Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos

Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos

(Parte 3 de 4)

10.2.2.1 Coleta seletiva porta a porta

É o modelo mais empregado nos programas de reciclagem e consiste na separação, pela população, dos materiais recicláveis existentes nos resíduos domésticos para que posteriormente os mesmos sejam coletados por um veículo específico.

O sistema exige espaço para guarda dos contêineres nas casas e apartamentos e veículos com carroceria compartimentada para transportar os materiais separadamente.

Outro modelo bem mais utilizado, é aquele em que a população separa os resíduos domésticos em dois grupos:

materiais orgânicos (úmidos)

compostos por restos de alimentos e materiais não recicláveis.

Devem ser acondicionados em um único contêiner e coletados

pelo sistema de coleta de lixo domiciliar

materiais recicláveis (secos)

compostos por papéis, vidros plásticos e metais. Devem ser

acondicionados em um único contêiner e coletados nos roteiros

de coleta seletiva

Os principais aspectos negativos da coleta seletiva porta a porta são:

 aumento das despesas com transporte em função da necessidade

de aumento do número de caminhões

 alto valor unitário, quando comparada com a coleta convencional

10.2.2.2 Pontos de entrega voluntária – PEV

Consiste na instalação de contêineres ou recipientes em locais públicos para que a população, voluntariamente, possa fazer o descarte dos materiais separados em suas residências.

A Resolução CONAMA nº 275, de 25/04/2001, estabelece o código de cores para os diferentes tipos de resíduos, a ser adotado na identificação dos coletores

10.2.2.3 Cooperativas de catadores

Alguns municípios têm procurado dar também um cunho social aos seus programas de reciclagem, formando cooperativas de catadores que atuam na separação de materiais recicláveis do lixo.

Principais vantagens da utilização de cooperativas de catadores:

geração de emprego e renda;

resgate da cidadania dos catadores, na sua maioria moradores de rua;

redução das despesas com os programas de reciclagem;

redução de despesas com a coleta, transferência e disposição final dos resíduos separados pelos catadores

Um dos principais fatores que garantem o fortalecimento e o sucesso de uma cooperativa de catadores é a boa comercialização dos materiais recicláveis. Para tanto, é fundamental que sejam atendidas as seguintes condições:

 boa qualidade dos materiais;

 escala de produção e de estocagem;

 regularidade na produção e/ou entrega ao consumidor final.

Entre as principais ações que devem ser empreendidas pelo poder público no auxílio a uma cooperativa de catadores, destacam-se:

 apoio administrativo e contábil;

 criação de serviço social para atuar junto aos catadores;

 fornecimento de uniformes e equipamentos de proteção individual;

 implantação de cursos de alfabetização para os catadores;

 implantação de programas de recuperação de dependentes

químicos;

 implantação de programas de educação ambiental para os

catadores

Em uma fase inicial, considerando a pouca experiência das diretorias das cooperativas, o poder público poderá também auxiliar na comercialização dos materiais recicláveis.

11. TRATAMENTO DE RESÍD. SÓLIDOS URBANOS

11.1 CONCEITUAÇÃO

Define-se tratamento como uma série de procedimentos destinados a reduzir a quantidade ou o potencial poluidor dos resíduos sólidos, seja impedindo descarte de lixo em ambiente ou local inadequado, seja transformando-o em material inerte ou biologicamente estável.

11.2 TRATAMENTO DE RESÍD. SÓLIDOS DOMICILIARES

O tratamento mais eficaz é o prestado pela própria população quando está empenhada em reduzir a quantidade de lixo, evitando o desperdício, reaproveitando os materiais, separando os recicláveis em casa ou na própria fonte e se desfazendo do lixo de maneira correta.

Além desses procedimentos, existem processos físicos e biológicos que objetivam estimular a atividade dos microrganismos que atacam o lixo, decompondo a matéria orgânica.

Os processos mais utilizados no tratamento dos resíduos sólidos domiciliares são: a compostagem e a incineração.

11.2.1 COMPOSTAGEM

A compostagem é um processo biológico, natural, de decomposição e estabilização de resíduos orgânicos para produção de húmus, desenvolvido em duas fases, por uma população mista de microrganismo.

Pode ser aeróbia ou anaeróbia, em função da presença ou não do oxigênio no processo.

A compostagem anaeróbia ocorre em baixa temperatura, com exalação de fortes odores e leva mais tempo na estabilização da matéria orgânica.

Na compostagem aeróbia, processo mais adequado ao tratamento de lixo domiciliar, a temperatura pode chegar a até 70ºC, os odores emanados não são agressivos e a decomposição é mais rápida.

Sua origem como processo científico data de 1920, quando o inglês Albert Howvard, em estudo realizado em Índore-Índia, começou a definir procedimentos no estudo da fermentação de resíduos sólidos, resultando entre outros métodos, a utilização de leiras sobre o solo.

