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Voltando aos comentários de Roubini, fica evidente que, por de trás desses regimes que mantiveram sobrevalorizadas as moedas locais (regimes típicos de países como Malásia, Indonésia, etc), está na verdade o uso do câmbio como uma espécie de âncora de suporte à política monetária desses países ou, em outras palavras, a idéia de buscar obter, através do câmbio fixo, um maior controle sobre o nível de preços interno que, servindo às estratégias de estabilização de algumas economias asiáticas, trouxeram como conseqüência (a partir do instante em que as taxas de inflação doméstica superavam os índices de inflação do resto do mundo), uma considerável apreciação do valor das moedas locais dos países que entravam nesse tipo de regime. A relação entre a valorização de determinadas moedas da Ásia e os seguidos déficits em conta corrente também é mencionada por Roubini, principalmente quando se constata que os países cuja moeda estava sobrevalorizada apresentavam piora nos seus déficits em conta corrente, enquanto países como China e Taiwan, que tinham experimentado depreciação no valor de suas moedas ostentavam superávits em suas contas correntes. À exceção apenas da Coréia que, graças a conjugação de outros fatores como crescimento exagerado, bolhas de consumo, especulação financeira, dificuldade em concorrer no mercado internacional com outros países, dentre outros, continuou a ter que arcar com seguidos déficits em sua conta corrente, em que pese o fato da moeda coreana ter sofrido um processo de depreciação real ao longo da década de 90. A seguir exibimos duas tabelas que tentam mostrar por um lado os contínuos déficits em conta corrente que foram norma em vários países emergentes da Ásia e, de outro, o processo de valorização das moedas asiáticas tendo como referência o ano de 1990 (base = 100)

VALORIZAÇÃO DA TAXA DE CÂMBIO REAL NOS PAÍSES DA ÁSIA - (1990 = 100)

cerca de 25 bilhões de dólares de déficit em 1995 e 35 bilhões em 1996

Já Krugman acrescenta que as taxas de câmbio asiáticas tornaram-se sobrevalorizadas principalmente em relação ao Japão, de cujo mercado dependia fortemente os países emergentes do sudeste asiático. Ainda segundo Krugman, tudo isso esteve ligado ao fato de que Tailândia, Malásia, Singapura, Filipinas e Hong Kong tinham suas moedas fixas em relação ao dólar justamente num momento onde se observava que as taxas de inflação nesses países eram superiores as taxas de inflação dos EUA e Japão e, concomitantemente a isso, o dólar americano vinha se valorizando contra o iene, fortalecendo, do ponto de vista comercial, o Japão comparativamente aos EUA e, numa escala bem maior, esse mesmo Japão comparativamente aos demais países do sudeste asiático. Deste modo, a conta corrente dos países asiáticos (excluindo a China) teria, segundo Krugman, passado de uma situação de superávit em 1993 (mais ou menos 5,5 bilhões de dólares) para

Em tese, o que se pretendeu dizer até agora, a respeito do grau de apreciação real da maioria das moedas asiáticas, está intimamente relacionado com as circunstâncias que deram início à crise na Ásia, pois o fenômeno de sobrevalorização cambial e a sua total falta de sustentabilidade a longo prazo (uma vez que a paridade fixa das moedas apreciadas não podia ser mantida por muito tempo - em parte devido aos desequilíbrios macroeconômicos e à própria volatilidade das reservas cambiais que, em princípio, estavam sendo freqüentemente usadas para defender a cotação dessas moedas no mercado) acabou por se configurar como um barril de pólvora a mais, dentre tantos, prestes a explodir, desencadear a crise e detonar seu nefasto mecanismo de contágio que, de uma só vez, abalou toda a economia emergente da Ásia, além de fazer com que uma série de outros países do mundo pudessem sentir na pele seus efeitos.

