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Gladis T.T. Perlin

Porto Alegre 2003

Gladis T.T. Perlin

Tese apresentada ao curso de Pós- Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para obtenção do título de Doutorado em Educação.

Porto Alegre 2003

Dados Internacionais de catalogação na publicação Biblioteca setorial de Educação da UFRGS, Porto Alegre, BR-RS

P451sPerlin, Gladis T.T.
O ser e o estar sendo surdos : alteridade, diferença e
identidade / Gladis T.T. Perlin.- Porto Alegre : UFRGS, 2003.
f.
Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação,
Porto Alegre, BR-RS, 2003. Skliar, Carlos Bernardo, orient.
1. Identidade - Surdo. 2. Diferença - Alteridade - Surdo. 3. Educação

- Diferença. 4. Pedagogia do surdo. I. Skliar, Carlos Bernardo. I. Título.

Gladis T.T. Perlin

Orientador: Prof. Dr. Carlos Skliar (UFRGS)

Banca examinadora

Prof. Dr. Paddy Ladd (Universidade de Bristol-Inglaterra)

Profa. Dra. Lodenir Karnopp (ULBRA)

Profa. Dra. Marisa Worraber Costa (UFRGS) Profa. Dra. Maura Corcini Lopes (UNISINOS)

Às vítimas do ouvintismo! +++++++++++++++++

A ajuda que os acadêmicos costumam receber na execução da tese para a obtenção do doutorado acontece em forma de agencia causal. Registrar a reminiscência de todos que atuaram e atuam ao conduzir este ensaio de minha tese me deixa em situação de repetir. Repetir uma extensa e pretensa lista de participações em que cada qual se sobressai em vários momentos e sob diferentes temáticas de construção e de desconstrução. Então, diante das múltiplas generosidades, proponho este arrolamento com lugares de gratidão e de honra para todos.

A evolução deste ensaio acumulou uma carga de reconhecimento para com o professor orientador Carlos Skliar que desde aquele encontro, nos cruciais dias da “deficiência”, tem oferecido a mim e aos surdos, continuamente, oportunidades de participar de suas experiências, inestimáveis momentos de caminhada conjunta e oportunidades de prática e de exploração virtual nos incalculáveis momentos teóricos.

Os colegas surdos Wilson Miranda, Marianne Stumpf e Gisele Rangel, têm especial menção como companheiros de muitas e muitas horas na trama das encruzilhadas do povo surdo, na investigação epistemológica, nos programas diretos, nas analises continuadas, compartilhando os momentos decisivos pela empatia, afeição e diálogo.

Meus colegas do Núcleo de Pesquisa em Políticas Educacionais para Surdos especialmente abertos e interlocutores nos estágios deste ensaio. A convivência significou uma lição de aperfeiçoamento contínuo.

Muito atenciosamente, o povo surdo que com seus depoimentos, seus movimentos, seus embates, animou as calorosas tardes de chá e que tem comandado, nestes anos de pesquisa, o repensar das incompletudes, perspectivas e prioridades. Dentre eles merecem especial menção os professores de língua de sinais e os intérpretes desta língua de sinais um quadro de referência que merece a gratidão pela labuta diária, pelo prazer compartilhado, pelas trocas e embates conjuntos.

Companheiro formidável, José Bittencourt, teve a atitude de reverenciar a serenidade no meu lugar de ensaio, sua presença foi carinhosa e abundante durante os produtivos dias. Presença freqüente e insubstituível.

A minha mãe Hermínia e a meu pai Domingos (em sua memória), pelas raízes da linhagem estampada nos depósitos subterrâneos, marca de constantes epifanias.

Todos os participantes do projeto: investindo na língua de sinais no interior, com custeamento da FAPERGS, que contribuíram como escoadouros de colheitas substanciosas que me ensinaram a repensar a prática e os peneiramentos teóricos.

Os organizadores e os meus alunos dos Cursos de Formação de Professores de

Surdos cuja contribuição à reflexão nos tempos que eu precisava semear em campo as ponderações que vieram ao ensaio, abriu colheitas para novas, abundantes e profundas reflexões.

