crescimentotilapia

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(Parte 1 de 3)

Ciência Animal Brasileira, v. 8, n. 2, p. 185-192, abr./jun. 2007

Carlos Henrique dos anjos dos santos,1 jullyermes araújo lourenço,2 marCo antonio igarasHi3

1. Mestre em Engenharia de Pesca, Departamento de Engenharia de Pesca, Universidade Federal do Ceará, CEP 60.356-0, Fortaleza, Ceará, Brasil.

E-mail: carloshenriqueufc@gmail.com 2. Doutorando em Engenharia de Pesca / UFC. E-mail: jullyermeslourenco@yahoo.com.br 3. Professor Ph.D. do Mestrado e Doutorado em Engenharia de Pesca / UFC. E-mail: igarashi@ufc.br

O objetivo deste trabalho foi avaliar o uso de peixes marinhos no crescimento de tilápia-do-Nilo, Oreochromis niloticus. Desenvolveu-se o experimento em delineamento inteiramente casualizado com três tratamentos (ração para peixes com 28% de PB, Pellona harroweri e Pomadasys croco), três repetições cada. Utilizaram-se 63 peixes, com peso médio inicial de 3,059±0,846 g e 4,1±4,0 m para o tratamento com ração, 3,015±0,892 g e 4,6±4,5 m para o tratamento com P. harroweri e 2,736±0,803 g e

43,6±4,5 m para o tratamento com P. croco, distribuídos homogeneamente em nove tanques de alvenaria de 2 m3 cada, contendo sete peixes por tanque. Após 91 dias, os resultados indicaram que as dietas com ração resultaram em melhores ganhos em peso e crescimento específico (P < 0,05). A tilápia-do-Nilo, mesmo sendo uma espécie omnívora, aceitou bem as dietas compostas pelas espécies de peixes marinhos utilizadas neste trabalho.

PALAVRAS-CHAVES: Alimentação de peixes, aqüicultura alternativa, Oreochromis niloticus.

The objective of this work was to verify the use of marine fish on Nile tilapia, Oreochromis niloticus, growth performance. Sixty three Nile tilapia juveniles, with an average weight and length of 3.059±0.846 g and 4.1±4.0 m to treatment with ration, 3.015±0.892 g and 4.6±4.5 m to treatment with Pellona harroweri and 2.736±0.803 g and 43.6±4.5 m to treatment with Pomadasys croco, were stocked into nine floating cages with 2 m3 (seven fish per cage), in a complete randomized design with three treatments (ration to fish with 28% PB, P. harroweri and P. croco), in three replicates each. After ninety one days, results showed that diet with ration produced a better weight gain, specific growth rate (P < 0.05). The Nile tilapia is an omnivorous species, but fed on marine fish used in this work.

KEY- WORDS: Alternatives aquaculture, feeding of fish, Oreochromis niloticus. INTRODUÇÃO

As tilápias são peixes de origem africana. Elas vivem em águas paradas e quentes. Elas são rústicas e possuem elevada capacidade de adaptação às mais diferentes condições ambientais. Por isso, caracterizam-se com um enorme potencial para aqüicultura (SALDANHA et al., 1999). Sua

186 SANTOS, C. H. dos A. dos et al.

Ciência Animal Brasileira , v. 8, n. 2, p. 185-192, abr./jun. 2007 área de distribuição geográfica natural é desde o Leste africano (Bacia do Nilo, Congo) ao Oeste africano (Bacias dos rios Níger e Senegal). Disseminam-se, porém, pelo homem em Israel, no Sudoeste asiático, nos Estados Unidos e, ainda, na América do Sul (SIQUEIRA FILHA et al., 1999).

O cultivo de tilápia começou no Quênia, em 1924, e seguiu no Congo, em 1937. As primeiras informações sobre as tilápias como espécies promissoras para aqüicultura ocidental surgiram no início da década de 1950, com citações sobre a tilapicultura como um dos melhores negócios para a piscicultura e uma nova fonte para obtenção de proteínas (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E DO ABASTECIMENTO, 2000).

