educação continuada em enfermagem

educação continuada em enfermagem

(Parte 1 de 2)

Rejane Marie Barbosa Davim* Gilson de Vasconcelos Torres**

Sérgio Ribeiro dos Santos***

DAVIM, R.M.B.; TORRES, G.de V.; SANTOS, S.R.dos. Educação continuada em enfermagem: conhecimentos, atividades e barreiras encontradas em uma maternidade escola. Rev.latino-am.enfermagem, Ribeirão Preto, v. 7, n. 5, p. 43-49, dezembro 1999.

O objetivo deste estudo foi verificar os conhecimentos, as atividades e as principais barreiras encontradas por um grupo de 16 enfermeiros sobre a educação continuada em enfermagem. Como resultados evidenciou-se que são desenvolvidas atividades significativas em educação continuada tais como: palestras, treinamentos, cursos entre outros. Também foi constatado que há preocupação dos enfermeiros diante das dificuldades e barreiras encontradas para o desenvolvimento da educação continuada na instituição pesquisada.

UNITERMOS: educação continuada, enfermagem

O propósito em realizarmos um estudo sobre a educação continuada em enfermagem com um grupo de enfermeiros de uma instituição pública, surgiu diante de nossa experiência prática como docentes assistenciais. Verificamos durante essas práticas, um certo distanciamento dos enfermeiros em relação às ações educativas, como também uma restrita visão no que se refere aos problemas e necessidades educacionais da equipe de enfermagem como um todo.

O local escolhido para o estudo foi a Maternidade

Escola “Januário Cicco” (MEJC) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), localizada na cidade de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte.

A MEJC/UFRN oferece assistência à mulher e à criança, contando atualmente com 124 leitos, 103 auxiliares de enfermagem, 19 técnicos de enfermagem e 25 enfermeiros. Nessa instituição funciona residência médica gineco-obstétrica e pediátrica; recebe alunos de medicina, enfermagem, farmácia, nutrição e psicologia para atividades de ensino, pesquisa e extensão. É credenciada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) como Hospital Amigo da Criança. Desde 1997 participa do Projeto Iniciativa Internacional para uma Maternidade Segura, em relação à integração das habilidades de cuidados maternos de enfermagem Midwifery (entendido pela OMS como cuidados maternos básicos), prestados pela enfermeira obstétra no Rio Grande do Norte, sendo este, um projeto que é desenvolvido nos termos de uma educação permanente.

O setor de educação continuada da referida instituição é coordenado por um enfermeiro, Mestre em Ciências Sociais e Especialista em Enfermagem Obstétrica, o qual mantém com freqüência o desenvolvimento de cursos intra-muros para seus funcionários. Atualmente, está sendo desenvolvido nesse setor, dois cursos para técnicos e auxiliares de enfermagem intitulados Registro e documentação do paciente e Assistência de enfermagem materno-infantil. Estes cursos são realizados com a educação do funcionário intra-muros, com a finalidade de melhorar a qualidade e produtividade dos mesmos.

Quanto aos enfermeiros, a participação desses profissionais em programas de aperfeiçoamento intramuros oferecidos pela instituição onde trabalham e de programas extra-muros oferecidos por outras instituições, tem sido efetiva, segundo a coordenação do setor de educação continuada do hospital em questão. A participação intra-muros desses profissionais

* Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem/UFRN - Mestre em Enfermagem de Saúde Pública/UFPB ** Professor Assistente do Departamento de Enfermagem/UFRN - Mestre em Enfermagem de Saúde Pública/UFPB. Doutorando de Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo *** Enfermeiro - Professor Mestre no Mestrado em Enfermagem de Saúde Pública/UFPB

Rev. latino-am. enfermagem - Ribeirão Preto - v. 7 - n. 5 - p. 43-49 - dezembro 1999 tem se efetivado pela assistência a cursos e palestras, participação em comissões, grupos de estudos e reuniões diversas, ministração de cursos para a equipe de enfermagem, elaboração de trabalhos científicos e ministração de orientações individuais e coletivas aos pacientes. Extra-muros, os enfermeiros participam e ministram cursos nas áreas de especialidades, cursos específicos de enfermagem, controle de infecção hospitalar, aleitamento materno, neonatologia, além de visitas de observações e intercâmbios a nível nacional e internacional.

