Muito além da praça José Bonifácio: as elites e os outsiders em Cachoeira do Sul, pela voz do Jornal do Povo. 1930-1945

Muito além da praça José Bonifácio: as elites e os outsiders em Cachoeira do Sul,...

(Parte 7 de 7)

Coronel Virgílio Carvalho de Abreu; 1945, proprietário Manoel de Carvalho Portella & Cia., diretores Manoel de Carvalho Portella e Liberato Salzano Vieira da Cunha; 23/ 5/1948, gerente Paulo Salzano Vieira da Cunha; 10/6/1951, falecimento de Manoel de Carvalho Portella; 9/4/1957, falecimento de Liberato Salzano Vieira da Cunha; 1963, diretor Paulo Salzano Vieira da Cunha. 45 JP, 30/6/1929 Editorial, p.1

46 JP, 14/12/1930 Editorial, p.1, 8/1/1931 Poesia. Que é que há. ACB, p.2, 2/1/1931 E foi assim que o Jornal do Povo, p.2 e 30/6/1931 Editorial. Terceiro ano, p.1 47 JP, 30/6/1935 Editorial. O nosso aniversário, p.1, 7/7/1935 O papel da imprensa.

Mucio Scolvola, p.1 e 30/6/1936 O nosso oitavo aniversário, p.1 48 JP, 1/1/1930 Jornal do povo, p.3 e 29/4/1934 Noticiário. “Jornal do Povo”, p.3 todos os artigos opinativos fossem assinados e possibilitou a prisão dos diretores. O artigo 1.2 prescreveu a censura prévia e facultou às autoridades a proibição da circulação dos jornais que fizessem críticas ao regime. Maria Helena Capelato, analisando jornais alinhados ao getulismo, aponta o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) como peça fundamental para controle e repressão dos atos e idéias, com amplos poderes sobre os meios de comunicação e organização da propaganda oficial. Segundo ela, Vargas “lançou mão de todos os recursos das novas técnicas de persuasão que estavam sendo usadas em diversos países, especialmente na Alemanha de Goebbels”. Criado em 1934, o departamento respondia diretamente ao Ministério da Justiça, colocando assim os meios de comunicação de massa diretamente ligados ao Poder Executivo, modelo inspirado no Ministério de Propaganda da Alemanha nazista. Entretanto, diferente do modelo alemão onde o rádio foi prioritário, os esforços para calar vozes dissonantes no Brasil de Vargas foram realizados de forma semelhante à Itália fascista de Mussolini, através da imprensa periódica.49

Mesmo no contexto da “política do silêncio” do Estado Novo, as declarações parciais do Jornal do Povo estavam longe de ser impositivas. Tratava-se de apoio explícito ao regime que sutilmente simpatizava com o fascismo europeu. O próprio jornal elogiara o caráter fascista ainda no início dos anos 30. No artigo Legionários da revolução, os redatores valorizam o governo de Mussolini, afirmando que ele teria remodelado “gloriosamente” a Itália, levando a crer tratar-se de atuação esplêndida, deslumbrante ou mesmo magnífica. Além do mais, o apoio do JP ao governo revolucionário de Vargas era posto de forma generalizada, como se os ideais de 30 fossem compartilhados por toda população:

Cachoeira, que foi a primeira a pular na estrada, abrindo caminho a arremetida fulminante contra o principal baluarte da devastação da República, sente-se no dever imprescindível de enfileirar-se entre as forças que montam guarda vigilante à consecução dos objetivos finais da jornada de 3 de outubro. É preciso portanto confessar, desde já, que Cachoeira é partidária ardorosa da constituição eficiente dessa milícia cívica.50

Assim, se o DIP projetava as estratégias de Getúlio Vargas e legitimava o Estado Novo via meios de comunicação, esses ideais getulistas apareciam em Cachoeira pela voz do Jornal do Povo, que os apresentava como algo que estava no sangue da maioria dos cachoeirenses. Esse tipo de linguagem adotada prestavam-se à eliminação das posições contrárias porque justamente apresentavam-se como a fala do todo, não admitindo contestações. Aquilo que Andréa Petry, analisando o papel desempenhado pelo Correio do Povo durante o Estado Novo, chamou de “efeito ideológico de uma unidade no discurso”.51 No JP, estes preceitos seriam mantidos décadas a fio, mesmo findo o primeiro período varguista em 45, embora com outras conotações.