Como já dissemos, moedas sobrevalorizadas levaram a perda de competitividade no comércio internacional da maioria dos tigres asiáticos (países que, segundo a tese de Roubini, competiam externamente com produtos similares e praticamente nos mesmos mercados). Como os desequilíbrios externos gerados por tal situação eram, por assim dizer, financiados com capital externo e como muitos desses empréstimos e demais fluxos financeiros de curto prazo não estavam protegidos contra possíveis desvalorizações da moeda local, ou seja, devido a política de câmbio fixo adotada nos países que recebiam dinheiro de fora, grande parte dos investidores e/ou credores (que direta ou indiretamente vinham fornecendo capital para sustentar a economia desses países) não estavam “redgeados”, todos, sem exceção, ficaram prontos a, dependendo da situação, repatriarem imediatamente seus capitais ou então suspenderem as operações de empréstimo e financiamento que eram direcionadas para os países da Ásia. O problema é que tal situação, (que na verdade era apenas uma expectativa de crise e não a crise real), induzia a todos a elaborarem as chamadas profecias que se auto cumprem, ou seja, quando os agentes econômico-financeiros, que operam nos mercados, acreditam que um determinado evento vai ocorrer, eles imediatamente são levados a tomar uma série de decisões que, visando se precaverem contra os efeitos negativos desse evento, acabam por desencadear na prática esse evento sobre o qual existia apenas uma expectativa de ocorrência. Também alimentando esse processo de profecias auto-realizáveis (que antecipadamente provocam uma crise cambial e de moeda via repatriação em massa de capitais e suspensão unilateral de empréstimos e refinanciamentos) estava a crescente ameaça dos chamados ataques especulativos (normalmente engendrados contra moedas que se encontram à beira de um crise) que, no caso da crise asiática, acabaram se tornando um outro fator que, por uma série de razões, praticamente obrigou os investidores/credores internacionais a acreditarem que a crise era iminente, forçando-os a anteciparem suas decisões e assim consolidarem de vez a crise. Ataques que, na opinião de Krugman, começam a se configurar quando os especuladores do mercado, apostando que o regime de paridade fixa de uma moeda não poderá se manter por muito tempo, discretamente ficam em várias posições vendidas a descoberto em moeda nacional (isto é, toma emprestado moeda nacional e, ao mesmo tempo, faz um contrato futuro de venda dessa mesma moeda nacional por um preço determinado para entrega num prazo de 30 dias ou mais). Acumulando uma quantidade enorme de contratos futuros exatamente deste tipo, os especuladores, logo em seguida, tentam forçar uma corrida no mercado (induzindo-o a compra ostensiva de moeda estrangeira), através de declarações públicas de que a moeda nacional está sobrevalorizada ou fazendo ele mesmo, especulador, volumosas compras de moeda estrangeira, provocando então uma demanda sem precedentes de moeda estrangeira no mercado. Impossibilitado de cobrir tamanha demanda por divisas, o Banco Central do país é obrigado a se curvar ao mercado e deixa que a moeda local se desvalorize.