Como Hospital Amigo da Criança, a MEJC/

UFRN também desenvolve um trabalho específico em educação continuada sobre aleitamento materno, onde são vistos a importância dos dez passos para a atuação e o incentivo desse tema. O incentivo ao aleitamento materno é um trabalho realizado na instituição sob a coordenação de uma enfermeira obstétra, à qual ministra cursos sobre essa temática, intra e extra-muros, tanto a nível local, regional e nacional.

No geral, a enfermagem é exercida em todas as instituições por um grupo heterogêneo, começando pelo próprio nível de formação que varia do elementar ao universitário. É fundamental então, o desenvolvimento programas educacionais que contribuam para a melhoria da qualidade dos cuidados de enfermagem, preparando, dessa forma, profissionais capacitados para darem suas contribuições à sociedade.

Nesse sentido, torna-se imprescindível que o enfermeiro assuma a responsabilidade pela educação contínua de sua equipe, ajudando a melhorar o padrão de assistência prestada no hospital e comunidade, promovendo a valorização dos recursos humanos em saúde.

É importante ainda salientar que este estudo constitui uma primeira aproximação do tema em questão, sendo de relevância no campo da enfermagem, na medida que representa uma possibilidade de contribuição ao serviço de educação continuada da instituição.

Diante do que foi exposto, este estudo tem como objetivos: - Identificar os conhecimentos que possuem os enfermeiros do estudo sobre educação continuada. - Relacionar as atividades de educação continuada realizadas por esses enfermeiros. - Detectar as principais barreiras encontradas por esses profissionais com relação à educação continuada.

Temos observado que o avanço da tecnologia vem ajudando as profissões de um modo geral. Na enfermagem, existe um ponto fundamental que torna esta profissão muito especial, que é o relacionamento humano. Para que este relacionamento não seja prejudicado por este desenvolvimento tecnológico, torna-se necessário um processo de educação para os profissionais, tornando-os qualificados e elevando de certa forma a qualidade da assistência.

Esta qualificação poderá ser adquirida através da sistematização do aprendizado nos serviços de enfermagem, à qual tem sido reforçada por esses avanços tecnológicos e pelas mudanças sócio-econômicas e culturais. Essas mudanças podem ser alcançadas através de estratégias realizadas com a educação do funcionário intra ou extra-muros, favorecendo dessa maneira o seu desenvolvimento, levando-o a adquirir maior satisfação como profissional, melhorando assim sua produtividade.

DILLY & JESUS (1995) referem que a educação intra-muros do funcionário deve ser um processo que propicie conhecimentos, capacitando-o para a execução adequada do trabalho e que prepare esse funcionário para futuras oportunidades de ascensão profissional, objetivando tanto o seu crescimento pessoal quanto o profissional. Para os autores, é a educação continuada que permite ao profissional, o acompanhamento das mudanças que ocorrem na profissão, visando mantê-lo atualizado aceitar essas mudanças e aplicá-las no seu trabalho. Consideram, então, a educação continuada como um conjunto de práticas educacionais que visam melhorar e atualizar a capacidade do indivíduo, favorecendo o seu desenvolvimento e sua participação eficaz na vida institucional.

SALUD (1982), tem em conta a educação continuada de profissionais de saúde como “(...) um processo que inclui as experiências posteriores ao adestramento inicial que ajudam o pessoal de assistência à saúde a aprender competências importantes para o seu trabalho; (...) e que adequada, deveria refletir as necessidades e conduzir a melhoria planejada de saúde da comunidade” (p. 130).

A educação continuada é vista por SILVA et al. (1986) como um conjunto de práticas educacionais planejadas no sentido de promover oportunidades de desenvolvimento ao funcionário, com a finalidade de ajudá-lo a atuar mais efetiva e eficazmente na sua vida institucional. Ela deve ser uma constante troca de experiências, envolvendo toda a equipe e a organização em que está inserida.

como um processo que se confunde

DILLY & JESUS (1995) entendem a educação continuada de uma maneira mais ampla, considerando-a com a própria vida, sendo que na área da enfermagem tem de ser reservado o uso do termo para designar o conjunto de práticas educacionais que visem a melhorar e a

Educação continuada... Rev. latino-am. enfermagem - Ribeirão Preto - v. 7 - n. 5 - p. 43-49 - dezembro 1999 atualizar a capacidade do indivíduo, oportunizando o desenvolvimento do funcionário e sua participação eficaz na vida institucional” (p. 92).

Na enfermagem, a educação continuada deveria frisar sempre a melhoria da assistência ao paciente/ cliente. Nesse sentido, DAVINI (1994), ao refletir sobre essa temática entende a mesma, como sendo o conjunto de experiências que se seguem à formação do profissional permitindo ao trabalhador, manter, aumentar ou melhorar sua competência, visando o desenvolvimento de suas responsabilidades.

