Introdução a Macroeconomia

Introdução a Macroeconomia

(Parte 1 de 18)

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO, CONTABILIDADE E ECONOMIA

NÚCLEO DE ESTUDO E PESQUISA (ECONOMIA)

TEXTO DIDÁTICO No 1

CURSO DE MACROECONOMIA

Adelar Fochezatto

Endereço: Av. Ipiranga, 6681 – Prédio 50, Porto Alegre – RS

Telefone: (0xx51) 33203547

E-mail: adelar@pucrs.br

Porto Alegre

Março

2000

SUMÁRIO

pág.

Introdução....................................................................................................................................................................

capítulo I - Conceitos, medidas e relações econômicas: contabilidade nacional.............

1 - Introdução.......................................................................................................................................................................

2 - Relações econômicas......................................................................................................................................................

3 - Definições e medidas......................................................................................................................................................

4 - Valores reais e nominais.................................................................................................................................................

5 - Desemprego ...................................................................................................................................................................

6 - Demografia e economia..................................................................................................................................................

7 - Evolução e sincronia das principais variáveis macroeconômicas...................................................................................

capítulo II - comportamentos e funcionalidade macroeconômica............................................

1 - Introdução.......................................................................................................................................................................

2 - Famílias...........................................................................................................................................................................

3 - Governo..........................................................................................................................................................................

4 - Empresas.........................................................................................................................................................................

5 - Resto do mundo..............................................................................................................................................................

6 - Financiamento da economia...........................................................................................................................................

capítulo III - Políticas ECOnômicas em uma pequena economia aberta.....................................

1 - Introdução.......................................................................................................................................................................

2 - Equilíbrio global em uma economia monetária..............................................................................................................

capítulo IV - Políticas econômicas e desempenho da economia brasileira nos anos 90..

1 - Introdução.......................................................................................................................................................................

2 - O Plano Real...................................................................................................................................................................

3 - Análise de cenários alternativos de estabilização...........................................................................................................

capítulo V - QUESTÃO CONTEMPORÂNEA: O PROBLEMA DO desemprego............................................

1 - Introdução.......................................................................................................................................................................

2 - A adaptação da população ativa......................................................................................................................................

3 - Políticas ligadas à flexibilidade no mercado de trabalho................................................................................................

4 - As políticas macroeconômicas........................................................................................................................................

BIBLIOGRAFIA..................................................................................................................................................................

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Introdução

A macroeconomia estuda o comportamento agregado da economia e, por isso, seu foco recai sobre a análise das conseqüências globais de ações individuais dos agentes econômicos em sua interação com o mercado. Embora se fundamente na microeconomia e que, por isso, deva mostrar consistência entre o desempenho macro e o comportamento micro, nem sempre a macroeconomia é uma mera soma dos resultados individuais. A forma como é feita esta agregação é um dos pontos mais controvertidos dentro da macroeconomia.

Nas análises macroeconômicas, os economistas procuram compreender e projetar as tendências gerais da economia. Para isso é fundamental dispor de dados agregados precisos e estabelecer corretamente as relações entre as variáveis macro. Assim, a compreensão adequada das contas nacionais representa o ponto de partida da moderna análise macroeconômica. Boa parte dos modelos macroeconômicos são construídos a partir destes dados e através de uma correta definição das relações funcionais e do comportamento dos agentes1.

Atualmente, compreender as interações existentes entre as variáveis e as políticas econômicas supõe que se integrem três aspectos fundamentais do mundo contemporâneo. Primeiro, a determinação das variáveis econômicas é cada vez mais feita pelo mercado, tendo, o Estado, um papel cada vez mais reduzido. Neste quadro, duas grandes correntes de pensamento constituem uma referência para a análise econômica: a liberal e a keynesiana (vem surgindo outra, chamada de “a terceira via”). As principais controvérsias destas correntes referem-se à natureza do equilíbrio econômico, o papel da moeda na economia e do tipo de intervenção do Estado.

Segundo, a economia é cada vez mais financeira e as mudanças ocorridas nestes mercados se transmitem sobre os demais mercados. Terceiro, com a desregulamentação do mercado de capitais e com o avanço das novas tecnologias da informação, o mercado financeiro tornou-se um fenômeno mundial e está criando fortes interdependências entre os países. Isto coloca em evidência os sistemas econômicos vulneráveis, forçando-os à uma adaptação.

