Jung- análise de sonhos- conferencias

Jung- análise de sonhos- conferencias

(Parte 1 de 8)

Notas Sobre os Seminários Ministrados

de 1928 a 1930

por C. G. Jung

Introdução

Os seminários de Jung, nos quais ele expôs suas idéias psicológicas e seus métodos analíticos, assim como sua visão sobre a sociedade, o indivíduo, a religião, a história e muito mais, têm-se dado a conhecer a poucos, mesmo entre os seguidores de Jung. As classes de ouvintes eram limitadas, e os transcritos multigrafados, preparados por membros devotos dos seminários, não eram publicados mas circulavam particularmente para uma lista restrita de assinantes. Os volumes de Notas de Seminário (como são apropriadamente chamados) em bibliotecas junguianas especiais têm costumeiramente passado por retenção a qualquer leitor que não tenha a aprovação de um analista1. As publicações junguianas contêm referências ocasionais às Notas, mas raras citações. Embora a política de restrição tenha o consentimento de Jung, ele eventualmente concordou com a inclusão das Notas de Seminário entre seus trabalhos publicados.

O primeiro seminário registrado na Bibliografia Geral dos Escritos de Jung2 foi feito em 1923, mas há evidências de que Jung já usava o método de seminários em 1912. Naquele ano ele aceitou como analisanda uma mulher americana, Fanny Bowditch, que foi referida a ele por James Jackson Putnam, M. D., professor de neurologia em Harvard e primeiro presidente da American Psychoanalytic Association (1911). Jung encontrou Putnam quando, com Freud e Ferenczi, veio aos Estados Unidos em 1909 para conferenciar na Universidade de Clark. Putnam convidou os três visitantes para acamparem no Adirondacks3 que pertenceu às famílias4 Putnam e Bowditch, e lá Jung deve ter conhecido Fanny Bowditch (1874 - 1967).

Durante 1911, Fanny Bowditch adoeceu com uma desordem nervosa de algum tipo, e o Dr. Putnam, atuando tanto como amigo da família quanto como médico, aconselhou-a a procurar Jung, a quem ele ainda reconhecia como um colega psicanalista. Chegando em Zurique no início de 1912, Fanny Bowditch começou a psicanálise com Jung, presumivelmente em sua casa em Küsnacht. Em maio, ela começou a fazer anotações em um livro de notas5, relatando sobre conferências semanais por Jung às quais ela assistia na Universidade. O conteúdo deste curso, que carregava o título "Einführung in die Psychoanalyse" no programa da Universidade, incluía os princípios gerais de psicologia, psicanálise (com citações dos escritos de Freud), o experimento da associação, casos sobre a prática analítica de Jung, e material mitológico e religioso. As notas, em inglês, prosseguem pelo verão de 1912 e terminam no verão de 1913, em alemão (que Fanny aprendeu de sua mãe nascida na Alemanha). O título "Seminário" aparece no livro de notas para as conferências de 1913. Durante o verão de 1913, Fanny também fez notas sobre conferências de história da religião pelo Professor Jakob Hausheer - aparentemente um curso ministrado em conjunção com o de Jung. Não é surpreendente que Fanny Bowditch, uma mulher bem-educada, estava apta a registrar-se em um curso de verão na Universidade; pode parecer não-convencional que seu professor fosse também, seu analista, mas Jung já tinha se distanciado da ortodoxia freudiana. Naquele estágio de sua carreira, ele usava o formato de seminário, admitindo uma estudante que estava em análise (e não era uma candidata a M.D.), e co-optando um professor de religião.

Em abril de 1914, Jung demitiu-se de seu cargo de privatdozent na Universidade, depois de nove anos conferenciando6; ele não teve outra nomeação para o ensino formal até 1933. Em outubro de 1916, contudo, Fanny (agora casada com Johann Rudolf Katz, um psiquiatra holandês de orientação junguiana7) dedicou um livro de notas para, ainda, outro seminário conduzido por Jung. Durante os anos da guerra, enquanto Jung era um oficial médico no exército suíço, encarregado de um campo para oficiais britânicos internados em Canton Vaud, ele evidentemente continuava seu ensino particular quando estava de licença em Zurique.

