Historia de Libras

Historia de Libras

(Parte 1 de 3)

Professoras conteudistas/pesquisadoras: CAROLINA HESSEL SILVEIRA Acadêmica: JULIANA CORRÊA DE LIMA Carga Horária: 30h

Resumo

Nesta disciplina, assim como nas demais, serão estudados assuntos pertencentes ao seu respectivo programa, porém a ementa referente a esta disciplina foi pensada e planejada anteriormente à reforma de conteúdos relacionados ao estudo da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Logo, aprenderemos não na seqüência em que os cadernos se apresentam. Lembre-se de que a Libras é uma língua e, como todas as outras, é dinâmica, sofrendo alterações no decorrer do tempo e do espaço e no próprio processo interativo. Nesta disciplina, estudaremos Língua de Sinais e Percepção e um pouco sobre a História e a Cultura Surdas. A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é a língua dos Surdos, fundamentada pela Lei Federal nº. 10.436, de 24 de abril de 2002 e regulamentada pelo decreto 5.626, de 2 de dezembro de 2005. A disciplina de LIBRAS I abrange quatro unidades: a primeira trata da História do Surdo; a segunda dos Classificadores, que são uma representação da LIBRAS; e a terceira e a quarta unidades versam sobre os sinais básicos da língua de Sinais (LS), tais como os sinais de família, pessoas, objetos, cores, animais e calendário. Além disso, aprenderemos também a utilizar as expressões faciais e corporais da LS por intermédio de um vídeo que está à disposição da disciplina.

Palavras-chave: Educação de Surdos, História do Surdo, Língua de Sinais.

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Unidade A – HISTÓRIA DO SURDO

Nesta unidade, iremos estudar os momentos que marcaram a história dos surdos: como surgiram os professores surdos e ouvintes, como ocorreu o aprendizado da datilologia e dos sinais metódicos, bem como a fundação da educação de surdos e os vários tipos de ensino baseados no Oralismo, na Comunicação Total e no Bilingüismo.

É muito importante termos conhecimento sobre a história dos surdos para assim entendermos o crescimento da educação desses indivíduos e compreendermos suas conseqüências. Mas como há pouco registro sobre escolas de surdos no Brasil, é interessante obtermos mais informações dessa história em livros de outros países como: A Máscara da Benevolência, de Harlan Lane; Historia De La Educacion De Los Sordos En Mexico Y Lenguaje Por Senas Mexicano, da autora Margarita G. Adams; La increible y triste historia de la sordera, de autoria de G.C.M. Sánchez, entre outros.

A.1 – Visão do Mundo

O que nós conhecemos da história dos surdos?1 Segundo Eriksson (1998), existem várias histórias que explicam o surgimento e o desenvolvimento do conceito de surdo no mundo. Na Antiguidade, os surdos eram tidos como “deuses” ou como seres diabólicos, os quais precisavam ser punidos. Além disso, os surdos, devido ao fato de não falarem, não eram considerados “humanos” nem cidadãos, mas sim incapazes. Eram até mesmo proibidos de casar. Há vários educadores2, cada qual com diferentes métodos de ensino, que se destacam na história da educação de surdos. Na Idade Média, por exemplo, o médico italiano Girolamo Cardano (1501-1576), que tinha um filho surdo, declarou que surdos poderiam ser ensinados a ler e a escrever sem a utilização da fala.

1 (GLOSSÁRIO) - História dos Surdos: Temos que voltar no tempo e considerar como o Surdo tem sido visto e educado através da história, as dificuldades que passa para se construir enquanto sujeito. Esta história reflete uma realidade social, política e histórica que também vai se refletir na história do Surdo através dos tempos (MOURA, 2000).

2 (ASSUNTO) - Educadores: Para conhecer mais sobre os grandes educadores de surdos na história, leia O surdo: caminhos para uma nova Identidade, de Maria Cecília Moura (Rio de Janeiro: Revinter, 2000).

