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ANO 2 – Nº 4 março 2001

Instituto Ethos Reflexão é uma publicação do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, distribuída gratuitamente aos seus associados.

Agradecimentos

Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli, pela autorização ao uso e reprodução do capítulo, “A ética nas organizações”, de sua dissertação de mestrado A interface entre a ética e a administração hospitalar, páginas 58 a 82.

Relevo Araujo Pre Press, pelos fotolitos desta edição.

Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social Rua Francisco Leitão, 469 – 14º andar – Conj. 1407 05414-020 – São Paulo – SP Tel./Fax: 1 - 3068.8539 e-mail: ethos@ethos.org.br visite o nosso site: w.ethos.org.br

Nesta edição de Instituto Ethos Reflexão, entramos no segundo ano da publicação, que foi idealizada com o propósito de estimular o espírito crítico nas organizações, motivando as empresas a refletir sobre a forma como estão gerindo seus negócios.

O Instituto Ethos sempre defendeu que incorporar a cultura da responsabilidade social é um caminho que deve ser construído diariamente, por meio de mobilização, engajamento, parcerias entre os diversos atores sociais, troca de informações e a implementação de ações práticas.

Cada vez mais, a responsabilidade social e a ética vêm mobilizando um número maior de atores da sociedade. Um exemplo dessa constatação na área acadêmica é a tese de mestrado de Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli, A interface entre a ética e a administração hospitalar, apresentada ao Departamento de Prática em Saúde Pública da Universidade de São Paulo em 1999.

Dentre os aspectos específicos da área de saúde que compõem a obra, o capítulo “A ética nas organizações”, o qual estamos publicando neste número, faz um importante resgate desse tema tão discutido atualmente pelas empresas e que deve servir de reflexão para qualquer tipo de organização. Resultado de um minucioso trabalho de pesquisa, a autora constrói uma dissertação fluente, respaldada por diversos estudiosos do tema e traz à tona inúmeras referências importantes para ampliar a sua compreensão.

Esta leitura é mais um incentivo para as empresas que estão descobrindo que gerir o negócio com base nos preceitos da ética e da responsabilidade social é o caminho para a sua sustentabilidade, o sucesso empresarial e para a construção de uma sociedade mais próspera e mais justa.

A essencialidade das organizações na vida pessoas leva alguns expertos a considerarem que os tempos atuais configuram uma “época managerial” e a sociedade hodierna conforma uma “sociedade de organizações”, cujo paradigma é a empresa. Esta concepção ganha tal força que a transformação das organizações, com a empresa desempenhando um papel de exemplo ou modelo, é vista como o caminho para a melhoria da humanidade. A empresa é compreendida como um motor para a renovação social e todas as organizações e os que nelas trabalham devem buscar aprender da ética empresarial o modo de atuação exigido a fim de que possam sobreviver, crescer e superar-se, evitando os defeitos anteriores e propondo valores adequados a esta reconstituição proposta5. Disto também decorre o uso indistinto dos termos ética organizacional ou nas organizações; ética empresarial ou nas empresas e ética nos negócios. No Brasil, registra-se uma preferência pelo uso das expressões ética nas organizações ou organizacional e ética nos negócios, provavelmente pela mencionada influência do idioma inglês que utiliza business ethics e organizational ethics.

Cabe ressaltar que embora no presente trabalho a reflexão restrinja-se ao âmbito organizacional, não se desconhece o fato de que a ética empresarial ocorre no contexto da ética social e que também tem peso a ética pessoal de cada membro da organização. Pode-se dizer que a ética organizacional representa a confluência de uma mobilização de cidadania e de uma opção da consciência individual. Desde suas origens na Antiga Grécia a ética convida a forjar-se um bom caráter que leve a boas escolhas. O caráter que uma pessoa tem é decisivo para sua vida, pois, ainda que os fatores externos condicionem em um sentido ou outro o caráter, se a pessoa o assumir, é o centro último da decisão, pois a ética é uma prá- tica irrenunciavelmente individual, intransferível e íntima. Porém, é oportuno lembrar que as organizações com seus valores influenciam neste processo decisório podendo facilitar as boas escolhas ou torná-las um ato heróico de quem assim queira agir, pois a ética pessoal assinala que existem situações nas quais é necessário confrontar o grupo ou a comunidade a que se pertence e atuar de maneira determinada sem importar-se com os interesses afetados. Portanto pode-se dizer que o primeiro sentido da ética é um saber que pretende orientar as pessoas na forja do caráter5,16,18.