Dentre mais de setenta espécies de tilápias, a maioria oriunda da África, apenas três conquistaram destaque na aqüicultura mundial: a tilápiado-Nilo (Oreochromis niloticus), a tilápia-azul ou áurea (O. aureus) e a tilápia-mossambico (O. mossambicus).

As exigências nutricionais dos peixes são estabelecidas, em sua maioria, sob condições laboratoriais, o que pode ser responsável por parte das diferenças intra e interespecíficas, às vezes conflitantes, apresentadas na literatura. Entretanto, sabe-se que as reais exigências nutricionais estão diretamente relacionadas aos seguintes fatores: espécie, fase de desenvolvimento, sexo e estádio de maturação sexual, sistema e regime de produção, temperatura da água, freqüência de arraçoamento e qualidade da dieta (PEZZATO et al., 2004).

A tilápia-do-Nilo apresenta o hábito alimentar planctófago e se alimenta de detritos do fundo, mas aceita bem ração comercial (YANCEY & MENEZES, 1983). Sabe-se que a ração como insumo pode vir a inviabilizar a implantação da tilapicultura em algumas comunidades, no entanto, a tilápia pode se servir de vários organismos, mudando seu hábito, caso não tenha alimento suficiente no meio.

Um dos grandes problemas gerados pela produção pesqueira no Nordeste do Brasil está relacionado à pesca do camarão marinho, em que uma imensa fauna divide o mesmo ambiente com os camarões e está sujeita à captura pelos barcos camaroneiros. Tais espécies são devolvidas ao mar sem nenhuma condição de sobrevivência, a despeito de muitos dos peixes serem de reconhecida aceitação para o consumo humano (SANTOS et al., 1998).

Segundo RODRIGUES (2005), a produção mundial do camarão cultivado em mais de cinqüenta países emergentes chegou a 1.908.0 toneladas no ano de 2004, ou seja, 35,2 % do total de camarões produzidos em todo mundo, com um volume anual, considerando-se captura e cultivo, de 4.630.0 toneladas. Desse total, 2.722.0 toneladas são referentes à captura no ambiente natural. Acredita-se que, para cada tonelada de camarão pescado, venha uma fauna acompanhante de seis a nove toneladas de peixes.

De maneira geral, a literatura científica não menciona a utilização de peixes frescos na alimentação de tilápias. No entanto, existem relatos da utilização de silagem biológica de resíduos de pescado de água doce na alimentação de tilápia-do-Nilo (SALES et al., 1999). Há trabalhos que citam a utilização de peixes frescos da fauna acompanhante na alimentação de camarões (SANTOS, 2000; SANTOS et al., 2002). Existem, ainda, pesquisas relacionadas à utilização de peixes frescos na alimentação de peixes carnívoros como tucunaré e pirarucu. De acordo com PEZZATO et al. (2004), as dietas naturais de espécies carnívoras e herbívoras são diferentes, mas, em situações de confinamento, podem conter ingredientes similares na formulação, os quais são adicionados em proporções diferentes.

Este estudo avaliou o crescimento da tilápia-do-Nilo alimentada com peixes marinhos provenientes da fauna acompanhante da pesca do camarão.

O estudo foi realizado no Centro de Tecnologia em Aqüicultura do Departamento de

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Engenharia de Pesca da Universidade Federal do Ceará, entre 1º de novembro de 2002 a 1º de fevereiro de 2003, totalizando 91 dias de cultivo.

Cultivaram-se 63 alevinos de tilápia-do-

Nilo, revertidos sexualmente com o hormônio masculinizante 17-∝-metiltestosterona, adquiridos junto ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) de Pentecoste, CE, e transportados via terrestre para Fortaleza em sacos plásticos com 1/3 de água e 2/3 de oxigênio. Ao chegar no laboratório, aclimataram-se os peixes para as novas condições de confinamento. Posteriormente, procedeu-se à pesagem, medição e estocagem desses peixes, seus respectivos tratamentos, a uma densidade de sete peixes/ tanque, distribuídos em um delineamento inteiramente casualizado, composto por três tratamentos com três repetições cada.

