Cultura Religiosa - Completa

Cultura Religiosa - Completa

(Parte 6 de 16)

São raros, mas existem cientistas devotos. O mais famoso é o biólogo americano Francis Collins, autor de um dos feitos mais notáveis da ciência recente: o mapeamento do DNA humano. Collins, temente a Deus desde os 27 anos, escreveu A linguagem de Deus para mostrar que ciência e fé não são incompatíveis, mas complementares. A ciência investida o natural, a religião investiga o espírito – e uma não responde às dúvidas da outra. Entre os cientistas, muitos rejeitam essa divisão compartimental do saber humano, mas Collins alega que a ciência tem respostas empobrecedoras para indagações primordiais. Por exemplo: por que estamos aqui? Qual é o sentido da vida? Os cientistas ateus não sabem dizer e, em defesa de sua visão atéia, alegam que a ausência de uma explicação natural não exige necessariamente uma explicação sobrenatural. Eles acusam os religiosos de aproveitar a lacuna do conhecimento humano para preenchêla com o pensamento mágico.

Ciência e fé não foram inimigas escancaradas desde sempre, porque a fé, por séculos, foi mais forte, mais influente e mais poderosa que a ciência. Mas o choque entre ambas tem fundas raízes na história – a começar por Demócrito, que cinco séculos antes da era cristã, intuiu a existência do átomo em um exercício mental de um vigor espantoso. Diante da afirmação de que tudo era matéria, tudo era átomo, a fé sentiu-se contrariada porque, se tudo é assim, Deus não pode ser imaterial. E, pior, sendo material, é corruptível. Séculos mais tarde, a Igreja Católica, autoridade no Ocidente, entraria em rota de colisão aberta com as mais fantásticas descobertas científicas. Foi contra o heliocentrismo. O Sol não poderia ser o centro do universo, pois esse lugar perfeito, o centro, era da Terra, obra de Deus. Foi contra a datação do mundo, o estudo da anatomia em cadáveres e até se insurgiu contra o número zero, noção central para a evolução da matemática. Desagradou-lhe também o pára-raio, cuja invenção nos dispensou de temer um Deus que nos enviava descargas elétricas punitivas de vez em quando.

É possível que nada tenha sido tão devastador para a crença divina quanto a descoberta de Charles Darwin (1809-1882), que chegou às livrarias inglesas no dia 2 de novembro de 1859, sob o título A Origem das Espécies, com modestos 1250 exemplares – esgotados rapidamente. Darwin dizia que não havia nada como um criatório divino em algum canto do planeta, de onde Deus sacava de vez em quando uma espécie nova. As espécies evoluíam segundo o principio da seleção natural. Ruía a idéia de que Deus fez do barro Adão e de sua costela Eva. A hecatombe reverbera até hoje, 150 anos depois, quando criacionistas, em especial nos Estados Unidos, insistem no “desenho inteligente”, roupagem nova para o velho criacionismo. A descoberta de Darwin é genial porque, como é próprio das obras-primas, contraria o padrão mental vigente. O homem está habituado a acreditar que, para criar algo, é preciso algo maior. Que só o complexo gera o simples. Ou seja: um homem pode fazer um livro, mas um livro não faz um homem. Darwin mostrou que a simplicidade dá origem à complexidade. Da ameba original veio tudo, o besouro, o coelho, o macaco, o homem. Para ressaltar o repúdio da fé ao darwinismo, o filósofo Michel Onfray, em seu Tratado de Ateologia, indaga, ironicamente: “O papa, primo de um babuíno?”.

O avanço da ciência também subverte a idéia religiosa de que a natureza e as espécies carregam o germe da perfeição – como se tivessem sido projetadas para funcionar como uma máquina maravilhosa. É engano. As espécies são imperfeitas, redundantes. Os embriões humanos produzem caudas e guelras nos primórdios, que acabam perdendo na fase fetal tardia. Os biólogos enxergam nesse processo a prova cabal da evolução darwinista e da impropriedade do conceito de criação e seu corolário, a perfeição do desenho divino. A evolução não tende à perfeição. Entre os bichos, a evolução produziu aves que não voam, cobras com pélvis e peixes cegos. Esse processo em vez de perfeito e retilíneo, é tateante e reincidente em seu incessante trabalho de produção de mutações. O que se atribui à perfeição do desenho é somente o resultado da adaptação às vezes apenas temporária da espécie ao ambiente em que vive. Um exemplo? A ave batizada pelos navegadores portugueses de dodo, corruptela de doido. Por milênios, dodo viveu nas Ilhas Maurício em relativa segurança, sem predadores e com comida rasteira abundante. Com o passar das eras nesse ambiente, as asas tornaram-se um acessório dispensável e a evolução permitiu que os dodos incapazes de voar sobrevivessem tão bem ou melhor do que os voadores. Logo sobraram apenas dodos incapacitados para o vôo. Resultado: os dodos foram extintos logo depois da chegada dos homens às Ilhas Maurício, em meados do século XVII. Sem asas, essas aves tornaram-se presa fácil para os predadores bípedes humanos.