A ética social, que acompanha a experiência do pluralismo religioso, político e moral reconhecido como o ideal de sociabilidade, consiste em um denominador comum compartido pela sociedade em meio a esta diversidade. Compreende a fecundidade da convivência de concepções distintas e defende que cada qual tem direito de tentar levar a cabo seu projeto de felicidade sempre que isto não impossibilite aos demais também o concretizarem. Ela parte da convicção de que cada membro da sociedade é um cidadão capaz de tomar decisões como um sujeito ético autônomo. Assim, um dos primeiros valores que compõem a ética social é o da autonomia ética com seu correspondente político, a cidadania. A estes junta-se a igualdade, entendida como a consecução de iguais oportunidades para todos desenvolverem suas capacidades, corrigidas as desigualdades naturais e sociais e eliminada a dominação de uns pelos outros já que todos são iguais enquanto autônomos e capacitados para a cidadania. Estes valores da ética social servem de guia para as ações, mas para que eles sejam encarnados na vida das pessoas e das instituições é necessário concretizá-los e os direitos humanos, em suas distintas gerações, podem ser considerados como tal5.

A pluralidade também exige como componentes da ética social a tolerância e o diálogo. O primeiro vai além de seu sentido passivo isto é, uma inclinação a não imiscuir-se nos projetos alheios por simples comodidade, mas abraça um sentido ativo, a predisposição em respeitá-los porque podem ter um valor mesmo que não compartido por todos. O diálogo é uma atitude que considera cada um como ser autônomo igualmente capaz de dialogar sobre as questões que afetam sua vida e que se dispõe, por solidariedade, a incluir os interesses de cada um na tomada de decisões. A única maneira de cada qual se fazer compreender é nesta atitude de diálogo na qual se fala e se pergunta5,9.

Para o desenho de uma ética nas organizações faz-se necessário: •determinar o fim específico da atividade organizacional que é responsável por sua legitimação social;

•averiguar os meios adequados e os valores a serem incorporados no desempenho desta atividade específica; •indagar pelos hábitos a ser adquiridos e ir forjando um caráter que permita deliberar e tomar decisões acertadas em relação às metas; •discernir que relação deve ocorrer entre as atividades e as organizações; •identificar quais são os valores éticos da sociedade na qual está inserida a organização e quais os direitos que essa sociedade reconhece às pessoas5.

Feitas estas breves delimitações iniciais passa-se à questão específica da ética empresarial. Os motivos para o florescimento da preocupação ou interesse com a ética nas empresas e nas organizações de maneira geral inicia esta discussão que segue com os aspectos históricos e uma conceituação.

Ultimamente, o interesse ou a preocupação com a ética empresarial e de seus dirigentes e empregados, tem crescido, sendo alvo da mídia e da literatura sobre administração. Já se encontram, nos jornais, anúncios selecionando supervisores ou consultores éticos, sinal de que a empresa está incluindo a preocupação com a ética formalmente em sua estrutura organizacional.

Possivelmente o domínio do movimento positivista durante a metade do século passado e início do século X, convencendo a todos que os saberes científicos e técnicos

A pesquisa deste best-seller demonstra que uma abordagem inteligente acerca de organizações deve abarcar, obrigatoriamente, como interdependentes pelo menos sete variáveis: •a estrutura;

•as pessoas (a equipe);

•os sistemas e os procedimentos;

•os conceitos que servem como guias para as ações;

•os valores compartilhados no bojo da cultura organizacional; deveriam se ater, ao que chamou seu fundador Augusto Comte, de “regime dos fatos”, relegando a um segundo plano os valores, tenha determinado a ausência destes, na teoria empresarial clássica. Isto, segundo alguns autores, poderia explicar porque resolver problemas éticos em administração apresenta-se como uma questão tão complexa6,1.

No entanto, o best-seller de autoria de Peters e Waterman15, In Search of Excellence, através de uma pesquisa junto a empresas norte-americanas bem sucedidas, desfaz este mito ou tradição, mostrando que, tudo que os administradores vinham desprezando como intratável, irracional, intuitivo e aspectos informais da organização, pode ser manejado na busca da excelência. As abordagens quantitativas e racionalistas da administração resultam incapazes de explicitar o que as companhias, tidas como excelentes, aprenderam, pois, é provável que elas tenham alcançado a excelência devido a atributos culturais que as distinguem das concorrentes no mesmo ramo de negócios15.

•as forças e as habilidades, presentes e esperadas, da corporação.