A contribuição política do jornal para o governo Vargas era de não direcionar ataques a partidos específicos, a essa ou aquela facção. Sob argumento de que visavam auxiliar na consolidação do prestígio do regime, sustentavam em Cachoeira a estratégia política de Vargas de aglutinar posições ambíguas para manter o poder. Para os editores do JP, a estabilidade não dependia propriamente da vitória deste ou daquele candidato, mas da maneira com que se conduzissem as forças democráticas.52 Em outras palavras, a construção do discurso único corroborando com o regime autoritário instalado em 1937. Por conta desse apoio explícito a Vargas, foi concedido ao JP o registro no DIP em 1941.53

Em termos de linguagem jornalística, foi marcante o abandono gradual do estilo liberal, caracterizado pela retórica pomposa, característica que perdurou no JP pelo menos até o falecimento do major Virgílio Carvalho de Abreu, em maio de 1937, visto sua ligação com o PRL local. Semelhante a imprensa européia fascista, o jornal aos poucos passou a adotar a escrita precisa, séria, direta e energética.

49 CAPELATO, Maria Helena R. Multidões em cena: propaganda política no varguismo e no peronismo. Campinas/SP: Papirus, 1998, p.69-75. Segundo ela, o DIP tinha como função elucidar a opinião pública sobre as diretrizes doutrinárias do regime e estava estruturado da seguinte forma: Divisão de Divulgação, Divisão de Radiodifusão, Divisão de Cinema e Teatro, Divisão de Turismo, Divisão de Imprensa e Serviços Auxiliares. Tal organização funcional revelava um alto grau de centralização. Além disso, os cargos de confiança eram atribuídos diretamente por Getúlio Vargas.

50 JP, 5/3/1931 Legionários da revolução, p.1 51 PETRY, Andréa Helena. O papel desempenhado pelo Correio do Povo durante o Estado

Novo In: DREHER, Martin; RAMBO, Arthur; TRAMONTINI, Marcos Justos (org.). Imigração & imprensa. Porto Alegre: EST, São Leopoldo: Instituto Histórico de São Leopoldo, 2004, p.427 52 JP, 30/6/1937 Mais um passo, p.1 53 JP, 9/2/1941 Noticiário. Concedido registro no D.I.P ao “Jornal do Povo”, p.3

Em outubro de 1944, o jornal foi adquirido por Manoel de Carvalho Portella e Liberato Salzano Vieira da Cunha, jovens intelectuais ligados ao catolicismo cooptados pelo regime varguista. Segundo Boris Fausto, os dirigentes do Estado Novo procuraram desde cedo atrair setores letrados a seu serviço. Como a Igreja Católica foi uma das bases de sustentação do governo, era natural o apoio ao regime por parte de jovens como Liberato Viera da Cunha, católico fervoroso, membro da União dos Moços Católicos de Cachoeira do Sul, fundador e presidente do Centros de Ação Católica, que fez carreira política no Partido Social Democrático (PSD).54

Embora se afirmasse que o JP não era um jornal religioso, sua orientação era verdadeiramente católica, imprimindo no feitio do jornal sua idéia e atitude firme em defesa dos princípios católicos e dos costumes cristãos. Freqüentemente, os editoriais evocavam a proteção divina: “O Jornal do Povo, considerado a importância da missão do jornalismo, ao iniciar mais um ano de trabalho, quer reafirmar à família cachoeirense que vai continuar informando, informando tudo e informando só a verdade, com a ajuda de Deus e a Virgem Medianeira”.5

O anúncio publicado no JP do porto-alegrense Jornal do Dia, que teve como redator-chefe, por determinado período, o próprio Liberato Vieira da Cunha, afirmava textualmente que ajudar um jornal católico significava defender a moralidade dos indivíduos e das famílias. Resgatando as palavras de Pio XII, a imprensa podia trazer paz ou guerra: “Sempre tem conseqüências o que diz o papel impresso. Pela imprensa se pode profetizar o futuro de um povo ou de uma civilização”. Por isso não podia faltar nos lares católicos um jornal católico: “Leia, assine e propague o Jornal do Dia”, dizia o anúncio.56

