Ética e a responsabilidade social

Ética e a responsabilidade social

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3.2 Estágio convencional:

Neste estágio, a ética continua sendo individualista, no entanto, as regras de conduta são elaboradas considerando-se o relacionamento de uma pessoa ou grupo com outras pessoas ou grupos, as expectativas dos componentes envolvidos em relação aos seus pares, e os prejuízos e vantagens em cada relação.

Assim, o receio da punição pelo comportamento incorreto e a busca de recompensas passam a conviver com a busca de satisfação pessoal, característica do estágio anterior. As pessoas e grupos ainda agem movidos pelo interesse pessoal, mas dentro dos limites e restrições impostos pelos interesses alheios, seja porque lhes é conveniente atendê-los, seja porque receiam não atendê-los. É indicativo desse estágio o seguinte raciocínio

  • Se me comportar como os outros esperam que me comporte, poderei ter vantagens ou evitar retaliações.

3.3 Estágio pós-convencional

É o estágio em que o comportamento atingiu o mais alto nível ético. A conduta individual ou em grupo está fundamentada em princípios morais nobres que reconhecem os direitos alheios, considerando o impacto do comportamento sobre os outros e sobre as futuras gerações.

Quem está neste estágio possui bem claros os conceitos de justiça, honra, dignidade, auto-realização, respeito para consigo mesmo e para com os outros.

O comportamento é orientado por princípios e convicções, e não pelas convenções, pelo receio de punição ou pela busca de recompensas. A idéia de responsabilidade social está no centro deste estágio de desenvolvimento moral.

São indicativos deste estágio:

  • Minha liberdade termina onde começa a liberdade do vizinho.

  • Não concordo com nenhuma de suas palavras, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las.

  • Não há o que me obrigue a fazer algo que considere moralmente errado.

  • Não importa a opinião da maioria, mas valores universais e ideais, como justiça, direito, igualdade, liberdade, fraternidade.

  • Mulheres e crianças primeiro.

  • O comandante é o último a abandonar o navio.

4 RESPONSABILIDADE SOCIAL

Responsabilidade social é a idéia de que as empresas possuem obrigações para com a sociedade, além de suas obrigações econômicas junto aos proprietários ou acionistas e também além daquelas prescritas por lei ou contrato.

Tanto a ética quanto a responsabilidade social dizem respeito à maneira como uma organização se relaciona com seu mundo exterior, por meio de condutas, que podem ser morais ou não.

Enquanto que a ética nos negócios é um conceito mais estreito que se aplica à moralidade das decisões e comportamentos de um indivíduo, a responsabilidade social é um conceito mais amplo que se relaciona ao impacto que uma organização promove sobre a sociedade, e que vai além de fazer apenas o que é ético.

Para comportar-se de um modo socialmente responsável, os administradores precisam ter consciência de como suas ações influenciam o ambiente.

As empresas têm, portanto, responsabilidades sociais - ou seja, obrigação de agir no melhor interesse da sociedade, devendo pautar suas ações pelo princípio do estágio pós-convencional de desenvolvimento moral.

No contexto da responsabilidade social, a ética trata essencialmente das relações entre as pessoas e, se cada um deve tratar os outros como gostaria de ser tratado, o mesmo vale para as organizações. O comportamento das pessoas e das empresas afeta outras pessoas ou empresas, que podem estar dispostas a exigir essa responsabilidade, seja pelo ativismo político, pela imprensa, legislação ou atuação nos parlamentos.

Para Maximiano, existem duas correntes a esse respeito, cada uma delas com argumentos muito fortes:

- Doutrina da Responsabilidade Social: A empresa usa recursos da sociedade / A empresa tem responsabilidade perante a sociedade

- Doutrina do Interesse do Acionista: Não cabe à empresa resolver problemas sociais / A única responsabilidade que a empresa tem é com relação a seus acionistas.

A primeira corrente advoga em favor do princípio da caridade (os indivíduos mais afortunados da sociedade devem cuidar dos menos afortunados, compreendendo desempregados, doentes, pobres, pessoas com deficiências físicas, o que pode ser realizado diretamente ou por meio de instituições, como igrejas, associações de caridade ou movimentos de auxílio.

A obrigação é do indivíduo, não da empresa) e do princípio do zelo (stewardship), segundo o qual os indivíduos ricos deveriam enxergar-se como depositários da sua propriedade. Os ricos têm seu dinheiro com a confiança do resto da sociedade e podem usá-lo para qualquer finalidade que a sociedade julgar legítima.

O papel da empresa também é o de aumentar a riqueza da sociedade, por meio de investimentos prudentes e uso cauteloso dos recursos sob sua responsabilidade.

A deterioração dos ecossistemas, provocada pela poluição ambiental, estimulou o debate sobre os benefícios e malefícios da sociedade industrial.