Estas variáveis formam o que foi chamado 7-S** Framework (Figura 1), numa tentativa de torná-las de mais fácil explicação, compreensão e incorporação pelos dirigentes15.

Os atributos que emergem como os mais característicos da excelência, nesta pesquisa são:

•preferência para a ação; •proximidade do consumidor;

•autonomia e espírito empreendedor;

•produtividade através das pessoas;

•orientação pelos valores;

•circunscrição ao negócio que a organização conhece melhor; •forma simples e staff enxuto;

•clima, no qual há dedicação para os valores centrais da companhia, combinado com a tolerância para com os empregados que os aceitam15.

Figura 1 - As variáveis interdependentes na organização (7-S Framework) Adaptado de Peters TJ, Waterman RH. In search of excellence. Lessons from America’s best-run companies. New York: Warner; 1984.

**das iniciais das palavras em inglês structure, systems, style, staff, skills, strategy, shared values

Mas quais seriam as motivações para todo este interesse quanto a ética empresarial? Alguns autores como Cortina e col.5, Srour18 e Gómez10 destacam dentre as razões de todo este movimento:

a urgência de recuperar a credibilidade na empresa.

Escândalos como Watergate fazem com que a confiança volte a ser um valor no mundo empresarial, o que em realidade nunca havia deixado de ser, assim ela reassume a sua posição como tal; a empresa que busca somente os resultados ou as vantagens imediatas é suicida, a responsabilidade a largo prazo é uma necessidade de sobrevivência e neste aspecto a ética constitui um fator importante para os ganhos. Por si só, a ética não é condição para um bom negócio, mas o propicia; uma mudança na concepção de empresa, de um terreno de homens sem escrúpulos movidos pela ganância e lucro em direção a uma instituição socioeconômica que tem uma bilidades neste âmbito, ela está obrigada a tomar decisões com implicações éticas. A ética não é só individual, mas corporativa e comunitária. Assim, no mundo empresarial começa-se a esclarecer que não só os indivíduos são eticamente responsáveis, também o devem ser as empresas. Portanto, faz-se necessária e urgente uma ética das empresas, que começam a preocupar-se com o tipo de formação que dão a seus membros especialmente a seus dirigentes; as organizações, nos países pós capitalistas, são a célula do tecido social e a sua transformação está sendo considerada essencial no processo de construir uma sociedade mais inclusiva. Frente às velhas e anquilosadas organizações propõe-se novas livres dos defeitos anteriores e com os valores adequados à esperada renovação, o que confere à ética da empresa um lugar de destaque; na ética das empresas vai se mostrando indispensável a capacidade gerencial e, conseqüentemente, a figura do executivo que pouco a pouco vai se tornando um personaresponsabilidade ética para com a sociedade (os consumidores, os acionistas, os empregados e os provedores). Neste aspecto, Bernardo1 defende que cada dia é mais vigente uma conceituação antropológica de empresa, que parte do entendimento da pessoa humana como autora, centro e fim de toda atividade econômico-social. Esta conceituação concebe a empresa como um grupo social constituído por pessoas livres que organizadas, hierárquica e profissionalmente, cooperam de diversas formas como sujeitos de direitos com base em contratos livremen- te tratados e com a finalidade comum de produzir bens ou serviços para intercâmbio econômico.

Em outras palavras pode-se dizer que uma vez que a empresa, enquanto uma organização social, deve dar conta de funções que a sociedade dela espera e exige assumindo suas responsa- prescindível a compreensão das finalidades da organização. Neste sentido, a educação e a preocupação com um atuar eticamente correto deverão formar parte do desenvolvimento da organização;