Mas, apesar do dodo, do átomo, das galáxias, da nanotecnologia e da prova da conjectura de Poincaré, a religião resiste. Porquê? Para uns, a religião surge com a descoberta da finitude, e o peso esmagador de saber-se mortal só pode ser suportado com a muleta do pensamento mágico. Para outros, a religião é um instrumento que o homem criou para adaptar-se ao meio ambiente, que lhe parecia misterioso – como, de outro modo, entender a noite, a chuva, o trovão, a neve? Existe ainda a tese de que estamos biologicamente programados para acreditar em coisas que não podemos provar porque, para sobreviver, acreditamos nos perigos e alertas que recebemos de pai e mãe – ainda que , como crianças, não possamos entender o perigo real de ficar no parapeito da janela do 10º andar. Por fim, a própria teleologia, que nos leva a julgar que tudo existe com alguma finalidade – a nuvem para chover, o sol para aquecer, o mar para nadar -, acaba por predispor a espécie humana à religião. O biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton, outro especialista em Darwin, acredita que a religião pode acabar um dia, mas sempre haverá espaço para a fé. Wilson é ateu.

Sua tese tem respaldo em uma pesquisa da década de 70 que estudou 53 pares de gêmeos idênticos e 31 pares de gêmeos não idênticos. A conclusão dos pesquisadores é que a espiritualidade tem raiz genética, mas a opção por determinada liturgia, por um culto específico, pelo hábito de rezar, por freqüentar o templo ou a igreja, por ler a Bíblia ou o Corão é algo culturalmente adquirido. Um dia, o homem saberá ler com precisão os 3 bilhões de letras do DNA humano, nossa carteira de identidade. Certamente, esse conhecimento científico fará com que seja possível evitar um câncer, uma disfunção renal, a tendência à depressão ou a fragilidade dos ossos do tórax. Mas, ainda assim, com toda essa pujança, esse conhecimento imenso, não saberemos como fazer um homem bom ou mau, triste ou feliz. Talvez, da estupenda trajetória percorrida da simplória ameba primeva à potência do cérebro de Albert Einstein (1879-1955), o fundamental seja apenas isso: ser bom, ser feliz.

O filósofo Sam Harris, um dos ateus mais barulhentos do EUA, diz que só com o fim da fé poderá erguer uma civilização global.

Dependendo do ângulo em que é observado, o filósofo americano Sam Harris, de 40 anos, exibe uma desconcertante semelhança física com o ator Ben Stiller, mas seu trabalho nunca está para comédias. Junto com o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, Sam Harris é um dos mais ativos militantes contra as religiões. Em 2005, nos Estados unidos, ele lançou O Fim da Fé e ficou mais de trinta semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Neste ano, produziu um novo best-seller com críticas à religião. Com 91 páginas, Carta a uma Nação Cristã, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um compêndio em defesa do ateísmo. É redigido com uma linguagem tão cortante e argumentos tão implacáveis que, por vezes, roça o panfletário, mas dá seu recado com clareza absoluta. O filósofo bate em cada um dos pilares da fé e conclui: “A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a política”. Ele deu a seguinte entrevista:

O MOVIMENTO DOS ATEUS É FORTE NOS ESTADOS UNIDOS E NA INGLATERRA, PRINCIPALMENTE. É UMA DECORRÊNCIA OS ATENTADOS DE 1 DE SETEMBRO DE 2001? Vejo dois motivos simultâneos para essa confluência geográfica: os atentados de 1 de setembro e a escancarada religiosidade do governo de George W. Bush. A conjunção desses dois fatores levou muitas pessoas a se preocupar com o fato de que a fé está agora dos dois lados do balcão. Esse é um jogo altamente perigoso.

