O evangelho segundo Jesus Cristo

O evangelho segundo Jesus Cristo

(Parte 1 de 2)

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO José Saramago

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo

Digitalização e tratamento do texto por Guilherme Jorge(esta obra foi digitalizada para uso exclusivo por parte de deficientes visuais ao abrigo do artigo 80 do CDADC)

Já que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído. LUCAS, 1, 1-4

Quod scripsi, scripsi. PILATOS

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo

O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão. O cabelo, todo aos caracóis, é outro indício que não engana, sabendo-se que anjos e arcanjos assim o usam, e o criminoso arrependido, pelas mostras, já está no caminho de ascender ao mundo das celestiais criaturas. Não será possível averiguar se este tronco ainda é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva, a instrumento de suplício, mas continuando a alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte inferior dela está tapada por um homem de barba comprida, vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas, que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene, sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções, fora à sua vida, muito mais preocupado com as consequências do atraso para um negócio que trazia aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que iam crucificar. Ora, este José de Arimateia é aquele bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal, mas a generosidade não lhe servirá de muito na hora das santificações, sequer das beatificações, pois não tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante com que sai à rua todos os dias, ao contrário desta mulher que aqui vemos em plano próximo, de cabelos -soltos sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a glória suprema duma auréola, no seu caso recortada como um bordado doméstico. De certeza que a mulher ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome, apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador, se conhecedor bastante dos factos elementares da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena é esta precisamente, porquanto só uma pessoa como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se, na hora trágica, com um decote tão aberto, e um corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a redondez dos seios, razão por que, inevitavelmente, está atraindo e retendo a mirada sôfrega dos homens que passam, com grave dano das almas, assim arrastadas à perdição pelo infame corpo. É, porém, de compungida tristeza a expressão do seu rosto, e o abandono do corpo não exprime senão a dor de uma alma, é certo que escondida por carnes tentadoras, mas que é nosso dever ter em conta, falamos da alma, claro está, esta mulher poderia até estar inteiramente nua, se em tal preparo tivessem escolhido representá-la, que ainda assim haveríamos de demonstrar-lhe respeito e homenagem. Maria Madalena, se ela é, ampara, e parece que vai beijar, num gesto de compaixão intraduzível por palavras, a mão doutra mulher, esta sim, caída por terra, como desamparada de forças ou ferida de morte. O seu nome também é Maria, segunda na ordem de apresentação, mas, sem dúvida, primeiríssima na importância, se algo significa o lugar central que ocupa na região inferior da composição. Tirando o rosto lacrimoso e as mãos desfalecidas, nada se lhe alcança a ver do corpo, coberto pelas pregas múltiplas do manto e da túnica, cingida na cintura por um cordão cuja aspereza se adivinha. É mais idosa do que a outra Maria, e esta é uma boa razão, provavelmente, mas não a única, para que a sua auréola tenha um desenho mais complexo, assim, pelo menos, se acharia autorizado a pensar quem, não dispondo de informações precisas acerca das precedências, patentes e hierarquias em vigor neste mundo, estivesse obrigado a formular uma opinião. Porém, tendo em conta o grau de divulgação, operada por artes maiores e menores, destas iconografias, só um habitante doutro planeta, supondo que nele não se houvesse repetido alguma vez, ou mesmo estreado, este drama, só esse em verdade inimaginável ser ignoraria que a afligida mulher é a viúva de um carpinteiro chamado José e mãe de numerosos filhos e filhas, embora só um deles, por imperativos do destino ou de quem o governa, tenha vindo a prosperar, em vida mediocremente, mas maiormente

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo depois da morte. Reclinada sobre o seu lado esquerdo, Maria, mãe de Jesus, esse mesmo a quem acabamos de aludir, apoia o antebraço na coxa de uma outra mulher, também ajoelhada, também Maria de seu nome, e afinal, apesar de não lhe podermos ver nem fantasiar o decote, talvez verdadeira Madalena. Tal como a primeira desta trindade de mulheres, mostra os longos cabelos soltos, caídos pelas costas, mas estes têm todo o ar de serem louros, se não foi pura casualidade a diferença do traço, mais leve neste caso e deixando espaços vazios no sentido das madeixas, o que, obviamente, serviu ao gravador para aclarar o tom geral da cabeleira representada. Com tais razões não pretendemos afirmar que Maria Madalena tivesse sido, de facto, loura, apenas nos estamos conformando com a corrente de opinião maioritária que insiste em ver nas louras, tanto as de natureza como as de tinta, os mais eficazes instrumentos de pecado e perdição. Tendo sido Maria Madalena, como é geralmente sabido, tão pecadora mulher, perdida como as que mais o foram, teria também de ser loura para não desmentir as convicções, em bem e em mal adquiridas, de metade do género humano. Não é, porém, por parecer esta terceira Maria, em comparação com a outra, mais clara na tez e no tom do cabelo, que insinuamos e propomos, contra as arrasadoras evidências de um decote profundo e de um peito que se exibe, ser ela a Madalena. Outra prova, esta fortíssima, robustece e afirma a identificação, e vem a ser que a dita mulher, ainda que um pouco amparando, com distraída mão, a extenuada mãe de Jesus, levanta, sim, para o alto o olhar, e este olhar, que é de autêntico e arrebatado amor, ascende com tal força que parece levar consigo o corpo todo, todo o seu ser carnal, como uma irradiante auréola capaz de fazer empalidecer o halo que já lhe está rodeando a cabeça e reduzindo pensamentos e emoções. Apenas uma mulher que tivesse amado tanto quanto imaginamos que Maria Madalena amou poderia olhar desta maneira, com o que, derradeiramente, fica feita a prova de ser ela esta, só esta, e nenhuma outra, excluída portanto a que ao lado se encontra, Maria quarta, de pé, meio levantadas as mãos, em piedosa demonstração, mas de olhar vago, fazendo companhia, neste lado da gravura, a um homem novo, pouco mais que adolescente, que de modo amaneirado a perna esquerda flecte, assim, pelo joelho, enquanto a mão direita, aberta, exibe, numa atitude afectada e teatral, o grupo de mulheres a quem coube representar, no chão, a acção dramática. Este personagem, tão novinho, com o seu cabelo aos cachos e o lábio trémulo, é João. Tal como José de Arimateia, também esconde com o corpo o pé desta outra árvore que, lá em cima, no lugar dos ninhos, levanta ao ar um segundo homem nu, atado e pregado como o primeiro, mas este é de cabelos lisos, deixa pender a cabeça para olhar, se ainda pode, o chão, e a sua cara, magra e esquálida, dá pena, ao contrário do ladrão do outro lado, que mesmo no transe final, de sofrimento agónico, ainda tem valor para mostrar-nos um rosto que facilmente imaginamos rubicundo, corria-lhe bem a vida quando roubava, não obstante a falta que fazem as cores aqui. Magro, de cabelos lisos, de cabeça caída para a terra que o há-de comer, duas vezes condenado, à morte e ao inferno, este mísero despojo só pode ser o Mau Ladrão, rectíssimo homem afinal, a quem sobrou consciência para não fingir acreditar, a coberto de leis divinas e humanas, que um minuto de arrependimento basta para resgatar uma vida inteira de maldade ou uma simples hora de fraqueza. Por cima dele, também chorando e clamando como o sol que em frente está, vemos a lua em figura de mulher, com uma incongruente argola a enfeitar-lhe a orelha, licença que nenhum artista ou poeta se terá permitido antes e é duvidoso que se tenha permitido depois, apesar do exemplo. Este sol e esta lua iluminam por igual a terra, mas a luz ambiente é circular, sem sombras, por isso pode ser tão nitidamente visto o que está no horizonte, ao fundo, torres e muralhas, uma ponte levadiça sobre um fosso onde brilha água, umas empenas góticas, e lá por trás, no testo duma última colina, as asas paradas de um moinho. Cá mais perto, pela ilusão da perspectiva, quatro cavaleiros de elmo, lança e armadura fazem voltear as montadas em alardes de alta escola, mas os seus gestos sugerem que chegaram ao fim da exibição, estão saudando, por assim dizer, um público invisível. A mesma impressão de final de festa é dada por aquele soldado de infantaria que já dá um passo para retirar-se, levando, suspenso da mão direita, o que, a esta distância, parece um pano, mas que também pode ser manto ou túnica, enquanto dois outros militares dão sinais de imtação e despeito, se é possível, de tão longe, decifrar nos minúsculos rostos um sentimento, como de quem jogou e perdeu. Por cima destas vulgaridades de milícia e de cidade muralhada pairam quatro anjos, sendo dois dos de corpo inteiro, que choram, e protestam, e se lastimam, não assim um deles, de perfil grave, absorto no trabalho de recolher numa taça, até à última gota, o jorro de sangue que sai do lado direito do Crucificado. Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo destino fatal e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores. É ele, finalmente, este para quem apenas olham José de Arimateia e Maria Madalena, este que faz chorar o sol e a lua, este que ainda agora louvou o Bom Ladrão e desprezou o Mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa, pois o Bem e o Mal não existem em si mesmos, cada um deles é somente a ausência do outro. Tem por cima da cabeça, resplandecente de mil raios, mais do que, juntos, o sol e a lua, um cartaz escrito em romanas letras que o proclamam Rei dos Judeus, e, cingindo-a, uma dolorosa coroa de espinhos, como a levam, e não sabem, mesmo quando não sangram para fora do corpo, aqueles homens a quem não se permite que sejam reis em suas próprias pessoas. Não goza Jesus de um descanso para os pés, como o têm os ladrões, todo o peso do seu corpo estaria suspenso das mãos pregadas no madeiro se não fosse restar-lhe ainda alguma vida, a bastante para o manter erecto sobre os joelhos retesados, mas que cedo se lhe acabará, a vida, continuando o sangue a saltar-lhe da ferida do peito, como já foi dito. Entre as duas cunhas que firmam a cruz a prumo, como ela introduzidas numa escura fenda do chão, ferida da terra não mais incurável que qualquer sepultura de homem, está um crânio, e também uma tíbia e uma omoplata, mas o crânio é que nos importa, porque é isso o que Gólgota significa, crânio, não parece ser uma palavra o mesmo que a outra, mas alguma diferença lhes notaríamos se em vez de escrever crânio e Gólgota escrevêssemos gólgota e Crânio. Não se sabe quem aqui pôs estes restos e com que fim o teria feito, se é apenas um irónico e macabro aviso aos infelizes supliciados sobre o seu estado futuro, antes de se tornarem em terra, pó e coisa nenhuma. Mas também há quem afirme que este é o próprio crânio de Adão, subido do negrume profundo das camadas geológicas arcaicas, e agora, porque a elas não pode voltar, condenado eternamente a ter diante dos olhos a terra, seu único paraíso possível e para sempre perdido. Lá atrás, no mesmo campo onde os cavaleiros executam um último volteio, um homem afasta-se, virando ainda a cabeça para este lado. Leva na mão esquerda um balde e uma cana na mão direita. Na extremidade da cana deve haver uma esponja, é difícil ver daqui, e o balde, quase apostaríamos, contém água com vinagre. Este homem, um dia, e depois para sempre, será vítima de uma calúnia, a de, por malícia ou escárnio, ter dado vinagre a Jesus ao pedir ele água, quando o certo foi ter-lhe dado da mistura que traz, vinagre e água, refresco dos mais soberanos para matar a sede, como ao tempo se sabia e praticava. Vai-se embora, não fica até ao fim, fez o que podia para aliviar as securas mortais dos três condenados, e não fez diferença entre Jesus e os Ladrões, pela simples razão de que tudo isto são coisas da terra, que vão ficar na terra, e delas se faz a única história possível.

A noite ainda tem muito para durar. A candeia de azeite, dependurada de um prego ao lado da porta, está acesa, mas a chama, como uma pequena amêndoa luminosa pairando, mal consegue, trémula, instável, suster a massa escura que a rodeia e enche de cima a baixo a casa, até aos últimos recantos, lá onde as trevas, de tão espessas, parecem ter-se tornado sólidas. José acordou em sobressalto, como se alguém, bruscamente, o tivesse sacudido pelo ombro, mas teria sido ilusão de um sonho logo desvanecido, que nesta casa só ele vive, e a mulher, que não se mexeu, e dorme. Não é seu costume despertar assim a meio da noite, em geral não acorda antes de a larga frincha da porta começar a emergir do escuro, cinzenta e fria. Inúmeras vezes pensara que deveria tapá-la, nada mais fácil para um carpinteiro, ajustar e pregar uma simples régua de madeira que sobrasse duma obra, porém, a tal ponto se tinha habituado a encontrar na sua frente, mal abria os olhos, aquela vara vertical de luz, anunciadora do dia, que acabara por imaginar, sem ligar ao absurdo da ideia, que, faltando ela, poderia não ser capaz de sair das trevas do sono, as do seu corpo e as do mundo. A frincha da porta fazia parte da casa, como as paredes ou o tecto, como o forno ou o chão de terra apisoada. Em voz baixa, para não acordar a mulher, que continuava a dormir, pronunciou a primeira bênção do dia, aquela que sempre deve ser dita quando se regressa do misterioso país do sono, Graças te dou, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que pelo poder da tua misericórdia, assim me restituis, viva e constante, a minha alma. Talvez por não se encontrar igualmente desperto em cada um dos seus cinco sentidos, se é que, então, nesta época de que vimos falando, não estavam as pessoas ainda a aprender alguns deles ou, pelo contrário, a perder outros que hoje nos seriam úteis, José olhava-se a si mesmo como se fosse acompanhando, a distância, a lenta ocupação do seu corpo por uma alma que

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo aos poucos estivesse regressando, igual a fios de água que, avançando sinuosos pelos caminhos das regueiras, penetrassem a terra até às mais fundas raízes, transportando a seiva, depois, pelo interior dos caules e das folhas. E por ver quão trabalhoso era este regresso, olhando a mulher, a seu lado, teve um pensamento que o perturbou, que ela, ali adormecida, era verdadeiramente um corpo sem alma, que a alma não está presente no corpo que dorme, ou então não faz sentido que agradeçamos todos os dias a Deus por todos os dias no-la restituir quando acordamos, e nesta altura uma voz dentro de si perguntou, O que é que em nós sonha o que sonhamos, Porventura os sonhos são as lembranças que a alma tem do corpo, pensou a seguir, e isto era uma resposta. Maria moveu-se, acaso a alma dela estaria ali por perto, já dentro de casa, mas no fim não despertou, apenas andaria em afãs de sonho, e, tendo soltado um suspiro fundo, entrecortado como um soluço, chegou-se para o marido, num movimento sinuoso, porém inconsciente, que jamais ousaria quando acordada. José puxou o lençol grosso e áspero para os ombros e aconchegou melhor o corpo na esteira, sem se afastar. Sentiu que o calor da mulher, carregado de odores, como de uma arca fechada onde tivessem secado ervas, lhe ia penetrando pouco a pouco o tecido da túnica, juntando-se ao calor do seu próprio corpo. Depois, deixando descer devagar as pálpebras, esquecido já de pensamentos, desprendido da alma, abandonou-se ao sono que voltava. Só tornou a acordar quando o galo cantou. A frincha da porta deixava passar uma cor grisalha e imprecisa, de aguada suja. O tempo, usando de paciência, contentara-se com esperar que se cansassem as forças da noite e agora estava a preparar o campo para a manhã chegar ao mundo, como ontem e sempre, em verdade não estamos naqueles dias fabulosos em que o sol, a quem já tanto devíamos, levou a sua benevolência ao ponto de deter, sobre Gabaon, a sua viagem, assim dando a Josué tempo de vencer, com todos os vagares, os cinco reis que lhe cercavam a cidade. José sentou-se na esteira, afastou o lençol, e nesse momento o galo cantou segunda vez, lembrando-lhe que se encontrava em falta de uma bênção, aquela que se deve à parte de méritos que ao galo coube quando da distribuição que deles fez o Criador pelas suas criaturas, Louvado sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que deste ao galo inteligência para distinguir o dia da noite, isto disse José, e o galo cantou terceira vez. Era costume, ao primeiro sinal destas alvoradas, responderem-se uns aos outros os galos da vizinhança, mas hoje ficaram calados, como se para eles a noite ainda não tivesse terminado ou mal tivesse começado. José, perplexo, olhou o vulto da mulher, estranhando-lhe o sono pesado, ela que o mais ligeiro ruído fazia despertar, como um pássaro. Era como se uma força exterior, descendo, ou pairando, sobre Maria, lhe comprimisse o corpo contra o solo, porém não tanto que a imobilizasse por completo, notava-se mesmo, apesar da penumbra, que a percorriam súbitos estremecimentos, como a água de um tanque tocada pelo vento. Estará mal, pensou, mas eis que um sinal de urgência o distraiu da preocupação incipiente, uma instante necessidade de urinar, também ela muito fora do costume, que estas satisfações, na sua pessoa, habitualmente manifestavam-se mais tarde, e nunca tão vivamente. Levantou-se, cauteloso, para evitar que a mulher desse pelo que ia fazer, pois escrito está que por todos os modos se deve preservar o respeito de um homem, só quando de todo em todo não for possível, e, tendo aberto devagar a porta que rangia, saiu para o pátio. Era a hora em que o crepúsculo matutino cobre de cinzento as cores do mundo. Encaminhou-se para um alpendre baixo, que era a barraca do jumento, e aí se aliviou, escutando, com uma satisfação meio consciente, o ruído forte do jacto de urina sobre a palha que cobria o chão. O burro voltou a cabeça, fazendo brilhar no escuro os olhos salientes, depois sacudiu com força as orelhas peludas e tornou a meter o focinho na manjedoura, a tentear os restos da ração com os beiços grossos e sensíveis. José aproximou-se da talha das abluções, inclinou-a, fez correr a água sobre as mãos, e depois, enquanto as enxugava na própria túnica, louvou a Deus por, em sua sabedoria infinita, ter formado e criado no homem os orifícios e vasos que lhe são necessários à vida, que se um deles se fechasse ou abrisse, não devendo, certa teria o homem a sua morte. Olhou José o céu, e em seu coração pasmou. O sol ainda tarda a despontar, não há, por todos os espaços celestes, o mais lavado indício dos rubros tons do amanhecer, sequer uma pincelada leve de róseo ou de cereja mal madura, nada, a não ser, de horizonte a horizonte, tanto quanto os muros do pátio lhe permitiam ver, em toda a extensão de um imenso tecto de nuvens baixas, que eram como pequenos novelos espalmados, iguais, uma cor única de violeta que, principiando já a tornar-se vibrante e luminosa do lado donde há-de romper o sol, vai progressivamente escurecendo, mais e mais, até se confundir com o que, do lado de além, ainda resta da noite. Em sua vida, José nunca vira um céu

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo como este, embora nas longas conversas dos homens velhos não fossem raras as notícias de fenómenos atmosféricos prodigiosos, todos eles mostras do poder de Deus, arcos-íris que enchiam metade da abóbada celeste, escadas vertiginosas que um dia ligaram o firmamento à terra, chuvas providenciais de manjar-do-céu, mas nunca esta cor misteriosa que tanto podia ser das primordiais como das derradeiras, flutuando e demorando-se sobre o mundo, um tecto de milhares de pequenas nuvens que quase se tocavam umas às outras, espalhadas em todas as direcções como as pedras do deserto. Encheu-se-lhe o coração de temor, imaginou que o mundo ia acabar, e ele posto ali, única testemunha da sentença final de Deus, sim, única, há um silêncio absoluto na terra como no céu, nenhum rumor se ouve nas casas vizinhas, uma voz que fosse, um choro de criança, uma prece ou uma imprecação, um sopro de vento, o balido duma cabra, o ladrar dum cão, Por que não cantam os galos, murmurou, e repetiu a pergunta, ansiosamente, como se de cantarem galos é que pudesse vir a última esperança de salvação. Então, o céu começou a mudar. Pouco a pouco, quase sem perceber-se, o violeta tingia-se e deixava-se penetrar de rosa-pálido na face interior do tecto de nuvens, avermelhando-se depois, até desaparecer, estava ali e deixara de estar, e de súbito o espaço explodiu num vento luminoso, multiplicou-se em lanças de ouro, ferindo em cheio e trespassando as nuvens, que, sem saber-se porquê nem quando, haviam crescido, tornadas formidáveis, barcas gigantescas arvorando incandescentes velas e vogando num céu enfim liberto. Desafogou-se, já sem medos, a alma de José, os olhos dilataram-se-lhe de assombro e reverência, não era o caso para menos, de mais sendo ele o único espectador, e a sua boca proferiu em voz forte os louvores devidos ao criador das obras da natureza, quando a sempiterna majestade dos céus, tendo-se tornado pura inefabilidade, não pode esperar do homem mais do que as palavras mais simples, Louvado sejas tu, Senhor, por isto, por aquilo, por aqueloutro. Disse-o ele, e nesse instante o rumor da vida, como se o tivesse convocado a sua voz, ou apenas entrando de repente por uma porta que alguém de par em par abrisse sem pensar muito nas consequências, ocupou o espaço que antes pertencera ao silêncio, deixando-lhe apenas pequenos territórios ocasionais, mínimas superfícies, como aqueles breves charcos que as florestas murmurantes rodeiam e ocultam. A manhã subia, expandia-se, e em verdade era uma visão de beleza quase insuportável, duas mãos imensas soltando aos ares e ao voo uma cintilante e imensa ave-doparaíso, desdobrando em radioso leque a roda de mil olhos da cauda do pavão-real, fazendo cantar perto, simplesmente, um pássaro sem nome. Um sopro de vento ali mesmo nascido bateu na cara de José, agitou-lhe os pêlos da barba, sacudiu-lhe a túnica, e depois girou à volta dele como um espojinho atravessando o deserto, ou isto que assim lhe parecia não era mais do que o aturdimento causado por uma súbita turbulência do sangue, o arrepio sinuoso que lhe estava percorrendo o dorso como um dedo de fogo, sinal de uma outra e mais insistente urgência. Como se se movesse no interior da rodopiante coluna de ar, José entrou em casa, cerrou a porta atrás de si, e ali ficou encostado por um minuto, aguardando que os olhos se habituassem à meia penumbra. Ao lado dele, a candeia brilhava palidamente, quase sem irradiar luz, inútil. Maria, deitada de costas, estava acordada e atenta, olhava fixamente um ponto em frente, e parecia esperar. Sem pronunciar palavra, José aproximou-se e afastou devagar o lençol que a cobria. Ela desviou os olhos, soergueu um pouco a parte inferior da túnica, mas só acabou de puxá-la para cima, à altura do ventre, quando ele já se vinha debruçando e procedia do mesmo modo com a sua própria túnica, e Maria, entretanto, abrira as pernas, ou as tinha aberto durante o sonho e desta maneira as deixara ficar, fosse por inusitada indolência matinal ou pressentimento de mulher casada que conhece os seus deveres. Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado. Tendo pois saído para o pátio, Deus não pôde ouvir o som agónico, como um estertor, que saiu da boca do varão no instante da crise, e menos ainda o levíssimo gemido que a mulher não foi capaz de reprimir. Apenas um minuto, ou nem tanto, repousou José sobre o corpo de Maria. Enquanto ela puxava para baixo a túnica e se cobria com o lençol, tapando depois a cara com o antebraço, ele, de pé no meio da casa, de mãos levantadas, olhando o tecto, pronunciou aquela sobre todas terrível bênção, aos homens reservada, Louvado sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do universo, por não me teres feito mulher. Ora, a estas alturas, Deus já

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo nem no pátio devia estar, pois não tremeram as paredes da casa, não desabaram, nem a terra se abriu. Apenas, pela primeira vez, se ouviu Maria, e humildemente dizia, como de mulheres se espera que seja sempre a voz, Louvado sejas tu, Senhor, que me fizeste conforme a tua vontade, ora, entre estas palavras e as outras, conhecidas e aclamadas, não há diferença nenhuma, repare-se, Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra, está patente que quem disse isto podia, afinal, ter dito aquilo. Depois, a mulher do carpinteiro José levantou-se da esteira, enrolou-a juntamente com a do marido e dobrou o lençol comum.

Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talento para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades. Contudo, não se devendo medir os méritos dos homens apenas pela bitola das suas competências profissionais, convém dizer que, apesar da sua pouca idade, é este José do mais piedoso e justo que em Nazaré se pode encontrar, exacto na sinagoga, pontual no cumprimento dos deveres, e não tendo sido a sua fortuna tanta que o tivesse dotado Deus duma facúndia capaz de o distinguir dos mortais comuns, sabe discorrer com propriedade e comentar com acerto, mormente se vem a propósito introduzir no discurso alguma imagem ou metáfora relacionadas com o seu ofício, por exemplo, a carpintaria do universo. Porém, porque lhe tivesse faltado na origem o golpe de asa duma imaginação verdadeiramente criadora, nunca na sua breve vida será capaz de produzir parábola que se recorde, dito que merecesse ter ficado na memória das gentes de Nazaré e ser legado aos vindouros, menos ainda um daqueles certeiros remates em que a exemplaridade da lição se percebe logo à transparência das palavras, tão luminosa que no futuro rejeitará qualquer intrometida glosa, ou, pelo contrário, suficientemente obscura, ou ambígua, para tornar-se nos dias de amanhã em prato favorito de eruditos e outros especialistas. Sobre os dotes de Maria, por enquanto, só procurando muito, e mesmo assim não acharíamos mais do que é legítimo esperar de quem não fez sequer dezasseis anos e, embora mulher casada, não passa duma rapariguinha frágil, por assim dizer dez-réis de gente, que também naquele tempo, sendo outros os dinheiros, não faltavam destas moedas. Apesar da fraca figura, Maria trabalha como as mais mulheres, cardando, fiando e tecendo as roupas da casa, cozendo todos os santos dias o pão da família no forno doméstico, descendo à fonte para acarretar a água, depois encosta acima, pelos íngremes carreiros, um gordo cântaro à cabeça, uma infusa apoiada no quadril, e indo depois, ao cair da tarde, por esses caminhos e descampados do Senhor, a apanhar gravetos de lenha e a rapar restolhos, levando por acrescento um cesto com que recolherá as bostas secas do gado, e também esses cardos e espinhosas que abundam nas declivosas alturas de Nazaré, do melhor que Deus foi capaz de inventar para acender um lume e entrançar uma coroa. Todo este arsenal reunido daria uma carga mais própria para ser trazida a casa no lombo do burro, não fosse a poderosa circunstância de estar a besta adstrita ao serviço de José e ao transporte das madeiras. Descalça vai Maria à fonte, descalça vai ao campo, com os seus vestidos pobres que no trabalho mais se sujam e gastam, e que é preciso estar sempre a lavar e remendar, para o marido vão os panos novos e os cuidados maiores, mulheres destas com qualquer coisa se contentam. Maria vai à sinagoga, entra pela porta lateral, que a lei impõe às mulheres, e se, é um supor, lá se encontram ela e trinta companheiras, ou mesmo todas as fêmeas de Nazaré, ou toda a população feminina de Galileia, ainda assim terão de esperar que cheguem ao menos dez homens para que o serviço do culto, em que só como passivas assistentes participarão, possa ser celebrado. Ao contrário de José, seu marido, Maria não é piedosa nem justa, porém não é sua a culpa dessas mazelas morais, a culpa é da língua que fala, senão dos homens que a inventaram,

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo pois nela as palavras justo e piedoso, simplesmente, não têm feminino. Ora, aconteceu que um belo dia, passadas umas quatro semanas sobre aquela inesquecível madrugada em que as nuvens do céu, de modo extraordinário, apareceram tingidas de violeta, estava José em casa, era isto pela hora do solpôr, e estava comendo o seu jantar, sentado no chão e metendo a mão no prato como então era geral costume, e Maria, de pé, esperava que ele acabasse para depois comer ela, e ambos calados, um porque não tinha nada que dizer, outro porque não sabia como dizer o que tinha em mente, aconteceu vir bater à cancela do pátio um pobre desses de pedir, o que, não sendo raridade absoluta, era ali pouco frequente, tendo em vista a humildade do lugar e do comum dos habitantes, sem contar com a argúcia e a experiência da gente pedinchante, sempre que é preciso recorrer ao cálculo de probabilidades, mínimas neste caso. Contudo, das lentilhas com cebola picada e das papas de grão-debico que estavam para ser o seu jantar, tirou Maria uma boa porção para uma tigela e foi levá-la ao mendigo, que se sentou no chão, a comer, de fora da porta, donde não passara. Não tinha precisado Maria de pedir licença ao marido de viva voz, ele foi quem lho permitiu ou ordenou com um aceno de cabeça, que já se sabe serem supérfluas as palavras nestes tempos em que um simples gesto basta para matar ou deixar viver, como nos jogos do circo se move o polegar dos césares, apontando para baixo ou para cima. Embora em diferente, também este crepúsculo estava que era uma beleza, com os seus mil fiapos de nuvem esparsos pela amplidão, rosa, nácar, salmão, cereja, são maneiras de falar da terra para que possamos entender-nos, pois estas cores, e todas as outras, não têm, que se saiba, nomes do céu. Sem dúvida estaria o mendigo com fome de três dias, que essa, sim, é fome autêntica, para em tão poucos minutos ter rapado e lambido o prato, e eis que já está batendo à porta para devolver a escudela e agradecer a caridade. Maria veio abrir, o pedinte ali estava, de pé, mas inesperadamente grande, muito mais alto do que antes lhe tinha parecido, afinal é certo o que se diz, que há uma enormíssima diferença entre comer e não ter comido, porquanto a este homem era como se lhe resplandecesse a cara e faiscassem os olhos, ao mesmo tempo que as roupas que vestia, velhas e esfarrapadas, se agitavam sacudidas por um vento que não se sabia donde vinha, e com esse contínuo movimento se nos confundia a vista, a ponto de, em um instante, parecerem os farrapos finas e sumptuosas telas, o que só estando presente se acredita. Estendeu Maria as mãos para receber a tigela de barro, a qual, em consequência duma ilusão de óptica em verdade assombrosa, porventura gerada pelas cambiantes luzes do céu, era como se a tivessem transformado em vaso do mais puro ouro, e, no mesmo instante em que a tigela passava dumas mãos para as outras, disse o mendigo com poderosíssima voz, que até nisto o pobre de Cristo tinha mudado, Que o Senhor te abençoe, mulher, e te dê todos os filhos que a teu marido aprouver, mas não permita o mesmo Senhor que os vejas como a mim me podes ver agora, que não tenho, ó vida mil vezes dolorosa, onde descansar a cabeça. Maria segurava a escudela no côncavo das duas mãos, taça sobre taça, como quem esperava que o mendigo lhe depositasse algo dentro, e ele sem explicação assim fez, que se baixou até ao chão e tomou um punhado de terra, e depois erguendo a mão deixou-a escorregar lentamente por entre os dedos, enquanto dizia em surda e ressoante voz, O barro ao barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa que não tenha de acabar, tudo o que começa nasce do que acabou. Turbou-se Maria e perguntou, Isso que quer dizer, e o mendigo respondeu apenas, Mulher, tens um filho na barriga, e esse é o único destino dos homens, começar e acabar, acabar e começar, Como soubeste que estou grávida, Ainda a barriga não cresceu e já os filhos brilham nos olhos das mães, Se assim é, deveria meu marido ter visto nos meus olhos o filho que em mim gerou, Acaso não olha ele para ti quando o olhas tu, E tu quem és, para não teres precisado de ouvi-lo da minha boca, Sou um anjo, mas não o digas a ninguém. Naquele mesmo instante, as roupas resplandecentes voltaram a ser farrapos, o que era figura de titânico gigante encolheu-se e mirrou como se o tivesse lambido uma súbita língua de fogo, e a prodigiosa transformação foi mesmo a tempo, graças a Deus, e logo a seguir a prudente retirada, que do portal já vinha acercando-se José, atraído pelo rumor das vozes, mais abafadas do que o natural duma conversação lícita, mas sobretudo pela exagerada demora da mulher, Que mais te queria o pobre, perguntou, e Maria, sem saber que palavras suas poderia dizer, só soube responder, Do barro ao barro, do pó ao pó, da terra à terra, nada começa que não acabe, nada acaba que não comece, Foi isso que ele disse, Sim, e também disse que os filhos dos homens brilham nos olhos das mulheres, Olha para mim, Estou a olhar, Parece-me ver um brilho nos teus olhos, foram palavras de José, e Maria respondeu, Será o teu filho. O crepúsculo tornara-se azulado, ia tomando já a primeira cor da

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo noite, agora via-se que de dentro da tigela irradiava como uma luz negra que desenhava sobre o rosto de Maria feições que nunca haviam sido dela, os olhos pareciam pertencer a alguém muito mais velho. Estás grávida, perguntou enfim José, Sim, estou, respondeu Maria, Por que não mo disseste antes, Ia dizer-to hoje, esperava que acabasses de comer, E então chegou esse pedinte, Sim, De que mais falou, que o tempo deu sem dúvida para mais, Que o Senhor me conceda todos os filhos que tu quiseres, Que tens aí na tigela, para que dessa maneira brilhe, Terra tenho, O húmus é negro, a argila verde, a areia branca, dos três só a areia brilha se lhe dá o sol, e agora é noite, Sou mulher, não sei explicar, ele tomou a terra do chão e lançou-a dentro, ao mesmo tempo disse as palavras, A terra à terra, Sim. José foi abrir a cancela, olhou a um lado e a outro. Já não o vejo, sumiu-se, disse, mas Maria afastava-se tranquila em direcção à casa, sabia que o mendigo, se era realmente quem anunciara ser, só se quisesse é que deixaria que o vissem. Pousou a tigela no poial do forno, tirou do borralho uma brasa com que acendeu a candeia, soprando-a até levantar uma pequena chama. José entrou, vinha com uma expressão interrogativa, uma mirada perplexa e desconfiada que tentava disfarçar movendo-se com vagares e solenidade de patriarca que não lhe assentavam bem, sendo tão jovem. Discretamente, fazendo por não dar nas vistas, foi espreitar a tigela, a terra luminosa, compondo na cara um ar de cepticismo irónico, porém, se era uma demonstração de varonia o que pretendia, não lhe valeu a pena, Maria tinha os olhos baixos, estava como ausente. José, com um pauzito, remexeu a terra, intrigado por vê-la escurecer quando a movia e depois retomar o brilho, sobre a luz constante, como mortiça, serpenteavam rápidas cintilações, Não compreendo, decerto há um mistério nisto, ou então a terra trazia-a já ele consigo e tu julgaste que a apanhou do chão, são embelecos de mágico, ninguém viu nunca brilhar a terra de Nazaré. Maria não respondeu, comia o pouco que lhe restara das lentilhas com cebola e das papas de grão-de-bico, acompanhando-as com um pedaço de pão untado de azeite. Ao parti-lo, dissera, como está escrito na lei, porém no tom modesto que convém à mulher, Louvado sejas tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que fazes sair o pão da terra. Calada, comia, enquanto José, deixando discorrer os pensamentos como se estivesse comentando na sinagoga um versículo da Tora ou a palavra dos profetas, reconsiderava a frase que acabara de ouvir à mulher, a que ele próprio recitara no mesmo acto de partir o pão, e tentava imaginar que cevada seria a que nascesse e frutificasse duma terra que brilhava, que pão daria ela, que luz levaríamos dentro de nós se dele fizéssemos alimento. Tens a certeza de ,que o mendigo apanhou a terra do chão, tornou a perguntar, e Maria respondeu, Sim, tenho a certeza, E não brilhava antes, No chão não brilhava. Tanta firmeza teria de abalar a postura de desconfiança sistemática que deve ser a de qualquer homem quando confrontado com os ditos e feitos das mulheres em geral e da sua em particular, mas, para José, como para qualquer varão daqueles tempos e lugares, era doutrina muito pertinente a que definia o mais sábio dos homens como aquele que melhor saiba pôr-se a coberto das artes e artimanhas femininas. Falar-lhes pouco e ouvi-las ainda menos é a divisa de todo o homem prudente que não tenha esquecido os avisos do rabi Josephat ben Yohanán, palavras sábias entre as que mais o sejam, À hora da morte se hão-de pedir contas ao varão por cada conversa desnecessária que tiver tido com sua mulher. Interrogou-se José sobre se esta conversa com Maria poderia ser contada no número das necessárias, e, tendo concluído que sim, tomando em consideração a singularidade do acontecimento, jurou no entanto a si mesmo não esquecer nunca as santas palavras do rabi seu homónimo, convém dizer que Josephat é o mesmo que José, para não ter de estar com remorsos tardios à hora da morte, praza a Deus seja ela descansada. E, derradeiramente, tendo-se perguntado se deveria levar ao conhecimento dos anciãos da sinagoga o suspeito caso de mendigo desconhecido e terra luminosa, assentou que deveria fazê-lo, para sossego da sua consciência e defesa da paz do lar. Maria acabou de comer. Levou fora as tigelas para as lavar, porém não, escusado seria dizê-lo, a que tinha servido ao mendigo. Na casa havia agora duas luzes, a da candeia, lutando trabalhosamente contra a noite que se instalara de vez, e aquela aura luminescente, vibrátil mas constante, como de um sol que não se decidisse a nascer. Sentada no chão, Maria esperava ainda que o marido tornasse a dirigir-lhe a palavra, mas José já não tem mais que dizer-lhe, agora está ocupado a compor mentalmente as frases do discurso que amanhã irá fazer perante o conselho dos anciãos. Aborrece-o não saber exactamente o que se passou entre a mulher e o pedinte, que outras coisas teriam dito um ao outro, mas não quer voltar a perguntar-lhe, porquanto, não sendo de esperar que ela acrescente algo de novo ao que contou já, ele teria de aceitar como verdadeiro o relato duas vezes

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo feito, e se ela, afinal, está a mentir, não o poderá ele saber, mas ela, sim, saberá que mente e mentiu, e rir-se-á dele por baixo do manto, como há boas razões para crer que riu Eva de Adão, de modo mais disfarçado, claro está, pois nessa altura ainda não tinha um manto que a tapasse. Tendo chegado a este ponto, o pensamento de José deu o seguinte e inevitável passo, e eis que lhe está representando agora o misterioso mendigo como um emissário do Tentador, o qual, tendo mudado tanto os tempos e sendo as pessoas hoje mais avisadas, não caiu na ingenuidade de repetir o oferecimento dum simples fruto natural, antes parece que veio trazer a promessa duma terra diferente, luminosa, para isso se servindo, como de costume, da credulidade e da malícia das mulheres. José tem a cabeça em fogo, mas está contente consigo mesmo e com as conclusões a que chegou. Por seu lado, nada sabendo dos meandros de análise demonológica em que se embrenhou a mente do marido, e outro tanto das responsabilidades que lhe estão sendo atribuídas, Maria tenta compreender a estranha sensação de carência que vem experimentando desde que anunciou ao marido a sua gravidez. Não uma ausência interior, por certo, porque de mais sabe ela que se encontra, a partir de agora, e no sentido mais exacto do termo, ocupada, mas precisamente uma ausência exterior, como se o mundo, de um momento para outro, se tivesse apagado ou posto à distância. Recorda, mas é como se estivesse recordando uma outra vida, que depois desta última refeição, e antes de estender as esteiras para dormir, sempre tinha algum trabalho para adiantar, com ele passava o tempo, e agora o que está pensando é que não deveria mover-se do lugar onde se encontra, sentada no chão, olhando a luz que a olha por cima do rebordo da tigela e esperando que o filho nasça. Digamos agora, por respeito à verdade, que o seu pensar não foi assim tão claro, o pensamento, afinal de contas, já por outros, ou o mesmo, foi dito, é como um grosso novelo de fio enrolado sobre si mesmo, frouxo nuns pontos, noutros apertado até à sufocação e ao estrangulamento, está aqui, dentro da cabeça, mas é impossível conhecer-lhe a extensão toda, seria preciso desenrolá-lo, estendê-lo, e finalmente medi-lo, mas isto, por mais que se intente, ou finja intentar, parece que não o pode fazer o próprio sem ajudas, alguém tem de vir um dia dizer por onde se deve cortar o cordão que liga o homem ao seu umbigo, atar o pensamento à sua causa. Na manhã seguinte, depois duma noite mal dormida, sempre a acordar por obra de um pesadelo em que se via a si mesmo caindo e tornando a cair para dentro de uma imensa tigela invertida que era como o céu estrelado, José foi à sinagoga, a pedir conselho e remédio aos anciãos. O seu insólito caso era de tal maneira extraordinário, ainda que não pudesse imaginar até que ponto, faltando-lhe, como sabemos, o melhor da história, isto é, o conhecimento do essencial, que se não fosse a excelente opinião que dele têm os veteranos de Nazaré, quiçá tivesse de voltar pelo mesmo caminho, corrido, com as orelhas a arder, ouvindo, como um ressoante som de bronze, a sentença do Eclesiástico com que o teriam fulminado, Quem acredita levianamente, tem um coração leviano, e ele, coitado, sem presença de espírito para retorquir, armado do mesmo Eclesiástico, e a propósito do sonho que o perseguira a noite inteira, O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio. Terminado, pois, o relato, olharam os anciãos uns para os outros e depois todos juntos para José, e o mais velho deles, traduzindo numa pergunta directa a discreta suspicácia do conselho, disse, É verdade, inteira verdade e só verdade o que acabas de contar-nos, e o carpinteiro respondeu, Verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, seja o Senhor minha testemunha. Debateram os anciãos longamente entre eles, enquanto José esperava à parte, e ao fim chamaram-no para anunciarlhe que, por via de diferenças que persistiam sobre os procedimentos mais convenientes, haviam decidido enviar três emissários a interrogar Maria, directamente, sobre os estranhos acontecimentos, averiguar quem era afinal esse pedinte que ninguém mais vira, a figura que tinha, que exactas palavras pronunciara, se aparecia regularmente por Nazaré a pedir esmola, apurando-se, de passagem, que outras notícias poderia dar a vizinhança acerca do misterioso personagem. Alegrou-se José em seu coração porque, não querendo confessá-lo, intimidava-o a ideia de ter de ir enfrentar-se sozinho com a mulher, por aquele seu modo particular de estar agora, de olhos baixos, é certo, segundo manda a discrição, mas também com uma indisfarçável expressão provocadora, a expressão de quem sabe mais do que tenciona dizer, mas quer que se note. Em verdade, em verdade vos digo, não há limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes. Saíram pois os emissários, com José à frente, a indicar o caminho, e eram eles Abiatar, Dotaim e Zaquias, nomes que aqui se deixam registados para estorvar qualquer suspeita de fraude histórica que possa, acaso, perdurar no espírito de todas aquelas pessoas que destes factos e suas versões tenham obtido conhecimento através doutras fontes,