Neste contexto, algumas questões essenciais devem ser analisadas: a) quais são as fontes de crescimento das economias modernas? b) qual é a influência da esfera financeira nas economias contemporâneas? c) qual a explicação para o crescimento e a persistência de altas taxas de desemprego na maioria dos países?

Este curso não pretende dar respostas definitivas a estas questões mas suscitar o interesse, provocar o debate e proporcionar aos alunos uma capacidade de análise das questões macroeconômica atuais. Para isso, estudaremos os mecanismos econômicos para saber: observar de forma crítica a realidade; fazer hipóteses quanto aos comportamentos dos agentes; seguir e explicar os encadeamentos de efeitos devido a uma mudança na economia; e interpretar o significado destes efeitos para as principais variáveis econômicas.

Capítulo I - Conceitos, medidas e relações econômicas: contabilidade nacional

1 - Introdução

Para bem observar e analisar os fenômenos econômicos deve-se: a) saber o significado dos termos e das variáveis utilizadas; b) definir com precisão seus valores; e c) estabelecer relações funcionais e causais coerentes entre elas. A contabilidade social preenche os dois primeiros requisitos. O terceiro decorre da teoria, da experiência, dos modelos e da capacidade de quem analisa.

A contabilidade nacional retrata todas as operações efetuadas pelos agentes econômicos em um determinado período de tempo (um ano). Diante da complexidade do mundo real, ela se propõe a fazer agrupamentos de agentes e de operações permitindo o estabelecimento de uma visão sintética e coerente. As contas nacionais, elaboradas pelo IBGE, são publicadas anualmente e estão disponíveis na Internet.

Para estudar apenas o essencial, definiremos, primeiramente, os diferentes tipos de relações econômicas, o que nos permitirá, a seguir, precisar o modo como são registradas as operações e, por fim, apreciar alguns elementos da situação atual da economia brasileira.

2 - Relações econômicas

2.1 - Os agentes econômicos

Em uma economia aberta, normalmente são distinguidos quatro categorias de agentes: a) as empresas, as quais produzem, investem e contratam fatores de produção; b) as famílias, que são proprietárias dos fatores de produção e consomem bens e serviços; e c) o governo, que adquire bens e serviços, faz transferências, arrecada impostos e gerencia a política econômica; e d) o resto do mundo ou exterior, que compra e vende bens e serviços para o Brasil, efetua e recebe transferências, etc.

2.2 - O fluxo circular da renda na economia

A representação da realidade econômica dada pela contabilidade nacional é a de um círculo. A igualdade contábil entre recursos e usos na economia é vista como um fluxo circular. Este fluxo circular pode ser esquematizado da seguinte forma:

Estágio 1: as empresas fabricam a produção (Q) e distribuem a renda aos fatores de produção (Y).

Estágio 2: o setor público cobra impostos sobre a renda (td) e efetua transferências às famílias (tr). A diferença entre a renda total, subtraída pelos impostos e acrescida pelas transferências, é renda disponível (Yd=Y-td+tr) das famílias.

Estágio 3: as famílias vão destinar parte de sua Yd para consumo (C) e a restante é poupada (S), ou seja, depositada em instituições financeiras, as quais vão financiar parte do investimento (I). Neste estágio o dispêndio global é C+I.

Estágio 4: o setor público utiliza as receitas fiscais para efetuar os seus gastos (G). Neste estágio o dispêndio global é C+I+G.

Estágio 5: uma parte da despesa concerne a produtos importados e, com isso, uma parte da renda sai do país para pagar as importações (-M). Por outro lado, uma certa quantia de renda entra no país devido à venda de produtos domésticos para compradores externos (+E).

Figura 1: Representação esquemática do fluxo circular da renda na economia.

