A sexualidade no judaísmo

A sexualidade no judaísmo

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A SEXUALIDADE NO JUDAISMO:

UMA PESQUISA BIBLIOGRÁFICA

Por

ARNALDO RISMAN

Monografia realizada em cumprimento às exigências

acadêmicas do Departamento de Psicologia da

Universidade Gama Filho como requisito para

conclusão do curso de Pós-Graduação Lato Sensu

em Sexualidade Humana.

UNIVERSIDADE GAMA FILHO

Rio de Janeiro

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ÍNDICE

I – INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 3

II – HISTÓRIA DO POVO JUDEU: TRADIÇÃO ESCRITA E ORAL ......................... 4

III – NIDDAH ................................................................................................................... 18

3.1 – Origem do conceito de Niddah ......................................................................... 18

3.2 – Conceito de Niddah e Menstruação – Tameh e Tahor ...................................... 20

3.2.1 – Leis de Niddah referente ao Parto .................................................................. 21

3.2.2 – Leis de Niddah referente a mulheres grávidas, mulheres amamentando

e mulheres idosas ........................................................................................... 24

3.2.3 – Leis de Niddah da noiva ................................................................................. 24

3.3 – Conduta do casal durante o período de “impureza” da mulher judia ................ 25

3.4 – Hefsek Taharah: Verificação do término do ciclo menstrual e a contagem

dos sete dias limpos ........................................................................................... 29

IV – MICVÊ ....................................................................................................................... 31

4.1 –O que é um Micvê e sua estrutura ...................................................................... 31

4.2 – Objetivo da imersão no Micvê: um ritual de mudança de status ...................... 33

4.3 – A origem das águas do Micvê ........................................................................... 36

4.4 – A higiene da mulher antes da imersão ............................................................... 37

4.5 – Ritual de imersão ............................................................................................... 38

V – AS NORMAS DE PUREZA FAMILIAR JUDAICA ................................................ 41

5.1 – Visão do sexo no Judaísmo ................................................................................ 44

5.2 – A relação sexual no Judaismo ............................................................................ 48

VI – CONCLUSÃO ........................................................................................................... 55

VII – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 56

I - INTRODUÇÃO

O presente estudo, tem entre outros objetivos, conhecer tradições milenares de um povo cujo costumes e histórias foram passadas através de um idioma diferente (hebraico e aramaico), o qual dificulta as leituras e estudos mais profundos por parte dos leigos.

Tendo em vista que as literaturas relacionadas com a sexualidade, geralmente se referem a uma educação judaica-cristã, sendo por muitas vezes vista mais pela parte cristã, observamos a necessidade de um conhecimento, mais amplo, a respeito da sexualidade na religião judaica vista pela literatura básica judaica, isto é, obras que são consideradas como sagradas no Judaismo.

Segundo o objetivo deste estudo, conhecer através de uma pesquisa bibliográfica a questão da sexualidade na religião judaica, se faz necessário realizar um histórico do povo judeu e da origem de suas obras literárias.

Essas obras são conhecidas como: Torá (Bíblia), Mishná, Talmud de Jerusalém e da Babilônia, Shulchan Aruch, Zohar, entre outras. Todas essas obras serviram como fontes para a realização desse trabalho.

Segundo os mandamentos das Escrituras Sagradas, existem algumas restrições que são colocadas na relação do casal.

Essas restrições estão intimamente relacionadas com a questão da menstruação, onde veremos sua origem, conceito e as normas de conduta do casal durante este período.

Abordaremos também, sobre o processo de verificação do término do ciclo menstrual até o banho ritual de purificação, que a mulher judia realiza todo mês.

Outro ponto importante a ser mencionado refere-se às normas de pureza familiar, à visão do sexo no Judaismo e finalmente, à questão da relação sexual na religião judaica.

II – HISTÓRIA DO POVO JUDEU: TRADIÇÃO ESCRITA E ORAL

De acordo com a tradição e cultura judaica, existe um registro preciso e exato de todos os grandes eventos acontecidos durante os primeiros dois mil anos de existência do mundo civilizado.

A Bíblia ou Torá (que será explicada mais adiante) data o início da criação do mundo de 5754 anos, exatamente no dia cinco de Elul (mês luno-solar judaico que corresponde à Agosto – Setembro)1. A criação do mundo por D’s2 deu-se em seis dias sendo o homem criado no 6o dia, que corresponde ao dia um de “Thishrei” no calendário judaico, data conhecida como “Rohs Hashaná” (Cabeça do Ano) que marca o ano novo judaico e que seria o ano novo universal3.

A tradição judaica registra que, sendo o primeiro ser humano um ser hermafrodita4 que D’us, posteriormente partiu em dois dando origem a Adam (Adão, homem) e Chava (Eva, mulher). O divino os caracterizou como seres dotados de profecia e para os quais revelou inúmeros segredos naturais, como o princípio da combustão – como produzir e utilizar o fogo, e o misticismo5.