O teto acadêmico da UFRGS, os muitos Seminários no PPGEDU, o encontro com os professores e os colegas destes Seminários ofereceu variados ingredientes para este ensaio e igualmente contribuíram os outros meios acadêmicos como FEEVALE, GALLAUDET, UDESC, UFPEL, UFSC, ULBRA, UNICAMP, UNIJUI, UNISC, UNISINOS, que ofereceram incentivos e suportes para moldar estas tramas do ensaio.

O Professor Paddy Ladd e a Janie Gonçalves da Universidade de Bristol -

Inglaterra pelas horas extras de nostalgia ao narrar a fonte de antepassados surdos e acorreram ao constatar meus momentos de avanços perturbados neste ensaio.

fazerem escutar(Skliar 2003)

A lição dos poetas ... é daqueles que procuram ser adivinhados e não querem comandar absolutamente nada; eles desejam ouvir e não se

...os surdos se engajam em uma pratica, um dialogo interno e externo continuo. Este dialogo, não somente reconhece que a existência enquanto uma pessoa surda é na verdade um processo de tornar-se e manter-se surdo, mas também reflete diferentes interpretações de deafhood, ou o que ser uma pessoa surda em uma comunidade surda pode significar. (Ladd, 2003)

Esta Tese escrita em língua de fronteira aproxima-se das referências imediatas do ser e do estar sendo surdos elucidando a epistemologia que introduz o seu conceito de diferença, conceito naturalmente firmado no interior, no chão onde reside o povo surdo. O textual do ser e do estar sendo surdos se desenvolve no embasamento de uma temporalidade diferente, no propósito das experiências, das trajetórias que acompanham o discurso utilizado. A perspectiva que o pós-colonialismo, o pós-estruturalismo e os estudos culturais oferecem para os estudos surdos nos meios que possibilitam a estabilidade como espaço para o encontro da alteridade, diferença e identidade se sobressaem como propositores de nova ordem. Ser surdo, naturalmente envolve um processo vital. O evento discursivo da diferença e da afirmação política do ser surdo introduz o resultado elucidativo da matriz produtiva que se constituem em produções políticas. A tese introduz a meta e aos reflexos que adentram questões de alteridade diferença e identidade. Introduz nos campos da experiência do ser e do estar sendo surdos, introduz inclusive nos campos do povo surdo, sua história, sua cultura. No momento perpassa os espaços cruciais da diminuição vivida nos terraplenos da educação, da inclusão, dos meios sociais, das produções decorrentes que vêm a abundar no campo colonial subjacente. E revela que não se pode sugerir passivamente a linha de argumentação que passa pela lógica da ideologia opositora ou insistentemente denominada lógica do colonialismo ou lógica do ouvintismo. É esse o vaivém que introduz a uma política de representação da diferença do ser e do estar sendo surdos contrapondo a proposta ambivalente da perigosa presença de suas estratégias bem como do historicismo e do periodismo.

Palavras-chave: surdos, povo surdo, identidade, diferença, alteridade

references to whatDeafhood1 is, elucidating an epistemology that introduces the

This thesis has been written in a frontier language in an attempt to approach closer concept of difference, a concept that has been agreed by nature in deaf people’s inside, in the core where deaf people reside. It is also important to bear in mind that Deafhood writings are elaborated based on a different temporality, according to the purpose of experiences and journeys that accompany the discourse being used. The perspectives that Post Colonialism, Post Structuralism and Cultural Studies offer for Deaf Studies, by providing stability and building space for discussions regarding alterity, difference and identity, make these theories stand out as proponents of a new order. To be deaf naturally includes a living experiential process. Discourse events about difference and political assertiveness regarding Deafhood bring about elucidating results of a productive source that can generate political output. This study, therefore, presents aspirations and reflections of aspects concerning alterity, difference and identity. It puts together aspects of Deafhood experience also including matters such as deaf people as a ‘people’ on their own, with their history and culture. In our days this discussion also needs to take into consideration crucial spaces in the fields where deaf people experience social subtraction such as education, inclusion and other social settings produced by underlying colonial fields. This situation reveals that we can not adopt passively the argument line that goes through the opposing ideology, often called the logic of hearing colonialism or ouvintismo. Thus, this is the discourse dynamics this work develops by introducing Deafhood as a politics of representation of difference as opposing the ambivalent proposal of the dangerous presence, its strategies, historicism and periodism. Key words : Deaf people, Deaf people as a people, identity, difference, alterity

