessa forma cindida torna-se assim uma expressão de pulsão de morte e a distanciando do que de verdade deveria ser: pulsão de vida, ligada ao amor e à busca de estabelecer ligações.

As vítimas de abuso sexual ficam marcadas pelo resto de suas vidas por esta ação destrutiva, o que inevitavelmente traz consequências muito sérias para seus relacionamentos amorosos, onde normalmente ‘descarregamos’ parte de nossos traumas interpessoais. O trauma fere e feridas precisam de tratamento – por melhor tratadas que sejam, as muito grandes deixam cicatrizes para a vida toda.

2.1 CONCEITO

Encontramos vários conceitos de abuso sexual infantil na literatura específica sobre o tema, no entanto a que consideramos a mais abrangente, envolvendo toda a complexidade do ato abusivo é a definição acatada pelos centros de atendimento a crianças vitimizadas, citada por Habigzang e Caminha (2004):

O abuso sexual é definido como todo ato ou jogo sexual, relação hetero ou homossexual, cujo agressor esteja em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a criança ou o adolescente. Tem por finalidade estimulá-la sexualmente ou utilizá-la para obter estimulação sexual. Essas práticas eróticas e sexuais são impostas às crianças ou aos adolescentes por violência física, ameaça ou indução de sua vontade. Pode variar desde atos em que não existam contatos físicos, mas que evolvem o corpo (assédio, voyeurismo, exibicionismo), a diferentes tipos de atos com contato físico, sem penetração (sexo oral, intercurso interfemural) ou com penetração (digital, com objetos, intercurso genital ou anal). Engloba, ainda, a situação de exploração sexual visando ao lucro, como a prostituição e a pornografia (p. 25).

Entre adultos, podemos considerar uma definição mais simples, no qual o abuso sexual é definido como todo relacionamento interpessoal aonde a sexualidade é veiculada sem o consentimento válido de uma das pessoas envolvidas (FAIMAN, 2004).

A maioria dos autores ainda sugere que deva haver uma diferença de idade de quatro ou cinco anos ou mais entre a vítima e o abusador, quando a criança é menor de doze anos. E no caso de adolescentes entre treze e dezesseis anos, a diferença deve ser de dez anos ou mais. Todavia, o uso de força, intimidação ou abuso da autoridade, deverá ser considerado sempre uma conduta abusiva independente da diferença de idade. (HABIGZANG e CAMINHA, 2004; FAIMAN, 2004)

Com relação ao incesto entre irmãos, há que se considerar também a diferença de idade. Um irmão bem mais velho que a vítima pode estar em uma posição parental, e o mais novo em uma posição de dependência e imaturidade, o que caracterizaria um abuso. Por outro lado, o contato sexual entre irmãos com idades próximas não pode ser caracterizado como abuso e sim exploração sexual natural entre similares (FURNISS, 1993). O mesmo se aplica às brincadeiras sexuais entre amigos de idades próximas na infância ou adolescência.

Cabe aqui frisar que nem sempre o abuso sexual envolve violência física. Sempre que uma parte induz a outra a aceitar ou ao menos não se opor a um ato sexualizado pelo convencimento no qual utiliza seu poder na relação, já se caracteriza um abuso. Outra situação de indução pode ocorrer através da sedução. Faiman (2004) define a sedução como sendo abusiva quando envolve uma interação em que uma pessoa estimula sentimentos e sensações sexuais na outra, que consente com o ato, pois também se encontra sexualmente estimulada, no entanto em um tipo de relacionamento em que “a erotização do vínculo consiste no próprio abuso” (p. 28). Uma mãe que erotiza seu vínculo com o filho, por ex., mesmo que através de um olhar, está sendo abusiva.

Os abusos sexuais podem ser intrafamiliares ou incestuosos (quando o agressor é membro da família nuclear ou de origem) e extrafamiliares (conhecidos da família, amigos ou desconhecidos). No entanto, de acordo com Habigzang e Caminha (2004), a maioria dos estudos mostra que grande parte dos abusos sexuais contra a infância e adolescência são cometidos por pessoas muito próximas, dentro do ambiente familiar e que têm papel de cuidador em relação à vítima.

Habigzang e Caminha (2001) citam várias pesquisas que apontam que um quarto das meninas e um oitavo dos meninos são vítimas de abuso sexual antes dos dezoito anos. A maior parte dos abusos sexuais são intrafamiliares e os principais abusadores são o pai e o padrasto. Na maioria dos casos idade em que os abusos começam se encontra entre cinco e oito anos e a mãe é a pessoa que as vítimas mais procuram por ajuda ou para a revelação, a qual normalmente acontece mais de um ano depois do início do abuso. No entanto, esses podem ser dados desonestos devido à subnotificação e devido à dificuldade de identificação gerada pela falta de preparo dos profissionais envolvidos no assunto.