POR QUÊ? A fé é, intrinsecamente, um elemento que, em vez de unir, divide. A única coisa que leva os seres humanos a cooperar uns com os outros de modo desprendido é nossa prontidão para termos nossas crenças e comportamentos modificados pela via do diálogo. A fé interdita o diálogo, faz com que as crenças de uma pessoa se tornem impermeáveis a novos argumentos, novas evidências. A fé até pode ser benigna no nível pessoal. Mas, no plano coletivo, quando se trata de governos capazes de fazer guerras ou desenvolver políticas públicas, a fé é um desastre absoluto.

O SENHOR ACHA QUE O MUNDO SERIA MELHOR SEM RELIGIÃO, SEM FÉ SEM CRENÇA EM DEUS? Seria melhor se não houvesse mentias. A religião é construída, e num grau notável, sobre mentias. Não me refiro aos espetáculos de hipocrisia, como quando um pastor evangélico é flagrado com um garoto de programa ou metanfetamina, ou ambos. Refiro-me à falência sistemática da maioria dos crentes em admitir que as alegações básicas para sua fé são profundamente suspeitas. É mamãe dizendo que vovó morreu e foi para o céu, mas mamãe não sabe. A verdade é que mamãe está mentindo, para si própria e para seus filhos, e a maioria de nós encara tal comportamento como se fosse perfeitamente normal. Em vez de ensinarmos as crianças a lidar com o sofrimento e ser felizes apesar da realidade da morte, optamos por alimenta seu podre de se iludir e se enganar.

É POSSÍVEL CONCILIAR CIÊNCIA E RELIGIÃO? A diferença entre ciência e religião é a diferença entre ter bons ou maus motivos para acreditas nas hipóteses sobre o mundo. Se houvesse boas razões para crer que Jesus nasceu de uma virgem ou que voltará à Terra, tais proposições fariam parte de nossa visão racional e científica do mundo. Mas, como não há boas razões para acreditar nisso, quem o faz está em franco conflito com a ciência. É claro que as pessoas sempre acham um modo de mentir para elas mesmas e para os outros. A estratégia, nesse caso, é dizer que tal crença decorre da fé. Com freqüência, ouvimos dizer que não há conflito entre razão e fé. É o mesmo que dizer que não há conflito entre fingir saber e realmente saber. Ou que não há conflito entre auto-engano e honestidade intelectual.

HAVERÁ O DIA EM QUE A HUMANIDADE DEIXARÁ DE TER FÉ OU A FÉ FAZ PARTE DA NATUREZA HUMANA? O desejo de compreender o que se passa no mundo é inato, assim como o desejo de ser feliz, de estar cercado por pessoas que amamos ou o desejo de ser mais feliz, mais carinhoso, mais ético no futuro. Mas nada disso nos obriga a mentir para nós mesmos, ou para nossos filhos, a respeito da natureza do universo é incompleta e desconhecemos a extensão exata de nossa ignorância. Não temos como antecipar as maravilhosas descobertas que serão feitas. O que sabemos com absoluta certeza, aqui e agora, é que nem a Bíblia nem o Corão trazem nossa melhor compreensão do universo.

MAS NEM A BÍBLIA NEM O CORÃO SE PRETENDEM UM MANUAL CIENTÍFICO PARA ENTENDER O MUNDO. Esses livros não são sequer um guia sobre moralidade que possamos considerar minimamente adequado, e falo de moralidade porque é um campo em que ambos se consideram exemplares. A Bíblia e o Corão por exemplo, aceitam a escravidão. Qualquer um que os considere guias morais deve ser a favor da escravidão. Não há uma única linha no Novo Testamento que denuncie a iniqüidade da escravidão. São Paulo até aconselha aos escravos que sirvam bem aos seus senhores e sirvam especialmente bem aos seus senhores cristãos. É desnecessário dizer que a Bíblia e o Corão, além de não servir como guias em termos de moralidade, também não são autoridade em física, astronomia ou economia.