1 Deafhood concept coined by Ladd (2003). According to Perlin, Deafhood can be translated in Portuguese language and in this dissertation as ‘ser surdo’ – ‘to be deaf’ or ‘estar sendo surdo’ – ‘to be beig deaf’, the last one a transient state expressed by the verb ‘estar’ in Portuguese Language in opposition to the verb ‘ser” – the two forms ‘verb to be’ cn be translated in Portuguese language – Translator’s note.

Resumo escrito em língua de sinais Resumo escrito em língua de sinais

APRESENTAÇÃO – No ensaio de uma tese16
INTRODUÇÃO – Celebrar o ser e o estar sendo surdos25
P A R T EI
MEU COMPROMISSO COM A TEORIA30
1.1 - O lugar da teoria31
1.2 – O Pós-modernismo na critica a autoridade das práticas costumeiras3
1.3 – O Pós-estruturalismo e a diferença de ser o outro34
1.4 - Pós-Colonial e nova linguagem35
1.5 – Estudos Culturais um espaço de centralidade da cultura37
1.6 - Excursionando nos campos de Estudos Surdos37
1.6.1 - Estudos surdos ou estudos modernos?38
1.6.2 - Estudos Surdos: o enunciado cultural41
1.6.3 – Encontros no vale sagrado42
1.6.4 - Questões de autoria de Estudos Surdos4
P A R T EI
AS MARCAS DA PESQUISA45
2.1 Terrenos de origem deste Ensaio45
2.2 - A questão recuperada49
2.3 - Um pouco da questão privada51
2.4 – Inquirição, indagação, inquisição52
2.5 – Transitando na língua de fronteira54
2.6 - Fugindo de ter-me de narrar na lógica perversa56
2.7 – O moldar da investigação57
P A R T EI
TRAJETÓRIAS DO OUTRO58

S U M A R I O 3.1 - A questão de ser o outro..........................................................................................58

3.2.1 - A questão de ser o outro surdo numa temporalidade de transformação63
3.2.2 – As outras formas de ser e estar sendo o outro surdo65
3.2.3 - Ser o outro olhando o significativo do outro6
3.3 - O ouvinte: o outro para o surdo68
3.4 – Designação aos surdos75

3.2 - Formas de ser o outro surdo....................................................................................62

TRAJETÓRIAS SEM HISTORICISMO78
4.1 - Quem fez rumos da história do povo surdo?79
4.2 - A réplica re-visionária da história81
4.4 – Drenando os terrenos das organizações surdas83
4.5 – A questão da cultura surda na resistência86
4.6 – Historia apesar de sob deslize ouvicêntrico8
P A R T EV
SER E ESTAR SENDO92
5.1- Estar sendo surdos93
5.2 - A experiência do ser surdo94
5.3 – Estar sendo surdo e o outro surdo96
5.4 – Formas traduzíveis de narrar o ser surdo98
5.5 - O traduzível do ser surdo9
5.6 - Passar pela experiência de ser surdo101
5.7 - Interferência da violência epistêmica: periodismo e acomodação104
5.8 - Resistências: embates e territórios conquistados106
5.9 - Os dias da diminuição107
5.10 - Experiências de diminuição108
P A R T EVI
EPIFANIA: O SER E O ESTAR SENDO SURDOS113
6.1 – Ser surdos, povo surdo, nação surda114

P A R T E IV 6.2 – Celebrar a surpreendente disseminação .............................................................115

6.4 – O outro surdo – questões de alteridade, diferença e identidade118
6.5 - A conspiração de ser surdo119
6.6 – Ser surdo: a demanda simbólica da diferença dos povos surdos121

6.3 - O espaço já constituído do povo surdo ................................................................117