Como fundador e presidente do Centro de Ação Católica e como membro do PSD, ligado à Liga Eleitoral Católica, Liberato Vieira da Cunha trabalhava para que os postulados católicos fossem incorporados tanto nas leis estaduais quanto na própria comunidade cachoeirense.57

A mudança administrativa em 1944 não modificou o sentido políticopartidário do jornal; ao contrário, solidificou. Como escreveu a leitora Carina Pessoa: “Nada sofreu o jornal com a mudança de redatores e proprietários. Continuou a sua rota, traçada pelos fundadores, de bem servir ao público cachoeirense, defendendo os interesses municipais, a boa orientação política e administrativa e política geral, dentro dos princípios de lealdade, justiça e tolerância”.58 Os novos editores seriam “dignos continuadores de Virgílio de Abreu”.59 Liberato Vieira da Cunha freqüentemente redigia artigos ardorosos pró-Vargas, preocupando-se em ressaltar a personalidade do presidente:

E quando fizermos, em Cachoeira do Sul, um comício festejando a anistia ou festejando alguma vitória democrática, não cometamos a injustiça que muitos patrícios nossos estão cometendo: a de levarem, como líderes democráticos, as fotografias de Roosevelt e Stalin, deixando no olvido [esquecido] a de Getúlio Vargas.60

Mesmo com o armistício em 45 e a deposição de Vargas, Liberato Vieira da Cunha foi fiel, passando a defender o sucessor Eurico Gaspar Dutra, a quem chamou de “figura ímpar” que teria “larga folha de serviços prestados ao país”, alguém que teria a capacidade de ampliar e completar a “política de alta visão do grande Getúlio Vargas”, fazendo com que o Brasil consolidasse seu “prestígio entre as grandes potências do mundo”.61 Todos esses superlativos usados nos escritos denotam a vontade do diretor do JP em valorizar não a gestão, mas a figura do presidente, indício do paternalismo que caracterizou o período em questão.

54 FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São

Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2002, p.186-208. Liberato Salzano Viera da Cunha (20/12/1920-7/4/1957) nasceu em Cachoeira do Sul, filho de Antônio Peixoto Vieira da Cunha e Angelina Salzano Vieira da Cunha. Casou com Jenny Conceição Figueiredo Vieira da Cunha. Era advogado e professor. Prefeito de Cachoeira (1947-1950), deputado estadual (1950-1954) e Secretário de Educação e Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (1955-1957). Diretor do Jornal do Povo (1944-1957) e redator-chefe do Jornal do Dia (católico). SCHUH, Ângela. CARLOS, Ione Sanmartim. Cachoeira do Sul, Em busca de sua história. op.cit., 1991, p.62-64 5 JP, 2/7/1950 Editorial. Mais um aniversário, p.2 56 JP, 17/1/1954 Anúncio, p.1

57 JP, 30/6/1946 “Jornal do Povo”. Carina Pessoa, p.17 e 10/1/1947 Política local, p.1 58 JP, 30/6/1946 “Jornal do Povo”. Carina Pessoa, p.17 59 JP, 30/6/1948 Uma visão retrospectiva. Carina Pessoa, p.10 60 JP, 19/4/1945 Getúlio Vargas. Liberato S.V. da Cunha, p.2 61 JP, 2/4/1945 Incoerência. Liberato S.V. da Cunha, p.2 e 4/10/1945 Partido Social

Democrático: força política em marcha para a vitória. Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.2. Sobre a imprensa no período, ver, por exemplo: DUARTE, Celina Rabelo. Imprensa e redemocratização no Brasil: um estudo de duas conjunturas, 1945 e 1974- 1978. Dissertação de Mestrado [orientadora Maria Teresa S. R. de Souza] São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PPG/Ciências Sociais, 1987 [disponível em http://servicos.capes.gov.br/capesdw/resumo.html?idtese=1987123300501000P0 - acessado em 25/3/2005]

O uso político do jornal mostrava-se na forma como narrava acontecimentos político-partidários. A instalação do diretório do PSD, ao qual Liberato Vieira da Cunha pertencia, foi descrito em efusivas loas. A solenidade teria sido “magnífica”, revestida de “grande brilhantismo”, decorrido sob “intensa vibração cívica”. O número de pessoas demonstrariam que o partido contaria com “a maioria do eleitorado cachoeirense”.62