QUE TIPO DE IMPACO SEU LIVRO PODE TER SOBRE OS LEITORES RELIGIOSO? Eu ficaria feliz se o livro levasse os leitores a se perguntar porque, em pleno século XXI, ainda aplaudimos pessoas que fingem saber o que elas manifestamente não sabem nem podem saber. Não há uma única pessoa viva que saiba se Jesus era filho de Deus ou se nasceu de uma virgem. Na verdade, não há uma pessoa viva que saiba se o Jesus histórico tinha barba. No entanto, em muitos países é uma necessidade política simular que sabemos coisas sobre Deus, sobre Jesus, sobre a origem divina da Bíblia. Imagino que qualquer pessoa religiosa que leia Carta a uma Nação Cristã com a cabeça aberta descobrirá que os argumentos usados contra a fé religiosa são absolutamente irrespondíveis. Isso deve ter algum efeito sobre o modo de ver o mundo dos leitores. Eles certamente vão perceber que ser um cristão devotado faz tanto sentido quanto ser um muçulmano devotado, que, por sua vez, é tão lógico quanto ser um adorador de Poseidon, o deus do mar na Grécia antiga. É hora de falarmos sobre a felicidade humana e nossa disponibilidade para experiências espirituais na linguagem da ciência do século XXI, deixando a mitologia para trás.

CONHECIDO PELO SINCRETISMO RELIGIOSO, NUM PAÍS ASSIM, É MAIS FÁCIL OU MAIS DIFÍCIL PARA O ATEÍSMO CRESCER? Em certo sentido, deve ser mais fácil. O convívio intenso de crenças inconciliáveis deve levar as pessoas a compreender que tais crenças são produtos de acidentes históricos, são contingenciais, são criadas pelo homem e, portanto, não são o que pregam ser. Judeus e cristãos não podem estar ambos certos porque o núcleo de suas crenças é contraditório. Na verdade, eles estão equivocados sobre muitas coisas, exatamente como estavam antes os adoradores dos deuses egípcios ou gregos. Ou os adoradores de milhares de deuses que morreram durante a longa e escura noite da superstição e da ignorância humana. Em qualquer lugar que os seres humanos façam um esforço honesto para chegar à verdade, nosso discurso transcende o sectarismo religioso. Não há física cristã, álgebra muçulmana. No futuro, não haverá nada como espiritualidade de muçulmana ou ética cristã. Se há verdades espirituais ou éticas e ser descobertas, e tenho certeza de que há, elas vão transcender os acidentes culturais e as localizações geográficas. Falando honestamente, esse é o único fundamento sobre o qual podemos erguer uma civilização verdadeiramente global.

2.12.2 – Ciência não exclui Deus

“O biólogo que desvendou o genoma humano explica por que é possível aceitar as teorias de Darwin e ao mesmo tempo manter a fé religiosa”

O biólogo americano Francis Collins é um dos cientistas mais notáveis da atualidade. Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo americano, foi um dos responsáveis por um feito espetacular da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em 2001. Desde então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao tratamento de doenças em todo mundo. Collins também é conhecido por pertencer a uma estripe rara, a dos cientistas cujo compromisso com a investigação do mundo natural não impede a profissão da fé religiosa. Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria nega a existência de Deus, Collins decidiu reagir. Ele lançou há pouco nos Estados Unidos livro The Language of God (A linguagem de Deus). Nas 300 páginas da obra, o biólogo conta como deixou de ser ateu para se tornar cristão aos 27 anos e narra as dificuldades que enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua fé. “As sociedades precisam tanto da ciência como da religião. Elas não são incompatíveis, mas complementares”, explica o cientista. “A seplementares”, explica o cientista. A seguir, a entrevista de Collins a VEJA:

Veja – No livro a linguagem de Deus, o senhor conta que era um “ateu insolente” e, depois se converteu AP Cristianismo. O que o fez mudar suas convicções?

Collins - Houve um período em minha vida em que era conveniente não acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não substitui a religião quando ingressei na faculdade de medicina. Vi pessoas sofrendo de males terríveis. Uma delas, depois de me contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a doença, perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em nada. Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se achava capaz de tirar conclusões sobre o assunto tão profundo e negar a evidência de que existe algo maior do que equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo o mundo e fazem as pessoas superar desafios.

Veja – Que questões são essas para as quais não encontramos respostas?

Collins - Falo de questões filosóficas que transcendem a ciência, que fazem parte da existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida sobre perguntas que todos nós, seres humanos, nos fazemos todos os dias. “o que acontece depois da morte?” ou “Qual o motivo de eu estar aqui?”. Não é certo negar aos seres humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza. explicado cientificamente e sem um sentido maior. Esse lado filosótico da fé, na minha opinião, é uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência — como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao — falharam. Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais.