Depois que a guerra terminou, Jung viajou novamente - para Londres, para conferenciar em sociedades profissionais em 1919, e novamente ao final de 1920; para Algéria e Tunísia na primavera de 1920; e, durante o verão de 1920, para a Inglaterra, na extremidade exterior da Cornualha, para seu primeiro seminário no estrangeiro. Não há registro, mas este seminário, em Sennen Cove, próximo de Land's End, foi mantido na memória por vários dos doze que assistiram. Foi arranjado por Constance Long, e seus membros incluíam M. Esther Harding e H. Godwin Baynes - três dentre eles eram médicos britânicos e recém-aderidos à psicologia analítica. O assunto de Jung era um livro chamado Authentic Dreams of Peter Blobbs and of Certain of His Relatives. O primeiro seminário registrado aconteceu também na Cornualha, em Polzeath, durante julho de 1923. Baynes e Harding o organizaram; vinte e nove assistiram, incluindo Emma Jung e Toni Wolff8. Notas por extenso, tomadas pela Dra. Harding e pela médica americana Kristine Mann, levavam o título "Human Relationships in Relation to the Process of Individuation"9. Dois anos depois os junguianos britânicos organizaram, ainda, outro seminário, em Swanage, Dorset, e havia umas cem pessoas lá - "muito mais do que Jung gostaria", nos diz Barbara Hannah, e com certeza muitos para um seminário. Novamente, as notas por extenso da Dra. Harding sobreviveram, sob o título "Dreams and Symbolism", em doze conferências, de 25 de julho a 7 de agosto, depois das quais Jung visitou a Exposição do Império Britânico em Wembley e resolveu empreender sua bem-conhecida viagem ao Leste Britânico da África10.

No início de 1925, contudo, de 23 de março a seis de julho, Jung deu o primeiro da série de seminários em inglês em Zurique que prosseguiriam por quatro anos. Intitulado, simplesmente, "Analytical Psychology", o seminário, em dezesseis conferências, foi registrado por Cary F. de Angulo, que logo em seguida casou-se com H. G. Baynes. Jung revisou o transcrito, que foi emitido em um documento tipado em multígrafo, de 227 páginas. O conteúdo era dedicado a um exame do desenvolvimento da psicologia analítica, começando com ano de 1896, quando Jung era um estudante universitário, e detendo-se em certa extensão sobre seu relacionamento com Freud. Várias passagens foram incorporadas por Aniela Jaffé em Memórias, Sonhos e Reflexões11. O Seminário de 1925 contém algumas das mais cortantes observações de Jung sobre sua psicologia.

No início de novembro de 1928, Jung embarcou no seminário sobre Análise de Sonhos, ao qual o presente volume é dedicado. Em encontros semanais, entrecortados por recessos sazonais de um mês ou mais, o seminário prosseguiu até o fim de junho de 1930. Os membros reuniam-se nas quartas-feiras pela manhã nas salas do Clube Psicológico de Zurique, em uma mansão em forma de torre, coberta de hera, no Gemeindestrasse que Edith Rockefeller McCormick havia adquirido para o uso do Clube. Poucos registros administrativos do seminário ou do Clube sobreviveram. De acordo com as lembranças dos membros sobreviventes, nenhuma taxa de ensino era paga; havia apenas uma pequena contribuição para o chá. A permissão de Jung para assistir era um requisito, e os membros estavam, ou estiveram, todos no curso de análise com Jung ou um dos outros poucos analistas em Zurique. Embora nenhuma lista de associados exista, o transcrito do seminário fornece os nomes de umas cinqüenta pessoas que contribuiram para a discussão. Certamente haviam outros membros que permaneceram em silêncio, como Mary Foote.

Para Mary Foote é devido o crédito principal pelo registro dos seminários de Jung de 1928 até 1939. Nascida na Nova Inglaterra em 1872, Mary Foote tornou-se pintora de retratos de alguma reputação, vivendo alternadamente em Nova Iorque, Paris e Pequim12. Entre seus amigos encontravam-se Isadora Duncan, Henry James, Mabel Dodge (depois Luhan), Gertrude Stein, e o stage designer Robert Edmond Jones, de Nova Iorque, o qual, depois de sua própria análise com Jung e Toni Wolff, persuadiu Mary a seguir para Zurique. Ela chegou em janeiro de 1928 e permaneceu pelo quarto de século que se seguiu. Seu trabalho analítico com Jung deve ter começado logo depois que ela assentou residência no Hotel Sonne em Küsnacht, e ela provavelmente assistiu o seminário Análise de Sonhos desde seu primeiro encontro, em novembro.