Instituições

Financeiras

I

C+I

C+I+G

M

E

Resto do

Mundo

C

G

S

C+I+G+E-M

Famílias

Governo

Produtores

Q=Y

Yd

T

Y

2.3 - Os diferentes tipos de operação

Nestas relações entre os agentes econômicos são realizadas três tipos de operação: de produção, de repartição e financeiras. O fluxo circular da renda pode ser dividido em três sub-círculos.

a) O círculo de operações de produção: nestas operações participam quatro tipos de agentes: as empresas (que produzem), as famílias (que consomem), o governo (que fornece serviços públicos) e o “resto do mundo” (que oferta e demanda bens e serviços). As operações de produção nos mostram a origem dos produtos existentes no mercado, podendo ser tanto de origem nacional ou interna (Q), tanto de origem estrangeira ou externa (M). Estes produtos são destinados ao consumo privado das famílias (C), ao investimento privado das empresas (I), ao consumo e investimento do governo (G) e às exportações (E). O equilíbrio neste circulo de operações é dado por:

Q+M=C+I+G+E

Figura 2: Fluxo monetário das operações de produção, 1997 (R$ bilhões)

Famílias

Empresas

C=548

Q=866

I=184

Mercado de

Produtos

M=88

G=157

E=66

Governo

Resto do mundo

b) O círculo de operações de repartição: descreve a apropriação da renda oriunda da produção. Esta renda é apropriada por três agentes (famílias, empresas e governo) na forma de remuneração do trabalho (w = salários e contribuições sociais), excedente operacional bruto (= lucros, os quais podem ser distribuídos na forma de dividendos ou retidos para autofinanciamento, e outros rendimentos do capital) e impostos (t = impostos líquidos de subsídios sobre a produção e importação). Existem outras operações secundárias de distribuição da renda, as quais não são diretamente ligadas ao processo produtivo: rendimentos de juros e aluguéis; impostos diretos; transferências do governo e outras. O equilíbrio é dado por:

Q=Y=w++t

Figura 3: Operações de repartição da renda, 1997 (R$ bilhões)

Famílias

w=331, =411

Empresas

td=119

tr=94

Governo

t=125

Obs.: w = salários + contribuições sociais;  = excedente operacional bruto, inclusive rendimento dos autônomos; t = impostos líquidos de subsídios sobre a produção e importação; td = impostos diretos; e tr = transferências do governo.

c) Circulo de operações financeiras: no mercado de capitais, intermediado pelas instituições financeiras, os agentes com capacidade de financiamento podem depositar seus excedentes de recursos, os quais são demandados pelos agentes com necessidade de financiamento. Agrupando as operações de produção e repartição, observamos que: a) as famílias apresentam um excedente de recursos, pois receberam w++tr = 836 bilhões de reais e gastaram C+td = 667 bilhões de reais. Com isso, elas formaram uma poupança ou capacidade de financiamento (CF) de 169 bilhões de reais, a qual pode ser colocada no mercado de capitais; b) o governo apresentou um déficit (ou excedente de emprego de recursos), pois arrecadou td+t = 244 bilhões de reais e gastou G+tr = 251 bilhões de reais. O governo, portanto, apresentou uma necessidade de financiamento (NF) de 7 bilhões de reais, a qual foi obtida no mercado de capitais; c) as empresas tiveram necessidade de financiamento de 185 bilhões de reais, pois receberam 866 bilhões de reais com a venda da produção e gastaram I+w++t = 1.051 bilhões de reais. Elas obtiveram estes recursos no mercado de capitais; e d) o “resto do mundo” obteve um excedente de recursos de 22 bilhões de reais, devido à diferença entre as importações e as exportações de M-E = 22 bilhões de reais.

Figura 4: Fluxo das operações financeiras, 1997 (R$ bilhões)

Famílias

Empresas

CF=169

NF=185

Mercado de

Capitais

NF=7

CF=22

Governo

Resto do mundo

Tendo retratado as diferentes operações efetuadas pelos agentes econômicos, nós podemos agora agrupá-las em uma matriz de contabilidade social (MCS).