Compostar é também reciclar o lixo, ou seja, reciclar a sua fração orgânica (restos de alimentos, frutas, vegetais, folhas e outros) para transformá-los em húmus que será utilizado na agricultura e também, cumprir, entre outros, os objetivos seguintes:

  • atenuar os problemas sanitários e de saúde pública;

  • evitar a poluição e contaminação ambiental;

  • permitir a economia de energia pelo reaproveitamento de produtos existentes no lixo;

  • reduzir a quantidade de resíduos que deverão ser dispostos no solo, em aterros sanitários

Para realização do processo de compostagem, a fração orgânica dos resíduos domiciliares deve ser separada dos materiais inertes (vidros, plásticos, metais, etc.). Para isso a condição ideal é que essa separação seja feita na própria fonte geradora, através da coleta seletiva.

Quando não existir a coleta seletiva, a compostagem deverá ser precedida da separação dos materiais inertes em uma usina de reciclagem

11.2.1.1 Usinas de reciclagem e compostagem

O material reciclável que se encontra misturado no lixo domiciliar pode ser separado em uma usina de reciclagem através de processos manuais e eletromecânicos, conseguindo-se em geral uma eficiência de apenas 3 a 6% em peso, dependendo do tamanho e do grau de sofisticação tecnológica da usina.

Após a separação do lixo dos recicláveis aproveitáveis para a indústria, o restante dos resíduos, que são essencialmente orgânicos, pode ser processado para se tornar um composto orgânico, com todos os macro e micronutrientes, para uso agrícola.

Uma usina de reciclagem apresenta três fases de operação:

  • recepção

  • alimentação

  • triagem

A escolha do material reciclável a ser separado nas unidades de reciclagem depende sobretudo da demanda da indústria. Todavia, na grande maioria das unidades são separados os seguintes materiais:

 papel e papelão

 plástico duro (PVC, polietileno de alta densidade, PET);

 plástico filme (polietileno de baixa densidade);

 garrafas inteiras;

 vidro claro, escuro e misto;

 metal ferroso (latas, chaparia, etc);

 metal não ferroso (alumínio, cobre, chumbo, antimônio etc)

11.2.1.2 Fases da compostagem

O processo de compostagem aeróbia pode ser dividido em duas fases

  1. 1ª fase – bioestabilização

Inicia-se por uma fase de degradação ativa, onde ocorrem as reações bioquímicas mais intensas, com elevadas temperaturas, passando-se à bioestabilização, caracterizada pela redução da temperatura da massa orgânica, que após ter atingido temperaturas de até 65ºC, estabiliza-se na temperatura ambiente.

Esta fase dura cerca de 45 dias em sistemas de compostagem acelerada e 60 dias nos sistemas de compostagem natural.

  1. 2ª fase – maturação

Esta fase é caracterizada pela decomposição bioquímica de substâncias mais complexas pela ação dos fungos e actinomicetes que provocam a humidificação dessas substâncias e a mineralização completa da matéria orgânica.

Inicia-se quando a temperatura interna do composto orgânico permanece em torno de 45ºC e dura mais de 30 dias.

11.2.1.3 Fatores que influenciam a compostagem

  • temperatura

  • umidade

  • aeração

  • relação C/N

  • pH

  • tamanho das partículas

11.2.1.4 Estrutura da pilha e da leira de compostagem

  1. Preparação da Matéria Prima

A matéria prima a ser compostada deve apresentar algumas características essenciais, como:

    • ausência de materiais inorgânicos não degradáveis;

    • partículas com diâmetro em torno de 35 mm;

    • relação C/N entre 30:1 a 40:1;

    • teor de umidade em torno de 55%

  1. Montagem da pilha ou leira

    • em caso de pilha

deve der montada com um diâmetro mínimo de 2,50 m e altura de 1,60 m

    • em caso de leira

deve ser montada com base variando de 2,20 m a 3,00 m

altura mínima de 1,20 m e máxima de 1,60 m

comprimento iniciando com 3,60 m e variando em função da quantidade de lixo em cada turno de trabalho, bem como da conformação do pátio de compostagem

11.2.1.5 Operacionalidade das pilhas ou leiras na fase ativa

Depois de preparada a pilha ou leira, o processo de compostagem

é desenvolvido segundo um rígido controle dos fatores que

influenciam o processo como: temperatura, pH, aeração, umidade

e ainda o ciclo de reviramento da massa em compostagem

Caso o processo seja mal operado, os problemas mais comuns são: proliferação de vetores; emanação de odores e chorume

- Monitoramento da fase ativa

controle da temperatura

controle da umidade

período de reviramento

proliferação de vetores

emanação de odores

produção de chorume

11.2.1.6 Desenvolvimento da 2ª fase – maturação

Essa fase tem a duração aproximada de 40 dias com a temperatura ainda em regresso, variando entre 45ºC e 30ºC, pH entre 7,5 e 9,5. Aí, com a matéria orgânica já degradada, a atividade biológica vai cessando e o calor vai diminuindo, havendo assim um esfriamento da massa. Diz-se, então, que a matéria orgânica alcançou a estabilização.