Poucas pessoas estavam envolvidas em produzir as notas do seminário. Na ausência de Cary de Angulo, que se fôra com seu marido H. G. Baynes para viver em Carmel, na Califórnia, as notas da sessão do outono de 1928 foram tomadas por Anne Chapin, uma professora do Mount Holyoke College, de Massachussets, e foram transcritas, multigrafadas e circuladas aos membros. Os encontros durante a primeira metade de 1929 foram registrados por outra mulher americana, Charlotte H. Deady. Mary Foote tornou-se envolvida com o registro da sessão que começou em outubro de 1929, e cartas de Jung para ela em dezembro13 mostram que ela estava editando o transcrito (compilado das notas de vários membros) e enviando seções dele a Jung para revisão. Ela continuou neste papel até o fim do seminário, em junho do ano seguinte. A "primeira edição", inteira, multigrafada a partir de um documento datilografado, foi publicada em cinco volumes de dimensões de quarto. Em 1938, Mary Foote emitiu uma "nova edição", na qual as notas de Chapin eram ampliadas por "anotações manuscritas tomadas pela Senhorita Ethel Taylor"; as notas de Deady foram re-editadas por Carol Baumann; as notas de outubro a dezembro de 1929, por extenso, eram o trabalho de Mary Foote e outros, com "muito auxílio" de Cary Baynes e Mary Howells; as notas de janeiro a março de 1930 foram tomadas, também por extenso, pela Senhora Baynes, Senhora Deady, Barbara Hannah, Joseph Henderson e a Senhorita Foote; e a seção de maio a junho de 1930 foi, Mary Foote o escreveu, "editada a partir de notas manuscritas tomadas pela Senhora Köppel e minha próprias notas por extenso". Os desenhos que figuram no texto são o trabalho da Senhora Deady. Emily Köppel, uma mulher inglesa casada com um suíço, tornou-se secretária de Mary Foote em 1930 e continuou a fazer os transcritos, datilografar os papéis em estêncil, arranjá-los para o multígrafo, e conduzir todos os detalhes administrativos até que a guerra trouxe um fim para a série de seminários.

A princípio, Mary Foote financiou o trabalho das subscrições, suplementando-o com seus próprios recursos. Depois, a partir de 1930, os fundos receberam contribuição de Alice Lewisohn Crowley e Mary e Paul Mellon. Não se esperava que Jung contribuísse, e ele recebeu cópias gratuitas das Notas de Seminário.

Durante os anos da guerra Mary Foote permaneceu em Zurique, e foi somente nos anos 50 que ela retornou à Nova Inglaterra. Ela morreu, entre amigos, na zona rural de Connecticut, em 28 de janeiro de 1968, em seu nonagésimo-sexto ano de idade14. Seus documentos, incluindo rascunhos sucessivos das Notas de Seminário, estão agora na Biblioteca da Universidade de Yale.

Em outubro de 1930, poucos meses depois do fim do Seminário Análise de Sonhos, Jung abriu outro seminário em inglês, intitulado "Interpretation of Visions", baseado em pinturas de uma paciente americana, imagens representativas que ela havia experienciado através do processo de "imaginação ativa". Este seminário, que é considerado uma exposição útil das técnicas de Jung da "imaginação ativa" e da amplificação, continuou até março de 1934. O transcrito foi editado por Mary Foote em onze volumes, mais um volume que continha vinte e nove lâminas. Uma nova edição, sustentada por uma doação dos Mellons, apareceu de 1939 a 1941. Durante um recesso em outubro de 1932, Jung uniu-se a J. W. Hauer, professor de Indologia na Universidade de Tübingen, para ministrar um seminário em seis sessões sobre "A Kundalini Yoga"15, subseqüentemente editado por Mary Foote em uma versão ilustrada de 216 páginas, seguida, um ano depois, por uma versão alemã.

