o que são desastres naturais

o que são desastres naturais

(Parte 1 de 3)

Emerson Vieira Marcelino

Versão Preliminar

INPE Santa Maria

Pág. LISTA DE FIGURAS

1 – INTRODUÇÃO04
2 – O QUE SÃO DESASTRES NATURAIS?05
3 – DESASTRES NATURAIS NO MUNDO06
4 – DESASTRES NATURAIS NO BRASIL08
5 – OS DESASTRES NATURAIS E AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS10
6 – PREVENÇÃO DE DESASTRES NATURAIS12
NATURAIS14
8 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS18

7 – O USO DAS GEOTECNOLOGIAS NA PREVENÇÃO DE DESASTRES 2

Figura 1 – Relação entre evento e desastres de origem natural06
globo (1900-2006)07
Figura 3 – Tipos de desastres naturais ocorridos no Brasil (1900-2006)08

Figura 2 – Distribuição por continente dos desastres naturais ocorridos no

2006)09

Figura 4 – Distribuição das ocorrências de desastres naturais no Brasil (1900-

1900-2006)10

Figura 5 – Freqüência anual de desastres naturais para todo o globo (período

respectivamente1
Figura 7 – Fases de um desastre13
Figura 8 – Parâmetros que envolvem uma análise de risco15

Figura 6 – Mudanças nos índices de precipitação (em porcentagem) para o período 2090-2099, baseado no cenário SRES A1B. As siglas DJF e JJA correspondem aos meses de verão (Dezembro, Janeiro e Fevereiro) e inverno (Junho, Julho e Agosto),

Mato Grossense durante a época cheia (a) e da época seca (b)16

Figura 9 – Imagens do sensor MODIS da bacia do rio Taquari no Pantanal

Furacão Catarina no dia 28/03/2004 na região sul catarinense

Figura 10 – Mapa de intensidade dos danos causados pela passagem do 17

I . Introdução

Nas últimas décadas têm-se presenciado um aumento considerável não só na freqüência e intensidade, mas também nos danos e prejuízos causados pelos desastres naturais. Alguns estudos indicam que este aumento pode estar diretamente vinculado as mudanças climáticas globais. Merece destaque para o último relatório do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) lançado em fevereiro de 2007, que aponta para um aumento das precipitações nas regiões sul e sudeste e um agravamento da seca nas regiões norte e nordeste do Brasil.

No entanto, diversas áreas do globo já estão sendo seriamente impactadas pelos desastres naturais, como a região sul brasileira, principalmente para aqueles disparados por fenômenos atmosféricos extremos, representados em sua maioria pelas tempestades severas. Atualmente é praticamente impossível erradicar tais fenômenos. Pode-se até mesmo afirmar que a sociedade nunca alcançara tal êxito, visto que as tempestades fazem parte da geodinâmica terrestre, sendo responsáveis pela formação do relevo, manutenção dos ecossistemas, abastecimento das fontes hídricas naturais, entre outros. As ações humanas devem ser direcionadas para a implementação de medidas mitigadoras e preventivas que possam amenizar o impacto causado por estes fenômenos.

Toda ocorrência de desastres envolve basicamente três fases distintas: o Antes, que corresponde ao momento que precede o evento, o durante, que corresponde ao momento do impacto e suas conseqüências e o Depois, que está associado a reestruturação das áreas afetadas. Temos assim um ciclo que precisa ser gerenciado de forma abrangente, visando sempre a redução do número de vidas fatais.

Uma das principais ferramentas para o gerenciamento de desastres são as geotecnologias, representadas especialmente pelo Sistema de Informação Geográfica (SIG) e o Sensoriamento Remoto. Através dessas geotecnologias pode-se coletar, armazenar e analisar uma grande quantidade de dados, que devido a complexidade dos desastres naturais, seriam praticamente inviáveis de serem tratados utilizando métodos analógicos e/ou tradicionais.

Neste contexto, este trabalho visa apresentar os conceitos básicos relacionados a temática de desastres naturais e geotecnologias numa linguagem simplificada, que venha servir de fonte de pesquisa para os professores da rede pública de ensino médio e fundamental, alunos de graduação e técnicos em geral.