O sentido populista que caracterizou o governo federal neste período influenciou sobremaneira o Jornal do Povo. O editorial de 1º de julho de 1945 explicita essa conotação popular ao afirmar que viver o jornal era viver “para o povo, sofrer com o povo, desejar com o povo”; como o próprio nome dizia, o JP deveria ser “intérprete exato das aspirações e do pensamento da população”, num jornalismo que batalhava pela “verdade”, lutava pela “justiça”, defendia os “oprimidos”, engrandecendo o Brasil; que o jornal lutava pelos “superiores e impessoais interesses da coletividade cachoeirense”. O dever de informar tinha de ser feito com “isenção e coragem, divulgando todas as notícias de interesse geral”.63 A necessidade de afirmar e reafirmar sistematicamente essas questões escondia, em seu âmago, a verdadeira ideologia dos seus editores.

Aos adversários políticos, o jornal reservava grandes espaços em suas páginas para denegri-los. Exemplo disso foram os escritos do católico Liberato Vieira da Cunha na tentativa de contribuir para soterrar a ameaça comunista. As páginas do JP foram inundadas com textos repudiando a propaganda pública de idéias que chamou de “russificadoras”. O comício público pró-constituinte, organizado na praça José Bonifácio por seguidores do comunista Luiz Carlos Prestes, foi dissolvido, naquilo que Liberato Vieira da Cunha intitulou “vibrante manifestação de brasilidade”, discurso que denotava a idéia de que a luta de Prestes era por tornar o Brasil apêndice dos comunistas russos. Na ocasião, populares contrários invadiram o local, pondo termo à reunião. Depois dirigiram-se ao largo da Igreja Matriz, onde Liberato Vieira da Cunha, após fazer oração em público, pronunciou “eloqüente discurso profligando a ação dos emissários de Moscou, que pretendiam implantar no Brasil o credo desagregador da

Rússia Soviética”. O modo que o jornal descreve o momento revela a tendência política adotada. A reportagem ressalta que, após as manifestações, os populares visitaram a redação para darem “vivas ao jornal e aos seus diretores que energicamente vem combatendo aqueles que querem fazer da nossa terra um paraíso de adeptos do credo moscovita”. Para Liberato Vieira da Cunha, foi uma formidável manifestação de repúdio ao comunismo e aos que chamou de “lacaios de Stalin”, “exploradores do povo”. Para ele, foi acontecimento de “puro cristianismo, brasilidade e democracia”, que servia de exemplo ao Rio Grande do Sul, ao Brasil e à Rússia. A edição do JP contando os pormenores da manifestação comunista teria tido tamanha procura que ocasionara filas na redação.64

A visita do próprio Prestes a Cachoeira, em outubro de 1945, foi descrita como acontecimento memorável, célebre, notável, digno de permanecer na memória coletiva da cidade, não por seu enredo espetacular, mas pelo modo como foi dissolvido. Ao discursar da sacada do Partido Comunista (PC) local, teria sido “estrepitosamente acuado” por vaias e gritos de “Abaixo Prestes”, “Morra o Comunismo”, “Viva o Brasil”. Um momento, para o jornal, “de rara emoção que o repórter teve a felicidade de viver”. O título da matéria revela o embate ideológico presente no discurso do jornal: “Luiz Carlos Prestes e seus sequazes fugiram de Cachoeira do Sul como verdadeiros gangsteres, dando tiros para trás”.65

No ano seguinte, o outro editor, Manoel de Carvalho Portella, escreveu ser preferível entregar os elementos “sangue-sugas” – assim se estaria fazendo justiça – do que defenestrá-los publicamente através do jornal, com palavras de “mata, esfola, dependura, fuzila”.6

62 JP, 26/6/1945 Magníficas as solenidades da instalação do PSD, p.1, 63 JP, 1/7/1945 Jornal do Povo, p.1 e 29/6/1952 23º aniversário do Jornal do Povo, p.1