Dois meses depois de terminar o seminário sobre as Visões, em 2 de maio de 1934, Jung começou um seminário em inglês com o título "Psychological Analysis of Nietzsche's Zarathustra", que prosseguiu até 15 de fevereiro de 1939, com várias e longas interrupções, enquanto Jung fazia viagens de conferências aos Estados Unidos em 1936 e 1937, viajava pela Índia no inverno de 1937-38, e retornava doente com disenteria. Novamente, Mary Foote editou o transcrito, em dez volumes multigrafados16.

As conferências de Jung em alemão no Eidgenössische Technische Hochschule (Instituto Técnico Federal) de Zurique são usualmente classificadas junto com seus seminários, mas seguem o estilo conferencial e eram endereçadas a um público geral em um grande auditório acadêmico. Para Jung isso era um retorno a sua situação de palestrista na Universidade, mais de vinte anos antes. As conferências do ETH, às sextas-feiras à tarde, começaram em 20 de outubro de 1934 com o tema geral "Modern Psychology" e continuaram, com os usuais recessos acadêmicos, até julho de 1935. Delas foram tomadas anotações manuscritas pela secretária de Jung, Marie-Jeanne Schmid, e subseqüentemente publicadas com tradução em inglês por Elizabeth Welsh e Barbara Hannah, no mesmo formato dos seminários. Jung continuou a conferenciar esporadicamente no ETH até julho de 1941; seus assuntos incluíram "Eastern Texts", "Exercitia Spiritualia of St. Ignatius of Loyola", "Children's Dreams", "Old Literature on Dream Intepretation", e "Alchemy"17. A maior parte das conferências foi publicada em traduções por Barbara Hannah18.

Cada volume dos seminários e das conferências no ETH carregava uma mensagem com o efeito de que "são para uso estritamente particular e nenhuma parte pode ser copiada ou citada para publicação sem a permissão por escrito do Professor Jung". Quando o seminário Análise de Sonhos e as conferências "Modern Psychology" foram emitidas em novas edições, sob os auspícios conjuntos do Clube Psicológico e do Instituto C. G. Jung, o mesmo aviso foi impresso como prefácio, em nome do Clube e do Instituto. A venda dos volumes era limitada estritamente àqueles qualificados por análise e aprovação profissional. Não obstante, as cópias encontraram seu caminho para bibliotecas gerais e para as mãos de negociantes de livros.

Quando o estoque se exauriu e novas edições foram planejadas em 1954, o Instituto propôs que os textos fossem revisados por um escritor profissional, de modo a suavizar o que se pensava ser falha de estilo e expressão. Sob o conselho insistente de R. F. C. Hull e outros, Jung escreveu para o Curatório do Instituto: "Eu gostaria de informá-los que depois de madura consideração e solicitação de opiniões de autoridade eu decidi deixar que meus seminários sejam publicados inalterados, como antes. Tenho sido solicitado, em particular, para não deixar que seja alterado em nada em seu estilo". Ele sugeriu que cada publicação fosse prefaciada com a seguinte nota: "Estou totalmente ciente do fato de que o texto destes seminários contém um certo número de erros e outras inadequações, que se encontram sob necessidade de correção. Desafortunadamente, nunca me foi possível empreender este trabalho por mim mesmo. Eu portanto gostaria de requerer ao leitor que estes relatórios sejam lidos com o necessário espírito crítico e que sejam usados com circunspecção. Eles conferem, em geral, louvor ao à habilidade descritiva de Mary Foote, um quadro vivo e fiel dos efetivos debates, como eram àquele tempo". A nota não foi impressa, enfim, nas novas edições, mas a preocupação de Jung com os erros nos transcritos era evidente. A idéia de publicar os seminários para o público em geral estava lançada. Michael Fordham, um dos editores dos Collected Works, insistiu fortemente na publicação. Em 24 de maio de 1956, Jung escreveu a Gerhard Adler, também um editor dos Collected Works: "Eu gostaria de me referir à nossa conversa de 14 de maio. Estou de completo acordo com a publicação de minhas 'Notas de Seminário' como um apêndice aos Collected Works, e eu gostaria que você e o Dr. Fordham fizessem os necessários cortes e correções de erros. Os manuscritos nem sempre são satisfatoriamente acurados. Como o estilo faz parte das anotações, ele deve, sempre que possível, não ser alterado". Jung tornara-se ciente, como se pode inferir, da futilidade em restringir seus textos de seminário, e ele estava obviamente consciente do valor [dos seminários]19 para os analistas, no treinamento do grande corpo de estudantes empenhados. Em uma carta de 19 de agosto de 1957 à Bollingen Foundation, ele formalmente declarou: "Por meio desta, confirmo minha concordância com a inclusão dos escritos designados em sua carta (Notas de Seminário e Correspondências) nos Collected Works".