Compreendendo um pouco melhor a realidade dessas circunstâncias que estiveram todo o tempo associadas com o desenrolar da crise cambial asiática, verifica-se, a priori, que um ataque especulativo a uma moeda só pode ser viabilizado, na prática, se as autoridades monetárias do país insistem teimosamente em manter uma relação fixa de valor entre a moeda local e uma outra moeda forte (geralmente o dólar americano). O problema é que tal situação pode ganhar uma dimensão potencialmente explosiva (exatamente como no caso asiático) se os Bancos Centrais dos países que adotam a política de câmbio fixo se vêem cada vez mais impossibilitados de defenderem a paridade das suas moedas frente ao dólar (atiçando a ânsia dos especuladores e induzindo-os a planejarem ataques contra essas moedas). Como se sabe, quando um governo se põe a sustentar artificialmente o valor da sua moeda ele deve sempre intervir nos mercados de câmbio toda vez que houver uma demanda de moeda estrangeira. Mormente, a medida em que surgem os primeiros sinais de uma provável crise e ocorre um aumento da demanda por moeda estrangeira, o banco central age então contrabalançando essa pressão (que levaria naturalmente a uma desvalorização da moeda local) ofertando no mercado grandes volumes de moeda estrangeira. Entretanto, esta política só se mostra eficaz se o país em questão tiver a sua disposição reservas cambiais suficientes para vender no mercado justamente naqueles estreitos momentos que normalmente conduzem (se nada for feito) a uma crise, e que tem, portanto, um caráter decisivo em todo esse processo. Contudo, ao que parecia, reservas em abundância era algo que já não mais existia em muitos dos países asiáticos que sofreram ataques especulativos, ou seja, o que existia na verdade era uma crescente diminuição no nível das reservas daqueles países, uma vez que boa parte das reservas até então disponíveis ou tinham sido gastas ao longo do tempo para manter estáveis as cotações das moedas locais ou então, estavam sendo usadas para honrar compromissos externos cada vez mais onerosos como juros da dívida externa, amortizações, pagamento de importações, etc. Nível de reservas que, sustentado em parte por capitais voláteis, tendeu a desabar com maior rapidez ainda quando ficou claramente evidenciado que seria impossível para as autoridades monetárias asiáticas segurarem as cotações das suas moedas (dado o baixo nível de reservas de que tinham a mão para controlar os ânimos do mercado), fazendo da crise apenas uma questão de tempo. Em linhas gerais, foi exatamente isso que ocorreu na Tailândia em julho de 1997, onde a moeda local, o Bath tailandês sofreu uma forte desvalorização, já que não agüentou um ataque especulativo maciço e suas divisas se esgotaram rapidamente pela fuga de capitais. A Tailândia que, diga-se de passagem, era de todos os tigres, o país que apresentava maior fragilidade, mostrando sinais de deterioração em áreas importantes de sua economia. O que talvez explique, ao menos em parte, o porque de ser a Tailândia o primeiro país emergente da Ásia onde os especuladores farejaram lucro certo, apostando vultosas somas contra a sua moeda. Daí em diante, como não podia deixar de ser, a insegurança se alastra e toma conta, de vez, dos demais tigres asiáticos que, já vivendo uma situação de insustentabilidade tanto sob o ponto de vista econômico como financeiro (situação essa temperada por um ambiente de risco incalculado) fez somente elevar a cobiça dos especuladores que viram assim então a promessa de obtenção de maiores lucros investindo contra os outros países problemáticos da região.

Submetida a uma desvalorização contínua a moeda tailandesa detonou, além disso, o chamado efeito dominó que, de forma definitiva, pôs fim ao regime cambial de paridades fixas existente nos demais países da Ásia, obrigando-os a também desvalorizarem suas moedas. O porque desse contágio que levou a um processo aparentemente sem fim de desvalorizações automáticas nas moedas de vários países asiáticos explica-se da seguinte forma: Na medida em que as moedas dos tigres asiáticos se mostravam anteriormente a crise, de uma certa forma, sob o mesmo nível de paridade (apesar de umas mais sobrevalorizadas do que outras e ainda outras que tinham sido depreciadas em relação ao dólar), verifica-se, em tese, que havia ali um relativo estado de equilíbrio, mesmo porque as cotações em que encontravam as diversas moedas desses tigres asiáticos foram sendo formadas ao longo dos anos e não haviam sido registrados, até momentos antes da crise, grandes oscilações no valor que essas moedas tinham entre si. Contudo, após o ataque especulativo contra o Bath tailandês, outras moedas da região começaram a se desvalorizar, pois também vinham sendo “atacadas pelos especuladores do mercado. Como ainda havia moedas que não tinham sofrido desvalorização e, sobretudo, a intensidade com que estavam sendo desvalorizadas as outras moedas não se mostrava simétrica e na mesma proporção, iniciou-se um processo de desequilíbrio nas paridades de troca entre as moedas da região levando a uma situação de também desequilíbrio nos indicadores de competitividade externa dos produtos de exportação de cada um desses países em crise. Obviamente, quando países de uma mesma região competem no mercado internacional utilizando praticamente as mesmas estratégias e, a par disso, vem durante anos, disputando os mesmos mercados e mantendo, de uma certa forma, estável, entre eles, o poder de compra de suas moedas, uma brusca e acentuada desvalorização em uma ou mais moedas rompe por completo a situação de equilíbrio e leva a sucessivas desvalorizações de parte a parte. Na tentativa de restabelecer os níveis de paridade até então existentes entre as moedas dos tigres asiáticos, fazer voltar à situação de equilíbrio anterior à crise e, antes de mais nada, evitar que as diferenças de paridade entre as moedas provocasse uma redução significativa nos saldos comerciais dos países com moedas menos desvalorizadas ou mais apreciadas (redução essa feita em benefício da correspondente melhora nos saldos comerciais daqueles outros países que tiveram suas moedas fortemente desvalorizadas), é que acabou-se entrando num processo quase que predatório e irracional, onde todos os países afetados de um modo ou de outro pela crise, concomitantemente resolviam depreciar, de forma desesperada e violenta, suas moedas visando manter, a qualquer custo, o grau de competitividade de suas exportações, principalmente em relação aos outros países da região que também desvalorizavam suas moedas. Esses tipos de atitudes, chamadas de desvalorizações competitivas por Roubini, é claro trouxe ainda mais instabilidade para a região do sudeste asiático, gerando um fluxo maior de saída de capitais por parte dos investidores estrangeiros que, constantemente submetidos a perdas nos valores reais de seus investimentos cotados em dólar e temerosos de que novas perdas pudessem ocorrer, não tinham outra alternativa senão transferirem suas aplicações para mercados mais seguros, estáveis e de menor risco.