NUNES (1993), caracteriza a educação continuada como sendo alternativas educacionais mais centradas no desenvolvimento de grupos profissionais, seja através de cursos de caráter complementar ou seriado, seja através de publicações específicas de um determinado campo.

Em sintonia com essas idéias, SILVA et al. (1986), enfatizam que a educação continuada atuante pode conduzir à melhoria da assistência de enfermagem, promover satisfação no serviço e melhorar as condições de trabalho na busca de um objetivo comum, através da identificação de problemas, insatisfações, necessidades e a utilização de meios e métodos para saná-los.

Conclui-se então, que o fator mais influente na aprendizagem e nas mudanças, é a prática constante e o conhecimento atualizado, acrescido da especialização clínica, criando no indivíduo-funcionário necessidades de adaptação e reorientação em suas atividades.

Para KOIZUMI et al. (1998), a necessidade de se proporcionar programas de educação continuada que atendam adequadamente as carências do enfermeiro, bem como o uso eficiente de tecnologia avançada, tem se tornado um desafio tanto para os enfermeiros dessa área, como para os de educação em serviço, possibilitando assim, as mudanças nas atividades desenvolvidas e nas estruturas organizacionais das instituições.

SOUZA (1993) em seus estudos sobre educação continuada, ressalta que programas nessa área não podem ficar ao sabor do acaso, mas que os mesmos devem ser planejados de forma individual ou organizacional e avaliados sistematicamente. Dessa forma, esse processo de educação continuada irá ajudar os enfermeiros a se manterem competentes e atuantes, relacionando teoria e prática em benefício da assistência prestada.

O’CONNOR (1979), refere que a profissão da enfermagem reconhece a necessidade de seus membros atualizarem seus conhecimentos e habilidades através da participação na educação continuada, com a finalidade de promoverem a qualidade do serviço de cuidados médicos que a sociedade requer. Diante disso, entende-se que as atividades efetivamente desenvolvidas em uma educação continuada, constituem uma das formas de assegurar a manutenção da competência da equipe de enfermagem em relação à assistência.

Para KOIZUMI et al. (1998), a educação continuada concilia as necessidades sentidas pelos enfermeiros com as normas institucionais, mantém formas de avaliação visando a promoção e o desenvolvimento, favorece condições materiais e de tempo para o cumprimento da mesma, que é um direito do cidadão e ao mesmo tempo, uma responsabilidade profissional.

SOUZA (1993), refere também, que a educação continuada nas instituições deve acompanhar o profissional desde a sua inserção, fazendo-o adaptar-se à mesma e dando-lhe condições de prosseguir na sua performance profissional, mantendo sua prática relevante e orientada, valorizando o seu fazer diário e transformando-o em trabalho de comunicação científica.

Uma experiência vivenciada por SILVA et al. (1986) no setor de educação continuada da divisão de enfermagem do Hospital Escola da Universidade Federal da Bahia compreendido entre 1983 e 1985, observaram como resultados importantes, o relacionamento interdisciplinar e a aprendizagem, tanto para os componentes do serviço como para os demais elementos da equipe de saúde, como também, o interesse de outros setores do hospital nas ações de educação continuada. Os referidos autores entendem que investir em educação, ou seja, na educação continuada em serviço, é a forma de atingir com maior profundidade os objetivos da instituição e da melhoria de vida da clientela.

Em resumo, entendemos que as necessidades de implementação de novas práticas e ações de saúde nos serviços para a reorientação das políticas sanitárias e a necessidade de atualização dos profissionais, têm a mesma resposta segundo os autores anteriormente citados pela concepção de que as mudanças desejadas para as instituições realimentam o profissional através do saberfazer, e abrem mais espaços para a participação e possibilidades de reflexão na busca de alternativas, tendo em vista a melhoria da prática.

Em consonância com as idéias dos autores já citados, entendemos que a educação continuada para a enfermagem deve ser constituída de uma aquisição e reflexão progressiva de conhecimentos e competências, e que só poderá ser reconhecida à medida que a qualidade do cuidado prestado ao cliente/paciente seja efetivada através de uma assistência sistematizada e planejada de ações qualificadas, fazendo dessa maneira, com que o pessoal se sinta valorizado e motivado, capaz de apresentar um bom desempenho através de suas competências profissionais.