Assim a matéria permaneceu, até depois da morte de Jung, em junho de 1961. Enquanto isso, o plano original de publicar as Notas de Seminário, assim como as Cartas, como parte dos Collected Works, foi modificado. A edição da correspondência foi delegada, com a aprovação de Jung, ao Dr. Adler como editor-chefe, junto com Marianne Niehus-Jung e Aniela Jaffé20. Como Jung havia aceitado o tradutor dos Collected Works, R. F. C. Hull, como editor dos seminários, o projeto foi suspenso até que o tempo de Hull estivesse livre - isto é, até que se pudesse visualizar os Collected Works terminados. Lá pelo meio da década de 60, a Fundação Bollingen tinha um plano provisório feito por Hull para a publicação, em consulta com Herbert Read, a família Jung, Adler, Fordham, Cary Baynes, Jessie Fraser, Joseph Henderson, Aniela Jaffé, Henry A. Murray, e Jane A. Pratt. O projeto, em cinco ou seis volumes, incluiria o Seminário de 192521, "Análise de Sonhos", "Interpretation of Visions", "Kundalini Yoga", "Analysis of Nietzsche's Zarathustra", e provisoriamente uma seleção das conferências no ETH. Os herdeiros de Jung concordaram em princípio. Hull pôde começar o trabalho editorial somente no verão de 1972, quando mudou-se para Nova Iorque. Ele ainda estava preocupado com detalhes residuais da tradução de parte da Correspondência Freud/Jung, os trabalhos selecionados escritos em Alemão (em torno da metade), e o volume 18 dos Collected Works: The Symbolic Life. Não obstante, a despeito do gradual declínio em sua saúde e energia, Hull esteve apto a editar e comentar algo em torno da metade do seminário Análise de Sonhos de modo experimental, baseado na assistência em pesquisa de Lisa Ress e no conselho, em assuntos substanciais, de Edward F. Edinger, M. D. Na primavera de 1973, Hull retornou a sua casa em Mallorca, em um estado de saúde deteriorante que impedia o trabalho profissional de qualquer espécie; ele morreu na Inglaterra em dezembro de 1974. Seus documentos de trabalho foram preservados por sua viúva e eram eventualmente enviados a Princeton. Ao assumir a responsabilidade editorial pelo seminário Análise de Sonhos em 1980, contudo, eu fiz um novo começo.

Meus princípios editoriais partiam, de algum modo, dos de Hull. Eu havia excluído e alterado o texto tão raramente quanto foi possível, prestando notas editoriais de qualquer mudança significativa. As exclusões são, em sua maior parte, confinadas a passagens em que Jung repetia informações para os novos membros do seminário. Alterações textuais sem referência dizem respeito, principalmente, à pontuação, ortografia, gramática, e clareza. A inserção de uma boa quantidade de pontos finais e pontos-e-vírgulas nos documentos transcritos, em vez de estruturas com sentenças desconexas, não faz violência ao estilo de Jung. Muitas das anotações rascunhadas por Hull e Lisa Ress foram preservadas e foram consideravelmente aumentadas. As notas interpretativas por Hull carregam suas iniciais. Uma posição importante do estilo de Hull é a retenção dos nomes dos membros de seminário que fizeram comentários. Muitos deles são pessoas de interesse, e muitos já são falecidos. Os quatro que tenho notícia de estarem vivos em 1982 - a Senhorita Hannah, Dr. Henderson, Dr. Kirsch e a Senhora Gaskell - deram permissão para o uso de seus nomes. É possível que seja o caso de, em torno de dez pessoas que eu não pude localizar ou identificar, algumas estejam vivas; se assim é, peço-lhes seu perdão. Certamente nenhum comentário foi feito que pudesse causar arrependimentos a qualquer um cinqüenta anos depois. Eu devo ressaltar, também, que nenhum material de estudo de caso, que tenha sido fornecido no seminário, pode ser identificado com qualquer pessoa.