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo porventura mais acreditadas pela tradição, mas não por isso mais autênticas. Enunciados os nomes, provada a existência efectiva de personagens que os usaram, as dúvidas que restem perdem muito da sua força, embora não a legitimidade. Não sendo isto de todos os dias, saírem à rua três anciãos emissários, como se lhes descobria pela dignidade particular da marcha, com as túnicas e as barbas ao vento, em pouco se juntaram ao redor deles alguns garotos, que, cometendo os excessos próprios da sua idade, uns risos, uns gritos, umas correrias, acompanharam os delegados da sinagoga até à casa de José, a quem o ruidoso e denunciador cortejo muito viera enfadando. Atraídas pelo ruído, as mulheres das casas próximas apareceram às portas e, pressentindo novidade, disseram aos filhos que fossem ver que ajuntamento era aquele à porta da vizinha Maria. Penas perdidas foram, que entraram só os homens. A porta fechou-se com autoridade, nenhuma curiosa mulher de Nazaré veio a saber o que em casa do carpinteiro José se passou, até aos dias de hoje. E, tendo de imaginar alguma coisa para alimento da curiosidade insatisfeita, vieram a fazer do mendigo, que nunca chegaram a ver, um ladrão de casas, grande injustiça foi, que o anjo, porém não digais a ninguém que o era, aquilo que comeu não roubou, e ainda deixou penhor sobrenatural. É que, enquanto os dois anciãos de mais idade continuavam a interrogar Maria, foi o menos velho dos três, Zaquias, pelas imediações a recolher lembranças de um mendigo assim assim, conforme os sinais dados pela mulher do carpinteiro, e nenhuma vizinha soube dar-lhe notícias, que não senhor, ontem não passou por cá nenhum pedinte, e se passou à minha porta não bateu, isso devia de ser ladrão em trânsito, que, encontrando a casa com gente, fingiu ser pobre de pedir e descampou para outra parte, é um truque conhecido desde que o mundo é mundo. Voltou Zaquias sem novas do pedinte a casa de José ao tempo que Maria repetia pela terceira ou quarta vez o que já sabemos. Estavam todos no interior da casa, ela ali de pé, parecendo ré de um crime, a tigela no chão, e dentro, insistente, como um coração palpitando, a terra enigmática, a um lado José, e os anciãos sentados em frente, como juízes, e dizia Dotaim, o do meio em idade, Não é que não queiramos acreditar no que nos contas, mas repara que és a única pessoa que viu esse homem, se homem era, teu marido nada mais sabe dele que ter-lhe ouvido a voz, e agora aqui vem Zaquias dizer-nos que nenhuma das tuas vizinhas o viu, Serei testemunha diante do Senhor, ele sabe que a verdade fala pela minha boca, A verdade, sim, mas quem sabe se toda a verdade, Beberei a água da prova do Senhor e ele manifestará se sou culpada, A prova das águas amargas é para as mulheres suspeitas de infidelidade, não pudeste ser infiel a teu marido, não te dava o tempo, A mentira, diz-se, é o mesmo que infidelidade, Outra, não essa, A minha boca é tão fiel como eu sou. Tomou então a palavra Abiatar, o mais velho dos três anciãos, e disse, Não te perguntaremos mais, o Senhor te pagará sete vezes pela verdade que tiveres dito ou sete vezes sete cobrará de ti pela mentira com que nos tenhas enganado. Calou-se e continuou calado, depois disse, dirigindo-se a Zaquias e Dotaim, Que faremos nós desta terra que brilha, se aqui não deve ficar como a prudência aconselha, pois bem pode ser que estas artes sejam do demónio. Disse Dotaim, Que torne à terra donde veio, que volte a ser escura como foi antes. Disse Zaquias, Não sabemos quem fosse o mendigo, nem por que quis ser visto apenas por Maria, nem o que significa brilhar um punhado de terra no fundo duma tigela. Disse Dotaim, Levemo-la ao deserto e espalhemo-la ali, longe das vistas dos homens, para que o vento a disperse na imensidão e seja apagada pela chuva. Disse Zaquias, Se esta terra é um bem, não deve ser levada donde está, e se, pelo contrário, é um mal, que fiquem sujeitos a ele só aqueles que foram escolhidos para recebê-la. Perguntou Abiatar, Que propões, então, e Zaquias respondeu, Que se cave aqui um buraco e se deposite a tigela no fundo dele, tapada para que não se misture com a terra natural, um bem, mesmo que enterrado, não se perde, e um mal terá menos poder longe da vista. Disse Abiatar, Que pensas tu, Dotaim, e este respondeu, É justo o que propõe Zaquias, façamos como ele diz. Então Abiatar disse para Maria, Retira-te e deixa-nos proceder, Para onde irei eu, perguntou ela, e José, de súbito inquieto, Se vamos enterrar a tigela, que seja fora de casa, não quero dormir com uma luz sepultada debaixo de mim. Disse Abiatar, Faça-se como dizes, e para Maria, Ficarás aqui. Saíram os homens para o pátio, levando ZaquiaS a tigela. Pouco depois ouviram-se golpes de enxada, repetidos e duros, era José que estava cavando, e passados uns minutos a voz de Abiatar que dizia, Basta, já tem fundura que chegue. Maria espreitou pela fenda da porta, viu o marido tapar a tigela com um caco curvo de bilha e depois descê-la, a toda a altura do braço, para o interior da cova, enfim levantar-se e, deitando mão outra vez à enxada, começar a puxar a terra para dentro, calcando-a depois com os pés. Os homens ficaram ainda algum tempo no pátio, falando uns com os outros e

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo olhando a mancha de terra fresca, como se tivessem acabado de esconder um tesouro e quisessem fixar o local na memória. Mas certamente não era disto que falavam, porque de repente ouviu-se, mais forte, a voz de Zaquias, em tom que parecia de repreensão sorridente, Ora tu, José, que carpinteiro me estás saindo, que nem és capaz de fazer uma cama, agora que tens aí a mulher grávida. Riram-se os outros e José com eles, um tanto por comprazer, como alguém que foi apanhado em falta e quer fazer de conta que não. Maria viu-os encaminharem-se para a cancela e saírem, e agora, sentada no poial do forno, passeava os olhos pela casa buscando o sítio onde haverá de pôr a cama, se o marido resolver fazê-la. Não queria pensar na tigela de barro nem na terra luminosa, tão-pouco se o mendigo seria realmente um anjo ou um farsante que viera divertir-se à sua custa. Uma mulher, se lhe prometem uma cama para a sua casa, deve é pensar onde ela vai ficar melhor.

Foi na passagem dos dias do mês de Tamuz para o mês de Av, quando se colhiam as uvas nos vinhedos e os primeiros figos maduros começavam a pintar entre a sombra verde das ásperas parras, que estes acontecimentos se deram, uns correntes e habituais, como ter-se chegado carnalmente um homem a sua mulher e passado o tempo dizer-lhe ela a ele, Estou grávida de ti, outros em verdade extraordinários, como caberem as primícias do anúncio a um mendigo em trânsito que, com toda a razoabilidade, nada deveria ter com o caso, sendo apenas autor do até agora inexplicado prodígio da terra luminosa, posta fora de alcance e investigação pela desconfiança de José e a prudência dos anciãos. Vão chegar aí os grandes calores, os campos estão pelados, só restolho e secura, Nazaré é uma aldeia parda rodeada de silêncio e solidão nas sufocantes horas do dia, à espera de que venha a noite estrelada para poder ouvir-se o respirar da paisagem oculta pela escuridão e a música que fazem as esferas celestes ao deslizarem umas sobre as outras. Depois da ceia, José ia sentar-se no pátio, do lado direito da porta, a tomar ar, gostava de sentir soprar-lhe na cara e nas barbas a primeira aragem refrescante do crepúsculo. Quando já se pusera de todo escuro, Maria vinha também e sentava-se no chão, como o marido, mas do outro lado da porta, e ali ficavam os dois, sem falar, ouvindo os rumores da casa dos vizinhos, a vida das famílias, que eles ainda não eram, faltando os filhos, Praza ao Senhor que seja um rapaz, pensava José algumas vezes ao longo do dia, e Maria pensava, Praza ao Senhor que seja um rapaz, mas as razões por que o pensava não eram as mesmas. A barriga de Maria crescia sem pressa, tiveram de passar-se semanas e meses antes que se percebesse às claras o seu estado, e, não sendo ela de dar-se muito com as vizinhas, por tão modesta e discreta ser, a surpresa foi geral nas redondezas, como se ela tivesse aparecido de balão da noite para o dia. Porventura o silêncio de Maria tinha uma outra e mais secreta razão, a de que nunca, por nunca ser, pudesse vir a estabelecer-se uma relação entre a sua gravidez e a passagem do mendigo misterioso, precaução esta que só deveria parecer-nos absurda, sabendo como as coisas se passaram, se não se desse o caso de, em horas de afrouxamento do corpo e livre devaneio do espírito, ter Maria chegado a perguntar-se, mas porquê, Deus Santo, ao mesmo tempo aterrada pela insensatez da dúvida e alterada por um estremecimento íntimo, sobre quem seria, real e verdadeiro, o pai da criança que dentro de si se está formando. É sabido que as mulheres, quando no seu estado interessante, são atreitas a entojos e fantasias, às vezes bem piores do que esta, que manteremos em segredo para que não caia mancha na boa fama da futura mãe. O tempo foi passando, um lento mês seguindo-se a outro, o de Elul, ardente como uma fornalha, com o vento dos desertos do sul varrendo e queimando os ares, época em que as tâmaras e os figos se tornam em pingos de mel, o de Tishri, quando as primeiras chuvas do outono amaciam a terra e chamam os arados à lavra para as semeaduras, e foi no mês seguinte, o de Marhesvan, tempo da apanha da azeitona, que finalmente, arrefecendo já os dias, José se resolveu a carpinteirar um rústico catre, que para cama digna desse nome já sabemos que não lhe chega a ciência, onde Maria, depois de esperar tanto, pôde descansar o pesado e incómodo ventre. Nos últimos dias do mês de Quislau e quase todo o mês de Tavet caíram as grandes chuvas, por isso teve José de interromper o trabalho no pátio, apenas aproveitava as breves abertas em se tratando de peças de grande tamanho, o mais comum era estar dentro de casa, a jeito de receber a claridade que vinha da porta, e aí raspava e alisava os jugos que deixara em tosco, cobrindo o chão à sua volta de aparas e serradura que Maria depois vinha varrer e lançar ao pátio. No mês de Shevat floriram as amendoeiras, e entrara-se já no mês de Adar, depois das festas do Purim, quando apareceram em Nazaré uns soldados romanos, dos que então andavam por Galileia, de povoado em cidade, de cidade em

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo povoado, e outros pelas mais partes do reino de Herodes, fazendo saber às populações que, por ordem de César Augusto, todas as famílias que tivessem o seu domicílio nas províncias governadas pelo cônsul Públio Sulpício Quirino estavam obrigadas a recensear-se e que o recenseamento, destinado, como outros, a pôr em dia o cadastro dos contribuintes de Roma, teria de ser feito, sem excepção, nos lugares donde essas famílias fossem originárias. À maior parte da gente que se tinha juntado na praça para ouvir o pregão, de pouco se lhe dava o aviso imperial, pois que, sendo naturais de Nazaré e lá fixados desde gerações, aqui mesmo se recenseariam. Porém, alguns, que tinham vindo das distintas regiões do reino, de Gaulanitide ou Samaria, de Judeia, Pereia ou Idumeia, de aquém e de além, de perto e de longe, logo começaram a deitar contas à vida e à viagem, uns com os outros murmurando contra os caprichos e a cobiça de Roma, e falando do transtorno que ia ser a falta de braços, agora que chegava o tempo de ceifar o linho e a cevada. E os que tinham famílias numerosas, com filhos na primeira idade ou pais e avós caducos, se não tinham transporte próprio bastante, pensavam já a quem poderiam pedir emprestado ou alugar por preço justo o burro ou os burros necessários, sobretudo se a viagem ia ser longa e trabalhosa, com mantimentos suficientes para o caminho, odres de água se tinham de atravessar o deserto, esteiras e mantas para dormir, vasilhas para a comida, algum abrigo suplementar, pois as chuvas e o frio ainda não se foram de todo e alguma vez será preciso dormir ao ar livre. José veio a saber do édito mais tarde, quando já os soldados tinham partido a levar a boa nova a outras paragens, foi um vizinho da casa ao lado, Ananias chamado, quem apareceu em alvoroço a dar-lhe a notícia. Este era dos que não tinham de ir de Nazaré ao recenseamento, de boa se livrara, e porque, havendo decidido que, por causa das colheitas, este ano não iria a Jerusalém, à celebração da Páscoa, se de uma viagem se tinha desobrigado, outra não o obrigava. Vai pois Ananias informar o seu vizinho, como é de dever, e vai contente, embora pareça que exagere algum tanto na expressão do rosto as demonstrações desse sentimento, queira Deus não seja por ser portador duma notícia desagradável, que mesmo as melhores pessoas estão sujeitas às piores contradições, e a este Ananias não o conhecemos bastante para saber se, neste caso, se trata de reincidência num comportamento habitual ou acontece por tentação maligna de um anjo de Satã que na altura não tivesse nada mais importante que fazer. E foi assim que veio Ananias bater à cancela e chamou José, que primeiro não ouviu por estar manejando ruidosamente martelo e pregos. Maria, sim, tinha um ouvido mais fino, mas era ao marido que reclamavam, como iria ela puxar-lhe pela manga da túnica e dizer, Estás surdo, não ouves que te estão a chamar. Gritou mais alto Ananias, e então suspendeu-se o bate-que-bate, e veio José saber o que lhe queria o vizinho. Entrou Ananias, e tendo despachado as saudações, perguntou, em tom de quem quer certificar-se, Tu donde és, José, e José, sem saber que era o que lhe queriam, respondeu, Sou de Belém de Judeia, Que está perto de Jerusalém, Sim, bem perto, E vais a Jerusalém a celebrar a Páscoa, -Tais, perguntou Ananias, e José respondeu, Não, este ano resolvi não ir, que está minha mulher no fim do tempo, Ah, E tu, por que queres sabê-lo. Foi aí que Ananias alçou os braços ao céu, ao mesmo tempo que punha uma cara de lástima inconsolável, Ai coitado de ti, que trabalhos te esperam, que canseira, que fadiga imerecida, aqui entregue aos deveres do teu ofício e agora vais ter de largar tudo e ir por esses caminhos, e tão longe, louvado seja o Senhor que tudo reconhece e remedeia. Não quis José ficar atrás em demonstrações de piedade, e, sem indagar ainda das causas da lamúria do vizinho, disse, O Senhor, querendo, me remediará a mim também, e Ananias, sem baixar a voz, Sim, ao Senhor nada é impossível, tudo conhece e tudo alcança, assim na terra como nos céus, louvado seja Ele por toda a eternidade, mas neste caso de agora, que Ele me perdoe, não sei se te poderá valer, que estás em poder de César, Que queres dizer, Que aí vieram uns soldados romanos passando aviso de que até ao último dia do mês de Nisan todas as famílias de Israel terão de ir recensear-se aos seus lugares de origem, e tu, coitado, que és lá de tão longe. Ora, antes que José tivesse tempo de responder, entrou no pátio a mulher de Ananias, que ela se chamava Chua, e, indo direita a Maria, expectante na soleira da porta, carpiu como o marido, Ai pobre, pobre, ai delicada, que será de ti, tão perto de dares à luz, e terás de ir não sei aonde, A Belém de Judeia, informou o marido, Ui, que longe isso está, exclamou Chua, e não era um falar por falar, pois em uma das vezes que fora em peregrinação a Jerusalém descera até Belém, ali ao lado, para orar diante do túmulo de Raquel. Maria não respondeu, esperava que falasse antes o marido, mas José estava enfadado, uma notícia de tal importância deveria ter sido comunicada por ele, à mulher, em primeira mão, usando as palavras adequadas e sobretudo o tom justo, não desta maneira descabelada, os

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo vizinhos a entrarem-lhe pela casa dentro, aos gritos. Para disfarçar a contrariedade deu ao rosto uma expressão de composta sisudez e disse, É certo que Deus nem sempre quer poder o que pode César, mas César nada pode onde só Deus pode. Fez uma pausa, como se necessitasse penetrar-se do sentido profundo das palavras que pronunciara, e acrescentou, Celebrarei a Páscoa em casa, como já tinha decidido, e irei a Belém, uma vez que assim terá de ser, e se o Senhor o permite estaremos de volta a tempo de Maria dar à luz em casa, mas se, pelo contrário, o não quiser o Senhor, então o meu filho nascerá na terra dos seus antepassados, Se não tiver de nascer no caminho, murmurou Chua, porém não tão baixo que a não ouvisse José, que disse, Muitos foram os filhos de Israel que nasceram no caminho, o meu será mais um. A sentença era de peso, irrefutável, e como tal a receberam Ananias e a mulher, de repente sem palavras. Tinham ido ali para confortar os vizinhos pela contrariedade duma viagem forçada e comprazer-se na sua própria bondade, e agora parecia-lhes que estavam sendo postos na rua, sem cerimónia, foi nesta altura que Maria veio para Chua e lhe disse que entrasse na casa, que queria pedir-lhe conselho sobre uma lã que ali tinha para cardar, e José, querendo emendar a secura com que havia falado, disse a Ananias, Peço-te, como bom vizinho, que durante a minha ausência veles pela minha casa, que mesmo correndo tudo pelo melhor nunca estarei de volta antes de passado um mês, contando o tempo da viagem, mais os sete dias de isolamento da mulher, ou o que em cima disso tiver de ser se lhe vem a nascer uma filha, que não o permita o Senhor. Respondeu Ananias que sim, ficasse ele descansado, que da casa lhe cuidaria como se sua própria fosse, e perguntou, veio-lhe de repente, não o tinha pensado antes, Quererás tu, José, honrar-me com a tua presença na celebração da Páscoa, reunindo-te aos meus parentes e amigos, pois que não tens família em Nazaré, nem tua mulher a tem também, depois que lhe morreram os pais, tão avançados já em idade quando ela nasceu que ainda hoje as pessoas se andam perguntando como foi possível a Joaquim engendrar em Ana uma filha. Disse José, risonhamente repreensivo, Ó Ananias, lembra-te daquela murmuração de Abraão, entre a boca e as barbas, incrédulo, quando o Senhor lhe anunciou que lhe daria descendência, se poderia uma criança nascer de um homem de cem anos e se uma mulher de noventa anos seria capaz de ter filhos, ora Joaquim e Ana não estavam em tão provecta idade quanto a de Abraão e Sara em aqueles dias, portanto muito mais fácil terá sido a Deus, mas para Ele não há impossíveis, suscitar entre os meus sogros uma vergôntea. Disse o vizinho, Eram outros os tempos, o Senhor manifestava-se em presença todos os dias, não apenas nas suas obras, e José respondeu, forte em razões de doutrina, Deus é o próprio tempo, vizinho Ananias, para Deus o tempo é todo um, e Ananias ficou sem saber que resposta dar, não era agora a altura de trazer ao colóquio a controversa e nunca resolvida polémica acerca dos poderes, tanto os consubstanciais como os delegados, de Deus e de César. Ao contrário do que estariam fazendo parecer estes alardes de teológica prática, José não esquecera o inesperado convite de Ananias para celebrar com ele e os seus a Páscoa, apenas não quisera demonstrar demasiada pressa em aceitar, como logo havia resolvido, bem se sabe que é mostra de cortesia e bom nascimento receber com gratidão os favores que nos fazem, porém sem exageros de contentamento, não vá dar-se o caso de pensar o outro que ficámos à espera de mais. Enfim, agora lho agradecia, louvando-lhe os sentimentos de generosidade e boa vizinhança, ao tempo que vinha saindo Chua da casa, e trazia consigo Maria, a quem dizia, Que boa mão tens para cardar, mulher, e Maria corava muito, como uma donzela, porque a estavam louvando diante do marido. Uma boa recordação que Maria veio a guardar desta Páscoa tão prometedora foi não ter tido que participar na preparação das comidas e terem-na dispensado de servir os homens. Foi poupada a esses trabalhos pela solidariedade das outras mulheres, Não te canses, que mal podes contigo, foi o que lhe disseram, e deviam sabê-lo bem, que quase todas eram mães de filhos. Limitouse, ou pouco mais, a atender ao seu marido, que ali estava, sentado no chão como os outros homens, curvando-se finalmente para encher-lhe o copo ou renovar-lhe no prato as rústicas iguarias, o pão ázimo, a febra de cordeiro, as ervas amargas, e também umas certas bolachas feitas de moinha de gafanhotos secos, petisco que Ananias prezava muito por ser de tradição na sua família, mas a que alguns dos convidados torciam o nariz, se bem que envergonhados da mal disfarçada repugância, pois em seu íntimo se reconheciam indignos do exemplo edificante de quantos profetas, no deserto, haviam feito da necessidade virtude e do gafanhoto maná. Para o fim da ceia, já a pobre Maria se havia sentado à parte, com o seu grande ventre pousado sobre a raiz das coxas, banhada em suor, mal ouvindo os risos, os ditos e as histórias, e as contínuas recitações das escrituras, sentindo-se, a cada

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo momento, prestes a abandonar definitivamente o mundo, como se estivesse suspensa de um delgado fio que fosse o seu último pensamento, um puro pensar sem objecto nem palavras, apenas saber que se está pensando e não poder saber em quê e para que fim. Despertou em sobressalto, porque no sono, subitamente, vindo duma treva maior, lhe apareceu o rosto do mendigo, e de pois aquele seu grande corpo coberto de farrapos, o anjo, se anjo era, entrara no sonho sem se anunciar, nem sequer por uma fortuita lembrança, e ali estava a olhá-la, com um ar absorto, talvez também uma levíssima expressão de interrogativa curiosidade, ou nem mesmo isso, que o tempo de notá-lo viera e passara, e agora o coração de Maria palpitava como uma ave assustada, e ela não sabia se tivera medo ou se alguém lhe dissera ao ouvido uma inesperada e embaraçosa palavra. Os homens e os rapazes continuavam ali, sentados no chão, e as mulheres, afogueadas, iam e vinham, oferecendo os últimos alimentos, mas já se notavam os sinais da saciedade, só o ruído das conversas, animadas pelo vinho, é que subira de tom. Maria levantou-se e ninguém reparou nela. A noite fechara-se por completo, a luz das estrelas, no céu limpo e sem lua, parecia produzir uma espécie de ressonância, um zumbido que raiava as fronteiras do inaudível, mas que a mulher de José podia sentir na pele, e também nos ossos, de um modo que não saberia explicar, como uma suave e voluptuosa convulsão que não acabasse de resolver-se. Maria atravessou o pátio e foi olhar para fora. Não viu ninguém. A cancela da sua casa, ao lado, estava cerrada, tal qual a tinha deixado, mas o ar movia-se como se alguém tivesse acabado de passar por ali, a correr, ou voando, para não deixar da sua passagem mais do que um fugaz sinal, que outros não saberiam entender.

