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1. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A CRISE

Para que possamos entender de forma definitiva as causas reais da crise asiática ocorrida em meados de 1997 é interessante, em primeiro lugar, notarmos a existência de alguns fundamentos macroeconômicos básicos que, grosso modo, estiveram todo o tempo por de trás dos fenômenos de ordem financeira que desestabilizaram profundamente a economia de países que, até então, eram considerados prósperos, seguros e estáveis.

Econômica e financeiramente falando, invariavelmente sempre vamos encontrar pelo mundo afora duas categorias básicas de países: primeiro os países que se acham na condição de credores internacionais; e segundo, aqueles países que, ao contrário, são levados à difícil condição de devedores internacionais. Os devedores internacionais seriam justamente aqueles países que dependem de um influxo constante de recursos externos para assim financiarem seus processos de crescimento e desenvolvimento. Financiamentos esses bancados exatamente pelos países credores que, dispondo de fundos financeiros excedentes, saem a procura de novas alternativas de investimento (de caráter produtivo ou não) para seus capitais ociosos e acabam encontrando essas alternativas nos países tidos como devedores (que a propósito sempre são levados, dada a condição de tomadores de recursos, a remunerar os investimentos internacionais a taxas mais elevadas.

Tal situação, é verdade, poderia ser considerada normal e aceitável se levássemos em conta a tese de que todo o fluxo de capitais existente entre países credores e devedores ocorre sempre de um modo previsível e dentro de um horizonte de longo prazo. Ou seja, teríamos, com certa regularidade, capitais sendo transferidos de um país a outro com o ânimo de fincar raízes e ir gradativamente sendo acumulados com o passar do tempo no interior dos países devedores (destinatários dos recursos). Contudo, observa-se ainda hoje algo que foi notório durante a crise asiática, isto é, dentre as diversas modalidades de capital que circulam internacionalmente visando primordialmente equilibrar os excessos e as carências de poupança existentes entre os países credores e os países devedores estão, sempre a marcar forte presença, os chamados capitais especulativos e voláteis de curto prazo. Capitais que passeiam pelo mundo na ânsia de ganhos imediatos e cuja extrema mobilidade é ao mesmo tempo causa e conseqüência do processo de globalização e desregulamentação dos mercados financeiros mundiais, da elevação da oferta monetária e de uma integração sem precedentes das praças financeiras internacionais. Vemos então que esses capitais voláteis tem um comportamento totalmente oposto àquilo que seria desejável pelos países tomadores de recursos externos (devedores), uma vez que circulam de maneira irregular, imprevisível e sem estabelecer qualquer vínculo de longo prazo com os países que os recebem, tornando ainda mais grave e arriscada a atual situação de dependência externa desses países. Dependência que tem como uma de suas inúmeras facetas, os históricos déficits em transações correntes registrados por tais países e o constante acúmulo de dívida externa (situação típica dos países devedores, incluindo, é claro os países asiáticos).

Mas o que estaria realmente por de trás desses déficits crônicos em conta corrente (que em muitos casos têm apresentado uma forte tendência de elevação com o passar do tempo)? Na verdade, déficits em conta corrente resultam do simples fato de que há países que no todo necessitam consumir e investir internamente uma quantia que é maior do que aquilo que lhes cabe em termos de renda nacional e também maior em relação ao que conseguem poupar internamente num dado intervalo de tempo. É o que os economistas costumam chamar de insuficiência da renda e da poupança interna. Um fato que leva determinados países a não poderem financiar autonomamente e de forma sustentada seus projetos de desenvolvimento econômico e social, e por isso são obrigados à recorrerem aos aportes de capitais do estrangeiro (a chamada poupança externa). O problema aqui é que a renda nacional, de onde deveria ser destacada uma parcela correspondente a poupança interna do país (poupança essa que seria novamente reinvestida trazendo mais produção e mais renda) não consegue se elevar significativamente à medida que ocorre um aumento cada vez maior na dependência externa do país juntamente ao fenômeno típico e constante de repatriação de capitais vindos de fora. Assim fica difícil contornar de maneira definitiva a situação crônica dos elevados déficits em conta corrente desses países porque o fluxo de capitais estrangeiros que eles recebem geram uma contrapartida posterior materializada na forma de uma saída de recursos sob a rubrica de remessa de lucros, dividendos, juros, pagamentos de royaltes, etc. Saída que torna-se maior e mais freqüente nos momentos de crise cambial ou a simples ameaça dela, como se verificou nos países asiáticos, agravando ainda mais o déficit e reduzindo sobremaneira a capacidade daqueles países em honrarem seus compromissos externos e pagarem suas dívidas. A par disso se percebe ainda que quando um país capta muito dinheiro externo para alavancar seu crescimento uma fatia considerável da renda doméstica bruta que é produzida se deve, em tese, ao uso de fatores de produção pertencentes a não residentes no país (sejam eles pessoas ou empresas). Remetendo ao exterior essa renda de propriedade de estrangeiros não residentes no país num montante maior do que a renda trazida de fora temos então o valor da Renda Nacional sempre inferior ao da Renda Interna Produzida. Gerando uma Renda Nacional insuficiente são se pode ter uma poupança interna compatível com as necessidades de crescimento do país e, em conseqüência mantêm-se a situação de dependência externa.