64 JP, 1/9/1945 Decisivo repúdio ao comunismo, p.1, 21/9/1945 Lição impressionante.

Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.2, 23/9/1945 Edição extraordinária do “Jornal do Povo”, p.1, 4/10/1945 Partido Social Democrático: força política em marcha para a vitória. Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.2. Ver AZEVEDO, Luiz Vitor Tavares de. Carlos Lacerda e o discurso de oposição na tribuna da imprensa (1953-1955). Dissertação de Mestrado [orientador Francisco Falcon], Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense, PPG/História, 1988 [disponível em http://servicos.capes.gov.br/ capesdw/resumo.html?idtese= 1988331003010005P6 - acessado em 25/3/2005] 65 JP, 7/10/1945 Luiz Carlos Prestes e seus sequazes fugiram de Cachoeira do Sul como verdadeiros gangsteres, dando tiros para trás, p.1 6 JP, 5/8/1946 Um por dia. Manoel de Carvalho Portella, p.2.

Os ventos democráticos do pós-guerra possibilitaram que a imprensa não mais forçosamente se alinhasse ao governo federal centralizador, permitindo o abandono gradual do jornalismo noticioso e parcial que a caracterizara desde seus primórdios. A destituição de Getúlio Vargas abriu caminho para eleição e não mais nomeação dos prefeitos. Cyro da Cunha Carlos governara o município a maior parte dos anos de guerra, assumindo pela primeira vez em 29 de outubro de 1939 até 17 de novembro de 1945 e de 10 de março de 1946 a 7 de abril de 1947. Neste ínterim, assumiram Alfeu Escobar e Jacinto Dias Filho. Após o último período de Cyro da Cunha Carlos, o prefeito nomeado foi Mário Godoy Ilha até 1947.67

Entretanto, muitos jornais do interior perpetuaram o uso político, como o próprio Jornal do Povo. A circulação dos jornais é indício desse uso. A iniciativa de aumentar a periodicidade tinha sido feita em maio de 1939, quando intentava-se passar de bissemanal para diário. As expectativas foram frustradas frente à crise mundial que se avizinhava.68 Na virada de 1946 para 1947, a circulação passou a ser segundas, quartas, sextas e domingos. Para os editores, a finalidade publicitária do jornal possibilitaria a execução da “mais importante das finalidades da imprensa: a colaboração no desenvolvimento do progresso das cidades, através do noticiário e da defesa dos interesses das suas populações”. No ano seguinte, foi anunciado o matutino diário, fazendo crer que o fato seria motivo de orgulho para toda comunidade, embora pequena parcela fosse leitora assídua: “Cachoeira do Sul poderá, doravante, orgulhar-se por possuir o seu diário, acontecimento que irá contribuir, sem dúvida, para elevar mais ainda o conceito e o nível cultural já atingidos pela nossa terra, entre as principais cidades do Rio Grande do Sul”.69 Todavia, o aumento da circulação tinha como finalidade eleger o diretor do JP, Liberato Vieira da Cunha, para prefeito.

Em 1947, Liberato Vieira da Cunha foi eleito prefeito de Cachoeira do Sul pelo PSD, o que, de certa forma, representou a continuidade da política local, visto que o prefeito eleito alinhara-se efusivamente a

Getúlio Vargas, quando de sua deposição em 1945. Parte da campanha municipal de Liberato Vieira da Cunha foi baseada na xenofobia ao se apresentar em grandes anúncios publicados em seu jornal como “o único candidato cachoeirense”.70 Elegeu-se com expressiva votação, tendo como vice Frederico Gressler.71

Após a vitória eleitoral, o JP, ainda sob sua responsabilidade, parou de circular diariamente, com o argumento de que não podia manter durante o dia a sua “máquina-composição pela absoluta falta de força motriz, que não atinge o grau de calor necessário para o derretimento do chumbo”.72 Na verdade, garantida a eleição, não se justificava a circulação diária deficitária.73 Conseqüentemente, as críticas do jornal foram direcionadas para atos falhos dos cachoeirenses e não para a administração municipal. Exemplo foi a coluna assinada pelo articulista de pseudônimo Roseteur, a flor com espinhos pronunciada de forma afrancesada.74 Também sob o anonimato do pseudônimo Chinês, o diretor do JP Manoel Carvalho Portella, assinou a coluna Pingos nos i..., de 1947 até seu falecimento em junho de 1951, quase sempre com críticas aos cachoeirenses, poupando a administração municipal sob responsabilidade do sócio.75