Figura 5: Matriz de contabilidade social, 1997 (R$ bilhões)

Recursos

Usos

Produção

(Q)

Fatores

(K, L)

Famílias

(C)

Governo

(G)

Empresas

(I)

R. do mundo

(E)

Total

Produtos

CI=692

C=548

G=157

I=184

E=66

955

Fatores (K, L)

w+=742

742

Famílias (R)

w+=742

tr=94

836

Impostos (T)

t=125

td=119

244

Merc. Cap. (S)

CF(Sp)=169

NF(Sg)=-7

CF(Se)=22

184

R. do mundo (M)

M=88

88

Total

955

742

836

244

184

88

3 - Definições e medidas

a) Produto Interno Bruto (PIB): é o valor de mercado de todos os bens finais produzidos durante um determinado período de tempo (um ano). O termo “bruto” demonstra que o valor da produção não foi corrigido pela depreciação; o termo “interno” aparece para informar que a produção foi efetuada dentro das fronteiras do país, independentemente se por empresas nacionais ou estrangeiras; e o termo “valor de mercado” informa que o produto foi avaliado aos preços correntes, ou seja, sem a correção da inflação. Por exemplo, um psicólogo produz R$ 40.000,00 de terapia por ano. Ele pode ser calculado de três formas: pela renda (Y), pelo dispêndio (Z) e pela produção (Q):

PIB(Y)=w++t = 866

PIB(Z)=C+G+I+E-M = 866

PIB(Q)=VBP-CI = 866

VBP=CI+ w++t = 1559 (valor bruto da produção)

CI = 692 (consumo intermediário)

b) Produto Nacional Bruto (PNB): mede a produção nacional bruta e não a produção territorial. A diferença entre o PIB e o PNB é a renda líquida enviada ao exterior (RLE) pelos fatores de produção (renda enviada menos renda recebida). Ex: remessas de lucros das empresas multinacionais, remessas de rendimentos do trabalho, etc.

PNB=PIB-RLE=866-17=849

c) Valor adicionado (VA): a produção é medida em termos líquidos ou pelo valor adicionado. Isto porque os produtos que entram como consumo intermediário (CI) das empresas já foram contabilizados. Assim, o valor bruto da produção (VBP) não é uma boa medida para medir o produto da economia porque ele faz dupla contagem de produtos. No cálculo do PIB pela óptica da produção e da renda deve-se acrescentar os impostos (t), porque estes já estão embutidos no cálculo do PIB pela óptica da despesa (na compra de produtos pelos agentes).

VA=VBP-CI=866

Figura 6: Exemplo de cálculo do valor adicionado para um produto selecionado

Trigo

(R$0,25)

Farinha

(R$0,50)

Massa

(R$1,00)

VA=R$0,25

VA=R$0,25

VA=R$0,50

Tempero

(R$0,75)

Massa com molho

(R$7,95)

VA=R$2,25

VA=R$0,75

VA=R$3,95

Outros

(R$1,50)

Molho

(R$3,00)

Obs.: A soma do valor adicionado em cada etapa é igual a R$7,95, o mesmo valor do bem final.

d) Renda disponível do setor privado (Yd):é a renda efetivamente disponível para o setor privado fazer suas compras e poupança. Para encontrá-la, deve-se diminuir da renda nacional os impostos diretos sobre a renda (td) e as contribuições sociais (neste caso elas estão embutidas no imposto direto) e somar as transferências do governo às famílias (tr).

Yd=Y+tr-td

Yd=C+Sp

e) Oferta agregada e demanda agregada: a oferta agregada é a soma da produção interna (Q) com as importações (M) e a demanda agregada é a soma dos dispêndios com consumo (C), investimento (I), aquisições do governo (G) e exportações, feitas pelos estrangeiros (E). O equilíbrio no mercado é dado por:

Q+M=C+I+G+E

866+88=548+184+157+66

f) Absorção (A): é o dispêndio agregado com C, I e G. Se a renda nacional (Y) for inferior à absorção, isto significa que a economia é deficitária, ou seja, importou mais do que exportou e precisa se financiar no exterior.

Y= w++t = 866

A=C+I+G = 889

NF(Se) = M-E = 22

g) Balanço orçamentário do setor público: quando o governo gasta mais do que arrecada, ele entra em déficit e, caso contrário, em superávit. O déficit público, normalmente, é classificado em dois tipos: o déficit primário (Dp) e o déficit operacional (Do). O déficit primário é a diferença entre despesas e receitas correntes e o operacional, além destas, leva em conta também o pagamento de juros da dívida pública (r).

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