Veja - A maioria dos cientistas argumenta que a crença em Deus é irracional e incompatível com as descobertas científicas. O zoólogo Richard DawKins, com quem o senhor trava um embate filosófico sobre o tema, diz que a religião é a válvula de escape do homem, o vírus da mente. Como o senhor responde a isso?

Collins — Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o ateísmo é a mais irracionai das escolhas. Os cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da evolução e negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se formou que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. No ano passado foram lançados vários livros de cientistas renomados, como Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, que atacam a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a ciência. Em vez de blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os mistérios que ainda existem. É o que nos cabe.

Veja — O senhor afirma que as sociedades precisam da religião. mas como justificar as barbaridades cometida,. em nome de Deus através da história?

Collins — Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O problema é que a água pura da fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às vezes a torna turva. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas que determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada para justificar suas ações. A religião é um veículo da fé — essa, sim, imprescindível para a humanidade.

Veja — O senhor diz que a ciência e a religião convergem, mas devem ser tramadas separadamente. Como vê o movimento do “design inteligente”, em que cientistas usam a religião para explicar, fatos da natureza que permanecem um mistério para a ciência?

Collins — Essa abordagem é um grande erro. Os cientistas não podem cair na armadilha a que chamo de “lacuna divina”. Lamento que o movimento do design inteligente tenha caído nessa cilada ao usar o argumento de que a evolução não explica estruturas tão complicadas como as células ou o olho humano. É dever de todos os cientistas, inclusive dos que têm fé, tentar encontrar explicações racionais para tudo o que existe. Todos os sistemas complexos citados pelo design inteligente — o mais citado é o “hacterial flagellum’, um pequeno motor externo que permite à bactéria se mover nos líquidos — são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso porque esses mecanismos se formaram gradualmente através do recrutamento de outros componentes. No curso de longos períodos de tempo, as máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo que Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução.

Veja — Qual a sua leitura da Bíblia?

Collins — Santo Agostinho, no ano 400, alertou para o perigo de se achar que a interpretação que cada um de nós dá à Bíblia é a única correta, mas a advertência foi logo esquecida. Agostinho já dizia que não há como saber exatamente o que significam os seis dias da criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral da Bíblia é equivocada é que há duas histórias sobre a criação no livro do Gênesis 1 e 2— e elas são discordantes. Isso deixa claro que esses textos não foram concebidos como um livro científico, mas para nos ensinar sobre a natureza divina e nossa relação com Ele. Muitas pessoas que crêem em Deus foram levadas a acreditar que, se não levarmos ao pé da letra todas as passagens da Bíblia, perderemos nossa fé e deixaremos de acreditar que Cristo morreu e ressuscitou. Mas ninguém pode afirmar que a Terra tem menos de 10000 anos a não ser que se rejeitem todas as descobertas fundamentais da geologia, da cosmologia, da física, da química e da biologia.

Veja — O senhor acredita na Ressurreição? Collins — Sim. Também acredito na Virgem Maria e em milagres. Veja — Não é uma contradição que um cientista acredite em dogmas e milagres?

Collins — A questão dos milagres está relacionada à forma como se acredita em Deus. Se uma pessoa crê e reconhece que Ele estabeleceu as leis da natureza e está pelo menos em parte fora dessa natureza, então é totalmente aceitável que esse Deus seja capaz de intervir no mundo natural. Isso pode aparecer como um milagre, que seria uma suspensão temporária ou um adiamento das leis que Deus criou. Eu não acredito que Deus faça isso com frequencia — nunca testemunhei algo que possa classificar como um milagre. Se Deus quis mandar uma mensagem para este mundo na figura de seu filho, por meio da Ressurreição e da Virgem Maria, e a isso chamam milagre, não vejo motivo para colocar esses dogmas como um desafio para a ciência. Quem é cristão acredita nesses dogmas — ou então não é cristão, Faz parte do jogo.

Veja — É possível acreditar nas teorias de Darwin e em Deus ao mesmo tempo?

Colins — Com certeza. Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta para produzir criaturas que à sua imagem tenham livre-arbítrio, alma e capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?

Veja — Alguns cientistas afirmam que a religião e certas características ligadas à crença em Deus, como o altruísmo, são ferramentas inerentes ao ser humano para garantir a evolução e a sobrevivência. O senhor concorda? Collins — Esses argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que o altruísmo seja uma característica do ser humano que permite sua sobrevivencia e seu progresso, como sugerem os evolucionistas. Eles querem justificar tudo por meio da ciência, e isso acaba sendo usado para difundir o ateísmo.