Realizou-se o experimento em nove tanques de alvenaria, com capacidade para 2 m3, sendo cada um deles provido com aeradores para manutenção do oxigênio dissolvido. Os peixes foram submetidos a três tipos de alimentação: ração comercial para peixes com 28% de proteína bruta; Pellona harroweri, Fowler, 1917 (sardinha-piaba); e Pomadasys croco, Cuvier, 1830 (coró-amarelo).

Os indivíduos apresentaram pesos e comprimentos médios iniciais de 3,059±0,846 g e 4,1±4,0 m para o tratamento com ração comercial (RC) para peixe com 28% de proteína bruta; 3,015±0,892 g e 4,6±4,5 m para o tratamento com os peixes alimentados com P. harroweri (PH) e 2,736±0,803 g e 43,6±4,5 m para o tratamento com os peixes alimentados com P. croco (PC).

Realizou-se biometria no início e a cada vinte dias até a quinta amostragem. Entre a quinta e a sexta amostragem, o intervalo utilizado foi de onze dias, totalizando seis biometrias ao final do experimento. Para isso, empregou-se balança digital (precisão de 0,001 g) e paquímetro (precisão de 0,05 m).

Após cada procedimento biométrico, renovaram-se 95% da água do cultivo, com o intuito de drenar a sujeira do fundo dos tanques, retirando-se as fezes e os restos de alimento. Assim, procurou-se manter a qualidade da água dentro dos padrões aceitáveis.

A temperatura e o pH foram mensurados diariamente com o auxílio de termômetro (precisão de 0,1 ºC) e peagâmetro (precisão de 0,01). A taxa de oxigênio dissolvido não foi analisada, pelo fato de as unidades de cultivo serem acopladas a um sistema de aeração ligado 24 horas por dia.

A alimentação foi ofertada até a saciedade das tilápias, sendo os peixes marinhos disponibilizados triturados e na forma in natura.

Ao final do experimento, submeteram-se os dados do peso e comprimento à homogeneidade e, consecutivamente, realizou-se a análise de variância (ANOVA). Como se constatou diferença estatística significativa entre os tratamentos, realizou-se o teste de Tukey, para comparação média por média. O nível de probabilidade utilizado foi de 5%.

As taxas de crescimento em peso (TCP) e comprimento (TCC), assim como o incremento em peso relativo diário da biomassa (TCPD) foram calculados pelas seguintes fórmulas:

TCP = ( Pfi – Pin ) x 100

Pin

em que:

Pfi = peso médio final e Pin = peso médio inicial

TCC = ( Cfi – Cin ) x 100

Cin

em que:

fi = comprimento médio final e Cin = comprimen- to médio inicial.

x n ) – ( Pin x n )1
x 100 x
( Pin x n ) T

TCPD = ( Pfi em que:

n = número de sobreviventes e T = tempo do experimento (dias).

Para o cálculo da taxa de sobrevivência

(TS%) dos animais, empregou-se a seguinte fórmula:

188 SANTOS, C. H. dos A. dos et al.

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N f x 100 TS% =

Ni

em que:

Nf = número final de indivíduos e Ni = número inicial de indivíduos.

Durante o período experimental, registraram-se os seguintes valores médios da qualidade da água: para os animais que receberam ração comercial, temperatura de 28,30±0,80ºC e pH 7,60±0,4; para os alimentados com P. harroweri, temperatura de 28,50±0,80ºC e pH 7,59±0,47; para os alimentados com P. croco, temperatura de 28,40±0,80ºC e pH 7,66±0,40. Já a temperatura e o pH mínimos e máximos observados durante o cultivo foram de 26,7ºC e 30,6ºC / 6,51 e 8,72 para os tanques de cultivos das tilápias alimentadas com RC; 26,9ºC e 30,1ºC / 6,49 e 8,87 para o P. harroweri; e

TABELA 1. Valores médios obtidos para os pesos iniciais e finais, e curva de crescimento em peso da tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus), alimentada com ração comercial e com peixes marinhos Pellona harroweri e Pomadasys croco.

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