Passados que foram três dias, tendo chegado a acordo com os clientes que lhe haviam encomendado obras que teriam de esperar o seu regresso, feitas as despedidas na sinagoga e confiada a casa e os bens visíveis nela existentes aos cuidados do vizinho Ananias, partiu de Nazaré o carpinteiro José com sua mulher, caminho de Belém, aonde vai para recensear-se, e a ela também, em conformidade com os decretos que de Roma vieram. Se, por um atraso nas comunicações ou enguiço da tradução simultânea, ainda não chegou ao céu notícia de tais ordens, muito admirado deverá estar o Senhor Deus, ao ver tão radicalmente mudada a paisagem de Israel, com magotes de gente a viajarem em todas as direcções, quando o próprio e o natural, nestes dias logo a seguir à Páscoa, seria deslocarem-se as pessoas, salvo justificadas excepções, de um modo por assim dizer centrífugo, tomando o caminho de casa a partir de um único ponto central, sol terrestre ou umbigo luminoso, de Jerusalém falamos, claro está. Sem dúvida, a força do costume, ainda que falível, e a perspicácia divina, essa absoluta, tornarão fácil o reconhecimento e identificação, mesmo de tão alto, do lento avanço que mostra o regresso dos peregrinos às suas cidades e aldeias, mas o que, ainda assim, não pode deixar de confundir a vista é o cruzar dessas rotas, conhecidas, com outras que parecem traçadas à aventura e que são, nem mais nem menos, os itinerários daqueles que, tendo ou não celebrado em Jerusalém a Páscoa do Senhor, obedecem agora às profanas ordens de César, embora não devesse ser muito custoso sustentar uma tese diferente, a de ser César Augusto quem, sem o saber, está afinal obedecendo à vontade do Senhor, se é verdade ter Deus decidido, por razões que só ele conhece, que José e sua mulher estariam fadados, nesta altura da vida, a ir a Belém. Extemporâneas e fora de propósito à primeira vista, estas considerações devem ser recebidas como pertinentíssimas, tendo em conta que é graças a elas que nos será possível chegar à infirmação objectiva daquilo que a alguns espíritos tanto agradaria encontrar aqui, por exemplo, imaginar os nossos viajantes, sozinhos, atravessando aquelas paragens inóspitas, aqueles descampados inquietantes, sem vivalma próxima e fraterna, apenas confiados à misericórdia de Deus e ao amparo dos anjos. Ora, logo à saída de Nazaré se pôde ver que não vai ser assim, pois com José e Maria viajarão duas outras famílias, das numerosas, ao todo, entre velhos, crescidos e crianças, cerca de vinte pessoas, quase uma tribo. Certo é que não se dirigem a Belém, uma delas ficará a meio caminho, numa povoação perto de Ramalá, e a outra continuará muito para o sul, até Bercheva, porém, mesmo que hajam de separar-se antes, por irem mais depressa uns do que outros, hipótese sempre provável, sempre estarão a descer à estrada novos viajantes, sem contar com os que hão-de vir andando em sentido contrário, talvez, quem sabe, a recensear-se em Nazaré, donde agora estes estão saindo. Os homens caminham à frente, num grupo só, e com eles vão os rapazes que já fizeram treze anos, ao passo que as mulheres, as meninas e as velhas, de todas as idades, formam outro confuso grupo lá atrás, acompanhadas pelos garotos

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo pequenos. No momento em que iam pôr o pé na estrada, os homens, em coro solene, altearam a voz para proferir as bênçãos próprias da circunstância, repetindo-as as mulheres discretamente, quase em surdina, como quem aprendeu que não ganha nada em clamar quem de ser ouvido poucas esperanças tenha, mesmo quando não pediu nem pedirá, e tudo esteja louvando. Entre as mulheres, a única que vai grávida neste estado de adiantamento é Maria, e as suas dificuldades são tais que se não fosse ter a Providência dotado os burros que criou de uma paciência infinita e não menor fortaleza, poucos passos seriam andados e já esta outra pobre criatura teria rendido o ânimo, rogando que ali a deixassem ficar, na berma da estrada, à espera da sua hora, que sabemos está para breve, a ver onde e quando, porém isto não é gente afeiçoada ao gosto das apostas, neste caso acertar em quando e onde nascerá o filho de José, sensata religião é esta que proibiu o azar. Enquanto não chega o momento, e por todo o tempo que ainda tiver de padecer a espera, a grávida poderá contar, mais do que com as poucas e distraídas atenções do seu marido, entretido como irá na conversa dos homens, poderá contar, dizíamos, com a provada mansidão e os dóceis lombos do animal, que vai estranhando, ele próprio, se mudanças de vida e de carga podem chegar ao entendimento de um burro, a falta dos golpes de chibata, e sobretudo que lhe esteja sendo consentido caminhar sem pressas, pelo seu passo natural, seu e dos seus semelhantes, que alguns como ele vão na jornada. Por causa desta diferença, atrasa-se às vezes o grupo das mulheres, e, quando tal acontece, os homens, lá adiante, fazem uma paragem e ficam à espera de que elas se aproximem, porém não tanto que cheguem a reunir-se umas e outros, estes vão mesmo ao ponto de fingir que pararam somente para descansar, não há dúvida de que a estrada a todos serve, mas já se sabe que onde cantarem galos não hão-de as galinhas piar, quando muito cacarejem se puseram ovo, assim o tem imposto e proclamado a boa ordenação do mundo em que nos calhou viver. Vai pois Maria embalada na suave andadura do seu corcel, rainha entre as mulheres, que só ela vai montada, a restante burricada transporta carga geral. E, para que não sejam tudo sacrifícios, leva ao colo, ora uma, ora outra, três crianças do rancho, com o que vão folgando as mães respectivas e ela começa a habituar-se ao carrego que a espera. Neste primeiro dia de viagem, porque as pernas ainda não estavam feitas ao caminho, a etapa não foi extremadamente longa, é preciso não esquecer que vão na mesma companhia velhos e meninos pequenos, uns que, tendo vivido, gastaram todas as suas forças e agora não podem mais fingir que as têm, outros que, por não saberem governar as que começam a ter, as esgotam em duas horas de carreiras desatinadas, como se o mundo estivesse para acabar e valesse a pena aproveitar os últimos instantes dele. Fizeram alto numa aldeia grande, chamada Isreel, onde havia um caravançarai, o qual, por serem estes dias, como dissemos, de intenso tráfego, foram encontrar numa confusão e num alarido que parecia de doidos, embora, a falar verdade, fosse o alarido maior que a confusão, porquanto, ao cabo de algum tempo, habituados vista e ouvido, podia-se pressentir, primeiro, e logo reconhecer, naquele adjunto de gente e de animais em constante movimento dentro dos quatro muros, uma vontade de ordem não organizada nem consciente, tal um formigueiro assustado que buscasse reconhecer-se e recompor-se em meio da sua própria dispersão. Ainda assim, tiveram as três famílias a sorte de poder acolher-se ao abrigo de um arco, arrumando-se os homens a um lado e as mulheres a outro, mas isto foi mais tarde, quando a noite de todo se fechou e o caravançarai, animais e pessoas, se entregou ao sono. Antes tiveram as mulheres que preparar a comida e encher os odres no poço, enquanto os homens descarregavam os burros e os levavam a beber, mas numa ocasião em que não houvesse camelos no bebedouro, porque estes, em não mais que dois brutos sorvos, punham a caleira da água a seco, e era preciso voltar a enchê-la vezes sem conta antes que se dessem por satisfeitos. Ao cabo, postos primeiramente os burros à manjedoura, sentaram-se os viajantes a comer, principiando pelos homens, que as mulheres já sabemos que em tudo são secundárias, basta lembrar uma vez mais, e não será a última, que Eva foi criada depois de Adão e de uma sua costela, quando será que aprenderemos que há certas coisas que só começaremos a perceber quando nos dispusermos a remontar às fontes. Ora, depois de os homens terem comido, e enquanto as mulheres, lá no seu canto, se alimentavam com o que tinha sobejado, aconteceu que um ancião entre os anciãos, que vivendo em Belém ia recensear-se a Ramalá e se chamava Simeão, usando da autoridade que lhe conferia a idade, e da sabedoria que se acredita ser seu directo efeito, interpelou José sobre como pensava ele que deveria proceder-se se viesse a verificar-se a hipótese, obviamente possível, de Maria, porém não lhe pronunciou o nome, não vir a dar à luz antes do último dia do prazo imposto para o recenseamento. Tratava-se,

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo evidentemente, duma questão académica, se tal palavra é adequada ao tempo e ao lugar, porquanto só aos recenseadores, instruídos nas subtilezas processuais da lei romana, caberia decidir sobre casos tão altamente duvidosos, como este de apresentar-se uma mulher de barriga cheia ao recenseamento, Vimos inscrever-nos, e não ser possível averiguar, in loco, se traz dentro varão ou fêmea, isto sem falar da não desdenhável probabilidade duma ninhada de gémeos do mesmo ou de ambos os sexos. Como perfeito judeu que se prezava de ser, tanto na teoria como na prática, jamais o carpinteiro pensaria em responder, usando da simples lógica ocidental, que não é àquele que tem de suportar a lei que competirá suprir as falhas que nela forem encontradas, e que se Roma não foi capaz de prever estas e outras hipóteses, então é porque está mal servida de legisladores e hermeneutas. Colocado, portanto, perante a difícil questão, José demorou-se a pensar, buscando na sua cabeça o modo mais subtil de dar-lhe resposta, uma resposta que, demonstrando à assembleia reunida à volta do lume os seus dotes de argumentador, fosse, ao mesmo tempo, formalmente brilhante. Finda a aturada reflexão, e levantando devagar os olhos que, por todo o tempo dela, mantivera fitos nas ondulantes chamas da fogueira, disse o carpinteiro, Se, chegado o último dia do recenseamento, o meu filho não for ainda nascido, será porque o Senhor não quer que os romanos saibam dele e o ponham nas suas listas. Disse Simeão, Forte presunção a tua, que assim te arrogas a ciência do que o Senhor quer ou não quer. Disse José, Deus conhece todos os meus caminhos e conta todos os meus passos, e estas palavras do carpinteiro, que podemos encontrar no Livro de Job, significavam, no contexto da discussão, que ali, diante dos presentes e sem exclusão dos ausentes, José reconhecia e protestava a sua obediência ao Senhor, e humildade, sentimentos, qualquer deles, contrários à pretensão diabólica, insinuada por Simeão, de aspirar a devassar os quereres enigmáticos de Deus. Assim o devia ter entendido o ancião, pois deixou-se ficar calado e à espera, do que se aproveitou José para voltar à carga, O dia do nascimento e o dia da morte de cada homem estão selados e sob a guarda dos anjos desde o princípio do mundo, e é o Senhor, quando lhe apraz, que quebra primeiro um e depois o outro, muitas vezes ao mesmo tempo, com a sua mão direita e a sua mão esquerda, e há casos em que demora tanto a partir o selo da morte que chega a parecer que se esqueceu desse vivente. Fez uma pausa, hesitou um pouco, mas depois rematou, sorrindo com malícia, Queira Deus que esta conversa o não faça lembrar-se de ti. Riram-se os circunstantes, mas por trás da barba, porquanto era manifesto que o carpinteiro não soubera guardar, inteiro, o respeito que a um veterano se deve, mesmo quando a inteligência e a sensatez, por efeito da idade, já não abundem nos seus juízos. O velho Simeão fez um gesto de cólera, dando um repelão à túnica, e respondeu, Porventura terá Deus quebrado o selo do teu nascimento antes do tempo e ainda não devesses estar no mundo, se de maneira tão impertinente e presumida te comportas com os anciãos, que mais viveram e que em todas as coisas sabem mais do que tu. Disse José, Ó Simeão, perguntaste-me como se deveria proceder se o meu filho não tivesse nascido até ao último dia do recenseamento, e a resposta à pergunta não podia eu dar-ta porque não conheço a lei dos romanos, como tu, creio, também não a conheces, Não conheço, Então disse-te, Sei o que disseste, não te canses a repetir-mo, Foste tu quem começou por falar-me com palavras impróprias quando me perguntaste quem me julgava eu para pretender conhecer as vontades de Deus antes de elas se manifestarem, se eu depois te ofendi peço-te que me perdoes, mas a primeira ofensa veio de ti, lembra-te de que, sendo ancião, e por isso meu mestre, não podes ser tu a dar o exemplo da ofensa. Ao redor da fogueira houve um discreto murmúrio de aprovação, o carpinteiro José, claramente, levava o vencimento do debate, a ver agora como se sai Simeão, que resposta lhe dará. E eis como o fez, sem espírito nem imaginação, Por dever de respeito, não tinhas mais que responder à minha pergunta, e José disse, Se eu te respondesse como querias, logo teria ficado a descoberto a vanidade da questão, portanto terás de admitir, por muito que te custe, que foi sinal de maior respeito o que fiz, facilitando-te, mas tu não o quiseste entender, a oportunidade de discorreres sobre um tema que a todos interessaria, a saber, se quereria ou poderia o Senhor, alguma vez, esconder o seu povo dos olhos do inimigo, Agora estás falando do povo de Deus como se fosse o teu filho não nascido, Não ponhas na minha boca, ó Simeão, palavras que eu não disse e não direi, escuta o que é para ser compreendido duma maneira e o que é para ser compreendido doutra. A esta tirada já Simeão não respondeu, levantou-se da roda e foi sentar-se no canto mais escuro, acompanhado dos outros homens da família, obrigados pela solidariedade do sangue, mas no íntimo despeitados pela tristíssima figura que o patriarca fizera na justa verbal. Ali, entre a companhia, cobrindo o silêncio que se sucedeu aos

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo rumores e murmúrios de quem se está acomodando para o repouso, tornou-se outra vez perceptível o surdo marulhar das conversas no caravançarai, cortadas por alguma exclamação mais sonora, pelos resfolgos e fungadelas dos animais, e, a espaços, pelo bramido áspero, grotesco, de um camelo picado do cio. Foi então que, todos juntos, concertando o ritmo da recitação, os viajantes de Nazaré, já sem cuidar da recente discórdia, entoaram em voz baixa, mas ruidosamente sendo tantos, a última e a mais longa de quantas bênçãos ao Senhor vão encaminhadas no decurso do dia, e que assim reza, Louvado sejas tu, Deus nosso, rei do universo, que fazes cair as ataduras do sono sobre os meus olhos e o torpor sobre as minhas pálpebras, e que às minhas pupilas não retiras a luz. Seja da tua vontade, Senhor meu Deus, que agora me deite em paz e amanhã possa acordar para uma vida feliz e pacífica, consente que me aplique no cumprimento dos teus preceitos e não me deixes acostumar a acto algum de transgressão. Não permitas que caia em poder do pecado, da tentação, nem da vergonha. Faz com que em mim tenham vencimento as boas inclinações, não deixes que tenham poder sobre mim as más. Livra-me das ruins inclinações e das doenças mortais, e que eu não seja perturbado por sonhos maus e más cogitações, não seja que eu sonhe com a Morte. Poucos minutos eram passados e já os mais justos, se não os mais cansados, dormiam, alguns sem nenhuma espiritualidade roncando, e os outros não tiveram de esperar muito, ali estavam, sem outro agasalho, na maior parte, que as próprias túnicas, só os velhos e os novinhos, frágeis uns e outros, gozavam do conforto duma dobra de lençol grosso ou duma escassa manta. Faltando-lhe o alimento, a fogueira esmorecia, apenas umas desmaiadas chamas dançavam ainda sobre a última acha recolhida no caminho para este útil fim. Debaixo do arco que abrigava o pessoal de Nazaré, todos dormiam. Todos, à excepção de Maria. Não podendo deitar-se por causa da desconformidade do ventre, que à vista mais parecia conter um gigante, reclinava-se nuns alforges da equipagem, buscando amparo para os martirizados rins. Como os outros, escutara o debate entre José e o velho Simeão, e alegrara-se com a vitória do marido, como é obrigação de toda a mulher, mesmo em se tratando de pelejas incruentas, como esta foi. Mas já se lhe varrera da lembrança o que tinham discutido, ou a memória do debate se submergira nas sensações que por dentro do seu corpo iam e vinham, iguais às marés do oceano que nunca vira, mas de que alguma vez ouvira falar, fluindo e refluindo, entre o ansioso choque das ondas que eram o filho movendo-se, porém de um modo singular, como se, estando dentro dela, a quisesse levantar, em peso, nos seus ombros. Só os olhos de Maria estavam abertos, brilhando na penumbra, e continuaram a brilhar mesmo depois de o lume se apagar de todo, mas isto não é nenhuma admiração, sucede a todas as mães desde o princípio do mundo, contudo ficámos a sabê-lo definitivamente quando à mulher do carpinteiro José apareceu um anjo, que o era, segundo declaração do próprio, apesar de vir em figura de mendigo itinerante. Também no caravançarai cantavam galos pelas frescas madrugadas, mas os viajantes, mercadores, almocreves, condutores de camelos, urgidos pelas obrigações, mal esperaram o primeiro canto, e muito cedo principiaram os preparativos da jornada, carregando as bestas com os teres e haveres próprios ou as mercadorias do negócio, e por este modo alevantando no campo um arruído que deixava a perder de vista, ou de ouvidos, para usar a palavra exacta, a algazarra da véspera. Quando estes se tiverem ido, o caravançarai passará algumas horas assaz tranquilas, como um lagarto pardo esparramado ao sol, pois vão ficar ali somente os hóspedes que decidiram descansar um dia inteiro, até que, aproximando-se o fim da tarde, comece a chegar o novo turno de caminheiros, uns mais sujos do que outros, mas todos fatigados, e contudo mantendo intactas e poderosas as cordas vocais, ainda mal vêm entrando e já estão gritando como possessos de mil diabos, salvo seja. Que a companhia de Nazaré vá daqui engrossada, não deve surpreender a ninguém, juntaram-se-lhe mais umas dez pessoas, muito enganado está quem haja imaginado esta terra um deserto, mormente em época tão festival, de recenseamento e Páscoa, consoante foi já explicado. Entendera José, de si para consigo, que seria de seu dever fazer as pazes com o velho Simeão, não por achar que com a noite os seus argumentos tinham perdido força e razão, mas porque havia sido instruído no respeito dos mais velhos e em particular dos anciãos, que, coitados, tendo vivido uma longa vida, que agora se paga roubando-lhes o espírito e o entendimento, não poucas vezes se vêem desconsiderados pela malta nova. Aproximou-se pois dele e disse, em tom de comedimento, Venho pedir-te desculpa, se te pareci insolente e enfatuado ontem à noite, nunca foi minha intenção faltar-te ao respeito, mas sabes como são as coisas, palavra traz palavra, as boas puxam as más, e acabamos sempre por dizer mais do que queriamos. Simeão ouviu, ouviu, de cabeça baixa, e finalmente respondeu, Estás desculpado. Em

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo troca do seu generoso movimento, era natural que José esperasse uma resposta mais benévola do teimoso velho, e, ainda com a esperança de ouvir palavras que cria merecer, caminhou ao lado dele durante um bom bocado de tempo e de caminho. Mas Simeão, com os olhos postos no pó da estrada, fazia de conta que não dava pela sua presença, até que o carpinteiro, justamente enfadado, esboçou o gesto de quem vai afastar-se. Foi então que o velho, como se subitamente o tivesse abandonado o pensamento fixo que o ocupava, deu um passo rápido e deitou-lhe a mão à túnica, Espera, disse. Surpreendido, José virou-se para ele. Simeão parara e repetia, Espera. Foram passando os outros homens e agora estavam estes dois no meio do caminho, como em terra-de-ninguém, entre o grupo dos varões que se ia afastando e o bando das mulheres, lá atrás, cada vez mais perto. Por cima das cabeças podia-se ver o vulto de Maria, balouçando-se ao compasso da andadura do burro. Tinham deixado o vale de Isreel. A estrada, ladeando penedias, vencia custosamente a primeira encosta, depois do que se embrenharia nas montanhas de Samaria, pelo lado do poente, ao longo dos espinhaços áridos por trás dos quais, descaindo para o Jordão e arrastando na direcção do sul a sua rasoira ardente, o deserto de Judeia queimava e requeimava a antiquíssima cicatriz duma terra que, havendo sido prometida a uns tantos, nunca viria a saber a quem entregar-se. Espera, disse Simeão, e o carpinteiro obedecera, agora inquieto, temeroso sem saber de quê. As mulheres já vinham perto. Então o velho recomeçou a andar, agarrando-se à túnica de José, como se as forças lhe estivessem fugindo, e disse, Ontem à noite, depois de me retirar para dormir, tive uma visão, Uma visão, Sim, mas não uma visão de ver coisas, como acontece, foi antes como se pudesse ver o que está por trás das palavras, aquelas que disseste, que se o teu filho ainda não tivesse nascido quando chegar o último dia do recenseamento, seria por não querer o Senhor que os romanos saibam dele e o ponham nas suas listas, Sim, eu disse isso, mas tu que viste, Não vi coisas, foi como se, de repente, tivesse a certeza de que seria melhor que os romanos não soubessem da existência do teu filho, que dele ninguém viesse a saber nunca, e que, se tem mesmo de vir a este mundo, ao menos que nele viva sem pena nem glória, como aqueles homens que além vão e essas mulheres que aí vêm, ignorado como qualquer de nós até à hora da sua morte e depois dela, Sendo o pai este nada que sou, um carpinteiro de Nazaré, esse viver que lhe desejas é o que o meu filho pode ter de mais certo, Não és o único a dispor da vida do teu filho, Sim, todo o poder está no Senhor Deus, ele é o que sabe, Assim foi sempre e assim o cremos, Mas fala-me do meu filho, que soubeste do meu filho, Nada, só aquelas mesmas tuas palavras que, num relâmpago, me pareceram conter outro sentido, como se olhando pela primeira vez um ovo tivesse a percepção do pinto que leva dentro, Deus quis o que fez e fez o que quis, é nas suas mãos que está o meu filho, eu nada posso, Em verdade, assim é, mas estes são ainda os dias em que Deus partilha com a mulher a posse da criança, Que depois, se for varão, será minha e de Deus, Ou só de Deus, Todos o somos, Nem todos, alguns há que estão divididos entre Deus e o Demónio, Como sabê-lo, Se a lei não tivesse feito calar as mulheres para todo o sempre, talvez elas, porque inventaram aquele primeiro pecado de que todos os mais nasceram, soubessem dizer-nos o que nos falta saber, Quê, Que partes divina e demoníaca as compõem, que espécie de humanidade transportam dentro de si, Não te compreendo, pareceu-me que estavas falando do meu filho, Não falava do teu filho, falava das mulheres e de como geram os seres que somos, se não será por vontade delas, se é que o sabem, que cada um de nós é este pouco e este muito, esta bondade e esta maldade, esta paz e esta guerra, revolta e mansidão. José olhou para trás, vinha Maria no seu burro, com um rapazinho posto diante dela, montando escarranchado, à homem, e por um instante imaginou que era já o seu filho, e a Maria viu-a como se fosse a primeira vez, avançando na dianteira da tropa feminina entretanto engrossada. Ressoavam ainda nos seus ouvidos as estranhas palavras de Simeão, porém, custava-lhe a aceitar que uma mulher pudesse ter tanta importância assim, pelo menos esta sua nunca lhe havia dado sinal, medíocre que fosse, de valer mais do que o comum de todas. Ora, foi nesta altura, mas já então ia olhando em frente, que lhe veio à lembrança o caso do mendigo e da terra luminosa. Tremeu da cabeça aos pés, arrepiaram-se-lhe cabelo e carnes, e ainda mais quando, ao voltar-se outra vez para Maria, viu, com os seus olhos claramente visto, caminhando ao lado dela, um homem alto, tão alto que os seus ombros se viam por cima das cabeças das mulheres, e era, por estes sinais sim, o mendigo que nunca pudera ver. Tornou a olhar, e ele lá estava, presença insólita, incongruência total, sem nenhuma razão humana para encontrar-se ali, varão entre mulheres. ia José pedir a Simeão que olhasse também ele para trás, que lhe confirmasse estes impossíveis, mas o velho adiantara-se, dissera