A empresa que busca somente os resultados ou as vantagens imediatas é suicida, a responsabilidade a largo prazo é uma necessidade de sobrevivência e neste aspecto a ética constitui um fator importante para os ganhos. Por si só, a ética não é condição para um bom negócio, mas o propicia gem central do mundo social atual. O gestor é uma pessoa com claros objetivos que se propõe a alcançá-los através do desenvolvimento de grande habilidade para imaginar e criar meios que permitam isto. De comportamento pró-ativo, criativo e com capacidade inovadora não se prende a soluções já conhecidas, mas com instinto de adaptação imagina possibilidades e estratégias novas, sempre no marco da negociação, menos custoso que o do conflito; para o entendimento dos processos de tomada de decisão é im- a cultura do individualismo, característica da modernidade, é geradora de insatisfações. Como conseqüência os indivíduos buscam se integrar a uma comunidade ou corporação para recuperar seu “eu concreto”. Os seres humanos tornam-se pessoas dentro de comunidades concretas, nas quais aprendem os valores éticos que vão seguir defendendo. A empresa pode ser entendida como uma comunidade que propõe a seus membros uma identidade, um sentido de pertença, valores a compartir, uma tarefa comum, um bem comum não distinto do bem de cada um dos seus integrantes e, até mesmo, um sentido de excelência que o “universalismo individualista” é incapaz de considerar. Esta é a cultura das organizações que, começando pela família e continuando através dos demais grupos humanos que cada contribui para a boa imagem da empresa, pois nenhuma das grandes e excelentes companhias distingue-se pela falta de princípios éticos, mas pela qualidade do produto que colocam à disposição do mercado. As empresas têm uma imagem a resguardar, patrimônio essencial para a continuidade do próprio negócio. A imagem da empresa não pode ser vilipendiada ou reduzida à simples peça publicitária uma vez que ela representa um ativo econômico sensível à credibilidade que inspira. A dimensão ética é uma parte decisiva dentro do conceito de qualidade que a empresa apresenta à sociedade.

Resta, dentre as motivações para a preocupação com a ética nas empresas, levantar a questão do modismo.

A imagem da empresa não pode ser vilipendiada ou reduzida à simples peça publicitária uma vez que ela representa um ativo econômico sensível à credibilidade que inspira. A dimensão ética é uma parte decisiva dentro do conceito de qualidade que a empresa apresenta à sociedade risca seu posto de trabalho. Assim, outra razão pela qual falase de ética nas empresas é a situação de insegurança e intranqüilidade na qual se encontram muitos diretivos que devem tomar as decisões exigidas pela empresa, mas sentem-se, segundo sua consciência, como se estivessem agindo de maneira eticamente censurável; a insistência na qualidade ética leva, por extensão, à qualidade em sentido mais amplo resultando em maior rentabilidade; gida à medida em que se aprofunda a complexidade do tecido social. Estas últimas posições expressam as reais funções e os objetivos da introdução da preocupação com a ética no mundo dos negócios. No entanto, a colocação feita pelo primeiro autor traz um aspecto que não pode ser desprezado, há um risco de que a ética nas organizações revista-se de um caráter de modismo e perca de vista suas finalidades.

indivíduo integra, leva ao resgate do sentido concreto da vida de cada um; as organizações sociais, hoje em dia, reclamam um atuar eticamente adequado, mas não querem que as pessoas sejam heróis. No entanto, ao pertencer a uma empresa, cujo desenho e funcionamento põem os resultados econômicos a curto prazo adiante do respeito dos direitos das pessoas ou da satisfação da necessidade dos consumidores, tomar decisões eticamente corretas pode tornar-se um ato heróico, no qual o trabalhador ar-

Gómez10 coloca este ponto como uma das razões para este crescente florescimento da ética dos negócios, já Cortina e col.5 defende uma outra posição afirmando que a ética empresarial não consiste nem em uma moda passageira, nem em último intento de justificar relações injustificáveis, mas em uma nova forma de orientar a atividade empresarial e o desenho das organizações. Também segundo Ortiz-Ibarz14, mais que um modismo, a ética nas atividades empresariais e de qualquer organização é uma necessidade mais exi-

A época do grande florescimento da ética nos negócios, nos Estados Unidos, ocorre nos anos 80, no entanto é possível encontrar marcos históricos deste assunto anteriores à década de 70.

Em 1940, Rensis Likert publica o livro Moral and

Management. Dez anos mais tarde, o sociólogo Katz publica, na Harvard Bussiness Review, o artigo Los valores personales y las decisiones. No mesmo periódico, em 1969, Keneth Andrews, no artigo Toward Professionalism in Business Management, expõe sua tese de que a direção de negócios não pode receber o qualificativo de profissional enquanto não aceitar um código ético independente e que se encontre acima do mando máximo da empresa, de tal modo que o diretor deva respeitá-lo de maneira absoluta12.

Segundo Llano12, estes autores não representam um movimento isolado, são conseqüência de uma corrente poderosa, demonstrada em estudos do sociólogo Wright Mills, que busca reafirmar os valores éticos das “antigas classes médias dos EUA” que durante mais de 40 anos mantiveramse na defensiva. E estes valores derivados da tradição cristã incluem a honradez, a laboriosidade, o altruísmo, a mentalidade cívica, a prática religiosa e o auto - controle ou a disciplina pessoal.

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