2. O que são desastres naturais?

Os desastres são conceituados como o resultado de eventos adversos que causam grandes impactos na sociedade, sendo distinguidos principalmente em função de sua origem, isto é, da natureza do fenômeno que o desencadeia (Tobin e Montz, 1997). A Defesa Civil no Brasil, obedecendo as normativas da Política Nacional de Defesa Civil, classifica os desastres como naturais, humanos e mistos (Castro, 2003). Basicamente, a diferença nessa conceituação está na participação direta ou não do homem. Portanto, para simplificar a análise, os desastres podem ser distinguidos como humanos e naturais.

Os desastres humanos são aqueles gerados pelas ações ou omissões humanas, como acidentes de trânsito, incêndios industriais, contaminação de rios, entre outros. Os desastres naturais são causados pelo impacto de um fenômeno natural de grande intensidade sobre uma área ou região povoada, podendo ou não ser agravado pelas atividades antrópicas (Castro, 2003).

Os desastres naturais podem ser melhor entendidos através do esquema proposto na Figura 1. Na natureza ocorrem diversos tipos de fenômenos que fazem parte da geodinâmica terrestre, responsáveis pela estruturação da paisagem. Mas, se ocorrerem ou se deslocarem sobre um sistema social, gera uma situação potencial de perigo a pessoas e bens. Caso haja o impacto, só será considerado como desastre quando os danos e prejuízos foram extensivos e de difícil superação pelas comunidades afetadas. Se não gerar danos ou seguir sua trajetória por áreas não ocupadas, o fenômeno volta a ser considerado como um evento natural.

Figura 1 – Relação entre evento e desastres de origem natural.

Para exemplificar, uma tempestade severa (evento natural) produz fortes chuvas e ventos. Quando se desloca sobre áreas urbanas (perigo), densamente ocupadas, podem gerar destelhamentos, inundações nas áreas próximos aos rios e escorregamentos nas encostas mais íngremes, consideradas áreas de risco. Atingindo estas áreas, casas são alagadas e destruídas, pessoas acabam morrendo e outras tantas são obrigadas a procurar locais seguros, como os abrigos temporários.

Dependendo da sua magnitude, os danos acarretam num desequilíbrio dos serviços essenciais vinculados ao fornecimento de água, luz, comunicação e transporte, como também nas atividades comerciais e industriais. Na continuação da trajetória, ao chegar sobre as áreas de campo e mata, volta a ser considerada como um evento natural.

3. Desastres naturais no mundo

Os desastres naturais podem ocorrer em qualquer continente ou país, visto que os fenômenos naturais que o desencadeiam, como as tempestades, os terremotos e os vulcões existem em diversas partes do globo. Entretanto, algumas regiões são mais afetadas em função da magnitude e freqüência dos fenômenos e da vulnerabilidade do sistema social.

Utilizando os dados de desastres do banco global EM-DAT (Emergency Events Database), período 1900-2006, o continente que apresentou o maior número de registros foi o asiático (Figura 2), com 3.699 registros, seguido pelo americano, com 2.416 registros (EM-DAT, 2007). Destaca-se também que, em todo o mundo, os tipos de desastres que mais ocorreram foram as inundações (35%) e as tempestades (31%), que é a soma dos eventos associados a furacões, tornados e vendavais. Portanto, aproximadamente 6% dos desastres naturais ocorridos no mundo estão vinculados às instabilidades atmosféricas severas.

Figura 2 – Distribuição por continente dos desastres naturais ocorridos no globo (1900- 2006). Legenda: IN – Inundação, ES – Escorregamento, TE – Tempestade, SE – Seca, TX – Temperatura Extrema, IF – Incêndio Florestal, VU – Vulcanismo, TR – Terremoto e RE – Ressaca.

Além disso, convém citar que a grande maioria dos desastres (mais de 70%) ocorreu em países em desenvolvimento (EM-DAT, 2007). Estes dados refletem as próprias condições sócio-econômicas desses países, como o elevado adensamento populacional nas áreas de risco, a falta de planejamento urbano e de investimentos na saúde e educação, entre outros fatores, que aumentam consideravelmente a vulnerabilidade das comunidades expostas aos perigos naturais (Alexander, 1997; Alcántara-Ayala, 2002). E são estes fatores que tem contribuído para elevar o número de vítimas fatais nos países em desenvolvimento. Tanto que, do total de mortes por decorrência dos desastres naturais, mais de 95% ocorreram nos países considerados mais pobres (Alexander, 1995; Degg, 1992; Tobin e Montz, 1997).