Eu fiz todos os esforços para preservar "um quadro vivo e fiel dos efetivos debates, como eram àquele tempo", o que Jung esperava que acontecesse em 1954, e reproduzi os diagramas e ilustrações diretamente a partir de edições anteriores dos seminários.

As Notas de Seminário têm uma importância substancial no cânone junguiano; isto é evidente, e [as notas]22 possuem muitos outros aspectos de significância. O caráter do estilo discursivo de Jung - de fato, seu estilo conferencial - é transmitida fielmente: tal é o consenso destes que o conheceram bem, e especialmente aqueles que assistiram a qualquer dos encontros do seminário. "As notas têm o realismo de uma transcrição a partir de fita gravada, em um tempo no qual as gravações nem eram sonhadas", observou um membro de seminário. As habilidades de registro daqueles que tomaram as notas é responsável por isso - e essa habilidade foi de todo o mais notável nos primeiros dias, quando as notas eram escritas por extenso e encaixadas entre si. O trabalho editorial de Mary Foote concentrou-se na fidelidade de registro, tanto em estilo quanto em conteúdo.

A mestria de Jung na língua inglesa, demonstrada nestes manuscritos, não precisa ser motivo de surpresa. Ele estudou inglês na escola e, durante os primeiros anos do século XX, passou um verão em Londres23. Na Clínica do Burghölzli, quando Jung era assistente de Bleuler, médicos americanos e britânicos vinham para treino e observação: Ricksher, Peterson, Macfie Campbell, Gibson, Burrow, entre outros24. Pacientes falantes da língua inglesa - notavelmente Harold F. McCormick e sua esposa, Edith Rockefeller McCormick, de Chicago - tornaram-se responsabilidade de Jung bastante cedo. De 1909 em diante, houveram freqüentes visitas à Inglaterra e à América, marcadas por conferências, palestras, e encontros analíticos conduzidos em inglês. Na década de 20, o círculo de estudantes e analisandos em volta de Jung em Zurique era tanto de falantes do inglês quanto de falantes do alemão (franceses eram uma minoria). Jung escreveu e falou inglês quase tão freqüentemente quanto em alemão ou suíço, sua linguagem em casa25.

Finalmente, os colóquios dos seminários de Jung são ricos em material que não é encontrado ou mesmo sugerido nos escritos publicados. Para Jung eles [os seminários] eram germinativos: ele freqüentemente desenvolvia idéias enquanto falava. O seminário publicado neste volume fornece um completo exame do método de Jung da amplificação na análise dos sonhos de um paciente e o mais detalhado registro do tratamento de um paciente masculino pelo próprio Jung26. Enfim, os seminários nos fornecem um Jung auto-confidentemente relaxado, despreocupado e não-diplomático, sem respeito por instituições e personagens exaltados, freqüentemente bem-humorado, às vezes obsceno, extravagantemente erudito em referências e alusões, sempre sintonizado com as mais sutis ressonâncias do caso em mãos, e verdadeiro, sempre, a si mesmo e à sua vocação.

