Farmacocinética - Aula 02

Farmacocinética - Aula 02

ABSORÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DOS MEDICAMENTOS

FARMACOCINÉTICA

Odontologia - 3º período - Farmacologia

Aula nº2 - Profª.: Maria do Carmo

20/06/06

ABSORÇÃO DE FÁRMACOS

O processo de absorção tem por finalidade transferir o fármaco do local onde é administrado para os fluidos circulantes, representados especialmente pelo sangue. Por exemplo, um fármaco injetado no músculo terá que se difundir a partir do local de injeção e atravessar o endotélio dos vasos sangüíneos mais próximos, para alcançar a circulação sistêmica e, portanto, ser absorvido. A importância deste processo de absorção reside essencialmente, na determinação do período entre a administração do fármaco e o aparecimento do efeito farmacológico (tempo de latência), bem como na determinação das doses e escolha da via de administração do medicamento.

FATORES QUE INTERFEREM NA ABSORÇÃO DE FÁRMACOS:

Solubilidade – Independente do local de administração, em solução aquosa, os fármacos são absorvidos mais rapidamente do que aqueles administrados em solução oleosa, suspensão ou forma sólida, porque se misturam mais prontamente à fase aquosa no local da absorção. Deste modo, podemos dizer que quanto maior a lipossolubilidade de um fármaco melhor será seu processo de absorção, pois a droga facilmente atravessa a membrana, indo para a barreira hematoencefálica e daí para o SNC. Ex: Tiopental (droga muito lipossolúvel que quando aplicado por via intravenosa, apresenta tempo de latência igual a 30 segundos).

Área de absorção – corresponde à área a qual o fármaco é exposto e representa um dos principais determinantes da velocidade de absorção. Em superfícies com grandes áreas, o fármaco é absorvido com maior rapidez. A via intraperitoneal, por exemplo, é a via que apresenta o menor tempo de latência em relação a intramuscular e subcutânea. Uma vez que estas têm menor área de absorção e menor vascularização. A superfície absortiva é determinada em grande parte pela via de administração.

Circulação no local de administração-- também afeta a absorção do fármaco. O aumento do fluxo sangüíneo, determinado por massagens, ou aplicação local de calor, potencializa a velocidade de absorção do fármaco. Por outro lado a diminuição do fluxo sangüíneo determinado por vasoconstritores, choque ou outros fatores patológicos pode retardar a absorção.

pH do sítio de absorção e pKa do fármaco – As drogas possuem uma característica específica que é o pKa (é a constante da droga). O pKa do Tiopental é de 7,4, coincidindo com o pH do nosso plasma (7,4). Quando a droga se encontra no pH semelhante ao pKa, ela está 50% na forma iônica e 50% na forma molecular. Quanto mais ácido for o pH onde a droga ácida se encontra, a forma molecular aumenta cada vez mais. A regra geral é a seguinte: As drogas ácidas são favorecidas, em relação a sua absorção, no pH ácido e sua eliminação é favorecida num pH básico. Ocorre o inverso para as drogas básicas, onde sua absorção é favorecida em pH básico e sua eliminação em pH ácido. A cocaína é uma droga básica que quando associada ao bicarbonato de sódio, resulta em outra droga – Crack – que provoca uma dependência bem maior, porque a absorção da cocaína fica facilitada pela alcalinização do meio, provocada pelo bicarbonato de sódio. Quando um indivíduo se encontra com uma intoxicação por ácido, a conduta imediata é usar bicarbonato de sódio para dificultar a absorção do ácido, porque o ácido em pH básico vai ficar mais na forma iônica. Desse modo, ele não consegue atravessar as barreiras biológicas. Quanto maior o pKa da droga ácida, mais fraco é o ácido. Quanto menor o pKa da droga ácida, mais forte é o ácido. Quanto maior o pKa da droga básica, mais forte é a base. Quanto menor o pKa da droga básica, mais fraca é a base. Normalmente são utilizadas bases e ácidos fracos, porque a absorção é facilitada pelo pH do trato gastrintestinal ou do corpo. Ácidos que apresentam menor pKa apresentam mais dificuldade em sua absorção. Base com pKa elevado é base forte e é pouco absorvida. Base com pKa baixo tem absorção mais facilitada.

Interação com alimentos – Pode formar complexos insolúveis com a substância ativa, o que diminuiria sua absorção. Normalmente a presença de alimentos dificulta a desintegração de formas farmacêuticas sólidas, diminuindo a velocidade de dissolução e influenciando o processo de absorção (diminuindo a velocidade).

Ex: ingerir álcool com o estômago vazio potencializa o efeito da droga. Outro exemplo é a interação da tetraciclina com o leite, onde o Ca++ retém a tetraciclina que se impregna no tecido ósseo.

Variabilidade biológica -- é um fator interferente da absorção e, consequentemente no efeito terapêutico dos fármacos; "ela desafia a mais precisa previsão físico-química". Para os fármacos administrados por via oral, em formas farmacêuticas sólidas, como os comprimidos, podem ser citados fatores fisiológicos ligados ao TGI que influenciam no processo de absorção de fármacos.

Esvaziamento gástrico -- O aumento da motilidade intestinal diminui o tempo disponível para absorção do fármaco. Apesar da teoria de partição, a maioria dos fármacos são absorvidos no intestino, devido ao maior tempo de permanência do fármaco neste órgão, em comparação ao estômago e, principalmente devido a ampla superfície de absorção deste órgão que é, aproximadamente, 200 vezes maior que a do estômago; ácidos fracos, são absorvidos na primeira porção do intestino onde o pH é de aproximadamente 4,5-5,0. O ritmo de esvaziamento gástrico pode ser alterado por : nervosismo, hiperacidez, tipo de alimento presente e presença de outros fármacos.