Veja — Mas o altruísnmo é visto hoje( pela genérica do comportamento como uma característica herdada pelos genes, assim como a inteligência. O senhor, como geneticisa, discorda da genética comportamental?

Collins — Há muitas teorias interessantes nessa área, mas são insuficientes para explicar os nobres atos altruístas que admiramos. O recado da evolução para cada um de nós é propagar o nosso DNA e tudo que está contido nele. É a nossa missão no planeta. Mas não é assim. de forma tão lógica, que entendo o mundo, muito menos o altruísmo e a religiosidade. Penso em Oskar Schindler, que se sacrificou por um longo período para salvar judeus, e não pessoas de sua própria fé. Por que coisas desse tipo acontecem? Se estou caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa se afogar e decido ajudála mesmo pondo em risco a minha vida, de onde vem esse impulso? Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de certo e errado, a moral. que parece ser exclusiva da espécie humana.

Veja — Muitas religiões são contrárias ao uso de técnicas científicas que poderiam salvar vidas, como a do uo de células-tronco. Como o senhor se posiciona nessa polêmica?

Collins — temos de ser sensíveis e respeitar as diferentes religiões no que diz respeito aos avanços científicos. Mas interromper as pesquisas científicas ou impedir que uma pessoa com uma doença terrível tenha uma vida melhor só porque a religião não aceita determinado tratamento é antiético. Por outro lado, existem fronteiras que a ciência não deve transpor, como a clonagem humana, que além de tudo não serviria para nada a não ser para nos repugnar. Cada caso tem de ser avaliado isoladamente.

Veja — Os geneticistas são muitas vezes acusados de brincar de Deus. Como o senhor encara essas críticas?

Collins — Se todos brincássemos de Deus como Deus gostaria, com esperança e amor, ninguém se abateria muito com comentários do gênero. Mas somos seres humanos e temos propensão ao egoísmo e aos julgamentos equivocados. O importante é não reagir de forma exagerada à perspectiva de que as pessoas possam vir a fazer mau uso das descobertas da genética, mas sim focar o lado bom dessa brincadeira”. A maior parte das pesquisas genéticas busca a cura de doenças como câncer, problemas cardíacos, esquizofrenia. São objetivos louváveis. Para evitar o uso impróprio da ciência, o Projeto Genonia Humano apóia um programa que visa a preservar a ética nas pesquisas genéticas e certificarse de que todas as nossas descobertas beneficiarão as pessoas e a sociedade.

Veja — O que esperar das pesquisas genéricas no futuro?

Collins — Nos próximos dois ou três anos vamos descobrir os fatores genéticos que criam a propensão ao câncer, ao diabetes e Lis doenças cardiovasculares. Isso possibilitará que as pessoas saibam que provavelmente vão desenvolver esses males e tomem medidas preventivas contra eles, com a ajuda do médico. Mais à frente, as descoberta das relações entre o genoma e as doenças farão com que os tratamentos e os remédios sejam personalizados. tornando-os mais eficientes e com menos efeitos colaterais.

Veja — O senhor acredita que Deus ouve suas preces e as atende? Collins — Eu nunca ouvi Deus falar. Algumas pessoas ouviram. Não acredito que rezar seja um caminho para manipular as intenções de Deus. Rezar é uma forma de entrarmos em contato com Ele. Nesse processo, aprendemos coisas sobre nós mesmos e sobre nossas motivações.

2.12.3 – Entrevista: Michel Onfray – Veja 25 de maio de 2005 “Deus está nu”

“Quem começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados e a doutrina das Religiões só pode chegar à conclusão de que estão erradas.”

“O filósofo francês mais lido da atualidade diz que as três grandes religiões monoteístas vendem ilusões e devem ser desmascaradas como o rei da fábula de Anderen”

Em um tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos na França desde o mês passado, à frente até das biografias de João Paulo I: Tratado de Ateologia. Escrita pelo filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como “os três grandes monoteísmos”. Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: “Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um”. Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte. Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão, a “morte de Deus”. O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma “universidade popular” que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência. Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Em seus livros, Onfray propõe o que chama de “projeto hedonista ético”, em que defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratado vendeu 150.0 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Em sua opinião, só o ateu é verdadeiramente livre? Onfray – Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem. Veja – A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que há tanta discussão sobre religiosidade? Onfray – Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judeu-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França. Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas.

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