William McGuire

Agradecimentos

Eu expressei minha dívida para com R. F. C. Hull, Lisa Ress, e Edward F. Edinger, por seu trabalho em um estágio primitivo da edição. Estou particularmente grato a três membros do seminário de 1928-1930 que responderam calorosamente com suas lembranças dos "efetivos debates" e com respostas a questões, especialmente sobre a identidade de outros membros do seminário: Barbara Hannah, Joseph Henderson e James Kirsch. Sou grato a todas seguintes pessoas que responderam minhas perguntas, dispondo da informação requerida ou com o conselho de fontes de consulta: Gerhard Adler; Doris Albrecht; John Alden; Nora Bangs; John T. Bonner; c. Marston Case; Margaret H. Case; Gerald Chapple; Margot Cutter; Ivan R. Dihoff; K. R. Eissler; Jay Fellows; Marie-Louise von Franz; Patrick Gardiner; Felix Gilbert; Rosamond Gilder; Beat Glaus; Leon Gordenker; Norbert Guterman; John Hannon; Martyn Hitchcock; Aniela Jaffé; James Jarrett; Lilly Jung; Violet de Laszlo; Phyllis W. Lehmann; Michael S. Mahoney; Mary Manheim; Bruce M. Metzger; Paul Meyvaert; Joseph P. O'Neill; Emmy Poggensee; Edith Porada; Frank H. T. Rhodes; Richard Rorty; Angela Richards; Merle Greene Robertson; Beata Sauerlander; Gershom Scholem; Marjorie Sherwood; Elisabeth Rüf; Richard Taylor; Pamela Teske; S. G. Thatcher; Elizabeth Thomas; Fr. Chrysogonus Wadell; Charles F. Westoff; Hellmut Wilhelm; John F. Wilson; James E. G. Zetzel; e Herbert S. Zim.

Pelas citações da tradução de Louis MacNeice do Fausto de Goethe (1951) os agradecimentos são feitos, pela permissão dos editores, Oxford University Press, Nova Iorque, e Faber and Faber, Londres.

W. M.

Membros do Seminário

A lista que se segue contém pessoas cujos nomes aparecem no transcrito; outros indubitavelmente assistiram, e seus nomes não foram registrados. Nenhum registro dos membros do seminário veio à luz. Somente os sobrenomes são dados no transcrito, e os nomes fornecidos, país de residência, etc., foram supridos na medida do possível. Uma linha sublinhando o nome indica um membro que, de acordo com o que se sabe atualmente, foi ou mais tarde se tornou um analista junguiano. A coluna à direita fornece a data do primeiro encontro do seminário no qual o nome de um membro aparece. Vide, ainda, o índice deste volume.

Bacon, Sr. Leonard (EUA)

4 de dezembro de 1929

Barret, Dr. William G. (EUA)

6 de novembro de 1929

Baumann, Sr. Hans H. (Suíça)

11 de junho de 1930

Baynes, Dr. Helton Godwin (Grã-Bretanha)

29 de janeiro de 1930

Baynes, Sra. Cary F. (EUA)

6 de novembro de 1929

Bertine, Dra. Eleanor (EUA)

22 de maio de 1929

Biachi, Srta. Ida (Suíça)

13 de março de 1929

Binger, Dr. Carl (EUA)

6 de fevereiro de 1929

Binger, Sra. Carl (EUA)

28 de fevereiro de 1929

Chapin, Srta. Anne (EUA)

28 de fevereiro de 1929

Crowley, Sr. Bertram (Grã-Bretanha)

21 de maio de 1930

Crowley, Sra. Alice Lewisohn (EUA)

22 de maio de 1929

Deady, Dr. Henderson (EUA)

5 de dezembro de 1928

Deady, Sra. Charlotte H. (EUA)

6 de marco de 1929

Dell, Sr. W. Stanley (EUA)

22 de maio de 1929

Draper, Dr. George (EUA)

23 de outubro de 1929

Eaton, Prof. Ralph M. (EUA)

18 de junho de 1930

Fierz, Sra. Linda (Fierz-David) (Suíça)

5 de março de 1928

Flenniken, Srta. Margaret Ansley (EUA)

19 de março de 1930

Gibb, Sr. Andrew (EUA, original da Grã-Bretanha)

30 de janeiro de 1929

Gibb, Sra. Helen Freeland (EUA)

30 de janeiro de 1929

Gilman, Dr.

26 de junho de 1929

Hannah, Srta. Barbara (Grã-Bretanha)

13 de fevereiro de 1929

Harding, Dra. M. Esther (EUA, original da Grã-Bretanha)

9 de outubro de 1929

Henderson, Sr. Joseph L. (EUA)

16 de outubro de 1929

Henley, Sra. Eugene H. (Helen) (EUA)

12 de fevereiro de 1930

Holdsworth, Sr.