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Segundo Moura (2000), existiram vários educadores de surdos na Europa, dentre eles Frei Pedro Ponce de Leon (1520-1584), monge espanhol que ensinava surdos filhos de famílias nobres a ler os lábios, a falar, a rezar e a conhecer as doutrinas do Cristianismo. Ensinava os surdos primogênitos das famílias nobres a falar para que assim tivessem direito às suas heranças.

Além desses dois exemplos, outros educadores também se destacaram no ensino de surdos como:

· Juan Pablo Bonet (1579-1629), espanhol, publicou um livro sobre seu método de ensino aos surdos, o qual se denominava “Reducción de las Letras y Arte para Enseñar a Hablar los mudos”.

• Jacob Rodrigues Pereire (1715-1780), português, tinha fluência na Língua de Sinais, ensinando-a aos surdos, sendo partidário do oralismo.

• Samuel Heinicke (1727- 1790), alemão, era contra a Língua de Sinais e a favor do método do oralismo. Fundou a primeira escola oral de surdos na Alemanha.

• Abbé Sicard (1742-1822), substituindo L’Epée, foi nomeado diretor no Instituto Nacional de Surdos-Mudos.

• Jean Marc Itard (1774-1838), francês, médico-cirurgião, considerava os surdos doentes que precisavam ser curados, porém seu método (o oralismo) não obteve sucesso.

• Thomas Gallaudet3 (1787-1851) foi para a França aprender o método desenvolvido por L’Epée na educação de surdos, método chamado de Sinais e Sistema de Sinais Metódicos. No Instituto Nacional para Surdos-Mudos, foi instruído pelo professor surdo Laurent Clerc. Posteriormente, os dois foram aos Estados Unidos, onde implantaram a primeira escola pública para surdos em Hartford, Connecticut, escola chamada de “The Connecticut Asylum for the Education and Instruction of the Deaf and Dumb Persons”.

3 (AUTOR) - Thomas Gallaudet: educador americano, era a favor da Língua de Sinais e se interessou pelos surdos e sua educação quando teve contato com uma menina surda, sua vizinha, chamada Alice Cogswell. Atualmente existe a Universidade de Surdos, chamada Gallaudet University, em Washington (MOURA, 2000).

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Figura 1: Estátua de Thomas Gallaudet e Alice Cogswell na University Gallaudet

4 http://www2.bakersfieldcollege.edu/tmoran/images/IMG_6089.JPG

· Roch Ambroise Auguste Bébian (1789-1838), francês, criou uma forma de escrita da Língua de Sinais, mas não obteve sucesso com ela.

• Alexander Graham Bell (1847-1922), escocês, criador do telefone, casou-se com uma surda oralizada. Além disso, sua mãe também era surda e seu pai ensinava o oralismo aos surdos. Bell defendeu o oralismo no Congresso de Milão.

Também existem registros de educadores surdos, como o francês Laurent Clerc (1785 - 1869), já anteriormente mencionado, que ministrava aula de Língua de Sinais nos Estados Unidos e era interessado pelo método utilizado por L’Epée.

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Figura 2: Laurent Clerc (1785 - 1869)

No entanto, dentre esses educadores, o mais importante foi o abade francês

Charles-Michel de L’Epée (1712- 1789), o qual ensinou e apoiou os surdos, criando uma escola pública, o Instituto Nacional de Jovens Surdos-Mudos4, em Paris. Além disso, L’Epée criou também como método de ensino a gramática de LS, método chamado de Sinais Metódicos. Por meio dos Sinais Metódicos, utilizava-se a inicial da palavra em francês para criar o sinal dessa palavra. Por exemplo: o sinal para DIEU (Deus) era feito com a sua inicial, a letra D.

Figura 3: Charles-Michel de L’Epée (1712- 1789)

Não foi L’Epée quem inventou os sinais nem o alfabeto manual5 usados em seu método. Ambos já existiam há muitos anos, porém não há registro exato. O alfabeto

4 (GLOSSÁRIO) - Instituto Nacional de Jovens Surdos-Mudos: atualmente é o Instituto Nacional de Jovens Surdos; foi a primeira escola pública para surdos no mundo (MOURA, 2000).