Portanto, para que programas de educação continuada possam ser realizados de forma eficiente, são

Educação continuada... Rev. latino-am. enfermagem - Ribeirão Preto - v. 7 - n. 5 - p. 43-49 - dezembro 1999 necessários também, recursos humanos, materiais, financeiros e físicos, de forma adequada e disponível. É imprescindível ainda, que a instituição ofereça as mínimas condições de trabalho, para que dessa forma, os profissionais envolvidos com a educação continuada desenvolvam suas atividades de maneira eficiente e contínua.

Trata-se de um estudo do tipo descritivo com uma abordagem quali-quantitativa, desenvolvido na MEJC/ UFRN. A escolha dessa instituição deveu-se ao fato de ser um hospital-escola, campo de estágio da UFRN especializado na assistência ginecológica e obstétrica a nível ambulatorial e emergencial, tanto no âmbito curativo quanto preventivo, por atender uma grande demanda e por ser referência do Estado do Rio Grande do Norte.

A população foi composta por todos os enfermeiros (25) da instituição, sendo que a amostra foi constituída por 16 destes, representando 65%, que foram selecionados por acessibilidade, utilizando-se como único critério a aceitação do pesquisado em participar do estudo.

O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário com perguntas abertas e fechadas relacionadas aos cursos de qualificação dos profissionais, o entendimento sobre educação continuada, as atividades desenvolvidas, as dificuldades e barreiras encontradas por esses profissionais com relação à educação continuada no desenvolver de suas práticas. A coleta foi realizada no próprio local de trabalho dos enfermeiros, tornando evidente aos participantes do estudo, que lhes seriam assegurados o anonimato e a privacidade resguardando-lhes o direito, inclusive, de não responderem ao questionário, se assim o desejassem. Antes de iniciada a pesquisa, foi feito um contato com a direção da instituição, objetivando-se a autorização para a realização da mesma.

A análise dos dados foi realizada de forma qualiquantitativa com base nos objetivos propostos e na literatura estudada.

Diante dos resultados, verificamos que os enfermeiros pesquisados têm em média de 3 a 20 anos de serviço na instituição. Ao investigarmos que tipos de educação continuada formal extra-muros são por eles procurados, observamos predomínio nos cursos de pósgraduação senso lato. Dos 16 enfermeiros do estudo, 14 (87,5%) assinalaram terem feito cursos de pós-graduação senso lato, ou seja, especialização em obstetrícia (9) e atualizações em Infecção Hospitalar, Aleitamento Materno, Alojamento Conjunto, Qualidade Total, Acidente do Trabalho e Terapia Intensiva (4). Somente 2 assinalaram terem realizado pós-graduação senso stricto, sendo 1 mestrado em Ciências da Enfermagem e o outro em Ciências Sociais.

Conforme estes resultados e identificada a totalidade de enfermeiros deste estudo (n=16), podemos observar que a proporção de enfermeiros especialistas na área da obstetrícia é considerada satisfatória, tendo em vista as características da instituição em questão. Por conseguinte, a qualificação profissional dos enfermeiros pesquisados é um fator que pode interferir positivamente no exercício e na qualidade da assistência prestada à clientela da instituição em estudo, como também na administração dos vários setores de atuação do hospital, entre elas, a educação continuada. Este fator eleva, de certa forma, a qualidade da assistência prestada ao usuário da instituição, como também a administração nos diversos setores de atuação do hospital.

Ao serem questionados sobre o entendimento acerca da educação continuada, notamos que os enfermeiros possuem um conhecimento restrito, relacionado-a a cursos e treinamentos oferecidos à equipe, como podemos constatar diante de suas falas:

“São cursos e treinamentos oferecidos à equipe a fim de capacitá-los melhor e atualizá-los”. “É a continuidade do aprendizado, fazendo cursos, especializações e treinamentos”. “É a educação contínua onde se renovam os conhecimentos”. “É aquela que deve ser feita continuamente, contando com a participação de todos os profissionais de forma sistemática”. “É a renovação do conhecimento a partir de novos treinamentos, através de cursos periódicos”. “É a continuidade do aprendizado anterior, visando em especial, o aprimoramento da prática”.

Corroborando estas afirmações, LEITE &

PEREIRA (1991) afirmam que a educação continuada é um processo que propicia novos conhecimentos, capacita o funcionário para a execução adequada do trabalho, preparando-o para futuras oportunidades de ascensão profissional objetivando tanto o crescimento profissional quanto o pessoal.

(Parte 1 de 2)

Comentários