26 de fevereiro de 1930

Hooke, Prof. Samuel Henry (Grã-Bretanha)

21 de maio de 1930

Howells, Srta. Naomi (EUA)

26 de junho de 1929

Howells, Dra. Mary (EUA)

9 de outubro de 1929

Jaeger, Sra. Manuela (Alemanha)

25 de junho de 1930

Kirsch, Dr. James (Guatemala, depois Alemanha, Palestina, EUA)

5 de junho de 1929

Kirsch, Sra. Eva (Alemanha, depois Sra. Gaskell, Grã-Bretanha)

5 de junho de 1929

König, Srta. Olga, Baronesa von König Fachsenfeld (Alemanha)

20 de novembro de 1929

Leavitt, Dr.

15 de maio de 1929

Muller, Sra.

20 de fevereiro de 1929

Nordfeldt, Sra. Margaret D. (EUA)

14 de maio de 1930

Ordway, Srta. Katherine (EUA)

12 de fevereiro de 1930

Pollitzer, Srta.

26 de fevereiro de 1930

Richmond, Sr.

11 de junho de 1930

Rogers, Sr.

13 de fevereiro de 1929

Roper, Sr.

30 de janeiro de 1929

Sawyer, Sra. Carol Fisher (depois Sra. Hans Baumann) (EUA)

6 de novembro de 1929

Schevill, Sra. Margaret E. (Schevill-Link) (EUA)

30 de janeiro de 1929

Schlegel, Dr. jur. Eugen (Suíça)

6 de fevereiro de 1929

Schlegel, Sra. Erika (Suíça)

20 de fevereiro de 1929

Schmaltz, Prof. Gustav (Alemanha)

29 de maio de 1929

Schmitz, Dr. Oskar A. H. (Alemanha)

15 de maio de 1929

Sergeant, Srta. Elizabeth Shepley (EUA)

21 de maio de 1930

Shaw, Dra. Helen (Grã-Bretanha/Austrália)

21 de novembro de 1928

Sigg, Sra. Martha Böddinghaus (Suíça)

6 de fevereiro de 1929

Taylor, Srta. Ethel

8 de dezembro de 1928

Wolff, Srta. Toni (Suíça)

30 de outubro de 1929

Zinno, Sra. Henry Fink (EUA)

6 de março de 1929

Ordem Cronológica dos Sonhos

Outono de 1928

1. Filha da irmã doente; anfiteatro com assentos de costas para uma mesa

Inverno e Primavera de 1929

2. Costureira com tuberculose

3. Rolo compressor fazendo um molde

4. Fuga das galinhas

5. Ciática; colina de macadame fustigada pelas ondas do mar

6. Cunhado diz que algo está errado com os negócios

7. Máquina peculiar para extirpar ervas daninhas

8. Passeio pela Reviera

9. Cena íntima com sua esposa

10. Mecanismo: coração duplo com mola de aço

11. Banhando-se no mar: conversa de negócios com o Príncipe Omar

12. Pequeno garoto nu comendo pão branco

13. Compartimentos marítimos; bordel; boné marrom

14. Plantação de algodão infestada com vermes

15. Árvore de cerejas cheia de cerejas maduras e árvore jovem sem frutas

16. Máquina estragada; pequena irmã com buracos na saia

17. Agitando-se através das árvores; chegada a um edifício com um pátio

Outono de 1929

19. Viajando pela Polônia; mecânico consertando magneto

20. Choupana no Egito; caldeirão com cruzes e meias-luas

18. Garoto bonito como Münchner Kindl27

21. Vasta planície cinza; pessoas trabalhando com listras.

Inverno de 1930

22. Máquina feita de cilindros que revolvem

23. Serviço na Igreja; um hermafrodita perturba o canto

24. Exercícios de ginástica em uma cabana; fuga de rato

26. Sua esposa dá à luz trigêmeos28

Primavera de 1930

_ Sinopse da orientação de um sonho desde o início por Howell29

25. Homem cai de um aeroplano triangular, machucando a mão direita

27. Exportação de café; [compte-joint] com Michel & Jalaubout

28. Criança o leva a uma tartaruga que cospe crianças

(Parte 1 de 8)

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