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo o que tinha que dizer e agora juntava-se aos homens da sua família, para retomar o simples papel do mais idoso, que é sempre o que menos tempo dura. Então, o carpinteiro, sem outra testemunha, tornou a olhar na direcção da mulher. O homem já lá não estava. Tinham atravessado, a caminho do sul, toda a região de Samaria, e fizeram-no em marchas forçadas, com um olho atento à estrada e o outro, inquieto, perscrutando as cercanias, temerosos dos sentimentos de hostilidade, porém mais exacto seria dizer aversão, dos habitantes daquelas terras, descendentes em malfeitorias e herdeiros em heresias dos antigos colonos assírios que a estas paragens vieram em tempo de Salmanasar, o rei de Nínive, depois da expulsão e dispersão das Doze Tribus, e que, tendo algo de judeus, mas muito mais de pagãos, apenas reconhecem como lei sagrada os Cinco Livros de Moisés e protestam que o lugar escolhido por Deus para o seu templo não foi Jerusalém, mas sim, imagine-se, o monte Gerizim, que está nos seus territórios. Andaram depressa os de Galileia, mas ainda assim tiveram de passar duas noites em campo inimigo, ao relento, com vigias e roldas, não fosse dar-se o caso de os malvados atacarem pela calada, capazes como são das piores acções, chegando ao extremo de recusarem uma sede de água a quem, de puro tronco hebreu, por necessidade dela se estivesse finando, não valendo referir alguma excepção conhecida, por não ser mais do que isso, uma excepção. E a tal ponto foi a ansiedade dos viajantes durante o trajecto que, contrariando o costume, os homens se dividiram em dois grupos, à frente e atrás das mulheres e crianças, para guardá-las de insultos ou coisa pior. Afinal, estariam os de Samaria de humor pacífico nestes dias, o certo é que, além dos encontrados no caminho, também de viagem, que satisfaziam o seu rancor lançando aos galileus olhares de escárnio e algumas palavras malsonantes, nenhuma quadrilha formal e organizada se precipitou das encostas ao assalto ou apedrejou de emboscada o assustado e inerme destacamento. Um pouco antes de chegarem a Ramalá, onde os crentes mais fervorosos ou de mais apurado olfacto juravam sentir já o santíssimo odor de Jerusalém, largaram o grupo o velho Simeão e os seus, que, como foi dito antes, em uma aldeia destes sítios vêm recensear-se. Ali, no meio do caminho, com grande profusão de bênçãos, fizeram os viajantes as suas despedidas, as mães de família encheram Maria de mil e uma recomendações filhas da experiência, e lá se foram todos, uns descendo ao vale onde pronto poderão repousar das fadigas de quatro dias a andar, outros para Ramalá, em cujo caravançarai passarão ainda a noite que vem chegando. E em Jerusalém, finalmente, se hão-de separar os que restam do grupo que partiu de Nazaré, a maior parte para Bercheva, ainda com dois dias de viagem pela frente, e o carpinteiro e sua mulher que ficarão logo ali, em Belém. No meio da confusão dos abraços e adeuses, José chamou de parte Simeão e, com muita deferência, quis saber se naquele meio-tempo lhe ocorrera alguma lembrança mais da visão, Que não foi visão, já te disse, Fosse o que fosse, a mim o que me interessa é saber que destino vai ter o meu filho, Se nem o teu próprio destino podes conhecer, e estás aí, vivo e falando, como queres pretender saber do que ainda nem existência tem, Os olhos do espírito vão mais longe, por isso imaginei que os teus, abertos pelo Senhor às evidências dos eleitos, tivessem conseguido alcançar o que para mim é pura treva, Talvez que do destino do teu filho não venhas a saber nunca, talvez o teu próprio destino esteja para cumprir-se em breve, não perguntes, homem, não queiras saber, vive apenas o teu dia. E, tendo dito estas palavras, Simeão pôs a mão direita sobre a cabeça de José, murmurou uma bênção que ninguém pôde ouvir e foi juntar-se aos seus, que o esperavam. Por um carreiro sinuoso, em fila, começaram a descer para o vale, onde, no baixo da outra encosta, quase confundida com as pedras que do chão rompiam como fatigados ossos, estava a aldeia de Simeão. José não voltaria a ter notícias dele, apenas, mas muito mais tarde, que tinha morrido antes de recensear-se. Depois das duas noites passadas à luz das estrelas e ao frio do descampado, já que, por medo de um ataque de surpresa, nem fogueiras tinham acendido, soube bem aos de Nazaré poderem acolher-se uma vez mais ao resguardo das paredes e arcadas de um caravançarai. As mulheres foram ajudar Maria a descer-se do burro, dizendo, piedosas, Mulher, que para breve estás, e a pobre murmurava que sim, devia de estar, como disso era sinal, a todos evidente, o repentino, ou assim parecia, crescimento da barriga. Instalaram-na o melhor que puderam num canto recolhido e foram tratar da ceia que já tardava, da qual vieram a comer todos. Nesta noite não houve conversas, nem recitações, nem histórias contadas à volta da fogueira, como se a proximidade de Jerusalém obrigasse ao silêncio, cada um olhando para dentro de si e perguntando, Quem és tu, que comigo te pareces, mas a quem não sei reconhecer, e não é que o dissessem de facto, as pessoas não se põem assim a falar sozinhas, sem mais nem menos, ou sequer o pensassem conscientemente, porém o certo

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo é que um silêncio como este, quando fixamente olhamos as chamas duma fogueira e calamos, se quisermos traduzi-lo em palavras, não há outras, são aquelas, e dizem tudo. No lugar onde estava sentado, José via Maria de perfil contra o resplendor do lume, o clarão avermelhado; reflectido, iluminava-lhe numa meia-tinta a face deste lado, desenhando-lhe o perfil em luz e contraluz, e ele achou, surpreendido por o estar pensando, que Maria era uma bonita mulher, se já se lhe podia dar esse nome, com aquela cara de menina, sem dúvida tem o corpo agora deformado, mas a memória traz-lhe uma imagem diferente, ágil e graciosa, depressa voltará ao que era, depois de nascer a criança. Pensava José isto, e num repente inesperado foi como se todos os meses passados, de forçada castidade, se tivessem rebelado, despertando a urgência de um desejo que se lhe ia difundindo por todo o sangue, em ondas sucessivas irradiando vagos apetites carnais que principiavam por aturdi-lo, para depois refluírem, mais fortes, escandecidos pela imaginação, ao ponto de partida. Ouviu que Maria soltara um gemido, mas não se aproximou dela. Lembrara-se, e a recordação, como uma chapada de água fria, arrefeceu de golpe as sensações voluptuosas que estivera experimentando, lembrara-se do homem que dois dias antes vira, num rápido instante, caminhar ao lado da mulher, esse mendigo que os perseguia desde o anúncio da gravidez de Maria, pois agora José não tinha dúvidas de que, mesmo não tendo voltado a aparecer até ao dia em que ele próprio pudera vê-lo, o misterioso personagem sempre estivera, ao longo dos nove meses de gestação, nos pensamentos de Maria. Não se atrevera a perguntar à mulher que homem era aquele e se sabia para onde ele fora, que tão depressa se sumira, não queria ouvir a resposta que temia, uma estupefacta pergunta, Homem, que homem, e, se teimasse, o mais certo seria chamar Maria a testemunhar as outras mulheres, Vocês viram algum homem, vinha algum homem no grupo das mulheres, e elas diriam que não e abanariam a cabeça com algum ar de escândalo, e talvez uma delas, mais solta de língua, dissesse, Ainda está para nascer o homem que, sem ser por precisões do corpo, se chegue ao lado das mulheres e com elas fique. O que José não poderia adivinhar é que não haveria malícia alguma na surpresa de Maria, pois ela realmente não vira o mendigo, tivesse ele sido homem de carne e osso ou aparição. Mas, como pode isso ser verdade, se ele estava ali, ao teu lado, se o vi com estes olhos, perguntaria José, e Maria que responderia, firme na sua razão, Em tudo, assim me disseram que está escrito na lei, a mulher deverá ao marido respeito e obediência, portanto não torno a dizer que esse homem não ia ao meu lado, sustentando tu o contrário, afirmo apenas que não o vi, Era o mendigo, E como podes sabê-lo, se não chegaste a vê-lo no dia em que apareceu, Tinha de ser ele, Seria antes alguém que ia no seu caminho, e, porque caminhava mais devagar do que nós, passámos-lhe à frente, primeiro os homens, depois as mulheres, por acaso estaria ao meu lado quando olhaste, foi isso e nada mais, Então, confirmas, Não, somente procuro uma explicação que te satisfaça, como é também dever das boas mulheres. Por entre os olhos semicerrados, quase adormecido, José ainda tenta ler uma verdade no rosto de Maria, mas a face dela tornou-se negra como o outro lado da lua, o perfil apenas uma linha, recortado contra a claridade já esmorecida das últimas brasas. José deixou pender a cabeça como se definitivamente tivesse renunciado a compreender, levando consigo, para dentro do sono, uma ideia em tudo absurda, a de que aquele homem teria sido uma imagem do seu filho feito homem, que viera do futuro para dizer-lhe, Assim eu serei um dia, mas tu não chegarás a ver-me assim. José dormia, com um sorriso resignado nos lábios, mas triste era como se sentiria se ouvisse Maria dizer-lhe, Que o não queira o Senhor, que de ciência certa sei eu que esse homem não tem onde descansar a cabeça. Em verdade, em verdade vos digo que muitas coisas neste mundo poderiam saber-se antes de acontecerem outras que delas são fruto, se, um com o outro, fosse costume falarem marido e mulher como marido e mulher. No dia seguinte, manhã cedo, abalaram para Jerusalém muitos dos viajantes que tinham passado a noite no caravançarai, mas os grupos de caminhantes, por casualidade, formaram-se de maneira que José, embora mantendo-se à vista dos conterrâneos que iam para Bercheva, acompanhava desta vez a mulher, seguindo ao lado dela, à estribeira, por assim dizer, precisamente como o mendigo, ou quem quer que fosse, fizera no dia anterior. Mas José, neste momento, não quer pensar na misteriosa personagem. Tem a certeza, íntima e profunda, de que foi beneficiário dum obséquio particular de Deus, que lhe permitiu ver o seu próprio filho ainda antes de ser nascido, não envolto em faixas e cueiros de infantil debilidade, pequeno ser inacabado, fétido e ruidoso, mas homem feito, alto um bom palmo mais do que o seu pai e o comum desta raça. José vai feliz por ocupar o lugar de seu filho, é ao mesmo tempo o pai e o filho, e a tal ponto este sentimento é

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo forte que subitamente perde sentido aquele que é seu verdadeiro filho, a criança que ali vai, ainda dentro da barriga da mãe, no caminho de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, gritam os devotos viajantes à vista da cidade, de repente levantada como uma aparição no cimo do morro do outro lado, além do vale, cidade em verdade celeste, centro do mundo, agora despedindo mil centelhas em todas a direcções, sob a luz forte do meio-dia, como uma coroa de cristal, mas que sabemos se tornará em ouro puro quando a luz do poente lhe tocar e será branca de leite sob o luar, Jerusalém, ó Jerusalém. O Templo aparece como se nesse mesmo momento Deus ali o tivesse pousado, e o súbito sopro que percorre os ares e vem roçar a cara, os cabelos, as roupas dos peregrinos e viajantes é talvez o movimento do ar deslocado pelo gesto divino, que, se olharmos com atenção as nuvens do céu, podemos ver a imensa mão que se retira, os longos dedos sujos de barro, a palma onde estão traçadas todas as linhas de vida e de morte dos homens e de todos os outros seres do universo, mas também, é tempo de que se saiba, a linha da vida e da morte do mesmo Deus. Os viajantes levantam ao ar os braços que tremem de emoção, as bênçãos saltam, irresistíveis, não já em coro, cada qual entregue ao seu arrebatamento próprio, e alguns, por natureza mais sóbrios nestas místicas expressões, quase não se movem, olham o céu e pronunciam as palavras com uma espécie de dureza, como se neste momento lhes fosse consentido falar de igual para igual ao seu Senhor. A estrada descai em rampa, e à medida que os viajantes vão descendo para o vale, antes de abordarem a nova subida que os levará a esta porta da cidade, o Templo parece erguer-se mais e mais, escondendo, por efeito da perspectiva, a execrada Torre Antónia, onde, mesmo a esta distância, se percebem os vultos dos soldados romanos que vigiam do eirado e rápidas fulgurações de armas. Aqui se despedem os de Nazaré, porque Maria vem exausta e não suportaria o trote seco da sua montada na descida, se ela tivesse de acompanhar o passo rápido, quase carreira precipitada, que passou a ser o de toda esta gente à vista dos muros da cidade. Ficaram pois José e Maria sozinhos na estrada, ela procurando recobrar as fugidas forças, ele um tanto impaciente pela demora, agora que estão já tão perto do destino. O sol cai a prumo sobre o silêncio que rodeia os viajantes. De súbito, um gemido surdo, irreprimível, sai da boca de Maria. José inquieta-se, pergunta, São as dores que começam, e ela responde, Sim, mas nesse mesmo instante uma expressão de incredulidade espalha-se-lhe no rosto, como se ela tivesse acabado de encontrar-se com algo inacessível à sua compreensão, é que, em verdade, não fora no seu próprio corpo que ela sentira a dor, sentira-a sim, mas como uma dor efectivamente sentida por outrem, quem, o filho que dentro de si está, como é possível suceder tal coisa, que possa um corpo sentir uma dor que não é sua, ainda por cima sabendo que o não é, e, contudo, uma vez mais, sentindo-a como se a sua própria fosse, ou não exactamente desta maneira e por estas palavras, digamos antes, como um eco que, por qualquer estranha perversão dos fenómenos acústicos, se ouvisse com mais intensidade do que o som que o tinha causado. Cauteloso, mal querendo saber, José perguntou, Continua a doer-te, e ela não sabe como responder-lhe, mentirá se disser que não, mentirá se disser que sim, por isso cala, mas a dor está lá, e sente-a, porém é também como se apenas a estivesse olhando, impotente para acudir, no interior do ventre doem-lhe as dores do seu filho, e ela que não lhe pode valer, tão longe está. Não foi gritada nenhuma ordem, José não usou a chibata, mas o certo é que o burro recomeçou a andar mais espevitado de ânimo, sobe por sua conta a ladeira íngreme que leva a Jerusalém, e vai ligeiro, como quem ouviu dizer que tem a manjedoura cheia à sua espera e finalmente descanso de valer a pena, mas o que ele não sabe é que ainda vai ter de calcorrear um bom pedaço de caminho antes de chegar a Belém, e quando lá se encontrar perceberá que as coisas afinal não são tão simples quanto pareciam, claro está que seria muito bonito poder anunciar, Veni, vidi, vici, proclamou-o assim Júlio César no tempo da sua glória e depois foi o que se viu, às mãos do seu próprio filho veio a morrer, sem mais desculpa este que ser apenas adoptivo. Vem de longe e promete não ter fim a guerra entre pais e filhos, a herança das culpas, a rejeição do sangue, o sacrifício da inocência. Quando já estavam entrando a porta da cidade, Maria não pôde reter um grito de dor, mas este lancinante, como se uma lança a tivesse traspassado. Ouviu-a somente José, tão grande era o ruído que faziam as pessoas, os animais bastante menos, mas tudo junto resultando numa algazarra de mercado que mal deixava perceber o que se dissesse ao lado. José quis ser sensato, Tu não estás em condições de continuar, o melhor será procurarmos pousada aqui, e amanhã irei eu a Belém, ao recenseamento, e direi que estás de parto, vais lá depois se for preciso, que não sei como são as leis dos romanos, talvez seja bastante apresentar-se o chefe de família, sobretudo num caso como este, e Maria respondeu, Já não sinto

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo dores, e assim era, aquela lançada que a fizera gritar tornara-se num picar de espinho, contínuo, sim, mas suportável, algo que só se fazia lembrar, como um cilício. Ficou José o mais aliviado que se pode imaginar, pois o apoquentava a perspectiva de ter de procurar um abrigo no labirinto das ruas de Jerusalém em circunstância de tanta aflição, a mulher em doloroso trabalho de parto, e ele, como qualquer outro homem, apavorado com a responsabilidade, mas sem o querer confessar. Chegando a Belém, pensava, que em tamanho e importância não diferirá muito de Nazaré, as coisas serão certamente mais fáceis, sabido como é que nas povoações pequenas, onde todos se conhecem, a solidariedade costuma ser uma palavra menos vã. Se Maria já não se queixa, ou é que lhe passaram as dores, ou é que consegue aguentá-las, num caso como no outro, tanto faz, ala para Belém. O burro recebe uma palmada nos quartos traseiros, o que, se bem repararmos, é menos um estímulo para que se resolva a espevitar o andamento, decisão assaz difícil na indescritível confusão de trânsito em que foram apanhados, do que a expressão afectuosa do alívio de José. Os comércios invadem as vias estreitas, acotovelam-se gentes de mil raças e línguas, e a passagem, como por milagre, só se desobstrui e facilita quando aparece ao fundo da rua uma patrulha de soldados romanos ou uma cáfila de camelos, então é como se se apartassem as águas do mar Vermelho. Aos poucos, com jeito e paciência, os dois de Nazaré e o seu burro foram deixando para trás este gesticulante e convulsivo bazar, gente ignara e distraída a quem de nada serviria informar, Aquele que além estais vendo é José, e a mulher, a que vai prenha da barriga à boca, sim, o nome dela é Maria, vão os dois a Belém recensear-se, e se é verdade que em nada adiantariam estas nossas benévolas identificações é porque vivemos numa terra de tal modo abundante em nomes predestinados que facilmente por aí se encontram Josés e Marias de todas as idades e condições, por assim dizer ao virar da esquina, e não esqueçamos que estes que conhecemos não devem ser os únicos desse nome à espera de um filho, e também, diga-se tudo, não nos surpreenderia muito se, a estas horas e ao redor destas paragens, nascessem ao mesmo tempo, e apenas com uma rua ou uma seara por meio, duas crianças do mesmo sexo, varões querendo-o Deus, mas que por certo virão a ter diferentes destinos, ainda que, em final tentativa para darmos substância às primitivas astrologias desta antiga idade, viéssemos a dar-lhes o mesmo nome, Yeschua, que é como quem diz, Jesus. E que não se diga que já nos estamos antecipando aos acontecimentos pondo nome numa criança que ainda está por nascer, a culpa tem-na o carpinteiro que de há muito assentou na sua cabeça que esse será o nome do seu primogénito.