À Adam foram entregues seis leis ou princípios universais, que posteriormente deram origem aos “Códigos de Leis da Antigüidade”, como o “Código Sumério” e o de “Hamurabi”6.

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  1. O calendário judaico possui 12 meses e cada um corresponde aproximadamente a cada mês do ano do calendário grego-romano. São eles: Tishrei – Setembro; Chesvan – Outubro; Kislev – Novembro; Tevet – Dezembro; Shvat – Janeiro; Adar - Fevereiro; Nissan – Março; Iar - Abril; Sivan – Maio; Tamuz – Junho; Av – Julho; Elul – Agosto.

  2. O povo judeu expressa desta forma escrita o nome do Divino.

  3. Isaacs, Jacob. Our People. History of The Jews.

  4. Talmud Babilônico, Tratado de Eruvin, pg. 18-ª Meiselman, Moshé – Jewish woman in Jewish, pg. 9 – 12.

  5. Fendel, Zecharia. Legacy of Sinai. pg. 19 – 22.

(6) Idem. Ibidem.

Além destas regras básicas, uma quantidade enorme de conhecimentos éticos e místicos lhe foram transmitidos dos quais posteriormente foram compilados clássicos da mística judaica, como o “Livro de Raziel”, “Livro da Criação”, etc...7

O manuseio de materiais como o ferro e a criação de instrumentos pelo homem também são registrados na Torá8.

Dez gerações após a criação do ser humano, ocorreu o dilúvio do qual salvaram-se apenas os animais recolhidos por Noé (em hebraico, NOACH) e sua família. Sendo ele também profeta, e tendo contato direto com Adam, os conhecimentos foram por ele preservados e transmitidos aos seus filhos – Shem (ancestral dos Semitas), Cham (ancestral dos Camitas, povos da África, Fenícios, entre outros) e Yefet (ancestral de inúmeros povos como os Celtas, Teutônicos, Persas, Gregos, etc...)9.

Aos filhos de Noach foi dada a sétima lei universal, que permite o consumo de animais somente em caso de necessidade sem causar dor ou sofrimento.

De Shem a tradição chega a Avraham, seu descendente, o primeiro patriarca do povo judeu e grande propagador do monoteísmo. A ele é atribuída a autoria de um dos mais antigos livros da mística judaica – o “Sefer Maietsirá” (Livro da Criação).10

Avraham passa a viver e morre em Israel, local que o Divino lhe dá e a seus descendentes como herança eterna.

De acordo com os estudos de rabi Menachi ben Israel no século XVII, parte dos descendentes de Avraham chegaram até a Índia e circunvizinhanças trazendo-lhe estes conhecimentos místicos11.

Seis gerações depois, os descendentes de Avraham, conhecidos como filhos de Israel ou Israelitas, pois o neto de Avraham era Jacob que foi nomeado por D’us como “Israel”, foram eventualmente morar no Egito onde um dos filhos mais jovens, Yossef, tornou-se vice-rei. Posteriormente o povo foi escravizado pelos faraós e libertados cerca de sete gerações depois através de Moisés (em hebraico “Moshé”), que os guiou por quarenta anos através do Sinai12.

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  1. Fendel, Zecharia. Legacy of Sinai. pg. 19 – 22

  2. Gênesis 4:20-22.

  3. Fendel, Zecharia. Legacy of Sinai. pg. 19 – 22.

(10) Kaplan, Arieh. Sefer Yetzikah. The Book of Creation.

(11) Grunplant, Natan. Luminárias de Israel. Pg. 308 – 313.

  1. Fendel, Zecharia. Legacy of Sinai. pg. 27 - 30.

No sexto dia de Sivan (mês do calendário judaico, corresponde a Março – Abril), três meses após o povo judeu sair do Egito, no ano 2448 após a criação do mundo – 1313 A.C., Moshé através do Divino recebeu a “Torá Escrita e Oral” no Monte Sinai13.

A Torá foi entregue na presença de todo povo de Israel – aproximadamente 600.000 homens14 adultos de idade variando dos vinte aos sessenta anos, um número muito maior de pessoas idosas, mulheres e crianças, juntamente com uma multidão de pessoas do outros povos15. Conta a Torá que quando o povo judeu aceitou a Torá, sua resposta inicial foi: “Tudo o que D’us quiser, nós faremos e nós ouviremos.” (Na’aseh ve Nishmá)16. Os sábios acentuam o fato de que a sua primeira declaração foi “Nós faremos”. Isto indica que quando a Torá foi dada, o povo judeu estava pronto para cumprir os mandamentos e “fazê-los”, antes de “ouvir” qualquer razão ou lógica deles17.

Durante quarenta dias e quarenta noites, Moshé esteve no cume do Monte Sinai aprendendo todos os mandamentos, assim como o significado correto da Torá, o qual foi transmitido oralmente de geração a geração18.

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