As conseqüências indesejáveis da industrialização aguçaram a consciência ecológica de certos segmentos sociais e motivaram o surgimento de grupos de ativistas que se propuseram a combater o comportamento socialmente irresponsável de certas empresas ou ramos de negócios, como os madeireiros, os caçadores de baleias e a indústria das peles de animais.

Devido às pressões que nasceram de todos esses movimentos, muitos países estabeleceram legislações severas sobre essas questões. Tal legislação deve ser do conhecimento dos decisores, já que uma decisão que não as considerou pode afetar o desempenho organizacional, provocando prejuízos inesperados tanto para a empresa quanto para toda a sociedade.

Outra base para a aceitação da doutrina da responsabilidade social é a proposição de que as organizações provocam efeitos que nem sempre são bons para seus stakeholders. Seus benefícios para a coletividade são contrabalançados pelos prejuízos que, involuntariamente, muitas vezes causam.

Benefícios:

  • Criação de empregos

  • Pagamento de impostos e salários

  • Promoção da distribuição da renda

  • Desenvolvimento de fornecedores

  • Treinamento da mão-de-obra

Prejuízos:

  • Danos ao ambiente

  • Demissões, desemprego

  • Utilização e manipulação dos empregados

  • Relações suspeita com o poder, corrupção de funcionários públicos

4.1 Responsabilidade Social nas Organizações

Até algum tempo atrás, as organizações estavam orientadas exclusivamente para os seus próprios negócios. Essa orientação gradativamente deixou de ser interna para se projetar externamente em direção ao ambiente de negócios.

A responsabilidade social significa o grau de obrigações assumidas por uma organização através de ações que protejam e melhorem o bem-estar da sociedade enquanto procura atingir os seus próprios interesses. Em geral, ela representa a obrigação da organização de adotar políticas e assumir decisões e ações que beneficiem a sociedade. A responsabilidade social significa a obrigação gerencial de tomar ações que protegem e melhoram o bem-estar da sociedade como um todo e os interesses organizacionais especificamente. Os administradores devem buscar alcançar simultaneamente objetivos organizacionais e objetivos societários.

4.2 Abordagem quanto à responsabilidade social

Toda organização produz alguma influência no seu ambiente, que pode ser positiva – quando a organização beneficia o ambiente através de suas decisões e ações – ou negativa, quando traz problemas ou prejuízos ao ambiente. Somente há pouco tempo as organizações começaram a preocupar-se com obrigações sociais. Essa preocupação crescente não foi espontânea, mas provocada por movimentos ecológicos e de defesa do consumidor que põem em foco o relacionamento organização e sociedade. Duas posições antagônicas emergem dessa preocupação:

  1. Modelo shareholder: É a posição contrária à responsabilidade social das organizações. Cada organização deve se preocupar em maximizar lucros, ou seja, satisfazer os proprietários ou acionistas da organização. Ao maximizar lucros, a organização maximiza a riqueza e a satisfação dos proprietários e acionistas. A organização não deve assumir responsabilidade social direta, mas apenas buscar a otimização do lucro dentro das regras da sociedade. A organização lucrativa beneficia a sociedade ao criar novos empregos, pagar salários justos que melhoram a vida dos funcionários e melhorar as condições de trabalho, contribuir para o bem-estar público pagando impostos e oferecendo produtos e serviços aos clientes.

  2. Modelo stakeholder: É a posição favorável à responsabilidade social das organizações. A maior responsabilidade está situada na sobrevivência de longo prazo (e não apenas maximizando o lucro) através da satisfação dos interesses dos múltiplos parceiros (e não apenas os proprietários e acionistas). A organização é a maior potência no mundo contemporâneo e tem a obrigação de assumir uma responsabilidade social correspondente. A sociedade deu esse poder às organizações e deve convocar a organização para prestar contas pelo uso desse poder. Ser socialmente responsável tem o seu preço, mas as organizações podem repassar com legitimidade esse custo aos consumidores na forma de aumento de preços. Essa obrigação visa o bem comum porque, quando a sociedade melhora, a organização se beneficia.

4.3 Graus de envolvimento organizacional segundo o modelo STAKEHOLDER

1. Abordagem da obrigação social e legal

As metas da organização são de natureza econômica, com enfoque na otimização dos lucros e do patrimônio líquido dos acionistas. A organização deve satisfazer obrigações mínimas impostas pela lei, sem assumir nenhum esforço adicional voluntário.

2. Abordagem da responsabilidade social

A organização não tem apenas metas econômicas, mas também responsabilidades sociais. Suas decisões são tomadas não apenas em função de ganhos econômicos e conformidade legal, mas também no critério do benefício social. Certos recursos organizacionais são usados para projetos de bem-estar social sem trazer dano econômico para a organização. São organizações que praticam uma adaptação reativa, pois agem para providenciar uma solução de problemas já existentes.