Saíram os caminhantes pela porta do sul, tomando a estrada para Belém, ligeiros de ânimo agora por tão perto estarem do seu destino, vão poder descansar das longas e duras jornadas, embora uma outra e não pequena fadiga esteja à espera da pobre Maria, que ela, e ninguém mais, terá o trabalho de parir o filho, sabe Deus onde e como. É que, embora Belém, segundo as escrituras, seja o lugar da casa e linhagem de David a que José afirma pertencer, com o passar do tempo acabaram-se ali os parentes, ou de havê-los não tem o carpinteiro notícia, circunstância negativa que deixa adivinhar, quando ainda vamos na estrada, não poucas dificuldades no alojamento do casal, em verdade José não pode, chegando, bater a uma porta qualquer e dizer, Trago aqui o meu filho que quer nascer, e vir a dona da casa, toda risos e alegrias, Entre, entre, senhor José, a água já está quente, a esteira no chão estendida, a faixa de linho preparada, ponha-se à vontade, a casa é sua. Teria assim sido na idade de ouro, quando o lobo, para não ter de matar o cordeiro, se alimentava de ervas bravas, mas esta idade é dura e de ferro, o tempo dos milagres, ou já passou, ou ainda está para chegar, além disso, milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é boa coisa, se é preciso torcer a lógica e a razão própria das coisas para torná-las melhores. A José quase apetece travar o passo para chegar atrasado aos problemas que o esperam, mas lembrar-se de que muito maiores problemas terá se o filho lhe nascer em meio do caminho, fá-lo espevitar o andamento do burro, resignado animal que, de cansado, só ele sabe como vai, que Deus, se de algo sabe, é dos homens, e mesmo assim não de todos, que sem conta são os que vivem como burros, ou ainda pior, e Deus não tem curado de averiguar e prover. Dissera a José um companheiro de viagem haver em Belém um caravançarai, providência social que à primeira vista resolverá o problema de dificuldade de instalação que vimos analisando minuciosamente, mas mesmo um rústico carpinteiro tem direito aos seus pudores, imagina-se a vergonha que para este homem seria ver a sua própria mulher exposta a curiosidades malsãs, um caravançarai inteiro a cochichar grosserias, de mais a mais esses almocreves e condutores de camelos

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo que são tão brutos como as bestas com que andam, estando eles agravados, na comparação, por terem o divino dom da fala e elas não. Resolve pois José que irá pedir conselho e auxílio aos anciãos da sinagoga, e de si para consigo se surpreende por não haver pensado nisso antes. Agora com o coração mais desanuviado de preocupações, pensou que estaria bem perguntar a Maria como ia ela de dores, porém não pronunciou a palavra, lembremo-nos de que tudo isto é sujo e impuro, desde a fecundação ao nascimento, aquele terrífico sexo da mulher, vórtice e abismo, sede de todos os males do mundo, o interior labiríntico, o sangue e as humidades, os corrimentos, o rebentar das águas, as repugnantes secundinas, meu Deus, por que quiseste que os teus filhos dilectos, os homens, nascessem da imundície, quando bem melhor fora, para ti e para nós, que os tivesses feito de luz e transparência, ontem, hoje e amanhã, o primeiro, o do meio e o último, e assim igual para todos, sem diferença entre nobres e plebeus, entre reis e carpinteiros, apenas colocarias um sinal assustador naqueles que, crescendo, estivessem destinados a tornar-se, sem remédio, imundos. Retido por tantos escrúpulos, José acabou por fazer a pergunta num tom de meia indiferença, como se, estando ocupado com matérias superiores, condescendesse em informar-se de servidões miúdas; Como te sentes, disse, e era justamente a ocasião de ouvir uma resposta nova, pois Maria, momentos antes, tinha principiado a notar diferença no teor das dores que estivera experimentando, excelente palavra esta, mas posta ao invés, porque com outra exactidão se diria que as dores é que a estavam, finalmente, a experimentar a ela. Nesta altura já levavam mais de uma hora de caminho, Belém não podia estar longe. Ora, sem que pudesse perceber-se porquê, porém as coisas não levam sempre, conjuntamente, a sua própria explicação, a estrada estivera deserta desde que os dois tinham saído de Jerusalém, caso digno de estranheza porque, estando Belém tão perto da cidade, o mais natural seria haver aqui um contínuo corrupio de gente e animais. Desde o sítio onde a estrada, poucos estádios depois de Jerusalém, se bifurcava, um ramo para Bercheva, este para Belém, era como se o mundo se tivesse recolhido, dobrado sobre si mesmo, pudesse o mundo ser representado por uma pessoa e diríamos que cobrira os olhos com o manto, escutando apenas os passos dos viajantes, tal com escutamos o canto de pássaros que não podemos ver, ocultos entre os ramos, eles, mas nós também, porque assim nos estarão imaginando as aves escondidas na folhagem. José, Maria e o burro tinham vindo a atravessar o deserto, pois o deserto não é aquilo que vulgarmente se pensa, deserto é tudo quanto esteja ausente dos homens, ainda que não devamos esquecer que não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de multidões. À direita está o túmulo de Raquel, a esposa por quem Jacob teve de esperar catorze anos, aos sete anos de serviço cumprido lhe deram Lia e só depois de outros tantos a mulher amada, que a Belém viria morrer dando à luz a criança a quem Jacob daria o nome de Benjamim, que quer dizer filho da minha mão direita, mas a quem ela, antes de morrer, chamou, com muita razão, Benoni, que significa filho da minha desgraça, permita Deus que isto não seja um agoiro. Agora já se distinguem as primeiras casas de Belém, cor de terra como as de Nazaré, mas estas parecem amassadas de amarelo e cinzento, lívidas sob o sol. Maria vai quase desmaiada, o seu corpo desequilibra-se a cada instante em cima do seirão, José tem de ampará-la, e ela, para poder segurar-se melhor, passa um braço por cima do ombro dele, pena que estejamos no deserto e não esteja aqui alguém para ver tão bonita imagem, tão fora do comum. E assim vão entrando em Belém. Perguntou José, apesar de tudo, onde estava o caravançarai porque havia pensado que talvez pudessem descansar ali o resto do dia, e a noite, uma vez que, apesar das dores de que Maria continuava a queixar-se, não parecia que a criança estivesse para nascer já. Mas o caravançarai, do outro lado da aldeia, sujo e ruidoso, misto de bazar e estrebaria como todos, embora, por ser ainda cedo, não estivesse cheio, não tinha um sítio recatado livre, e lá para o fim do dia muito pior seria ainda, com a chegada dos cameleiros e almocreves. Tornaram atrás os viajantes, José deixou Maria num pequeno largo entre muros de casas, à sombra duma figueira, e foi-se à procura dos anciãos, como primeiro tinha pensado. Quem estava na sinagoga, um simples zelador, não pôde fazer mais do que chamar um garoto dos que andavam por ali a brincar e mandar-lhe que guiasse o forasteiro a um dos anciãos, que, assim se esperava, providenciaria. Quis a sorte, protectora de inocentes quando deles se lembra, que José, nesta nova diligência, tivesse de passar pelo largo onde deixara a mulher, foi o que valeu a Maria, a maléfica sombra da figueira quase que a estava matando, falta de atenção imperdoável de um e de outro, numa terra em que abundam estas árvores e que tem obrigação de saber o que de mau e de bom se pode esperar delas. Dali foram todos como condenados à procura do ancião, que afinal estava no

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo campo e não voltaria tão cedo, esta foi a resposta que deram a José. Então o carpinteiro encheu-se de coragem e em voz alta perguntou se naquela casa, ou noutra, Se me estão a ouvir, alguém quereria, em nome do Deus que tudo vê, dar guarida a sua mulher, que está para ter um filho, decerto haverá por aí um canto recolhido, que esteiras trazia-as ele, E também onde é que poderei encontrar nesta aldeia uma aparadeira para ajudar ao parto, o pobre José dizia envergonhado estas coisas enormes e íntimas, ainda com mais vergonha por sentir-se corar ao dizê-las. A escrava que o atendia ao portal foi dentro com a mensagem, o pedido e o protesto, demorou-se, e voltou com a resposta de que não poderiam ficar ali, procurassem outra casa, mas não a tivessem por certa, e que a sua senhora mandara dizer que o melhor para eles ainda seria recolherem-se a uma das muitas covas que havia naquelas encostas, E a aparadeira, perguntou José, ao que a escrava respondeu que, autorizando os seus amos e aceitando-a ele, ela mesma poderia ajudar, pois não lhe haviam faltado na casa, em tantos anos, ocasiões de ver e aprender. Em verdade, muito duros são estes tempos, e agora se confirmou, que vindo bater à nossa porta uma mulher que está para ter um filho, lhe recusámos o alpendre do pátio e a mandámos parir numa cova, como as ursas e as lobas. Deu-nos, porém, a consciência um rebate, e, levantando-nos donde estávamos, fomos ver ao portal quem eram esses que buscavam abrigo por razão tão urgente e fora do comum, e quando demos com a dolorosa expressão da infeliz criatura apiedou-se o nosso coração de mulher e com medidas palavras justificámos a recusa por termos a casa cheia, São tantos os filhos e as filhas nesta casa, os netos e as netas, os genros e as noras, por isso não podíeis caber cá, mas a escrava vos levará a uma gruta que nos pertence e que tem servido de estábulo, aí ficareis cómodos, não há lá animais agora, e, tendo isto dito, e escutado os agradecimentos da pobre gente, nos retirámos para o resguardo do nosso lar, experimentando nas profundezas da alma o conforto inefável que dá a paz da consciência. Com todo este ir e vir, este andar e estar parado, este pedir e perguntar, foi desmaiando o forte azul do céu, e o sol não tarda que se esconda por trás daquele monte. A escrava Zelomi, que esse é o seu nome, vai à frente guiando os passos, e leva um pote com brasas para o lume, uma caçoila de barro para aquecer a água, sal para esfregar o recém-nascido, não vá apanhar alguma infecção. E como de panos vem Maria servida e a faca com que se há-de cortar o cordão umbilical trá-la José no seu alforge, se Zelomi não preferir cortá-lo com os dentes, já a criança pode nascer, afinal um estábulo serve tão bem como uma casa, e só quem nunca teve a felicidade de dormir numa manjedoura ignora que nada há no mundo que se pareça mais com um berço. O burro, pelo menos, não lhe achará diferença, a palha é igual no céu e na terra. Chegaram à cova aí pela hora terça, quando o crepúsculo, suspenso, ainda dourava as colinas, e não foi a demora tanto por causa da distância, mas porque Maria, agora que levava garantida a pousada e pudera, enfim, abandonar-se ao sofrimento, pedia por todos os anjos que a levassem com cuidado, pois cada resvalo dos cascos do asno nas pedras a punha em transes de agonia. Dentro da caverna fazia escuro, a enfraquecida luz exterior detinha-se logo à entrada, porém, em pouco tempo, chegando um punhado de palha às brasas e soprando, com a lenha seca que ali havia, a escrava fez uma fogueira que era como uma aurora. Logo, acendeu a candeia que estava dependurada duma saliência da parede, e, tendo ajudado Maria a deitar-se, foi por água aos poços de Salomão, que ali são perto. Quando voltou, achou José de cabeça perdida, sem saber que fazer, e não devemos censurá-lo, que aos homens não os ensinam a comportar-se utilmente em situações destas, nem eles querem saber, o mais de que hão-de vir a ser capazes é pegar na mão da mulher sofredora e ficar à espera de que tudo se resolva em bem. Maria, porém, está sozinha, o mundo acabaria de assombro se um judeu deste tempo ousasse cometer esse pouco. Entrou a escrava, disse uma palavra animadora, Coragem, depois pôs-se de joelhos entre as pernas abertas de Maria, que assim têm de estar abertas as pernas das mulheres para o que entra e para o que sai, Zelomi já perdera o conto às crianças que vira nascer, e o padecimento desta pobre mulher é igual ao de todas as outras mulheres, como foi determinado pelo Senhor Deus quando Eva errou por desobediência, Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos nascerão entre dores, e hoje, passados já tantos séculos, com tanta dor acumulada, Deus ainda não se dá por satisfeito e a agonia continua. José já ali não está, nem sequer à entrada da cova. Fugiu para não ouvir os gritos, mas os gritos vão atrás dele, é como se a própria terra gritasse, a tais extremos que três pastores que andavam por perto com os seus rebanhos de ovelhas foram para José e perguntaram-lhe, Que é isto, que parece que a terra está gritando, e ele respondeu, É a minha mulher que dá à luz além naquela cova, e eles disseram, Não és destes sítios, não te conhecemos, Viemos de

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo

Nazaré de Galileia ao recenseamento, na hora que chegámos cresceram-lhe as dores, e agora está nascendo. O crepúsculo mal deixava ver os rostos dos quatro homens, em pouco tempo todos os traços se iriam apagar, mas as vozes prosseguiam, Tens comida, perguntou um dos pastores, Pouca, respondeu José, e a mesma voz, Quando tudo estiver terminado vem dizer-me e levar-te-ei leite das minhas ovelhas, e logo a segunda voz se ouviu, E eu queijo te darei. Houve um longo e não explicado silêncio antes que o terceiro pastor falasse. Finalmente, numa voz que parecia, também ela, vir de debaixo da terra, disse, E eu pão lhe hei-de levar. O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. Envolto em panos, repousa na manjedoura, não longe do burro, porém não há perigo de ser mordido, que ao animal prenderam-no curto. Zelomi saiu fora a enterrar as secundinas, ao tempo que José se vem aproximando. Ela espera que ele entre e deixa-se ficar, respirando a brisa fresca do anoitecer, cansada como se tivesse sido ela a parir, é o que imagina, que filhos seus próprios nunca os teve. Descendo a encosta, aproximam-se três homens. São os pastores. Entram juntos na cova. Maria está recostada e tem os olhos fechados. José, sentado numa pedra, apoia o braço na borda da manjedoura e parece guardar o filho. O primeiro pastor avançou e disse, Com estas minhas mãos mungi as minhas ovelhas e recolhi o leite delas. Maria, abrindo os olhos, sorriu. Adiantou-se o segundo pastor e disse, por sua vez, Com estas minhas mãos trabalhei o leite e fabriquei o queijo. Maria acenou com a cabeça e voltou a sorrir. Então, o terceiro pastor chegou-se para diante, num momento pareceu que enchia a cova com a sua grande estatura, e disse, mas não olhava nem o pai nem a mãe da criança nascida, Com estas minhas mãos amassei este pão que te trago, com o fogo que só dentro da terra há o cozi. E Maria soube quem ele era. Como sempre desde que o mundo é mundo, para cada um que nasce, há outro que agoniza. O de agora, falamos do que está à morte, é o rei Herodes, que sofre, além do mais e pior que se dirá, de uma horrível comichão que o põe às portas da loucura, como se as mandíbulas miudinhas e ferozes de cem mil formigas lhe estivessem roendo o corpo, infatigáveis. Depois de terem experimentado, com nenhumas melhoras, quantos bálsamos se usaram até hoje em todo o orbe conhecido, sem exclusão do Egipto e da Índia, os médicos reais, já de cabeça perdida ou, para ser mais exacto, com medo de perdê-la, lançaram-se a compor banhos e mezinhas ao acaso, misturando em água ou óleo quaisquer ervas ou pós de que alguma vez se tivesse dito algum bem, mesmo sendo contrárias as indicações da farmacopeia. O rei, possesso de dor e furor, com a espuma a saltar-lhe da boca como se o tivesse mordido um cão raivoso, ameaça que os fará crucificar a todos se não descobrirem rapidamente remédio suficiente para os seus males, que, como já foi antecipado, não se limitam ao ardor insofrível da pele e também às convulsões que frequentemente o derrubam, o atiram ao chão, fazendo dele um novelo retorcido, agónico, com os olhos a saltarem-lhe das órbitas, as mãos rasgando as vestes, por baixo das quais as formigas, multiplicando-se, prosseguem o devastador trabalho. O pior, o pior verdadeiramente, é a gangrena que se tem manifestado nestes últimos dias, e esse horror sem explicação nem nome de que se fala em segredo no palácio, a saber, os vermes que infestam os órgãos genitais da real pessoa e que, esses sim, a estão devorando em vida. Os gritos de Herodes atroam as salas e as galerias do palácio, os eunucos que o servem directamente não dormem nem descansam, os escravos de nível inferior fogem de encontrar-se no seu caminho. Arrastando um corpo que fede de putrefacção, apesar dos perfumes de que leva embebidas as roupas e ungidos os cabelos pintados, a Herodes só o mantém vivo a fúria. Transportado numa liteira, rodeado de médicos e de guardas armados, percorre o palácio de um extremo a outro à procura de traidores, desde há muito que os vê ou adivinha em toda a parte, e o seu dedo de súbito aponta, pode ser um chefe de eunucos que estava conquistando demasiada influência, ou um fariseu recalcitrante que anda protestando contra os que desobedecem à lei devendo ser os primeiros a respeitá-la, neste caso nem é preciso pronunciar um nome para saber de quem se trata, podem ser ainda os seus próprios filhos Alexandre e Aristóbulo, presos e logo condenados à morte por um tribunal de nobres à pressa convocado para essa sentença e não outra, ora, que outra coisa poderia ter feito este pobre rei se em alucinados sonhos via aqueles maus filhos avançando para ele de espada nua, e se, no mais abominável dos pesadelos, olhava, como num espelho, a sua própria cabeça cortada. Do fim terrível conseguiu livrar-se, agora pode contemplar tranquilamente os cadáveres daqueles que um minuto antes ainda eram herdeiros de um trono, os seus próprios filhos, culpados de

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo conspiração, abuso e arrogância, mortos por estrangulamento. Mas eis agora que um outro pesadelo, vindo das sombras mais profundas do cérebro, o arranca, aos gritos, dos breves e inquietos sonos em que de puro esgotamento cai, quando o seu perturbado espírito lhe faz aparecer o profeta Miqueias, esse que viveu no tempo de Isaías, testemunha daquelas terríveis guerras que os assírios trouxeram a Samaria e a Judeia, e vem clamando contra os ricos e os poderosos, como a profeta compete e ao caso convém. Coberto do pó das batalhas, com a túnica manchada de sangue vivo, Miqueias entra no sonho de rompante, em meio de um estrondo que não pode ser deste mundo, como se empurrasse com mãos relampejantes umas enormes portas de bronze, e anuncia em estentórea voz, O Senhor vai sair da sua morada, vai descer e pisar as alturas da terra, e logo ameaça, Ai dos que planeiam a iniquidade, dos que maquinam o mal em seus leitos, e o executam logo ao amanhecer do dia, porque têm o poder na sua mão, e denuncia, Cobiçam as terras e apoderam-se delas, cobiçam as casas e roubam-nas, fazem violência ao homem e à sua família, ao dono e à sua herança. Depois, em cada noite, de cada vez, tendo dito isto, como a um sinal que só ele pudesse ouvir, Miqueias desaparece como desfeito em fumo. Contudo, o que faz despertar Herodes em ânsias e suores não é tanto o assombro dos proféticos gritos, mas a impressão angustiante de que o seu visitante nocturno se retira no preciso momento em que, parecendo ir dizer algo mais, é o gesto que se levanta, é a boca que se abre, o guardasse para a próxima vez. Ora, qualquer um sabe que este rei Herodes não é homem a quem amedrontem ameaças, se nem remorsos conserva das tantas e tantas mortes que carrega na memória. Lembremos que mandou afogar o irmão da mulher a quem mais amou na vida, Mariame, que fez estrangular o avô dela, e por fim a ela própria, depois de tê-la acusado de adultério. É verdade que depois caiu numa espécie de delírio, em meio do qual chamava por Mariame como se ela estivesse ainda viva, mas curoú-se da insanidade a tempo de descobrir que a sogra, alma doutros manejos anteriores, tramava uma conspiração para derrubá-lo do poder. Em menos que um credo, a perigosa intriguista foi juntarse ao panteão da família a quem Herodes, em má hora para uns e outros, se ligara. Ficaram então ao rei, como herdeiros do trono, os seus três filhos, Alexandre e Aristóbulo, de cujo desgraçado fim já tivemos notícia, e Antipatro, que irá pelo mesmo caminho não tarda. E já agora, pois nem tudo na vida são tragédias e horrores, lembremos que, para o refocilamento e consolo do corpo, dez esposas magníficas em dotes físicos chegou a ter Herodes, sendo porém certo que a estas alturas já de pouco lhe servem, e ele a elas nada. Então, vir agora o irado fantasma de um profeta assombrar as noites do poderoso rei de Judeia e Samaria, de Pereia e Idumeia, de Galileia e Gaulanitide, de Traconitide, Auranitide e Bataneia, o estupendo monarca que de tudo isto é senhor e tudo aquilo fez, igualmente seria nada se não fosse a indefinível ameaça em que o sonho de cada vez se suspende, aquele instante que tendo prometido não deu, e que, por não ter dado, mantém intacta a promessa duma nova ameaça, qual, como, quando. Neste meio-tempo, lá em Belém, por assim dizer paredes meias com o palácio de Herodes, José e a sua família continuavam a viver na cova, pois sendo tão breve a estada prevista não valia a pena andar à procura de casa, tanto mais que o problema da habitação já era, naquela época uma dor de cabeça, com a agravante de não estar ainda inventado o benefício social e usurário do aluguer de quartos. No oitavo dia depois do nascimento, levou José o seu primogénito à sinagoga para ser circuncidado, e ali o sacerdote cortou destramente, com uma faca de pedra e a habilidade de um prático, o prepúcio da chorosa criança, cujo destino, do prepúcio falamos, não do menino, daria por si só um romance, contado a partir deste momento, em que não passa de um pálido anel de pele que apenas sangra, e a sua santificação gloriosa, quando foi papa Pascoal I, no oitavo século desta nossa era. Quem o quiser ver, hoje, não tem mais do que ir à paróquia de Calcata, que está perto de Viterbo, cidade italiana, onde relicariamente se mostra para edificação de crentes empedernidos e desfrute de incréus curiosos. Disse José que seu filho se chamaria Jesus, e assim ficou recenseado nos cadastros de Deus depois de já o ter sido nos registos de César. Não se conformava o infante com a diminuição que acabara de sofrer no seu corpo, sem a contrapartida de um qualquer acrescentamento sensível do espírito, e chorou durante todo aquele santo caminho até à cova onde o esperava a mãe ansiosa, e não é de estranhar, sendo o primeiro, Coitadinho, coitadinho, disse ela, e acto contínuo, abrindo a túnica, deu-lhe de mamar, primeiro o seio esquerdo, supõe-se que por estar mais perto do coração. Jesus, mas ele ainda não pode saber que é este o seu nome, por enquanto não passa de um pequeno ser natural, como o pinto duma galinha, o cachorro duma cadela, o cordeiro duma ovelha, Jesus, dizíamos, suspirou com deliciada satisfação, sentindo na face o suave peso do seio, a humidade da pele ao

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo contacto doutra pele. A boca encheu-se-lhe do sabor adocicado do leite materno, e a ofensa entre as pernas, insuportável antes, tornou-se distante, dissipava-se numa espécie de prazer que nascia e não acabava de nascer, como se o detivesse um limiar, uma porta fechada ou uma proibição. Crescendo, irá esquecer estas sensações primitivas, a ponto de não poder imaginar que as tivesse experimentado, é assim com todos nós, onde quer que tenhamos nascido, de mulher sempre, e seja qual for o destino que nos espera. Se a José ousássemos fazer tal pergunta, indiscrição de que Deus nos livrará, ele responderia que são outras e mais sérias as preocupações de um chefe de família, a braços, doravante, com o problema de alimentar duas bocas, facilidade de expressão a que a evidência do filho mamando directamente da mãe, não retira, no entanto, força e propriedade. Mas é verdade que tem José sérias razões para preocupar-se, e são elas como vai a família viver até que possam regressar a Nazaré, pois Maria saiu debilitada do parto e não estaria em condições de fazer a longa viagem, sem esquecer que ainda terá de esperar que termine o tempo da sua impureza, trinta e três são os dias que deverá ficar no sangue da sua purificação, contados a partir deste em que estamos, o da circuncisão. O dinheiro trazido de Nazaré, que já era pouco, está-se a acabar, e a José é impossível exercer aqui o seu ofício de carpinteiro, se lhe faltam as ferramentas e não tem fundo de maneio para comprar as madeiras. A vida da pobre gente já naquele tempo era difícil e Deus não podia prover a tudo. De dentro da cova veio uma breve e inarticulada queixa, logo interrompida, o sinal de que Maria mudara o filho do seio esquerdo para o seio direito, e o menino, frustrado por um momento, sentira reavivar-se-lhe a dor na parte ofendida. Daqui a pouco, refarto, adormecerá no colo da mãe, e não despertará quando ela, com mil precauções, o entregar ao regaço da manjedoura, como à guarda duma ama carinhosa e fiel. Sentado na entrada da cova, José continua às voltas com os seus pensamentos, a deitar contas à vida, já sabe que em Belém não tem qualquer hipótese, nem sequer como assalariado, que bem o tentara antes, sem resultado, a não ser as palavras do costume, Quando precisar de ajudante, mando-te chamar, são promessas que não enchem a barriga, embora este povo ande a viver delas desde que nasceu. Mil vezes a experiência tem demonstrado, mesmo em pessoas não particularmente dadas à reflexão, que a melhor maneira de chegar a uma boa ideia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor dos seus próprios acasos e inclinações, mas vigiando-o com uma atenção que convém parecer distraída, como se se estivesse a pensar noutra coisa, e de repente salta-se em cima do desprevenido achado como um tigre sobre a presa. Foi desta maneira que as falsas promessas dos mestrescarpinteiros de Belém levaram José a pensar em Deus e nas suas, dele, promessas verdadeiras, e daí ao templo de Jerusalém e às obras que aqui ainda se estavam fazendo, enfim, branco é galinha o pôs, já se sabe que onde haja obras, obreiros em geral se necessitam, pedreiros e canteiros em primeiro lugar, mas também carpinteiros, quanto mais não seja para esquadriar barrotes e aplainar pranchas, primárias operações que estão ao alcance da arte de José. O único defeito que a solução apresenta, supondo que lhe vão dar o emprego, é a distância a que está o local do trabalho, uma boa hora e meia de caminho, ou mais, a andar bem, que de cá para lá tudo são subidas, sem um santo alpinista para ajudar, salvo se levar consigo o burro, mas então terá José para resolver o problema de onde deixar em segurança o animal, que não é por ser esta terra, sobre todas, a preferida de Deus, que acabaram os ladrões nela, não temos mais que recordar o que todas as noites vem dizendo o profeta Miqueias. Cavilando estava José sobre estas complexas questões quando Maria saiu da cova, acabara de dar de mamar ao filho e de aconchegá-lo na manjedoura. Como está Jesus, perguntou o pai, consciente da expressão um tanto ridícula duma pergunta formulada assim, mas incapaz de resistir ao orgulho de ter um filho e poder dar-lhe um nome. O menino está bem, respondeu Maria, para quem o menos importante de tudo ainda era o nome, poderia mesmo chamar-lhe menino toda a sua vida se não tivesse por certo que fatalmente outros filhos hão-de nascer, chamar meninos a todos seria uma confusão como a de Babel. Deixando sair as palavras como se apenas estivesse a pensar em voz alta, maneira de não dar demasiada confiança, José disse, Tenho de dar caminho à vida enquanto cá estivermos, em Belém não se encontra trabalho que preste. Maria não respondeu nem tinha que responder, estava ali apenas para ouvir, e já era muito favor o que o marido lhe fazia. Olhou José o sol, a calcular o tempo de que disporia para ir e voltar, foi dentro da cova a buscar o manto e o alforge, e tornando anunciou, Com Deus me vou e a Deus me confio para que me dê trabalho na sua casa, se para tão grande mercê achar merecimentos em quem nele põe toda a esperança e é honesto artífice. Cruzou a aba direita do manto por cima do ombro esquerdo, acomodou nele o alforge e sem