67 SCHUH, Ângela. CARLOS, Ione Sanmartim. Cachoeira do Sul, Em busca de sua história. op.cit., 1991, p.46 68 JP, 7/5/1939 O Jornal do Povo passará, em breve, a nova fase, p.1 69 JP, 15/12/1946 Jornal do Povo, p.8, 1/1/1947 Nova fase. Manoel de Carvalho Portella e Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.2, 21/10/1947 Cachoeira já possui o seu jornal diário. Sylvio Dutra de Albuquerque, p.1 e 2/12/1947 Jornal do Povo, p.1

75 JP, 21/1/1948 Pingos nos iChinês. E elas se pegaram, p.2, 25/1/1948 Pingos nos
iChinês. Precisa-se de uma empregada, p.2, 26/1/1948 Pingos nos i... Chinês.
Carnaval, p.3, 14/3/1948 Pingos nos iChinês. Terreno para presídio, p.2, 12/4/
1948 Pingos nos iChinês. Parafuso, p.2, 16/5/1948 Pingos nos i... Chinês. Ecos da
destruição dos aparelhos do Aero, p.2, 21/5/1948 Pingos nos iChinês. Com a
brusca caída da temperatura..., p.2, 7/6/1948 Pingos nos iChinês. Saias cumpridas,
p.2, 13/6/1948 Pingos nos iChinês. Com os fiscais de menores, p.2, 18/6/1948
Pingos nos iChinês. Com os bondes, p.2, 23/6/1948 Pingos nos i... Chinês. Começou
a fuzilaria, p.2, 31/8/1948 Pingos nos iChinês. Bicicletas de aluguel, p.2, 3/10/
1948 Pingos nos iChinês. Baile, p.2, 24/1/1950 Pingos nos i... Chinês. Bem feito,
p.2, 26/1/1950 Pingos nos iChinês. Sirene de alarme, p.2, 7/2/1950 Pingos nos
iChinês. Carnaval, p.2, 19/3/1950 Pingos nos i... Chinês. Bixaredo, p.2, 28/3/
1950 Pingos nos iChinês. Telefones, p.2, 23/4/1950 Pingos nos i... Chinês.
Destoante, p.2, 7/5/1950 Pingos nos iChinês. Triste espetáculo, p.2, 7/5/1950

70 JP, 15/1/1947 Anúncio. Partido Social Democrático. Para prefeito: o único candidato cachoeirense. Liberato Salzano Vieira da Cunha (3/4 de página), p.1 71 JP, 20/1/1947 Expressiva vitória do Partido Social Democrático, p.1 72 JP, 2/12/1947 Jornal do Povo, p.1 73 JP, 31/8/1950 Diretor: Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.1 74 JP, 7/1/1948 O que há com tudo isso? Roseteur. A Praça de Santo Antônio, p.4, 1/1/ 1948 O que há com as calçadas? Roseteur, p.4, 14/1/1948 O que há com os mocinhos? Roseteur, p.4 e 16/1/1948 O que há com a morte? Roseteur, p.6 Muito além da praça José Bonifácio - Jeferson SelbachReflexões e inflexões9495

Através das páginas do jornal, Liberato Vieira da Cunha alcançou vôos maiores, como a eleição a deputado estadual em 1950, a reeleição em 1954 e o cargo de Secretário Estadual da Educação e Cultura em 1955. Em todas oportunidades, usou das páginas do JP para divulgar suas idéias, procurando sempre demonstrar que havia sido dinâmico gestor municipal. O jornal era o seu cartão de visitas que mostrava a cidade bem administrada, com estradas patroladas, escolas abertas e obras de assistência social cuidando dos menos favorecidos, tudo isto representando motivo para que o “eleitorado consciente de sua terra” votasse nele, pois seria “intransigente defensor dos interesses coletivos”. Na primeira eleição a Assembléia Legislativa, foi eleito com mais de 15 mil votos.76

A atitude benevolente do JP com a administração municipal perdurou somente até o fim do mandato do vice-prefeito, Frederico Gressler (1950- 1951). À visão romanceada e parcial, contrapôs-se um olhar menos ameno, mais crítico e severo, quando foram eleitos Virgilino Jayme Zinn e Henrique Fonseca Ghignatti (1952-1955). Indício da razão dessa mudança de postura foi a publicação das leis, feitas exclusivamente no Jornal do Povo, quando Liberato Vieira da Cunha era prefeito e quando assumiu seu vice, Frederico Gressler. O monopólio durou até o início da administração seguinte. De agosto a novembro de 1952, o prefeito Virgilino Zinn publicou as leis somente no Livro de Registro de Leis da Prefeitura Municipal. Depois, voltou a publicar no JP até maio de 1953, quando as publicações oficiais foram feitas no jornal O Commercio durante dois meses. Após, passou a ser alternado nos dois jornais.