2.2 O LEGADO DO ABUSO

A gravidade das consequências do abuso em termos da organização psíquica são quase sempre muito sérias mesmo que a vítima não tenha consciência disso, pois é muito comum que o abusado negue ou reprima os sentimentos decorrentes do ato abusivo. No entanto, é importante salientar que as características citadas neste tópico são consequências possíveis e observadas nos estudos e nos atendimentos de pessoas vitimizadas pelo abuso, no entanto não são similares nos diferentes casos. Algumas pessoas conseguem, através de uma capacidade elaborativa maior, apresentar um mundo mental mais integrado que outras.

2.2.1 Efeitos no desenvolvimento infantil

É sabido que é durante a infância que o ser humano desenvolve sua base emocional. É quando ele se forma fisiologicamente e se coloca socialmente. A noção de ‘self’ da criança se molda através de seus relacionamentos com as outras pessoas. Apesar de as experiências alterarem o comportamento de adultos, elas podem literalmente moldar uma criança (MCGREGOR, 2001).

O abuso sexual, principalmente o que se instala sem violência e sim com sedução, traz sensações fisiológicas de excitação que a criança não tem estrutura para elaborar psiquicamente. Isso gera uma hiperexcitação que pode se transformar em ansiedade ou hipersexualização.

No abuso sexual da criança esta não pode evitar ficar sexualmente estimulada e essa experiência rompe desastrosamente a sequência normal da sua organização sexual. Ela é forçada a um desenvolvimento fálico ou genital prematuro, enquanto as necessidades desenvolvimentais legítimas e as correspondentes expressões mentais são ignoradas e deixadas de lado (ANNA FREUD apud FURNISS, 1993, p. 14).

Qualquer vivência cuja elaboração e assimilação internas não são possíveis se caracteriza como um trauma. Com esse entendimento, podemos considerar o abuso sexual como um evento traumático para a grande maioria de suas vítimas, pois se trata de uma vivência com uma dimensão absolutamente profunda e complexa, que abarca a sexualidade da criança, suas referências, suas fantasias. Uchitel (2001 apud FURNISS, 1993) descreve como essenciais para a instalação de um trauma o desamparo, a excitação excessiva, a clivagem no interior do ego e a ausência de representação na fantasia. Todos esses aspectos comumente fazem parte de uma experiência de abuso.

Os sintomas mais comuns apresentados por uma criança vítima de abuso sexual, de acordo com vários autores (FURNISS, 1993; GREEN, 1995; HABIGZANG e CAMINHA, 2004; LOEB e WILLIAMS, 2002; MCGREGOR, 2001) são:

 Transtorno de stress pós-traumático: é citada como a psicopatologia mais frequente relacionada ao abuso sexual. Seus sintomas mais usuais são hipervigilância, lembranças ou imagens intrusas com vivência de muita angústia, dificuldade de concentração, paralisia na iniciativa, irritabilidade, dificuldades para dormir e pesadelos, lapsos de memória, sentimentos de desamparo e resposta exagerada de sobressalto;

 Transtorno de ansiedade: Lipp (2000) explica que uma das causas mais frequentes geradoras de ansiedade na criança é a “sensação de desamparo causada pelo sentimento de desproteção diante de situações perigosas ou sentidas como difíceis demais para lidar” (p. 30) assim como vividas no abuso sexual. Uma criança exposta a situações estressoras demais, não conseguem adquirir estratégias de enfrentamento adequadas e com isso desenvolvem transtornos de ansiedade mais facilmente.

 Depressão: juntamente com o stress pós-traumático, é considerada o sintoma mais comum decorrente de abuso, tanto na infãncia, quanto na adolescência. É decorrente de sentimentos de desesperança, desespero, desamparo, impotência e auto-acusação. A visão de mundo da criança fica distorcida e alguns casos apresentam inclusive ideações suicidas já na infância.

 Dificuldades interpessoais: incluindo retraimento, isolamento social, dificuldade em confiar e relacionamentos superficiais.

Raiva e hostilidade reprimidas: que podem trazer irritabilidade constantes ou explosões de raiva ou atos agressivos trazidos pela inabilidade em lidar com tais sentimentos;

 Episódios dissociativos: momentos de desconexão com a realidade, que podem durar de alguns segundos a várias horas. Essa ruptura acontece pois a experiência é assustadora demais para que o ego consiga integrá-la, que então se dissocia da vivência para se proteger (LOWEN, 1997);

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