3. Abordagem da sensibilidade social

A organização não tem apenas metas econômicas e sociais, mas se antecipa aos problemas sociais do futuro e age agora em resposta a eles, antes que se tornem críticos. É a abordagem de cidadania corporativa através de um papel pró-ativo na sociedade. Isso provoca envolvimento na comunidade e encoraja as pessoas a fazerem esforços de conscientização social, voluntariado espontâneo e programas comunitários em áreas carentes.

Na verdade, a responsabilidade social deixa de se limitar aos velhos conceitos de proteção passiva e paternalista ou de fiel cumprimento de regras legais para avançar na proteção ativa e promoção humana, em função de um sistema explicitado de valores éticos.

4.4 Modelo de Responsabilidade Social Corporativa (DAVIS)

  • A responsabilidade social emerge do poder social. Toda organização tem influência sobre a sociedade, e esta deve exigir condições que resultam do exercício dessa influência.

  • As organizações devem operar em um sistema aberto de duas vias, com recepção aberta de insumos da sociedade e expedição aberta de suas operações para o público. As comunicações entre as organizações e a sociedade devem ser abertas e honestas.

  • Os custos e benefícios sociais de uma ação, produto ou serviço devem ser calculados e considerados nas decisões a respeito deles. A viabilidade técnica e a lucratividade econômica não são os únicos fatores que pesam nas decisões da organização, a qual deve também considerar conseqüências de curto ou longo prazo sobre suas ações sociais.

  • Os custos sociais relacionados a cada ação, produto ou serviço devem ser repassados ao consumidor. Os negócios não devem ser financiados apenas pela organização. O custo de manter atividades socialmente desejáveis nos negócios deve ser transferido para o cliente através de preços mais elevados dos bens e serviços relacionados a tais atividades.

  • As organizações devem ser envolvidas na responsabilidade em certos problemas sociais que estão fora de suas áreas normais de operação. A organização que possui expertise de resolver um problema social com o qual não está diretamente associada deve ser responsável para ajudar a sociedade a resolver tal problema.

Keith Davis, “Five Propositions for Social Responsibility”, Business Horizons, junho, 1975.

4.5 Avaliação da Responsabilidade Social das Organizações

O Instituto Ethos avalia a responsabilidade social das empresas através de uma sistemática de auto-avaliação dividida em sete grandes temas, desdobrados da seguinte maneira:

  1. Valores organizacionais e transparência:

* Auto-regulação da conduta organizacional. Compromissos éticos e enraizamento da cultura organizacional.

* Relações transparentes com a sociedade. Diálogo com partes interessadas (stakeholders), relações com a concorrência e balanço social.

  1. Público interno:

* Diálogo e participação. Relações com os sindicatos, gestão participativa e participação nos lucros e/ou resultados.

* Respeito ao indivíduo. Compromisso com o futuro das crianças e valorização da diversidade.

* Respeito ao trabalhador. Comportamento frente a demissões, compromisso com o desenvolvimento profissional e empregabilidade, cuidado com a saúde, segurança e condições de trabalho, e preparação para a aposentadoria.

  1. Meio ambiente:

* Gerenciamento do impacto ambiental. Conhecimento sobre o impacto no meio ambiente, processo produtivo, responsabilidade sobre o ciclo de vida dos produtos e serviços (somente para indústrias).

* Responsabilidade frente às gerações futuras. Compensação da natureza pelo uso de recursos e impactos ambientais e educação ambiental.

  1. Fornecedores:

* Seleção e parceria com fornecedores. Critérios de seleção de fornecedores, relações com trabalhadores, terceirizados e apoio ao desenvolvimento de fornecedores.

  1. Consumidores:

* Dimensão social do consumo. Política de marketing e comunicação, excelência do atendimento, conhecimentos dos danos potenciais dos produtos e serviços.

  1. Comunidade:

* Relações com a comunidade local. Gerenciamento do impacto da atividade produtiva na comunidade e relações com organizações atuantes na comunidade.

* Filantropia – investimentos sociais. Mecanismos de apoio a projetos sociais, estratégias de atuação na área social e mobilização de recursos para o investimento social.

* Trabalho voluntário. Reconhecimento e apoio ao trabalho voluntário dos empregados.

  1. Governo e sociedade:

* Transparência política. Contribuições para campanhas políticas e práticas anticorrupção à propina.

* Liderança social. Liderança e influência social e participação em projetos governamentais.

OBS. – Questionário do Instituto Ethos disponível no site: www.ethos.gov.br

5 BIBLIOGRAFIA

CHIAVENATO, I. Introdução à Teoria Geral da Administração – Edição Compacta. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

MAXIMIANO, A.C.Amaru. Teoria Geral da Administração: da escola científica à competitividade na economia globalizada. 2ª Ed. São Paulo: Atlas, 2000.

MEC - Ministério da Educação e Cultura. Provão 2.000.

STONER, James F.F., FREEMAN, R.Edward, GILBERT JR., Daniel R. Management. Madri: Prentice Hall International, 1995.

Estudos Especiais de Administração - Prof. A.C.Vasque

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