Perfil da Enfermagem em CTI-UTI

Perfil da Enfermagem em CTI-UTI

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Maria Sumie Koizumi**

KOIZUMI, M. S. Perfil da pesquisa de enfermagem em terapia intensiva no Brasil. Rev.Esc.Enf.USP, v.31, n.3, p. 468-85, dez. 1997.

Perfil da pesquisa de enfermagem em terapia intensiva. no BrasilTrata-se

de uma análise das pesquisas que vem, sendo produzidas e publicadas nesta área , bem como, do perfil evolutivo da pesquisa em enfermagem no Brasil, enfocando o produtor da pesquisa, o produto pesquisa e o consumidor deste produto.

UNITERMOS: Enfermagem em terapia intensiva. Pesquisa de enfermagem.

1 Considerações iniciais

A pesquisa em enfermagem tem ainda um grande desafio a superar e este desafio abrange a enfermagem, em geral, bem como, a enfermagem em terapia intensiva, enquanto especialidade e enquanto uma área de assistência cuja complexidade e avanços exigem bases cada vez mais bem fundamentadas. Além disso, nunca é demais enfatizar que a assistência de enfermagem deve estar fundamentada nos conhecimentos gerados pelos resultados das pesquisas.

Penso que estamos ainda numa fase de transição, explorando as bases para consolidação do conhecimento específico de enfermagem enquanto disciplina que se situa entre as áreas biológica e humanas; buscando adequação de métodos para geração deste conhecimento; procurando caminhos para a verticalização o conhecimento que vem sendo gerado.

Paralelamente a transição encontra-se também presente naquele que se prepara para ser um pesquisador e no grande contingente de enfermeiros que precisa estar preparado e motivado para envolver-se nas atividades de pesquisa. Sob esta ótica, nesta análise, procurei' olhar para o enfermeiro de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), ressaltando a importância dele estar se envolvendo nas atividades de pesquisa desde o curso de graduação, a fim de visualizar este produto - PESQUISA- seja como futuro produtor como também um consumidor conscientemente preparado. Sobre seu papel fundamental como aquele capaz

* Conferência proferida na V Jornada Sul Brasileira de Terapia Intensiva, Florianópolis (SC), outubro de 199G.

** Professor Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Pesquisador

CNPq. Responsável pelo GENT - Grupo de Estudos em Neurotrauma - epidemiologia e assistência.

de identificar as reais necessidades dos tópicos a pesquisar na UTI, bem como , o preparo necessário para consumir este produto - PESQUISA - seja como um consumidor capaz de implementar os resultados da pesquisa na sua prática diária, seja como um produtor de conhecimentos, capaz de desenvolver seus próprios projetos de pesquisa.

Buscando ser objetiva, inicialmente procurei localizar o estado da pesquisa de enfermagem na. UTI, no Brasil e nos EUA, ao longo das duas últimas décadas e a seguir, traçar um perfil evolutivo da pesquisa em enfermagem no Brasil, enfocando o PRODUTOR da pesquisa, o PRODUTO pesquisa e o CONSUMIDOR deste produto. Ao pontuar o que acredito como desafios da pesquisa de enfermagem no Brasil, incluí as pesquisas de enfermagem em terapia intensiva, suas tendências e perspectivas. Coloco ainda para discussão ou pelo menos para reflexão, o que julgo possa ser útil para agilizar o desenvolvimento da pesquisa de enfermagem na UTI e principalmente, como ter um produto que esteja em consonância com os anseios de seu principal consumidor - o enfermeiro de UTI - e que este consumidor, possa ver este produto como algo desejável e com resultados passíveis de serem implementados na assistência que delibera no seu cotidiano.

2 Situação das pesquisas de enfermagem em terapia intensiva

Qual a situação da pesquisa de enfermagem em terapia intensiva nas últimas duas décadas? Em primeiro lugar, devo esclarecer que a demarcação a partir da década de 70 tem uma razão. específica. Os cursos de mestrado em enfermagem foram implantados, no Brasil, a partir de 1972 e as primeiras produções datam de 75 quando foram formados os primeiros mestres em enfermagem. Daí a demarcação da década de 70 para analisar a produção científica já que a pesquisa, tomou impulso com o advento da pós-graduação senso estrito, ou seja, mestrado e doutorado, como detalharemos mais adiante.À partir de uma investigação retrospectiva sobre a produção de pesquisas em

Enfermagem Médico-cirúrgica, comparando pesquisas nacionais e estrangeiras publicadas em três periódicos (Revista Brasileira de Enfermagem, "Nursing Research" e "Heart & Lung") abrangendo o período de 1975 a 1984, detectamos que no Brasil, o crescimento quantitativo era ainda incipiente. Havia predomínio das pesquisas descritivas e referentes à área assistencial, particularmente com enfoque no aspecto biológico. No estrangeiro, verificamos crescimento quantitativo e predomínio das pesquisas descritivas, seguidas das explicativas. A área mais frequentemente pesquisada foi também a assistencial, com enfoque no aspecto biológico (6).