A situação de dependência externa, (que é concomitantemente causa e conseqüência dos contínuos déficits em conta corrente de inúmeros países - incluindo os asiáticos), na verdade já vem continuamente alimentando um processo que, feito instável, imprevisível e, por tal razão de incerteza, até mesmo irracional em função de um fenômeno, muitas vezes passional, caracterizado pelo intenso fluxo de capitais especulativos, não poderia ter outro desfecho senão aquilo que se presenciou durante a crise asiática. Entretanto, como se não bastasse a ocorrência de tudo isso, outros fatores também contribuíram decisivamente para tornar inevitável a crise asiática e ainda por cima agravar ainda mais o quadro de instabilidade financeira de países como Coréia, Tailândia, etc. Segundo Roubini, quando um país precisa financiar seus gastos e investimentos internos num montante superior aos recursos financeiros próprios que é capaz de disponibilizar pode-se recorrer a vários expedientes: tomar empréstimos externos de curto, médio e longo prazo; buscar formas de financiar externamente as importações de bens e serviços; ou ainda, tentar atrair capitais estrangeiros de risco através dos mercados de capitais. Agindo dessa maneira poderia-se equilibrar de um modo estável os déficits em conta corrente caso existisse a oportunidade de se contar com influxos constantes de capital acompanhados de uma diminuição paulatina nos montantes de renda líquida enviada ao exterior (no caso sob a forma de juros e dividendos). Porém, a situação tende a se tornar mais difícil se um déficit em conta corrente (que segundo Roubini é gerado quando o dispêndio interno bruto =consumo + investimento + gastos do governo supera a renda nacional), financiado em grande parte por empréstimos externos, faz acumular estoques de dívida externa que se tornam cada vez maiores e mais dispendiosos na medida em que tais déficits em conta corrente também se elevam com o passar dos anos (em parte graças aos pesados juros pagos em função do endividamento externo). Tal fenômeno que tende irremediavelmente a desembocar em desequilíbrios crônicos e insustentáveis nas contas externas de um país e levá-lo à crise foi detectado na maioria dos países asiáticos principalmente no decorrer nos anos 90. O quadro mostrado logo abaixo nos mostra, a propósito do que vínhamos discutindo, como a dívida externa de alguns países da Ásia se elevou substancialmente durante a década de 90 (caso de Coréia e Tailândia), ou então como essa dívida externa se manteve perigosamente sempre elevada em outros países com exceção apenas da China (que a pouco tempo iniciou seu processo de abertura), e também de Singapura, Taiwan e Hong Kong, que são países menos dependentes.

Além de pedir dinheiro emprestado a bancos estrangeiros ou emitir bônus internacionais existe também a opção de financiar o déficit em conta corrente através da internalização dos chamados investimentos diretos estrangeiros que, sendo de longa maturação e, portanto gerando contrapartidas de remessa de lucro e dividendos somente no longo prazo e em intervalos regulares, configuram-se como a alternativa mais adequada disponível aos países devedores que necessitam de capital externo. Roubini ainda ressalta uma outra vantagem associada aos IED e que diz respeito ao fato de que, ao partimos para um modelo de financiamento dos déficits externos fortemente alicerçado na entrada de capitais produtivos no país, os investimentos que serão destinados aos novos projetos de plantas industriais e ao desenvolvimento tecnológico, pode ter como resultado um incremento significativo na quantidade dos bens produzidos no país (que pode-se elevar ainda mais graças a melhora nos índices de produtividade). Desta maneira geramos internamente uma quantidade maior de produtos excedentes com potencial elevado de exportação. Melhorando os saldos comerciais do país devedor atenuam-se os déficits em conta corrente e em conseqüência disso é detida a escalada crescente verificada nos níveis de endividamento externo do país em questão.