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo mais palavra meteu pés ao caminho. Em verdade, há horas felizes. Embora as obras do templo levassem já grande adiantamento, ainda havia trabalho para novos contratados, sobretudo se não eram exigentes na hora de combinar a soldada. José passou sem dificuldade as provas de aptidão a que ligeiramente o submeteu um contramestre de carpinteiros, resultado inesperado que nos deveria fazer reflectir se não teremos andado a ser algo injustos nos comentários pejorativos que, desde o princípio deste evangelho, temos feito acerca da competência profissional do pai de Jesus. Foi-se dali o novel trabalhador do templo dando múltiplas graças a Deus, algumas vezes deteve no caminho viandantes que com ele se cruzavam, para pedir-lhes que o acompanhassem nos louvores ao Senhor, e eles, benévolos, satisfaziam-no com grandes sorrisos, que neste povo a alegria de cada um foi quase sempre a alegria de todos, falamos, claro está, de gente miúda como esta. Quando chegou à altura do túmulo de Raquel, ocorreu a José uma ideia que mais lhe terá subido das entranhas do que se criou no cérebro, e foi que esta mulher que tanto desejara outro filho veio a morrer, permita-se a expressão, às mãos dele, e nem tempo teve para conhecê-lo, nenhuma palavra, nenhum olhar, um corpo que se separa doutro corpo, tão indiferente a ele como um fruto que se desprende da árvore. Depois teve um pensamento ainda mais triste, o de os filhos sempre morrerem por causa dos pais que os geraram e das mães que os puseram no mundo, e então teve pena do seu próprio filho, condenado à morte sem culpa. Angustiado, confuso, postado diante do túmulo da esposa mais amada de Jacob, o carpinteiro José deixou cair os braços e pender a cabeça, todo o seu corpo se alagava de um frio suor, e na estrada, agora, não passava ninguém a quem pudesse pedir um auxílio. Compreendeu que pela primeira vez na sua vida duvidava do sentido do mundo, e, como quem renuncia a uma última esperança, disse em voz alta, Vou morrer aqui. Talvez que estas palavras, noutros casos, se fôssemos capazes de pronunciá-las com toda a força e convicção, como se supõe que é a dos suicidas, estas palavras poderiam, sem dor nem lágrimas, abrir-nos, por si sós, a porta por onde se sai do mundo dos vivos, mas o geral dos homens padece de instabilidade emocional, uma alta nuvem o distrai, uma aranha tecendo a sua teia, um cão que persegue uma borboleta, uma galinha que esgaravata a terra e cacareja chamando os filhos, ou algo ainda mais simples, do próprio corpo, como sentir uma comichão na cara e coçá-la, e depois perguntar-se, Em que estava eu a pensar. Foi por isto que de um momento para o outro o túmulo de Raquel se tornou no que era, uma pequena construção caiada, sem janelas, como um dado perdido, esquecido por não fazer falta ao jogo, manchada a pedra que tapa a entrada pelo suor e pela sujidade das mãos dos peregrinos que aqui têm vindo desde os tempos antigos, e ao redor oliveiras que talvez já fossem velhas quando Jacob escolheu este local para última morada da pobre mãe, sacrificando as que foi preciso para despejar o terreno, afinal bem se pode afirmar que o destino existe, o destino de cada um é nas mãos dos outros que está. Então José foi-se dali, mas antes ainda deixou uma bênção, a que lhe pareceu mais própria da ocasião e do lugar, disse ele, Bendito sejas tu, Senhor, nosso Deus e Deus de nossos pais, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob, grande, poderoso e maravilhoso Deus, bendito sejas. Quando entrou na cova, e ainda antes de informar a mulher de que tinha arranjado trabalho, José foi à manjedoura ver o filho, que dormia. Disse consigo mesmo, Morrerá, terá de morrer, e o coração doeu-lhe, mas depois pensou que, segundo a ordem natural das coisas, deverá ser o primeiro a morrer, e que essa morte sua, ao retirá-lo de entre os vivos, ao fazer dele ausência, dará ao filho uma espécie de, como dizer, eternidade limitada, passe a contradição, a eternidade que é continuar ainda por algum tempo mais quando os que conhecemos e amámos já não existem. Não prevenira José o capataz do seu grupo de que só ficaria ali umas poucas semanas, com certeza não mais do que cinco, o tempo de levar o filho ao Templo, purificar-se a mãe e fazer as malas. Tinha-se calado por medo de que não o recebessem, pormenor que mostra não estar o carpinteiro nazareno muito em dia com as relações de trabalho do seu país, provavelmente por se considerar e realmente ser trabalhador por conta própria, portanto distraído das realidades do mundo obreiro, naquele tempo composto, quase exclusivamente, por tarefeiros. Mantinha-se atento à contagem dos dias que faltavam, vinte e quatro, vinte e três, vinte e dois, e, para não se enganar, improvisara um calendário numa das paredes da gruta, dezanove, com uns tantos riscos que ia sucessivamente cortando, dezasseis, perante o pasmo respeitoso de Maria, catorze, treze, que dava graças ao Senhor por lhe ter dado, nove, oito, sete, seis, marido em tudo tão capaz. José tinha-lhe dito, Partimos logo depois de irmos ao Templo, que já me tardam Nazaré e os fregueses que lá deixei, e ela, suavemente, para não parecer que o corrigia, Mas não podemos ir-nos daqui sem

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo agradecer à dona da gruta e à escrava que me assistiu, que quase todos os dias cá vem, a saber como está o menino. José não respondeu, nunca confessaria que não se lembrara de um gesto tão elementar, a prova estava em que a sua primeira intenção fora levar o burro já carregado, pô-lo a guardar durante o tempo dos ritos, e ala para Nazaré, sem perder tempo com agradecimentos e adeuses. Maria tinha razão, seria uma grosseria irem-se dali sem uma palavra, mas a verdade, se em todas as coisas a pobrezinha prevalecesse, obrigá-lo-ia a confessar que em matéria de boa educação estava bastante falto. Durante uma hora, por causa do seu próprio erro, andou irritado com a mulher, sentimento que habitualmente lhe servia para abafar recriminações da consciência. Ficariam, pois, dois ou três dias mais, fariam as suas despedidas em boa e devida forma, com tais e tantas vénias que não ficariam dúvidas nem dívidas, e então, sim, poderiam partir, deixando nos habitantes de Belém a recordação feliz duma família de galileus piedosos, bem-educados e cumpridores do dever, excepção portanto assinalável, se tivermos em conta a fraca opinião que os habitantes de Jerusalém e arredores, no geral, fazem da gente de Galileia. Chegou, enfim, o memorável dia em que o menino Jesus foi levado ao Templo ao colo de sua mãe, cavalgando ela o paciente asno que desde o princípio acompanha e ajuda esta família. José leva o burro pela arreata, tem pressa de chegar, pois não quer perder todo um dia de trabalho, apesar de estar em vésperas de partida. Por essa razão, também, é que tinham saído de casa tão cedo, quando a fresca madrugada ainda estava empurrando com as suas mãos aurorais a última sombra nocturna. O túmulo de Raquel já ficou para trás, tocava-lhe a frontaria, quando por ele passaram, uma ardente cor de romã, nem parecia a mesma parede que a noite opaca torna lívida e a que a lua alta dá uma ameaçadora brancura de ossos ou cobre de sangue ao nascer. Às tantas, o infante Jesus acordou, mas agora a valer, que antes mal abrira os olhos quando sua mãe o enfaixara para a viagem, e pediu alimento com a sua voz de choro, única que ainda tem. Um dia, como qualquer de nós, outras vozes virá a aprender, graças às quais saberá exprimir outras fomes e experimentar outras lágrimas. Já perto de Jerusalém, na íngreme ladeira, a família confundiu-se com a multidão de peregrinos e vendedores que afluíam à cidade, todos parecendo querer ser os primeiros a chegar, mas, por cautela, moderando a pressa e refreando a excitação à vista dos soldados romanos que, aos pares, vigiavam os ajuntamentos, e de um ou outro grupo da tropa mercenária de Herodes, onde se podia encontrar de tudo, recrutas judeus, evidentemente, mas também idumeus, gálatas e trácios, germanos e gauleses, e até babilónios, com a sua fama de habilíssimos arqueiros. José, carpinteiro e homem de paz, combatente dessas pacíficas armas que se chamam plaina e enxó, maço e martelo, ou pregos e cavilhas, tem, para com estes ferrabrases, um sentimento misto, muito de temor, algo de desprezo, que não o deixa ser natural, nem mesmo na simples maneira de olhar. Por isso vai passando de olhos baixos, e é Maria, aquela que sempre está metida em casa, e nestas semanas mais resguardada ainda, oculta numa cova, onde só é visitada por uma escrava, é Maria quem tudo vai olhando em redor, curiosa, com o queixinho levantado de compreensível orgulho, pois leva ali o seu primogénito, ela, uma fraca mulher, mas muito capaz, como se vê, de dar filhos a Deus e a seu marido. Tão irradiante vai em sua felicidade que uns toscos e brutos mercenários gauleses, louros, de grandes bigodes pendentes, armas postas, mas afinal, supõe-se, de tenro coração diante deste renovo do mundo que é uma jovem mãe com o seu primeiro filho, estes guerreiros endurecidos sorriram à passagem da família, com podres dentes sorriram, é certo, mas o que conta é a intenção.

Aí está o Templo. Visto assim de perto, do plano inferior em que estamos, é uma construção que dá vertigens, uma montanha de pedras sobre pedras, algumas que nenhum poder do mundo pareceria ser capaz de aparelhar, levantar, assentar e ajustar, e contudo estão ali, unidas pelo próprio peso, sem argamassa, tão simplesmente como se o mundo fosse todo ele uma construção de armar, até às altíssimas cimalhas que, olhadas de baixo, parecem roçar o céu, como outra e diferente torre de Babel que a protecção de Deus, contudo, não logrará salvar, pois um igual destino a espera, ruína, confusão, sangue derramado, vozes que mil vezes perguntarão, Porquê, imaginando que há uma resposta, e que mais cedo ou mais tarde acabam por calar-se, porque só o silêncio é certo. José foi deixar o asno a guardar num caravançarai de bestas que no tempo da Páscoa e outras festas não teria nem espaço para sacudir-se um camelo as moscas com o rabo, mas que nestes dias, passado o prazo do recenseamento e regressados os viajantes às suas terras, não tinha mais que a sua ocupação normal, neste momento, aliás, bastante diminuída em virtude da hora matutina. Porém, no Pátio dos Gentios,

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo que rodeava, entre o grande quadrilátero das arcadas, o recinto do Templo propriamente dito, havia já uma multidão de gente, cambistas, passarinheiros, marchantes que vendiam borregos e cabritos, peregrinos que sempre vinham por um motivo ou outro, e também muitos estrangeiros aqui trazidos pela curiosidade de conhecer o templo mandado construir pelo rei Herodes, de que em todo o mundo se fala. Mas sendo o pátio o que era, aquela imensidão, alguém que se encontrasse do lado oposto não pareceria maior do que um minúsculo insecto, como se os arquitectos de Herodes, tomando para si o olhar de Deus, tivessem querido sublinhar a insignificância do homem perante o Todo-Poderoso, mormente em se tratando de gentios. Porque os judeus, se não vêm apenas a passear como ociosos, têm no centro do pátio o seu objectivo, o centro do mundo, o umbigo dos umbigos, o santo dos santos. Para lá vão caminhando o carpinteiro e sua mulher, para lá vai sendo levado Jesus, depois de ter seu pai comprado duas rolas a um comissário do Templo, se a designação é apropriada para quem serve o monopólio deste religioso negócio. As pobres avezinhas não sabem ao que vão, embora o cheiro de carne e de penas queimadas que paira no ar não devesse enganar ninguém, sem falar de cheiros muito mais fortes, como o do sangue, ou o da bosta dos bois arrastados para o sacrifício e que de premonitório medo se borram desgraçadamente. José é o que leva as rolas, aconchegadas no côncavo das suas grossas mãos de obreiro, e elas, iludidas, dão-lhe, de pura satisfação, umas bicadas suaves nos dedos, encurvados em forma de gaiola, como se quisessem dizer ao novo dono, Ainda bem que nos compraste, contigo queremos ficar. Maria não dá por nada, agora só para o filho tem olhos, e a pele de José é demasiado dura para sentir e decifrar o morse amoroso do casal de rolinhas. Vão entrar pela Porta da Lenha, uma das treze passagens por onde se chega ao Templo, e que, como todas as outras, tem em proclama uma lápida insculpida em grego e latim, que assim reza, A nenhum gentio é permitido cruzar este limiar e a barreira que rodeia o Templo, aquele que se atrever pagará com a vida. José e Maria entram, entra Jesus levado por eles, e a seu tempo sairão a salvo, mas as rolas, já o sabíamos, vão morrer, é o que quer a lei para reconhecer e confirmar a purificação de Maria. A um espírito voltaireano, irónico e irrespeitoso, se bem que nada original, não escaparia o ensejo de observar que, vistas as coisas, parece ser condição para a manutenção da pureza no mundo existirem nele animais inocentes, rolas ou cordeiros sejam. Sobem José e Maria os catorze degraus por onde se acede, finalmente, à plataforma sobre a qual está levantado o Templo. Aqui é o Pátio das Mulheres, à esquerda está o armazém do azeite e do vinho usados na liturgia, à direita a câmara dos nazireus, que são uns sacerdotes que não pertencem à tribu de Levi e a quem se proíbe cortar o cabelo, beber vinho ou aproximar-se de um cadáver. Em frente, do outro lado, ladeando a porta fronteira a esta, e também à esquerda e à direita, respectivamente, a câmara onde os leprosos que se crêem curados esperam que os sacerdotes vão observá-los e o armazém onde se guarda a lenha, todos os dias inspeccionada porque ao fogo do altar não podem ser levadas madeiras apodrecidas ou bichosas. Maria já não tem muitos mais passos que dar. Ainda subirá os quinze degraus semicirculares que levam à Porta de Nicanor, também Preciosa chamada, mas aí se deterá, porque às mulheres não é permitido entrar no Pátio dos Israelitas, para onde dá a porta. À entrada estão os levitas à espera dos que vêm oferecer sacrifícios, porém neste lugar a atmosfera será tudo menos piedosa, salvo se a piedade era então compreendida doutra maneira, não é só o cheiro e o fumo das gorduras estorricadas, do sangue fresco, do incenso, é também o vozear dos homens, os berros, os balidos, os mugidos dos animais que esperam vez no matadouro, o último e áspero grasnido duma ave que antes soubera cantar. Maria diz ao levita que os atendeu que vem para a purificação e José entrega as rolas. Por um momento, Maria pousa as mãos sobre as avezinhas, será o seu único gesto, e logo o levita e o marido se afastam e desaparecem atrás da porta. Não se moverá Maria dali até que José regresse, apenas se aparta a um lado para não obstruir a passagem, e, com o filho nos braços, espera. Lá dentro é uma forja, um talho e um matadouro. Em cima de duas grandes mesas de pedra preparam-se as vítimas de maiores dimensões, os bois e os vitelos, sobre tudo, mas também carneiros e ovelhas, cabras e bodes. Perto das mesas encontram-se uns altos pilares onde se dependuram, em ganchos chumbados na pedra, as carcaças das reses, e vê-se a frenética actividade do arsenal dos açougues, as facas, os cutelos, os machados, os serrotes, a atmosfera está carregada dos fumos da lenha e dos coiratos queimados, de vapor de sangue e de suor, uma alma qualquer, que nem precisará ser santa, das vulgares, terá dificuldade em entender como poderá Deus sentir-se feliz em meio de tal carnificina, sendo, como diz que é, pai comum dos homens e das bestas. José tem de ficar do lado de fora da balaustrada que

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo separa o Pátio dos Israelitas do Pátio dos Sacerdotes, mas pode olhar à vontade, donde está, o Grande Altar, com mais de quatro vezes a altura de um homem, e ao fundo o Templo, enfim falamos do autêntico, porque isto aqui é como aquelas caixas abissais que nesta época já se fabricam na China, umas dentro de outras, avistamos de longe e dizemos, O Templo, quando entramos no Pátio dos Gentios tornamos a dizer, O Templo, e agora o carpinteiro José, apoiado à balaustrada, olha e diz, O Templo, e é ele quem tem razão, ali está a larga fachada com as suas quatro colunas embebidas na parede, com os seus capitéis festoados de folhas de acanto, à moda grega, e o altíssimo vão de porta, sem porta material, porém, para chegar lá dentro, onde habita Deus, Templo dos Templos, seria preciso contrariar todas as proibições, passar o Lugar Santo, chamado Hereal, e, enfim, entrar no Debir, que é, final e derradeira caixa, o Santo dos Santos, essa terrível câmara de pedra, vazia como o universo, sem janelas, onde a luz do dia não entrou nunca nem entrará, salvo quando soar a hora da destruição e da ruína e todas as pedras se parecerem umas com as outras. Deus é tanto mais Deus quanto mais inacessível for, e José não passa de pai de um menino judeu entre os meninos judeus, que vai ver morrer duas rolas inocentes, o pai, não o filho, que esse, inocente também, ficou ao colo da mãe, imaginando, se tanto pode, que o mundo será sempre assim. Junto ao altar, feito de grandes pedras em tosco, que nenhuma ferramenta metálica tocou desde que foram arrancadas da pedreira até virem ocupar o seu lugar na gigantesca construção, um sacerdote, descalço, vestido com uma túnica de linho, espera que o levita lhe entregue as rolas. Recebe a primeira, leva-a até uma esquina do altar e aí, de um só golpe, separa-lhe a cabeça do corpo. O sangue esguicha. O sacerdote esparge com ele a parte inferior do altar, e vai depois colocar a ave degolada num escoadouro onde acabará de dessangrar-se, e aonde, acabado o turno de serviço, irá buscá-la, pois passou a pertencer-lhe. A outra rola gozará da dignidade do sacrifício completo, o que significa que será queimada. O sacerdote sobe a rampa que leva ao cimo do altar, onde arde o fogo sagrado, e, sobre a cornija, na segunda esquina do mesmo lado, sudeste esta, sudoeste a primeira, descabeça a ave, rega com o sangue o chão da plataforma, em cujos cantos se erguem ornamentos como cornos de carneiro, e arranca-lhe as vísceras. Ninguém dá atenção ao que se passa, é apenas uma pequena morte. José, de cabeça levantada, quereria perceber, identificar, entre o fumo geral e os cheiros gerais, o fumo e o cheiro do seu sacrifício, quando o sacerdote, depois de salgar a cabeça e o corpo da ave, os atirar à fogueira. Mal pode ter a certeza. Ardendo entre as labaredas revoltas, atiçadas pela gordura, o corpinho esventrado e flácido da rola não enche a cova de um dente de Deus. E em baixo, onde a rampa começa, já estão três sacerdotes à espera. Um bezerro cai fulminado pela choupa, meu Deus, meu Deus, que frágeis nos fizeste e que fácil é morrer. José já não tem mais que fazer ali, deve retirar-se, levar a mulher e o filho. Maria está outra vez limpa, de verdadeira pureza não se fala, evidentemente, que a tanto não poderão aspirar os seres humanos em geral e as mulheres em particular, foi o caso que com o tempo e o recolhimento se lhe normalizaram os fluxos e os humores, tudo voltou ao que era antes, a diferença é haver duas rolas a menos no mundo e um menino mais que as fez morrer. Saíram do Templo pela porta por onde tinham entrado, José foi recolher o burro, e enquanto Maria, ajudandose numa pedra, se acomodava em cima do animal, o pai segurou no filho, já algumas vezes acontecera, mas agora, talvez por causa daquela rola a que vira arrancar as entranhas, tardou em restituí-lo à mãe, como se pensasse que nenhuns braços poderiam defendê-lo melhor do que os seus. Acompanhou a família à porta da cidade e depois voltou para o Templo, para o trabalho. Virá ainda amanhã, a fim de perfazer a semana, mas depois, louvado seja por toda a eternidade o poder de Deus, que nem mais um instante se perca, regressarão a Nazaré. Nessa mesma noite, o profeta Miqueias disse o que até então andara a calar. Quando o rei Herodes, nos seus agónicos mas já resignados sonhos, esperava que a aparição se fosse embora depois dos clamores costumados, tornados inócuos pela repetição, deixando no último instante à flor dos lábios, uma vez mais, a ameaça suspensa, cresceu de súbito o vulto formidável e palavras novas foram ouvidas, Mas tu, Belém, tão pequena entre as famílias de Judá, foi já de ti que me saiu aquele que governará Israel. Neste preciso momento, o rei acordou. Como o som da corda mais extensa da harpa, as palavras do profeta continuavam a ressoar no quarto. Herodes permaneceu de olhos abertos, procurando descobrir o sentido último da revelação, se o havia, a tal ponto absorto no pensamento que mal sentia as formigas que o roíam por baixo da pele e os vermes que se babavam sobre as suas últimas fibras íntimas e as apodreciam. A profecia não era novidade, conhecia-a como qualquer judeu, mas nunca perdera tempo a preocupar-se