5 (GLOSSÁRIO) - Alfabeto Manual: usado para expressar nome de pessoas, de localidades e outras palavras que não possuam um sinal (FELIPE; MONTEIRO, 2005).

PDF created with pdfFactory Pro trial version w.pdffactory.com manual era utilizado pelos monges, com o objetivo de se comunicarem na Igreja, porque necessitavam ficar em silêncio. Porém, nesta época, os surdos já se comunicavam através de gestos, mímica6, etc.

No Brasil, o alfabeto manual foi sendo modificado a cada ano. Existem alguns países que possuem um alfabeto manual diferente do existente no país, o qual foi influenciado pela Langue des Signes Française (LSF) e pela American Sign Language

(ASL). Outros sinais utilizados no Estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, receberam influência de países da fronteira, como Uruguai e Argentina.

Língua Brasileira de Sinas (LIBRAS)

American Sign Language (ASL)

Langue des

Signes Française (LSF)

British Sign Language (BSL)

Figura 4: O alfabeto manual em diferentes países. http://www.editora-arara-azul.com.br/pdf/artigo19.pdf

No ano de 1880, foi realizada uma Conferência Internacional em Milão7 com o objetivo de discutir o futuro da educação para os surdos. Foi questionado se o ensino

6 (GLOSSÁRIO) - Gestos, mímicas: a linguagem de gestos e mímicas é basicamente uma linguagem natural e universal. É o primeiro idioma que aprendemos nos braços de nossas mães. Durante toda a vida, usamos as mãos fazendo gestos e sinais para expressar nossas idéias com mais ênfase e clareza, e tal hábito é tão natural como chorar ou rir. No mundo silencioso dos surdos, vemos a grande necessidade e utilidade da linguagem mímica (OATES, 1990).

7 (ASSUNTO) - Conferência Nacional de Milão: ocorreu no dia 1 de setembro de 1880 e teve como resultado a aprovação do oralismo pelo motivo de ser esta uma língua que facilita a comunicação com a sociedade ouvinte. Assim, os alunos surdos precisariam de um professor ouvinte, pois a LS prejudicaria a fala e o pensamento. Para saber mais sobre o assunto, acesse: http://www.milan1880.com/

PDF created with pdfFactory Pro trial version w.pdffactory.com deveria se dar em Língua de Sinais ou através do Oralismo. O método oralista venceu por vários motivos, dentre eles, devido à idéia de que sem fala não existe pensamento, conceito este decorrente da filosofia de Aristóteles.

Figura 5: Local onde foi feito o Congresso em Milão http://www.milan1880.com/milan1880congress/venuegallery/Resources/frontangler ight.jpeg

Após o Congresso de Milão, os Estados Unidos continuaram preservando a

LS, porém os países europeus, bem como outros países do mundo, adotaram o Oralismo puro em suas escolas. Isso causou o afastamento de professores surdos, permanecendo apenas os professores ouvintes nessas escolas.

Segundo Moura (2000), durante os cerca de cem anos de predominância do

Oralismo (de 1880 a 1980), foram obtidos poucos resultados quanto ao desenvolvimento da fala, do pensamento e da aprendizagem dos surdos. Além disso, a surdez8 era vista apenas em termos clínicos, tendo-se como preocupação o estudo da perda auditiva, o desenvolvimento da oralidade, a articulação, etc. A comunicação

8 (ASSUNTO) - Surdez: do ponto de vista clínico, a surdez se caracteriza pela diminuição da acuidade e da percepção auditivas, o que dificulta a aquisição da linguagem oral de forma natural (QUADROS, 2004).

PDF created with pdfFactory Pro trial version w.pdffactory.com de surdos, através da Língua de Sinais, dava-se em ambientes escondidos, como no banheiro e no pátio das escolas, nos quartos de internatos, antes de dormir, e nos pontos de encontros de surdos. Devido a esse fato, a Língua de Sinais nunca se extinguiu, permanecendo como língua na vida dos surdos. Nos anos 60, o lingüista americano William Stokoe9 reconheceu que a LS tinha gramática própria. Atualmente, vários lingüistas pesquisam sobre a LS em diferentes países. Antes de Stokoe, a LS era vista como pobre, apenas um apoio de comunicação; havia o pensamento de que esta servia para comunicação de macacos. Nessa época, predominava o oralismo, discriminando-se a LS.