4. Desastres naturais no Brasil

Conforme dados do EM-DAT (2007), ocorreram 150 registros de desastres no período 1900-2006. Do total ocorrido, 84% foram computados a partir da década 70, demonstrando um aumento considerável de desastres nas últimas décadas. Como conseqüência, foram contabilizados 8.183 vítimas fatais e um prejuízo de aproximadamente 10 bilhões de dólares.

Os tipos de desastres mais freqüentes foram as inundações (Figura 3), representadas pelas graduais e bruscas, com 59% dos registros, seguidas pelos escorregamentos (14%). A maioria dos desastres no Brasil (mais de 80%) está associada às instabilidades atmosféricas severas, que são responsáveis pelo desencadeamento de inundações, vendavais, tornados, granizos e escorregamentos. Com exceção das inundações graduais, são fenômenos súbitos e violentos que causam grande mortandade e destruição, pois não há tempo para as pessoas procurarem abrigos ou salvarem parte dos bens existentes em suas casas.

Figura 3 – Tipos de desastres naturais ocorridos no Brasil (1900-2006). Legenda: IN – Inundação, ES – Escorregamento, TE – Tempestades, SE – Seca, TX – Temperatura Extrema, IF – Incêndio Florestal e TR – Terremoto.

Com relação à distribuição espacial, mais de 60% dos casos ocorreram nas regiões Sudeste e Sul (Figura 4). No Brasil, essa distribuição está mais associada às características geoambientais do que as sócio-econômicas das regiões afetadas. Uma vez que, as áreas de favela, os bolsões de pobreza e a falta de planejamento urbano estão presentes na maioria das cidades brasileiras. Nessas regiões as instabilidades atmosféricas são freqüentes devido à passagem de frentes frias no inverno, da ocorrência de complexos convectivos de mesoescala na primavera e da formação dos sistemas convectivos no verão, que desencadeiam as chuvas intensas e concentradas para essa estação (Monteiro e Furtado, 1995; SantAnna Neto, 1995; Silva Dias, 1996; Marcelino, 2003; Nascimento, 2005).

Figura 4 – Distribuição das ocorrências de desastres naturais no Brasil (1900-2006). Legenda: NO – Norte, CO – Centro Oeste, NE – Nordeste, SE – Sudeste, SU – Sul.

Ressalta-se que são computados no banco EM-DAT, somente os desastres considerados de grande severidade, que resulta em dezenas de mortos e centenas de desabrigados, levando geralmente os estados e países a buscarem auxílio externo (EM-DAT, 2007). Assim, o número de desastres ocorridos no Brasil torna-se bem mais elevado do que os contabilizados nesse banco global.

Por exemplo, utilizando dados da Defesa Civil, Marcelino et al. (2006) contabilizaram 3.373 desastres naturais para o período 1980-2003 no estado de Santa Catarina. Enquanto que, no Paraná foram registrados 2.553 desastres no período de 1980-2006 (Paraná, 2007). Em ambos os estados, cerca de 85% dos desastres também foram causados pelas instabilidades atmosféricas severas. É importante frisar que os desastres documentados na Defesa Civil são aqueles em que foram decretados Situação de Emergência (SE) e Estado de Calamidade Pública (ECP) pelos municípios afetados.

5. Os desastres naturais e as mudanças climáticas

Nas últimas décadas tem ocorrido um aumento considerável na freqüência anual de desastres naturais em todo o globo. Conforme dados do EM-DAT (2007), a média de desastres ocorridos na década de 70 foi de 90 eventos por ano, saltando para mais de 260 eventos na década de 90 (Figura 5). Estes números refletem diretamente a elevação na freqüência e intensidade dos desastres causados pelas tempestades severas, como mostrado pela linha azul na Figura 5.

Figura 5 – Freqüência anual de desastres naturais para todo o globo (1900-2006).

Dentre os principais fatores responsáveis pelo aumento dos desastres naturais em todo o mundo cita-se: o crescimento populacional, a segregação sócio-espacial (aumento das favelas e bolsões de pobreza), a acumulação de capital em áreas de risco (ocupação da zona costeira), o avanço das telecomunicações (registro e disseminação de informações) e as mudanças climáticas globais (Marcelino et al., 2006).

A comunidade científica tem dado grande ênfase as mudanças climáticas, como resultado do aquecimento global, principalmente a partir da publicação do 4o Relatório do IPCC. Esse relatório menciona que no Brasil os desastres naturais de origem atmosférica tendem a continuar aumentando, com destaque para as tempestades e os eventos de precipitações intensas sobre as regiões sul e sudeste do Brasil e o agravamento da seca no nordeste e avanço sobre as regiões norte e centro-oeste (IPCC, 2007).