Utilizando a mesma base de dados, em uma publicação de 1986, apresentamos uma análise comparativa do conteúdo das pesquisas de enfermagem brasileiras e americanas, em terapia intensiva e nas demais unidades médico-cirúrgicas(7). É importante lembrar que, o periódico nacional escolhido foi a Revista Brasileira de Enfermagem, por ser a publicação de maior tradição e penetração em todo o País, por conter autores de diferentes regiões brasileiras e por abranger todas as áreas de conhecimento da enfermagem. Quanto aos periódicos estrangeiros, optamos por "Nursing. Research" e "Heart & Lung" porque estavam entre as revistas que mais publicavam pesquisas , sendo a última específica de enfermagem médico-cirúrgica, com destaque para as de UTI. A escolha do período de análise , como já dissemos foi devido relação com a implantação da pós-graduação senso estrito, no Brasil. Ao comparar a nossa produção com as do EUA, no mesmo período, tínhamos como objetivo ter uma visão da produção entre esses dois países, que se encontravam em diferentes momentos de desenvolvimento de pesquisas.

Os aspectos analisados incluíram o tipo de pesquisa, o nível de profundidade, a metodologia usada e a matéria pesquisada. De modo geral, verificamos crescimento quantitativo de pesquisas nesta especialidade, tanto das descritivas como das experimentais. Ao mesmo tempo detectamos carência de estudos de replicação e de continuidade. Em relação à produção de pesquisa em UTI, no Brasil, ela foi praticamente inexistente (7).

Mais recentemente, PADILHA et al (12) analisaram a produção científica em terapia intensiva, na década imediatamente subsequente àquela, ou seja, de 1985 a 1994. Os dados foram obtidos de 1 períodicos nacionais de enfermagem: Revista da Escola de Enfermagem da USP, Revista Brasileira de Enfermagem, Revista Gaúcha de Enfermagem, Revista Paulista de Enfermagem, Revista Baiana de Enfermagem, Revista Enfoque, Acta Paulista de Enfermagem, Enfermagem Científica, Revista Latino-Americana de Enfermagem, Texto e Contexto, Enfermagem Revista. Foram identificadas 1660 publicações científicas e destas, 45 (2,7% ) eram de terapia intensiva, ou seja ainda uma produção muito baixa. Tabela 1.- PUBLICAÇÕES DE ENFERMAGEM EM PERIÓDICOS

NACIONAIS SEGUNDO O TIPO DE ASSUNTO. SÃO PAULO,1996 PERIÓDICOS ASSUNTO TOTAL

- REEUSP

- Rev. Bras. Enf. - Rev. Paul. Enf.

- Rev. Gaúcha

- Enfoque

- ACTA Paul. Enf.

- Enf. Científica

- Texto e Contexto

- Latino-americana

- Rev. Baiana

- Enf. Revista
TOTAL

Fonte: - V ENFETC, Resumos, p. 385, 1996.

Os periódicos em que houve maior número de publicações foram os da Revista de Escola de Enfermagem da USP e Revista Paulista de Enfermagem.

Tabela 2. PUBLICAÇÕES DE ENFERMAGEM EM UTI SEGUNDO ASSUNTO

- necessidades e problemas do paciente 8 1 1 - metodologia da assistência 5 1 6

- ensino-aprendizagem 2 3 5

- atuação profissional 2 2 4

- procedimentos de enf. e terapêutico 2 2 4

- aspectos emocionais na assistência 1 3 4

- necessidades e problemas familiares 2 1 3

- implicações ético-legais - 3 3

- outros 1 1 2

TOTAL 24 21 45

Fonte:- V ENFTEC, Resumos, p.386, 1996.

Como pode-se observar, embora quantitativamente a produção científica continue muito baixa, a pesquisa predominou sobre as demais formas de publicação e os principais tópicos abordados foram: necessidades e problemas do paciente, metodologia de assistência e ensino-aprendizagem.

Em relação à análise das pesquisas de enfermagem em terapia intensiva, a mais recente publicação recuperada foi a de 1991, realizada por VanCott et al.(13). O objetivo do estudo foi analisar as pesquisas publicadas em revistas especializadas com reconhecida arbitragem, no período de 1979 a 1988, a fim de identificar o método de construção do conhecimento e os resultados das pesquisas em terapia intensiva.

Os periódicos examinados e o total de pesquisas em cada um deles foram:

Heart & Lung (112), Nursing Research (10), Western Journal of Nursing Research (4), Jornal of Advanced Nursing (3) e Research in Nursing and Health (1), totalizando 129 artigos. Destes, 62 (48%) foram classificadas como de levantamento e 67(57%) como orientado para intervenção

Considerando que trata-se de uma análise de 10 anos e rastreamento de publicações em 1 revistas, julgo que ter identificado 129 artigos, ou seja, 1,2 artigos/ano é bastante baixo. Verifica-se ainda que a grande maioria das publicações desta especialidade encontra-se no seu periódico de maior prestígio, ou seja, o "Heart & Lung".

Tabela 3 - TÓPICOS EM FOCO NAS PESQUISAS ANALISADAS

Tópicos %

- isolado ou estudo único 41,5 - posição sobre hemodinâmica 1,0

- Estresse, ansiedade 1,0

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