A perda das benesses públicas obrigou o jornal a buscar anunciantes. Em face do partidarismo, a maioria dos jornais do interior tinham número limitado de leitores e, em conseqüência, dispunham de escassos recursos advindos da publicidade. Data desta época as primeiras iniciativas de explicar aos leitores que parte das despesas do JP era paga pelos anunciantes que prestavam duplo serviço, fornecendo informações sobre produtos que o leitor necessitava e pagando parte do jornal. Os anúncios do próprio jornal ressaltavam a necessidade do leitor preferir os produtos dos patrocinadores.7

Com o falecimento de Manoel Carvalho Portella em 1951 e a morte num acidente trágico de Liberato Vieira da Cunha em 1957,78 o Jornal do Povo passou às mãos do irmão Paulo Salzano Vieira da Cunha, gerente desde 1948. A troca acelerou a mudança de jornal político para noticioso, o que exigiu novos investimentos tecnológicos, desenvolvimento do departamento comercial e a guinada para a regionalização das notícias e o envolvimento comunitário, sem por isso abandonar a parcialidade da informação.

Seria a resposta frente ao avanço dos jornais da capital, que ampliavam a concentração e o monopólio da informação, com a modernização da redação e a prevalência da publicidade sobre a política. Conforme Rüdiger, a imprensa porto-alegrense avançando rumo ao interior gaúcho graças ao desenvolvimento dos meios de transporte, das novas técnicas de distribuição dos exemplares e do recolhimento das notícias.79 Para sobreviver, o Jornal do Povo precisou acelerar o movimento de reorganização, através de grandes investimentos que possibilitariam aumento da circulação e regionalização da notícia. Ao invés de jornalismo político-partidário-religioso, encontraria saída na tirania do departamento comercial. Embora fosse essa a tendência do jornalismo na época, as mudanças administrativas e redacionais foram, de certa forma, postergadas pelo uso que Liberato Vieira da Cunha fez do JP.

Neste contexto ideológico, algo que perpassou e sobreviveu as mudanças administrativas do Jornal do Povo foi o fato dos editores defenderem veemente os ideais da elite. Ao longo de sua história, o jornal seria reconhecido pelo discurso em favor dos interesses de uma minoria,

Pingos nos iChinês. Correrias e descargas abertas, p.2, 25/6/1950 Pingos nos i...
Chinês. Divórcio, p.2, 4/7/1950 Pingos nos iChinês. Pouca vergonha, p.2, 9/7/
1950 Pingos nos iChinês. Trem maluco, p.2 e 31/12/1950 Pingos nos i... Chinês.

Adivinhação, p.2 76 JP, 31/8/1950 Diretor do JP: Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.1, 7/9/1950 Para

Deputado Estadual Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.4, 17/9/1950 Manifesto aos meus conterrâneos. Liberato Salzano Vieira da Cunha, p.2 e 2/10/1950 Hoje a proclamação dos resultados oficiais do pleito neste município, p.1