Na Figura 6, em azul estão representadas as áreas onde os índices de precipitação estarão acima da média (até 20%) no final do século XXI. Enquanto que, em amarelo, as áreas que estarão com deficiência de precipitação. Nota-se que a tendência é que aumentem ainda mais os desastres causados pelas tempestades no sul e sudeste do Brasil nos meses de verão (DJF) e as secas no norte, nordeste e centro-oeste nos meses de inverno (JJA), como já demonstram os dados coletados até então.

Figura 6 – Mudanças nos índices de precipitação (em porcentagem) para o período 2090-2099, baseado no cenário SRES A1B. As siglas DJF e JJA correspondem aos meses de verão (Dezembro, Janeiro e Fevereiro) e inverno (Junho, Julho e Agosto), respectivamente. Fonte: IPCC (2007).

O aumento da precipitação nas regiões sul e sudeste não necessariamente aponta para uma boa distribuição anual das chuvas. Pelo contrário, a tendência é que as precipitações ficarão ainda mais intensas e concentradas, ou seja, chuvas muito fortes e em poucos dias, como já vendo sendo observado (Liebmann et al., 2004; Boulanger et al., 2005; Groisman et al, 2005; Marengo, 2006).

Em Campinas (SP), o número de dias de fortes chuvas (>50 m/h) tem aumentado consideravelmente, passando de aproximadamente 12 dias nas décadas de 60 e 70, para mais de 25 dias tanto na década de 80 e 90 (Vicente e Nunes, 2004). Um padrão similar também foi encontrado para a região metropolitana de Curitiba (PR). Nessa região os índices de precipitação demonstram uma mudança comportamental a partir da década de 70, com uma elevação significativa no número de dias com precipitações acima de 40 m/h (Silva e Guetter, 2003). Em Santa Catarina, também foi observado um aumento significativo de inundações bruscas (enxurradas) a partir da década de 90, quando os registros ultrapassaram a média de 23 casos/ano para o período 1980-2003 (Marcelino et al., 2004).

As inundações bruscas ocorrem associadas a elevados índices de precipitação (> 25 m/h), e são altamente perigosas e destrutivas (Doswell et al., 1996; Marcelino et al, 2004). Em virtude do aumento dos dias precipitações intensas, somado aos desmatamentos de encostas, a ocupação das planícies de inundação, ao assoreamento dos rios e a impermeabilização urbana (asfaltamento de ruas, construções, etc.), as inundações bruscas em áreas urbanizadas se tornarão num dos principais problemas ambientais que a região Sul e Sudeste do Brasil terão que enfrentar para as próximas décadas. Por isso, é necessário, em caráter de urgência, o estabelecimento de medidas preventivas que possam minimizar as conseqüências deste fenômeno, visando sempre à diminuição do número de pessoas afetadas e vitimadas.

6. Prevenção de desastres naturais

Os desastres naturais que ocorrem no Brasil, em sua maioria, não podem ser evitados. Entretanto, as atividades e intervenções humanas podem agravar ou minimizar os impactos causados pelos desastres. O agravamento está diretamente associado ao desrespeito à natureza, através dos desmatamentos, queimadas, assoreamento de rios, acúmulo de lixo, ocupação desordenada, edificações mal construídas, ausência de plano diretor, etc.

A minimização ou redução do impacto dos desastres dá-se através de medidas preventivas que podem ser classificadas em estruturais e não estruturais. As medidas estruturais são aquelas de cunho corretivo, como as obras de engenharia. Apesar de minimizar o problema em curto prazo, as medidas estruturais são caras, paliativas, freqüentemente ocasionam outros impactos ambientais e geram uma falsa sensação de segurança. As não-estruturais, de caráter educativo, apesar dos resultados a médio e longo prazo, são de baixo custo, de fácil implementação e permite uma correta percepção do risco. Como exemplo, destacam-se os mapeamentos, as análises de vulnerabilidade, os zoneamentos das áreas de risco e a educação ambiental (NCEM, 1998; Andjelkovic, 2001; ISDR, 2004).

Para tanto é necessário conhecer as causas e conseqüências de um desastre, para assim definir as medidas preventivas que serão adotadas. É interessante ressaltar que o ciclo de gerenciamento de desastres envolve três fases distintas: Antes, Durante e Depois (Figura 7).

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