Biodisponibilidade – É a quantidade de droga aplicada que chega no seu local de ação e que apresenta uma resposta farmacológica.

Bioequivalência – Fármacos que são fabricados por laboratórios diferentes, com a mesma composição, que apresentam a mesma biodisponibilidade. Ex: medicamento de marca e medicamento genérico tem a mesma biodisponibilidade e bioequivalência.

DISTRIBUIÇÃO DE FÁRMACOS NO ORGANISMO

O termo distribuição se refere à transferência reversível do fármaco de um local a outro dentro do organismo, ou seja, é a passagem da droga do sangue para os tecidos. Depois de absorvido ou injetado na corrente sangüínea o fármaco pode distribuir-se para os líquidos intersticial e celular. Os fármacos se distribuem mais rapidamente em tecidos altamente perfundidos, como o pulmão; o contrário ocorre nos de baixa perfusão, como o músculo em repouso.

FATORES QUE INTERFEREM NA DISTRIBUIÇÃO DE FÁRMACOS:

Ritmo de fluxo sanguíneo tecidual – A droga, que já se encontra no plasma, sofre distribuição e primeiramente chega onde tiver maior fluxo sanguíneo. O coração é um dos lugares aonde a droga chega em primeira estância. Quando ocorre inicialmente a distribuição, a concentração dessa droga no sangue diminui, tendendo o sangue a chamar a droga de volta para tentar promover o equilíbrio. Na primeira distribuição, a droga vai para os tecidos mais irrigados. Quando a concentração da droga cai no sangue, ela tende a voltar e vai para os órgãos de menor fluxo sanguíneo, um desses órgãos é o tecido adiposo (segunda fase da distribuição ou redistribuição).

O Tiopental, por exemplo, quando aplicado por via intravenosa, vai direto ao SNC. No sangue, liga-se aos receptores provocando o efeito da anestesia. Só que a afinidade do Tiopental por esses receptores é muito baixa. Quanto mais baixa for a afinidade por receptor, mais rapidamente ela volta ao sangue, indo para onde tiver o menor fluxo – tecido adiposo – e nesse tecido ele tem uma afinidade muito grande. Lá ele fica armazenado de tal forma que quando ele é liberado de volta ao sangue, provoca o efeito da anestesia. Por isso, o Tiopental não é utilizado como anestésico só como pré-anestésico. Não se pode aumentar a dose porque pode saturar o tecido adiposo e a quantidade que fica no sangue, que ia para o tecido adiposo, vai para o SNC podendo ser tóxico, agravando a saúde do paciente ou o matando.

Estados patológicos

Extensão de ligação à proteínas plasmáticas e aos tecidos -- Algumas drogas têm afinidade em se ligar a algumas proteínas plasmáticas. E no momento em que essas drogas estão ligadas a essas proteínas, não sofrem distribuição, precisam se desligar das proteínas para chegarem em seu local de ação. As proteínas plasmáticas funcionam como reservatório de drogas. Como exemplo, se tem a Sulfa que tem em torno de 95% de afinidade por essas proteínas. Quando essas drogas que possuem essa alta afinidade são aplicadas, ficam retidas nas proteínas, sendo liberadas lentamente para o sangue. Faz parte de terapêutica.

Partindo para um exemplo prático, um paciente teve um problema de circulação e para evitar que ele tenha uma trombose, faz uso do Varfarin que é um anticoagulante. Quando ele usa esse anticoagulante, faz com que o sangue não coagule para que ele não tenha trombose. Ele tem sinal de hemorragia e usa um outro medicamento que também tem afinidade por proteínas plasmáticas. Esse medicamento vai deslocar o Varfarin da proteína, fazendo com que o Varfarin tenha o seu efeito potencializado, fazendo com que possa ter hemorragia. Conclui-se então que a interação de medicamentosa é muito importante.

Um outro tecido que funciona como tecido de reserva é o tecido adiposo. Nas pessoas desnutridas, o efeito do medicamento passa a ser maior do que numa pessoa normal, porque na primeira existem poucas proteínas plasmáticas; aquelas drogas que se ligam a essas proteínas terão maior intensidade no desnutrido; porque não há local de reserva.

Um outro tecido de reserva é o ósseo. A tetraciclina fica ligada ao tecido ósseo. Existe uma droga chamada Metoclopramida – Plasil – que impregna no receptor dopaminérgico do SNC. O paciente que usa indiscriminadamente o Plasil pode se comportar como se fosse um paciente usando drogas para esquizofrenia, pode sentir sintomas de Parkinson e ficar alheio ao ambiente.

O cabelo e a dentina também funcionam como reservatórios de drogas. No caso da dentina não se deve usar tetraciclina (antibiótico) em crianças, pois, na infância está ocorrendo a dentinogênese e pode ocorrer impregnação da droga deixando o dente com uma aparência amarelada.

Diferenças regionais de pH -- é semelhante à absorção. Se a droga está no sangue e se o pH do sangue estiver mais ácido e se a droga for ácida, a mesma será distribuída mais facilmente.

Mecanismos de transportes disponíveis – existem drogas que passam através de transportadores (nem toda droga sofre difusão passiva).

Eliminação -- que é o metabolismo de primeira passagem. Quando a droga é administrada por via oral, ela vai passar pelo fígado e no fígado sofre o processo de primeira passagem.

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