7 JP, 18/1/1951 Alguém paga parte deste jornal para você!, p.1, 15/7/1951 A partir do dia 1º de Julho – primeiro do 23º ano de existência do Jornal do Povo – tencionávamos introduzir algumas modificações na apresentação do Jornal, p.1 e 15/9/1953 Bom dia, leitor! Fazer jornal, no interior..., p.1 78 JP, 10/6/1951 Manoel Carvalho Portella, p.1, 10/4/1957 Tremenda Catástrofe, p.3 79 RÜDIGER, Francisco Ricardo. Tendências do jornalismo. op.cit., 1993, p.5-69 moradora do centro urbano. Nos próximos capítulos, pretendo mostrar como essa luta pôde ser vista nos mais diferentes aspectos: instalação dos telefones automáticos, necessidade de maior força motriz, melhoria da infra-estrutura rodoviária, ferroviária e fluvial, como a plena navegação do rio Jacuí e o porto para escoar a produção dos rizicultores, exigência da intervenção estatal para financiamento da produção de arroz, promoção da Festa do Arroz, cujos festejos tiveram caráter eminentemente elitista, como o concurso da escolha da rainha. Em críticas como a falta de espaço na zona central que, devido ao crescimento populacional, resultou na expansão dos subúrbios, exigindo terraplanagem e encascalhamento das ruas, construção de pontilhões para o acesso e infra-estrutura como água, esgoto e luz elétrica. Algo que, na visão do JP, tornaria “muito feio” o município, além de acarretar aumento de impostos. Por isso comumente denunciar a higiene das vilas, assunto tratado como caso de polícia por conta da desordens e conflitos, exigir a remoção de animais que estivessem sendo criados para consumo nos domicílios, imputar aos moradores dos subúrbios a responsabilidade na utilização de terrenos baldios e sangas para depósito de lixo, mesmo que inexistisse a coleta nos subúrbios. Mesmo quando defendia melhorias para os pobres, o jornal o fazia com um fundo elitista. Exemplo foi o aspecto da saúde curativa, com a construção do novo hospital.

Essa interposição aparecia fortemente nas questões urbanas, manutenção do espaço citadino frente ao êxodo dos subalternos, algo que desencadeou reclames sobre os aspectos fisionômicos, como praças e construções, a beleza arquitetônica da zona central. O JP defendeu ardorosamente, nesses quinze anos analisados, a manutenção de serviços como varrição das ruas, iluminação pública e ordenação do espaço. Fez distinção social através da religião, tratando de forma diferente outras congregações, preocupou-se com a estética das duas praças centrais, com as regras de convívio e etiqueta, exigindo elegância dos freqüentadores, valorizou as recepções oferecidas em ambientes privados, o empolamento aristocrático dos eventos sociais, deu sobrevida e perpetuou a diferenciação social através dos relacionamentos afetivos, condenou as desonradas ao fazer campanha em nome da moralidade da sociedade cachoeirense para combater a prática do aborto, exigiu reverência aos mortos, mesmo noticiando os falecimentos de formas distintas, incentivou o banho ao ar livre e os esportes praticados em público, como tênis, vôlei, basquete, o jóquei e a patinação, o lazer em público nos cafés e confeitarias, nos cinemas, teatros e recitais, nos clubes e sociedades, distinguiu claramente os bailes e carnavais, criticou o entretenimento dos subalternos, como os circos e parques de diversões, culpou os outsiders pela desordem e turbulência, imputou aos moradores suburbanos pechas de toda ordem.

Antes de empreender essa análise, porém, procuro entender os avanços e recuos na ocupação e demarcação do território gaúcho. Campo onde multiplicaram-se rebanhos bovinos em tal abundância que serviu de alavanca no processo de ocupação luso-brasileira da futura Província Cisplatina e da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, em especial de São João da Cachoeira. Ocupação essa feita através da distribuição de grandes áreas cedidas aos que defendiam a faixa litorânea ou mesmo de pequenos lotes a famílias açorianas para alimentar as tropas. Contexto onde forjou-se o desenvolvimento do charque, produto que colocaria em lados opostos estancieiros e charqueadores, e desencadearia o confronto farroupilha. Ocupação também feita por imigrantes alemães e italianos, que exploraram gêneros alimentícios destinados ao mercado interno, algo que desencadeou profundas mudanças no desenvolvimento econômico do sul do país, em especial para Cachoeira, com a introdução da cultura rizícola, que serviu de base para a emergência da ordem urbanoindustrial no município, concentrado na sede, através de investimentos privados e públicos. O marco das transformações urbanas seria alcançado em fins dos anos 20, numa verdadeira revolução que fez da zona central palco do confronto simbólico entre a elite, que buscava diferenciação social através do refinamento dos hábitos praticados no dia-a-dia, e os subalternos, que passaram a ocupar o espaço de forma fremente nos anos 30 em diante.

(Parte 7 de 7)

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