Nos anos 80, iniciaram os estudos e a aplicação da Comunicação Total10 por professores de surdos. Conforme explica Dorziat (2005, p. 3):

Os adeptos da comunicação total consideravam a língua oral um código imprescindível para que se pudesse incorporar a vida social e cultural, receber informações, intensificar relações sociais e ampliar o conhecimento geral de mundo, mesmo admitindo as dificuldades de aquisição, pelos surdos, dessa língua.

Na Comunicação Total, é necessário falar e sinalizar ao mesmo tempo. Por exemplo: pronuncia-se EU VOU PARA CASA e sinaliza-se EU VOU CASA (o que chamamos de bimodalismo). Nos anos 90, o Bilingüismo11 teve início na educação de surdos.

Caracterizado pelo aprendizado de duas línguas - a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa - a educação bilíngüe consiste, em primeiro lugar, na aquisição da

9 (AUTOR) - William Stokoe: autor americano que escreveu vários livros sobre o tema da surdez. Era considerado pai da lingüística de LS e contribuiu para a preservação desta na comunidade de surdos. Assim, a LS foi se espalhando pelo mundo (SACKS, 1990.)

10 (ASSUNTO) - Comunicação Total: filosofia que defende o uso de toda e qualquer forma de comunicação com a criança surda, incluindo a fala, a leitura orofacial, o treinamento auditivo, a expressão facial e corporal, a mímica, a leitura, a escrita e os sinais (MOURA 2002).

1 (ASSUNTO) - Bilingüismo: A abordagem educacional com Bilingüismo para surdos é aquela que, acima de tudo, estabelece que o trabalho escolar deve ser feito em duas línguas, com privilégios diferentes: a Língua de Sinais como primeira língua (L1) e a língua da comunidade ouvinte local como segunda língua (L2) (SÁ, 1999).

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Língua de Sinais pelos surdos, sendo esta sua língua materna. Em seguida, a Língua Portuguesa escrita é ensinada como sua segunda língua. Segundo Skliar (1998, p.5):

Os Estudos Surdos se constituem enquanto um programa de pesquisa em educação, onde as identidades, as línguas, os projetos educacionais, a história, a arte, as comunidades e as culturas surdas, são focalizados e entendidos a partir da diferença, a partir do seu reconhecimento político.

É preciso que o surdo seja reconhecido como um sujeito completo. No entanto, durante muitos anos, houve a tentativa de normalizá-lo. Essa tentativa foi impedida devido à resistência da cultura surda, que lutou pelo reconhecimento de sua língua própria, a Língua de Sinais.

e dificuldade de aprendizagem de sua parte

Porém, ainda hoje, no ambiente escolar, o surdo sofre pelo fato de a estrutura da sua língua natural escrita diferenciar-se da estrutura da Língua Portuguesa. Em muitos casos, quando o professor não entende sua escrita, o aluno surdo pode sofrer preconceito, recebendo até mesmo rótulos relativos a uma possível falta de interesse

Quando o professor ouvinte sabe Língua de Sinais, pode comunicar-se de maneira satisfatória com seu aluno surdo. Porém, quando o professor também é surdo, além da mesma comunicação, ambos possuem a mesma identidade, o que contribui para uma harmonia ainda melhor entre professor e aluno. Assim o aluno encontra na figura do professor um modelo de adulto surdo e o professor surdo representa uma perspectiva para o próprio futuro desse aluno.

A introdução da Língua de Sinais no currículo de escolas para surdos é um indício de respeito a sua diferença. É desejo dos surdos que as escolas, dentro de sua cultura, preparem-nos para o mercado de trabalho e o meio social, trabalhando e desenvolvendo em aula fatos culturais próprios dos surdos, tendo por base a Língua de Sinais.

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