AS PRODUÇÕES DO SER E DO ESTAR SENDO121
7.1 - A construção da identidade dos povos surdos124
7.2 – As significâncias discursivas126
7.3 - Produções culturais128
7.4 - Língua como centro dos segredos132
7.5 A escrita da língua de sinais134
7.6 - Estar sendo surdo e a política138
7.6 - O discurso da diferença da pedagogia dos surdos139
7.6.1 - O discurso da diferença na educação dos surdos141
7.6.2 - Pensando o aspecto da educação que temos142
7.6.3 - A variante144
7.6.4 - Como pensar o espaço do outro?145
7.6.5 - O olhar para o surdo?146
7.6.6 - Porque precisamos de Pedagogia da diferença?146
7.6.7 – A pedagogia da diferença como pedagogia dos surdos148
7.6.8 - Pedagogia da diferença e professores surdos148
7.7 - Inclusão/Exclusão?149
CONCLUSÃO – Há conclusão?150

P A R T E VIII BIBLIOGRAFIA..........................................................................................................152

Ilustrações de Maristela Alano direitos reservados

Confesso que a evolução desta tese me deixa entre dois mundos, pois passo a produzir em ensaio na língua de fronteira2. Utilizo-me da língua de sinais como meio de comunicação e me utilizo da escrita de outra língua e me sirvo dela para falar da diferença de ser na trajetória de um povo, inclusive de denunciar entre muitos que nos impediram a língua escrita.3

2 Língua de fronteira, assim denomino a o português, língua escrita que tramita ao meu lado. Não posso dizer que é minha outra língua, pois minha língua é em signos visuais. E desta língua oral utilizo a leitura e a escrita. Mas as utilizo numa forma não tão expressiva de modo a que me fuja a política da palavra quando ela está numa dimensão auditiva. Bakhtin propõe: O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico. Tudo o que é ideológico possui um valor semiótico. (1997, p.32). Claro que capto a parte visual desta língua. Corro o risco de cometer equívocos com o uso que devia ser mais completo. Tampouco o português será minha segunda língua? Talvez não! Se fosse segunda língua eu teria de ouvir para usá-la com sua estrutura escrita e pronunciá-la com suas intensidades como sendo uma usante da mesma. Derrida, em circunstâncias semelhantes, cita o monolinguismo como parte da língua que tem e que o precedeu desde sempre (1997, p.14) e cita inclusive a outra língua como língua estrangeira.

3 A língua de sinais escrita, pelo que se tem informação, vem desde 1817, quando o professor Bebian criou um sistema de escrita de língua de sinais. Como o professor L’Epée não considerava importante a língua de sinais escrita, pois impunha o francês escrito o sistema caiu no esquecimento. Lá na França como aqui o mesmo problema do surdo não estar indo a universidade pelo fato da língua escrita local ser um entrave. É triste e segundo a pesquisadora Stumpf, que detectou que neste ano de 2003 que a Universidade de Paris está colocando um curso de graduação de língua de sinais, o mesmo que no Brasil existe sob coordenação do MEC. Mas estes cursos visam o ensino da língua de sinais para ouvintes!

Confesso que a evolução desta tese tem igualmente uma despesa pessoal com a força das questões surgidas entre os principais ativistas surdos4. Os termos de embate cultural, seja através de lutas de campo, seja nas tardes de chá5 ou na roda de chimarrão, assumem corpo nesta trajetória fascinante.

A melhor maneira de apresentar esta tese é registrar, já no seu inicio, o propósito que move a fazê-la. Com vistas, não quero elencar listas cuidadosamente elaboradas de trajetórias percorridas, mas deixar a pessoa que tem nas mãos esta arquiteturação acadêmica a par das questões que se sobressaíram na elaboração desta tese de doutorado.