Um outro ponto importante a ser ressaltado nesse momento tem relação com o fato de que, no caso dos países asiáticos, boa parte dos financiamentos externos (na sua maioria compostos por empréstimos de bancos estrangeiros, financiamentos de importação e influxo de capitais especulativos de curto prazo) estavam sendo dirigidos para setores econômicos que não redundariam em um aumento subseqüente na quantidade de bens passíveis de serem comercializados externamente, ou seja o que havia em curso era justamente algo oposto à tese levantada no parágrafo anterior. Verificou-se, por exemplo, que durante anos uma parte importante da poupança externa estava financiando grandes e inúmeros projetos de construção de imóveis, além de outros projetos que, apesar de econômica e financeiramente inviáveis (ou seja, sem chances reais de proporcionar lucros aceitáveis) eram colocados em execução em virtude de uma espécie de boom imobiliário que se instalava nos países daquela região asiática (boom que contava, além de tudo, com o aval das agências governamentais). Vale ainda lembrar, inclusive, que esses projetos estavam sendo implementados num ambiente onde já imperava um alto grau de especulação imobiliária (que elevava artificialmente os preços dos imóveis). Ambiente que, de um certo modo, também se caracterizava como de muita volatilidade e risco, o que fazia cada vez mais temerário captar recursos externos para investir justamente num setor cuja promessa de retorno era quase que inexistente principalmente em razão da má qualidade de tais projetos de investimento e da falta de um planejamento cuidadoso e racional que levasse em conta variáveis de demanda, de retorno e, principalmente, de risco.

Analisando o que vinha já há muito tempo ocorrendo na Ásia também atesta-se, a bem da verdade, que muito do dinheiro disponível começava, em proporções cada vez maiores, a ser deslocado dos investimentos em projetos novos (incluindo os do setor imobiliário - que mostravam-se com demanda insuficiente e sem retorno) para, através do redirecionamento das consideráveis quantidades de recursos financeiros ainda abundantes (visto que os empréstimos externos continuavam a abastecer as economias asiáticas com relativa regularidade e a juros muito baixos), o financiamento de projetos meramente especulativos voltados exclusivamente para a montanha de ativos já existentes e disponíveis para compra nos países asiáticos, como imóveis, terras, ações, etc, fazendo, em decorrência disso, se elevar substancialmente a chamada bolha de consumo. Ativos, que a propósito, podiam ser adquiridos para revenda através de repasses de dinheiro patrocinados pelo mercado internacional de capitais e passivamente garantidos pelo governo, o que só fazia elevar os índices de endividamento externo sem contudo gerar uma contrapartida na forma de riqueza material que deveria ser, no futuro, mais do que suficiente para honrar os serviços dessa dívida externa que vinha sendo acumulada.

Obviamente, se pedimos emprestado no exterior fundos para aplicação em investimentos que imediatamente se mostram inviáveis, sem liquidez, sem promessa de retorno, impagáveis e ainda sujeitos à perdas financeiras expressivas (devido a um processo muitas vezes irracional e inconseqüente de especulação) o resultado, é claro, não poderia ter sido outro, ou seja, com o tempo foi-se naturalmente desaparecendo por completo qualquer resquício de confiança por parte dos agentes internacionais que, em última instância são os que provêm esses fundos. Sem acreditarem mais na capacidade de alguns países da Ásia em cumprirem seus compromissos financeiros externos (crença que se tornou certa logo após o estouro da bolha) e temerosos de que os crescentes déficits em conta corrente apresentados por esses países acabassem por desaguar numa súbita desvalorização das moedas asiáticas, os investidores externos não tinham outra coisa a fazer senão desfazerem suas posições de investimento, remetendo para fora seus capitais. Derrubando de vez as cotações das moedas locais, a saída momentânea de uma enxurrada de dólares trouxe instabilidade e pânico aos mercados asiáticos, o que levou um número ainda maior de investidores a levarem de volta seus capitais. Novas entradas de capital externo também foram suspensas até que se restabelece-se a normalidade e a confiança no mercado asiático, o que fez com que se agravasse ainda mais a situação das contas externas dos países envolvidos na crise, que estarrecidos, viam as cotações de suas moedas despencarem de um instante para outro.

financeiro e político mundiais

Após esse breve relato sobre alguns aspectos gerais relacionados com as causas da crise asiática, nosso objetivo agora é aprofundarmos um pouco mais a análise do que realmente foi essa crise e de como ela poderia ter se originado. Tentando chegar à gênesis da crise, nos deteremos na abordagem de tópicos mais específicos que, vistos na sua essência, nos permitirão percorrer em detalhes os diversos meandros da crise asiática e descrever com um grau maior de precisão quase que todas as facetas sob a quais se personificou a crise de 1997 que abalou o mundo econômico, 5

2. RESERVAS VOLÁTEIS E MOEDAS SOBREVALORIZADAS

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