Expondo em mais detalhes a gravidade da crise asiática e seu efeito multiplicador de perdas nota-se, inclusive, que essas fortes desvalorizações trouxeram elevações drásticas nos valores das dívidas e nos seus serviços (juros), levando um sem número de empresas com passivos elevados em moeda estrangeira a amargarem prejuízos quase que irreparáveis ou até mesmo irem irremediavelmente à falência. Cumpre-se notar que tal fato acabou sendo um elemento agravante a mais verificado logo após o desencadear da crise de moeda na Tailândia em julho de 1997, visto que logo em seguida Coréia do Sul e Indonésia também começam a ver suas moedas se desvalorizarem e, em conseqüência desse flagelo, são justamente Coréia do Sul e Indonésia que em dezembro de 1997 e janeiro de 1998 respectivamente declaram moratória de suas dívidas externas, adicionando mais combustível à crise.

3.DESCONTROLE FINANCEIRO, BOLHAS ESPECULATIVAS E CRISE MORAL

Pelo que se tem percebido até o momento, a compreensão dos diversos meandros e peculiaridades inerentes às causas da crise asiática pode ocorrer a partir de múltiplas abordagens. Abordagens que em realidade acabam por nos trazer à luz determinadas pré-condições que, de uma forma ou de outra, estiveram todo o tempo agindo sobre os alicerces do modelo econômico-financeiro que imperava no sudeste asiático, levando-o a um desmoronamento trágico que começou em meados de 1997 e se estendeu durante longos meses. Falando em modelos asiáticos, cumpre a par disso, citarmos Krugman que, por exemplo, põe em discussão, entre outras coisas, a crônica vulnerabilidade de boa parte das economias asiáticas, vulnerabilidade essa que permitiu que os efeitos nocivos de um ataque especulativo e de uma crise de moeda surgida num país específico da Ásia (no caso a Tailândia) pudesse se alastrar em questão de meses por toda a região do sudeste asiático, atingindo em cheio países até então inseridos no rol das grandes potências emergentes do globo, como a Coréia. Entretanto, Krugman afirma que essa relação de contágio é perfeitamente compreensível quando se analisa mais especificamente a situação macroeconômica daqueles países emergentes da Ásia cujos sistemas econômicos e produtivos se mostravam mais interligados e apresentavam características mais próximas como é o caso de Malásia, Tailândia e Indonésia que, cabe lembrar, acostumaram-se a competir nos mercados internacionais se valendo, principalmente, da venda de grandes quantidades de produtos intensivos em mão-de-obra (não se encaixando, portanto, no modelo coreano de exportações). Partindo de tal constatação, vemos então que a situação de correlação econômica da Coréia com os outros três países asiáticos citados (Malásia, Tailândia e Indonésia) é bem menos contundente e bem menos explícita, não se configurando, deste modo, a existência de ligações econômico-competitivas mais estreitas entre os três países acima mencionados e a Coréia que, a bem da verdade, possui uma estrutura produtiva diferenciada em relação aos outros países do sudeste asiático.

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