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo com anúncios de profetas, a ele bastavam-lhe as conspirações de portas adentro. O que o perturbava, agora, era uma inquietação indefinida, uma sensação de angustiadora estranheza, como se as palavras ouvidas fossem, ao mesmo tempo, elas próprias e outras, e escondessem, numa breve sílaba, numa simples partícula, num rápido som, qualquer urgente e temível ameaça. Tentou afastar a obsessão, voltar a adormecer, mas o corpo recusava-se e abria-se às dores, retalhado até às entranhas, pensar era como uma protecção. De olhos fitos nas traves do tecto, cujos ornamentos o clarão de duas tochas odoríferas, amortecido por guarda-fogos, parecia agitar, o rei Herodes procurava a resposta e não a achava. Então gritou pelo chefe dos eunucos que lhe guardavam o sono e a vigília e ordenou que viesse à sua presença, Sem tardar, disse, um sacerdote do Templo, e que trouxesse com ele o Livro de Miqueias. Entre ir e voltar, do palácio ao Templo, do Templo ao palácio, passou quase uma hora. A madrugada principiava a clarear quando o sacerdote entrou na câmara. Lê, disse o rei, e ele começou, Palavra do Senhor, que foi dirigida a Miqueias de Moreset, nos dias de Joatão, de Acaz e de Ezequias, reis de Judá. Continuou a ler, até que Herodes disse, Adiante, e o sacerdote, confundido, sem compreender por que o tinham chamado, saltou para outra passagem, Ai dos que planeiam a iniquidade, dos que maquinam o mal em seus leitos, mas neste ponto interrompeu-se, aterrado com a involuntária imprudência, e, atropelando as palavras, como se pretendesse fazer esquecer o que dissera, prosseguiu, Acontecerá no fim dos tempos, o monte da casa do Senhor será estabelecido no cimo dos montes e se elevará sobre as colinas, Adiante, rosnou Herodes, impaciente pela demora em chegar à passagem que lhe interessava, e o sacerdote, enfim, Mas tu, Belém, tão pequena entre as famílias de Judá, é de ti que me há-de sair aquele que governará em Israel. Herodes levantou a mão, Repete, disse, e o sacerdote obedeceu, Outra vez, e o sacerdote tornou a ler, Basta, disse o rei depois de um longo silêncio, retira-te. Tudo se explicava agora, o livro anunciava um nascimento futuro, só isso, ao passo que a aparição de Miqueias viera dizer-lhe que esse nascimento já ocorrera, De ti me saiu, palavras muito claras, como são todas as dos profetas, mesmo quando ainda as andamos interpretando mal. Herodes pensou, tornou a pensar, foi-se-lhe tornando o semblante mais e mais carregado, por fim assustador, depois mandou chamar o comandante da guarda e deu-lhe uma ordem para executar imediatamente. Quando o comandante regressou, Missão cumprida, deu-lhe outra ordem, mas esta para o dia seguinte, daqui a poucas horas. Não será preciso, portanto, esperar muito tempo para sabermos de que se trata, sendo certo, porém, que o sacerdote não chegou a viver este pouco porque o mataram uns brutos soldados antes de chegar ao Templo. Sobram razões para crer que tenha sido essa, precisamente, a primeira das duas ordens, tão próximos se encontram a causa provável e o efeito necessário. Quanto ao Livro de Miqueias, desapareceu, imagine-se a perda que seria se se tratasse de exemplar único.

Carpinteiro entre os carpinteiros, José acabara de comer o seu farnel, ainda lhes ficava um tempo, a ele e aos companheiros, antes que o manajeiro desse sinal de repegar o trabalho, podia continuar sentado, ou mesmo deitar-se, fechar os olhos e entregar-se à comprazida contemplação de pensamentos bons, imaginar que ia estrada fora, no interior profundo dos montes de Samaria, ou melhor ainda, olhando de uma altura a sua aldeia de Nazaré, por que tanto suspirara. Rejubilava em sua alma, e a si mesmo dizia que este era, finalmente chegado, o derradeiro dia da longa separação, que amanhã, logo à primeira hora, quando, apagadas as últimas cintilações dos astros, apenas brilhar no céu a estrela Boieira, porá pés ao caminho, cantando louvores ao Senhor que nos guarda a casa e guia os passos. Abriu de repente os olhos, sobressaltado, crendo que se deixara adormecer e não ouvira o sinal, mas fora apenas uma breve sonolência, os companheiros estavam ali todos, uns conversando, dormitando outros, e o manajeiro tranquilo, como se tivesse resolvido dar feriado aos seus operários e não pensasse arrepender-se da generosidade. O sol está no zénite, um vento forte, de rajadas curtas, empurra para o outro lado a fumarada dos sacrifícios, e a este lugar, um rebaixo que dá para as obras do hipódromo, nem sequer chega o aranzel das vozes dos mercadores do Templo, é como se a máquina do tempo tivesse parado e ficado, também ela, à espera da ordem do grande manajeiro das eras e dos espaços universais. De súbito, José sentiu-se inquieto, ele que tão feliz estava um momento antes. Passeou os olhos em redor, e era a mesma e conhecida vista do estaleiro a que se tinha habituado nestas semanas, as pedras e as madeiras, a moinha branca e áspera das cantarias, a serradura que mesmo ao sol nunca chegava a secar por completo, e, imerso na confusão duma

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo

sabe por que nos mandam matar os meninos de Belém, perguntou um soldado, O chefe não me

repentina e opressiva angústia, querendo encontrar uma explicação para tão decaído estado de ânimo, pensou que podia tratar-se do natural sentimento de quem vai ser obrigado a deixar obra em meio, mesmo não sendo ela sua e tendo para partir tão bons motivos. Levantou-se, deitando contas ao tempo de que poderia dispor, o manajeiro nem sequer virou a cabeça para ele, e decidiu dar uma rápida volta pela parte da construção em que tinha trabalhado, a despedir-se, por assim dizer, das tábuas que alisara, das traves que regulara, se tal identificação era possível, qual é a abelha que pode dizer, Este mel fi-lo eu. No fim do breve passeio, quando já estava voltando ao dever, parou um momento a contemplar a cidade que se levantava na encosta fronteira, toda construída em degraus, com a sua cor de pedra tostada que era como a cor do pão, de certeza que o manajeiro já chamara, mas José agora não tinha pressa, olhava a cidade e esperava não sabia o quê. Passou tempo e nada aconteceu, José murmurou, no tom de quem desiste de algo, Bom, tenho de ir, e nesse momento ouviu vozes que vinham de um caminho abaixo do local onde se encontrava, e, inclinando-se sobre o muro de pedra que o separava dele, viu que eram três soldados. Decerto tinham vindo andando por aquele caminho, mas agora estavam parados, dois deles, com o coto da lança no chão, escutavam o terceiro, que era mais velho e provavelmente superior hierárquico deles, embora perceber a diferença não fosse fácil a quem não tivesse informação sobre o desenho, número e disposição das divisas, na sua forma habitual de estrelas, barras ou cantoneiras. As palavras cujo som chegara aos ouvidos de José de uma maneira confusa deviam ter sido qualquer pergunta, por exemplo, E a que horas vai ser isso, uma vez que o subalterno dizia, agora muito claramente e no tom de quem responde, Ao princípio da hora terça, quando já toda a gente está recolhida, e um dos dois perguntou, Quantos vamos, Ainda não sei, mas seremos os suficientes para cercar a aldeia, E então a ordem é matá-los a todos, A todos não, só aqueles que tiverem menos de três anos, Entre dois e quatro anos vai ser difícil saber à justa que idade têm, E isso vai dar quantos, quis saber o segundo soldado, Pelo censo, disse o chefe que devem ser aí uns vinte e cinco. José arregalava os olhos, como se a completa compreensão do que ouvia pudesse entrar por eles, mais do que pelos ouvidos, o corpo arrepiava-se-lhe todo, pelo menos era patente e claro que aqueles soldados falavam de ir matar pessoas, Pessoas, que pessoas, interrogava-se a si mesmo, desorientado, aflito, não, não eram pessoas, ou sim, pessoas eram, mas crianças, Os que tiverem menos de três anos, tinha dito o cabo, ou talvez fosse sargento ou furriel, e onde, onde vai isto ser, José não podia debruçar-se do muro e perguntar, A guerra é onde ó rapazes, agora estava banhado em suor, tremiam-lhe as pernas, foi então que se tornou a ouvir a voz do subalterno e o tom era ao mesmo tempo sério e de alívio, Sorte dos nossos filhos e nossa, que não vivemos em Belém, E já se disse, cuido que ele próprio não sabe, é ordem do rei, e basta. O outro soldado, riscando o chão com o coto da lança, como o destino que parte e reparte, disse, Muito desgraçados somos nós, que não nos chega praticarmos a parte de mal que nos coube por natureza, e ainda temos de ser braço da maldade de outros e do seu poder. Estas palavras já não foram ouvidas por José, que se afastara do seu providencial palanque, primeiro de mansinho, pé ante pé, logo numa louca corrida, saltando as pedras como um cabrito, em ânsias, razão por que, faltando o seu testemunho, seja lícito duvidar da autenticidade da filosófica reflexão, quer quanto ao fundo quer quanto à forma, tendo em conta a mais do que óbvia contradição entre a notável propriedade dos conceitos e a ínfima condição social de quem os teria produzido. Desvairado, atropelando agora quem lhe aparecesse por diante, derrubando tabuleiros de grutas e gaiolas de pássaros, até a mesa de um cambista, quase sem ouvir os gritos furiosos dos vendilhões do Templo, José não tem outro pensamento que irem matar-lhe o filho, e nem sabe porquê, dramática situação, este homem deu a vida a uma criança, outro lha quer tirar, e tanto vale uma vontade como a outra, fazer e desfazer, atar e desatar, criar e suprimir. De súbito pára, apercebe-se do perigo se continuar nesta correria desabalada, aparecem por aí os guardas do Templo e prendem-no, sorte inexplicável foi ainda não terem dado pelo tumulto. Então, disfarçando o melhor que podia, como piolho que se acolhe à protecção da costura, insinuou-se pelo meio da multidão, e num instante tornou-se anónimo, a diferença era apenas que caminhava um pouco mais depressa, mas isso, no meio do labirinto de gente, mal se notava. Sabe que não deve correr enquanto não chegar à porta da cidade, mas angustia-o o pensamento de que os soldados poderão ir já a caminho, armados terrivelmente de lança, punhal e ódio sem causa, e se por desgraça é a cavalo que vão, trotando estrada abaixo como de passeio, então não há quem os alcance, quando chegar estará o meu filho

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo morto, infeliz menino, Jesus da minha alma, ora é neste momento da mais sentida aflição que um pensamento estúpido entra como um insulto na cabeça de José, o salário, o salário da semana que vai ser obrigado a perder, e é tanto o poder destas vis coisas materiais que o acelerado passo, não indo ao ponto de deter-se, um tudo-nada se lhe retarda, como a dar tempo ao espírito de ponderar as probabilidades de reunir ambos os proveitos, por assim dizer, a bolsa e a vida. Foi tão subtil a mesquinha ideia, como uma luz velocíssima que surgisse e desaparecesse sem deixar memória imperativa duma imagem definida, que José nem vergonha chegou a sentir, esse sentimento que é, quantas vezes, porém não as suficientes, nosso mais eficaz anjo-da-guarda. José sai finalmente da cidade, a estrada em frente está livre de soldados até ao mais longe que a vista alcança, e não se notam sinais de agitação popular nesta saída, como certamente aconteceria se tivesse havido ali parada militar, mas o indício mais seguro ainda é o que lhe dão as crianças, jogando os seus jogos inocentes, sem mostra da excitação bélica que delas se apodera quando bandeira, tambor e clarim desfilam, e aquele ancestral costume de irem com a tropa, se os soldados tivessem passado não se veria aqui um só garoto, pelo menos escoltariam o destacamento até à primeira curva, acaso um deles, de mais forte vocação castrense, os decidiria acompanhar até ao objectivo da missão, e assim ficaria a conhecer o que o espera no futuro, matar e ser morto. Agora José já pode correr, e corre, corre, aproveita o declive tanto quanto lho permite a travação da túnica, apesar de a levar levantada até aos joelhos, mas, como num sonho, tem a sensação angustiante de que as pernas não são capazes de acompanhar o impulso da parte superior do corpo, coração, cabeça e olhos, mãos que querem proteger e tanto tardam. Há quem pare na estrada para olhar, escandalizado, a alucinada corrida, na verdade chocante, pois este povo cultiva, em geral, a dignidade da expressão e a compostura do porte, a única justificação que José tem não é ir a salvar o filho, mas ser galileu, dessa gente grosseira, sem educação, como por mais de uma vez foi dito. Já passa em frente do túmulo de Raquel, nunca esta mulher pensou vir a ter tantas razões para chorar os filhos, cobrir de gritos e clamores as pardas colinas ao redor, arranhar-se a cara, ou os ossos dela, arrancar-se os cabelos, ou ferir o desnudo crânio. Agora, José, antes mesmo das primeiras casas de Belém, deixa a estrada e mete-se campo adentro, a corta-mato, Vou pelo caminho mais curto, eis o que responderá se quisermos saber o motivo desta novidade, e realmente talvez o seja, mas não é de certeza o mais cómodo. Evitando encontros com gente que trabalhava no campo, cosendo-se com as pedras para que não o vissem os pastores, José teve de fazer um largo rodeio para chegar à cova onde a mulher o não espera a esta hora e o filho nem a esta nem a outra, porque está dormindo. A meio da encosta da última colina, tendo já diante de si a negra fenda da gruta, José é assaltado por um terrível pensamento, o de que a mulher está na aldeia e tem o filho consigo, é o mais natural, sendo as mulheres como são, aproveitou estar só para despedir-se com vagar da escrava Zelomi e de algumas mães de família com quem se dera mais durante estas semanas, a José competiria agradecer formalmente aos donos da cova. Por um instante, viu-se correr pelas ruas da aldeia, batendo às portas, Está cá a minha mulher, seria ridículo dizer, Está cá o meu filho, e perante a sua aflição alguém lhe perguntaria, por exemplo, uma mulher com o filho ao colo, Há alguma novidade, e ele, Que não, novidade nenhuma, é que partimos amanhã cedo e temos de fazer as malas. Vista daqui, a aldeia, com as suas casas iguais, as açoteias rasas, lembra o estaleiro do Templo, pedras dispersas à espera de que venham os operários colocá-las umas sobre as outras e com elas erguer uma torre para a vigia, um obelisco para o triunfo, um muro para as lamentações. Um cão ladrou longe, outros lhe responderam, mas o cálido silêncio da última hora da tarde ainda paira sobre a aldeia como uma bênção esquecida, quase a perder a sua virtude, o mesmo que um fiapo de nuvem que se esvai. A paragem mal durou o tempo de dizê-la. Numa última corrida o carpinteiro chegou à entrada da gruta, chamou, Maria, estás aí, e ela respondeu-lhe de dentro, foi neste momento que José percebeu quanto lhe tremiam as pernas, do esforço feito, sem dúvida, mas também, agora, do choque de saber que o filho estava a salvo. Dentro, Maria cortava verduras para a ceia, o menino dormia na manjedoura. Sem forças, José ainda se deixou cair no chão, mas levantou-se logo, dizendo, Vamo-nos embora, vamo-nos embora, e Maria olhou-o sem perceber, Que nos vamos embora, perguntou, e ele, Sim, agora mesmo, Mas tu tinhas dito, Cala-te e enrola as coisas, enquanto arreio o burro, Não ceamos primeiro, Cearemos no caminho, Não tarda que seja noite, vamo-nos perder, então José deu um grito, Cala-te, já disse, e faz o que te mando. Saltaram as lágrimas a Maria, era a primeira vez que o marido lhe levantava a voz, e sem mais palavra começou a arrumar e embalar

José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo os poucos haveres, Depressa, depressa, repetia ele, ao tempo que punha a albarda no burro e apertava a cilha, depois, ao acaso, enchia os seirões com o que apanhava à mão, misturando tudo, perante o assombro de Maria, que não reconhecia o seu marido. Já estavam em pé de marcha, não faltava mais que cobrir de terra o lume e sair, quando José, tendo feito sinal à mulher para que não viesse com ele, se aproximou da entrada da gruta e espreitou para fora. Um crepúsculo cinzento confundia o céu com a terra. O sol ainda não se pusera, mas a névoa espessa, se estava bastante alta para não prejudicar a visão dos campos em redor, impedia que a luz se espalhasse. José apurou o ouvido, deu alguns passos, e de repente eriçaram-se-lhe de pavor os cabelos, alguém gritara na aldeia, um grito agudíssimo que nem parecera de uma voz humana, e logo depois, ainda os ecos pareciam ressoar de colina a colina, um clamor de novos gritos e prantos encheu a atmosfera, não eram os anjos chorando sobre a desgraça dos homens, eram os homens enlouquecendo debaixo de um céu vazio. Devagar, como se temesse que o ouvissem, José recuou para a entrada da cova, esbarrando com Maria que não acatara a ordem. Toda ela tremia, Que gritos são aqueles, perguntou, mas o marido não lhe respondeu, empurrou-a para dentro e, em movimentos rápidos, começou a lançar terra sobre a fogueira. Que gritos eram aqueles, tornou a perguntar Maria, invisível na escuridão, e José respondeu, depois de um silêncio, Estão a matar gente. Fez uma pausa e acrescentou, como em segredo, Crianças, por ordem de Herodes, a voz quebrou-se num soluço seco, Por isso quis que partíssemos. Ouviu-se um rumor de panos e de palha mexida, Maria levantava o filho da manjedoura e apertava-o ao peito, Jesus, que te querem matar, a última palavra afogaram-na as lágrimas, Cala-te, disse José, não faças rumor, pode ser que os soldados não venham aqui, a ordem é para matar as crianças de Belém com menos de três anos, Como soubeste, Ouvi dizer no Templo, por isso vim a correr para aqui, E agora, que fazemos, Estamos fora da aldeia, não é natural que os soldados venham passar revista a todas estas covas, a ordem deve ter sido só para ir às casas, que ninguém nos denuncie e salvamo-nos. Saiu outra vez a espreitar, assomando apenas, os gritos tinham cessado, não se ouvia mais que um coro choroso que ia diminuindo pouco a pouco, a matança dos inocentes terminara. O céu continuava tapado, a noite principiada e a névoa alta tinham feito desaparecer Belém do horizonte dos habitantes celestes. José disse para dentro, Não saias daqui, vou até à estrada ver se os soldados já se foram embora, Tem cuidado, disse Maria, e não se lembrou de que o marido não corria qualquer perigo, a morte era para crianças com menos de três anos, a não ser que alguém que tivesse ido à estrada com o mesmo fim o denunciasse, dizendo, Esse é o carpinteiro José, pai dum rapaz que ainda não tem dois meses, e chama-se Jesus, talvez seja ele o da profecia, que dos nossos filhos nunca lemos ou ouvimos que estivessem destinados a realezas, e agora ainda menos, que estão mortos. No interior da cova o negrume podia-se palpar. Maria tinha medo da escuridão, habituara-se desde criança à presença contínua duma luz na casa, da fogueira ou da candeia, ou ambas, e a sensação, agora mais ameaçadora, por se encontrar no interior da terra, de que uns dedos de treva lhe vinham tocar a boca, apavorava-a. Não queria desobedecer ao marido nem expor o filho à possível morte, saindo da caverna, mas, segundo a segundo, o medo crescia dentro de si e não tardaria a rebentar as precárias defesas do bom senso, não servia de nada pensar, Se não havia coisas no ar antes de se apagar a fogueira, agora também não há, enfim, de algo serviu tê-lo pensado, às apalpadelas pousou o filho na manjedoura, e depois, rastejando com mil cuidados, procurou o sítio da fogueira, com uma acha afastou a terra que a cobria até fazer aparecer algumas brasas que ainda não tinham sido apagadas, e nesse momento todo o medo lhe desapareceu do espírito, viera-lhe à memória a terra luminosa, a mesma luz trémula e palpitante percorrida por rápidas fulgurações como um archote correndo sobre a crista de um monte. A imagem do mendigo surgiu e desapareceu logo, afastada pela urgência maior de fazer luz suficiente na cova aterradora. Maria, tenteando, foi à manjedoura buscar um punhado de palha, voltou guiada pelo pálido luzeiro do chão, e daí a um momento, resguardada num recanto que a escondia de quem de fora olhasse, a candeia iluminava as paredes próximas da caverna com uma desmaiada aura, evanescente, mas tranquilizadora. Maria chegou-se ao filho que continuava a dormir, indiferente a medos, agitações e mortes violentas, e, com ele ao colo, foi sentar-se ao pé da candeia, à espera. Decorreu algum tempo, o filho acordou, porém sem abrir de todo os olhos, fez uma súbita cara de choro que Maria, já madre sabedora, deteve com o simples gesto de abrir a túnica e oferecer o peito à boca sôfrega da criança. Assim estavam os dois quando se ouviram passos fora. No primeiro instante, pareceu a Maria que o coração se lhe parava, Serão os soldados, mas eram passos de uma só

(Parte 1 de 2)

Comentários