No início da maturação, os actinomicetes e fungos até então situados nas zonas periféricas da pilha ou leira, invadem a massa em decomposição, degradando substâncias mais resistentes como as celuloses, os óleos, as gorduras, as ligninas, as resinas e outros de estrutura mais complexas dando assim continuidade ao processo e liberando elementos químicos como o cálcio, o fósforo, o magnésio e o nitrogênio que passam da forma conhecida como imobilizada, para nutrientes na forma mineralizada.

A lignina é a última a ser degradada e por esta razão exerce papel fundamental na formação do húmus.

11.2.2 COMPOSTO ORGÂNICO

O composto orgânico é formado de húmus e proteínas resultante da compostagem da matéria orgânica do lixo. Considerando a 1ª fase variando de 45 a 60 dias e que a degradação da lignina na etapa de maturação demora de 40 a 60 dias é impossível obter-se o composto orgânico pelo processo aeróbio da compostagem em menos de 90 a 120 dias.

11.2.2.1 Características do composto orgânico

O composto orgânico produzido pela compostagem do lixo tem como principais características a presença de húmus e nutrientes minerais e sua qualidade é função da maior ou menor quantidade destes elementos.

O húmus torna o solo poroso, permitindo a aeração das raízes, retenção de água e dos nutrientes. Os nutrientes minerais podem chegar a 6% em peso do composto e incluem o nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, e ferro, que são absorvidos pelas raízes das plantas.

O composto orgânico assim definido tem as seguintes aplicações:

  • Agricultura: produção de grãos, horticultura e floricultura

  • Paisagismo: parques, canteiros de vias públicas e jardins

  • Reflorestamento: produção de mudas

  • Solo: correção de acidez do solo, recuperação de áreas

erodidas, proteção de taludes e encostas, cobertura de

aterros

11.2.2.2 Qualidade do composto

No Brasil o composto orgânico produzido em usinas de compostagem de lixo domiciliar deve atender a valores estabelecidos pelo Ministério da Agricultura para que possa ser comercializado, de acordo com os índices da tabela seguinte:

Índices estabelecidos para comercialização do composto orgânico

ITEM

VALOR

TOLERÂNCIA

matéria orgânica total

mínimo de 40%

menos de 10%

nitrogênio total

mínimo de 1,0%

menos de 10%

umidade

máximo de 40%

mais de 10%

relação C/N

máximo de 18/1

21/1

índice de pH

mínimo de 6,0

menos de 10%

Uma das principais preocupações dos usuários do composto

orgânico é a presença de metais pesados em concentrações que

possam prejudicar as culturas agrícolas e o consumidor.

Os metais pesados estão presentes em materiais existentes no lixo tais como papéis coloridos, tecidos, borrachas , cerâmicas, pilhas e baterias. As usinas devem procurar eliminar do lixo boa parte destes elementos.

11.2.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE A TECNOLOGIA DE USINAS

DE RECICLAGEM E COMPOSTAGEM

Na segunda metade da década de 80 e início da década de 1990, as usinas de reciclagem e compostagem foram apresentadas como a solução definitiva de tratamento dos resíduos sólidos urbanos.

Fabricantes prometiam o fim dos “lixões” e chegavam a afirmar que a operação da usina geraria receitas para os municípios com a comercialização de recicláveis e composto.

Otimistas, diversos municípios no Brasil implantaram usinas de reciclagem e compostagem sem qualquer estudo prévio e o resultado foi muito ruim, pois a maioria das unidades foi desativada logo após a inauguração e outras sequer iniciaram a operação.

A usina de reciclagem e compostagem é uma alternativa a ser considerada, todavia devem ser observados:

  • existência de mercado consumidor de recicláveis e composto orgânico na região

  • existência de serviço de coleta com razoável eficiência e regularidade

  • existência de coleta diferenciada para lixo domiciliar, público e hospitalar

  • disponibilidade de área suficiente para instalar a usina de reciclagem e o pátio de compostagem

  • disponibilidade de recursos públicos e/ou privados( através de concessão) para investimentos iniciais e operação da usina

  • disponibilidade de pessoal técnico capacitado para operar, manter e controlar os equipamentos da usina

  • viabilidade econômica por meio de estudo cuidadoso sobre as vantagens da usina – redução do lixo a ser transportado e aterrado, venda de composto e recicláveis, geração de emprego e renda, benefícios ambientais – e os seus custos – de implantação, operação e manutenção do sistema

11.2.3.1 Seleção da tecnologia

Deve ser considerada a disponibilidade orçamentária do Município, levando-se sempre em conta que, quanto maior o nível de automatização e sofisticação dos equipamentos, maiores serão o investimento inicial e as despesas com manutenção.

Em comunidades com escassez de emprego, são recomendáveis tecnologias com mão-de-obra intensiva, como nas usinas que adotam a separação manual dos materiais. Porém, são recomendadas máquinas eletromagnéticas que separam os materiais ferrosos e os equipamentos necessários ao reviramento das leiras e manejo do lixo no pátio e silos, mesmo nas usinas mais simples.

11.2.3.2 Estudos de viabilidade econômica

Devem ser analisados os seguintes aspectos:

  • Investimento

 licenciamentos ambientais

 aquisição de terreno e legalização fundiária

 projetos de arquitetura e engenharia

 obras de engenharia

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