No especial, pretendi destinar esta tese para descer ao fundo das questões de alteridade do ser surdo. Descer fundo visto que não consigo conceber o ser surdo longe da articulação da diferença seja ela cultural ou na situação conflituosa dos embates por um outro espaço possível para sobressair como outro surdo de mim, como povo surdo6 no espaço pós-colonial, bem como também da agência do fomento do discurso da dominação. Na minha tese pretendo inclusive olhar os diferentes caracteres do ser e do outro surdo na sua identidade, pensar, sublinhar a construção dessa identidade na enunciação da diferença cultural. Talvez entre por alguns momentos por espaços onde

4 Sempre que me referir aos surdos estarei me referindo a esta diferença que geralmente agrega em torno de líderes mais achegados da política surda no interior do povo surdo. Raras vezes vou me referir aos surdos de outro conjunto onde eles não participam das lutas da civilização, pois estão em malhas ouvicentricas. 5 Tardes de chá aludindo aos momentos que descontraidamente o grupo de pesquisadores surdos discorríamos as artimanhas do ser surdo e ser povo surdo aflorava uma linguagem pós-colonial. Geralmente servia chá. Tardes de chá para mim identificam momentos de descontração nas quais aflora, com toda a intensidade, a simbologia do ser e do estar sendo surdos longe das tensões da presença da cultura hegemônica onde as exigências de usá-la desviam as atenções do próprio, da diferença, do ser o outro surdo. Narrativas pós-coloniais que dificilmente se conseguem em entrevistas estruturadas, narrativas que vez ou outra os surdos falam. 6 Quero definir aqui visíveis diferenças entre povo surdo e comunidade surda. Povo surdo é tido como o grupo de surdos constituído com língua, lugar e cultura específica. Comunidade surda trata de um aspecto mais híbrido na constituição epistêmica como um grupo instável de pessoas que a constitui. Tanto podem ser os surdos, os ouvintes filhos de pais surdos, os intérpretes e os que simpatizam com os surdos. Quando cito comunidade surda faço distinção entre os sujeitos que compõem/estabelecem articulações que geram as necessidades de ser grupo do grupo, como constituição de sujeitos sociais em tempos e espaços específicos. Na minha pesquisa de mestrado distinguia a identidade surda como constituidores desse precisamos necessariamente determinar o modo de representação da alteridade e produções culturais para a sobrevivência. Uma certa essência.

Alteridade, diferença e identidade, conceitos pelos quais transitei e transito sempre tendo em vista meu discurso afirmativo da representação da diferença surda. São conceitos que de forma simétrica ou assimétrica independem entre si. Fixo-me no conceito da alteridade quando percebo que ser surdo tem sua autonarrativa sem a narração da interpretação da agência do colonizador. O conceito de alteridade na sua forma mais radical pega o conceito “ser surdo” e suas conotações no espaço de póscolonialismo e da filosofia pós-moderna respeitando a temporalidade. Igualmente o conceito de ser surdo aqui usado não se evidencia pela existência ou não do ouvintismo7. O conceito de ser surdo confirma o surdo, da mesma forma que o conceito ser negro, ou conceito ser índio. Assim, dentro de posições culturais, a palavra ser surdo assume uma política para a identidade e diferença e a alteridade.

Do mesmo modo a diferença que na minha maneira se atrela mais ao aspecto cultural e a identidade, as formas de se fazer o eu prevalecer diferente pelas situações da sua constituição nas diferentes tramas de poder social.

As paragens da identidade surda e suas múltiplas identidades surgiram durante o meu Mestrado em Educação. Foi aí que constatei o ser surdo com suas identidades agrupamento, mas hoje destingi que aqueles que são surdos e que tem uma certa autonomia política são constituidores do povo surdo. 7 A representação do ouvinte que aparece com uma suposta superioridade sobre o surdo e inerente ao pensamento eurocêntrico foi denominada ouvintismo por Skliar (1997 p. 259) que utilizou este termo para descrever as políticas ouvintes sobre os surdos. Para Foucault o poder e o saber estão perfeitamente implicados. Neste caso de pose da comunicação tendo-a como superior e impedindo ao surdo de desenvolver a sua comunicação em língua de sinais, logicamente o poder ouvinte esta legitimado. Durante este ensaio de tese temos inclusive o momento de presenciarmos em outras forças de poder coercitivo como o historicismo, o periodismo. Para simplificar a referência, passo a utilizar o termo “ouvintes” (ouvintes aspados) para os que não aceitam o surdo como o diferente, bem como nos momentos em que há surdos que compartilham desta mesma idéia e que provocam para discursos conflitantes aceitando os discursos do ouvintismo, voltando-se para a diversidade cultural provocado amnésia motivada.

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