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Conseqüências dos erros de medicação emunidades de terapia intensiva e semi-intensiva247Toffoletto MC, Padilha KG.

Rev Esc Enferm USP 2006; 40(2):247-52. w.e.usp.br/reusp/

RESUMO O estudo objetivou caracterizar erros de medicação e avaliar conseqüências na gravidade dos pacientes e carga de trabalho de enfermagem em duas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e duas Semi-Intensiva (USI) de duas instituições hospitalares do município de São Paulo. A amostra foi constituída por 50 pacientes e os dados obtidos por meio do registro de ocorrências e prontuários, retrospectivamente. A gravidade e carga de trabalho de enfermagem foram avaliadas antes e após o erro. Do total de 52 erros, 12 (23,08%) ocorreram por omissão de dose, 1 (21,15%) e 9 (17,31%) por medicamento e dose erradas, respectivamente. Não houve mudança na gravidade dos pacientes (p=0,316), porém houve aumento na carga de trabalho de enfermagem (p=0,009). Quanto ao grupo de medicamentos envolvidos, potencialmente perigosos e não potencialmente perigosos, não houve diferenças estatisticamente significantes na gravidade (p=0,456) e na carga de trabalho de enfermagem (p=0,264), após o erro de medicação.

DESCRITORES Erros de medicação. Unidades de Terapia Intensiva. Carga de trabalho.

Salud de las mujeres.

RESUMEN En el presente estudio se tuvo como objetivo caracterizar errores de medicación y evaluar consecuencias en la gravedad de los pacientes y carga de trabajo de enfermería en dos Unidades de cuidados Intensivos (UCI) y dos Semi-Intensivos (USI) de dos instituciones hospitalarias del municipio de Sao Paulo. La muestra constituida por 50 pacientes fueron obtenidos por medio del registro de ocurrencias e historias clínicas, retrospectivamente. La gravedad y carga de trabajo de enfermería fueron evaluadas antes y después del error. Del total de 52 errores, 12 (23,08%) ocurrieron por omisión de la dosis, 1 (21,15%) y 9 (17,31%) por medicamento y dosis erradas, respectivamente. No se observó cambio en la gravedad de los pacientes (p=0,316), no obstante hubo aumento en la carga de trabajo de enfermería (p=0,009). En cuanto al grupo de medicamentos involucrados, potencial y no potencialmente peligrosos, no existieron diferencias estadísticamente significativas en la gravedad (p=0,456) y en la carga de trabajo de enfermería (p=0,264), después del error de medicación.

DESCRIPTORES Errores de medicación. Unidades de Cuidado Intensivo. Carga de trabajo.

ABSTRACT This report was aimed at characterizing medication errors and evaluating their consequences for the patients’ conditions and for the nursing workload in the Intensive Care Units (ICU) and Semi- Intensive Care Units (SICU) of two hospitals in the city of São Paulo. The sample was 50 patients, and data was gathered in record logs. The severity of the conditions and the nursing workload were assessed before and after the occurrence. Out of a total of 52 medication errors, 12 (23.80%), were non-administration of dosage, 1 (21.15%) were wrong medication, and 9 (17.31%) excessive dosage. There were no changes in patient conditions (p=0.316), but the nursing workload increased (p=0.009). As for the medication group, i.e, potentially dangerous or non-dangerous, there were no statistically significant differences either in the severity of the patients (p=0.456) or in the nursing workload (p=0.264) after the occurrence.

KEY WORDS Medication errors. Intensive Care Units. Workload.

Recebido: 06/12/2004 Aprovado: 03/03/2005

Conseqüências de medicação em unidadesConseqüências de medicação em unidadesConseqüências de medicação em unidadesConseqüências de medicação em unidadesConseqüências de medicação em unidades de terapia intensiva e semi-intensivade terapia intensiva e semi-intensivade terapia intensiva e semi-intensivade terapia intensiva e semi-intensivade terapia intensiva e semi-intensiva

1 Enfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação na Saúde do Adulto da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) mariacel@usp.br 2 Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Médico- Cirúrgica da EEUSP kgpadilha@usp.br

Rev Esc Enferm USP

2006; 40(2):247-52. w.e.usp.br/reusp/248Conseqüências dos erros de medicação em unidades de terapia intensiva e semi-intensiva Toffoletto MC, Padilha KG.

A segurança dos pacientes no decorrer da internação hospitalar, têm merecido atenção crescente dos enfermeiros na busca por uma assistência que assegure um máximo de qualidade e um mínimo de riscos para o cliente. Nesse sentido, no que se refere à administração de medicamentos, a ocorrência de erros durante qualquer etapa desse processo, não só é indesejável para o alcance da qualidade dos serviços, como prejudicial para o paciente, equipe multidisciplinar

As perdas de natureza emocional, física e financeira da equipe, família, instituição e sociedade são consideráveis. No entanto, as repercussões para os pacientes são as mais preocupantes, uma vez que podem agravar suas condições clínicas e causar injúrias temporárias, permanentes e até a morte(3). Por outro lado, também o profissional de enfermagem sofre as conseqüências desse tipo de evento, quer pelas sanções administrativas e legais possíveis, quer pela sobrecarga de trabalho a que fica exposto pela intensificação dos controles e vigilância do paciente.

Nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e Unidades

Semi Intensiva (USI), a abordagem dos erros de medicação e suas conseqüências para o paciente e equipe de enfermagem merecem enfoque particular. A complexa terapia medicamentosa, o uso de inúmeros medicamentos potencialmente perigosos (MPP) associados à gravidade e instabilidade clínica dos pacientes, justificam uma análise focalizada, pois, nessas circunstâncias, as conseqüências podem ser mais danosas. No entanto, na prática assistencial de enfermagem em UTI e USI, onde a administração de medicamentos é uma das atividades de maior importância, esse tipo de evento ocorre e nem sempre é valorizado pela equipe de enfermagem. Observa-se com freqüência a tendência a desconsiderá-los por se acreditar que, na maioria das vezes, não acarretam repercussões mais graves para os pacientes.

Além dos problemas inerentes à prática assistencial, verifica-se na literatura uma carência de estudos que focalizem objetivamente as conseqüências dos erros de medicação nas condições clínicas do paciente grave e na carga de trabalho da equipe de enfermagem com o uso de instrumentos de medida objetivos, validados e reconhecidos internacionalmente, o que se tornou possível, no entanto, com o desenvolvimento dos diferentes índices atualmente disponíveis.

Nesse sentido, os instrumentos Simplified Acute

Physiology Score (SAPS) e o Therapeutic Intervention Scoring System (TISS) têm se mostrado adequados respectivamente, para a caracterização da gravidade das condições clínicas, tendo por base as condições fisiológicas do paciente, e para a avaliação da carga de trabalho de enfermagem, segundo as intervenções terapêuticas realizadas(7-9). Por serem versões simplificadas, além de oferecerem facilidade na coleta de dados, indispensáveis diante do dinamismo de uma UTI, permitem sua utilização também nas Unidades de

Verifica-se, portanto, que tais instrumentos, por expressarem numericamente a gravidade dos doentes e as necessidades de cuidados de enfermagem, permitem também estimar as conseqüências dos erros de medicação nas condições clínicas do paciente e na carga de trabalho na UTI e USI.

Diante do interesse em avaliar objetivamente as conseqüências dos erros de medicação em UTI e USI, com a finalidade de oferecer subsídios para a prevenção desses eventos e para a implementação de um processo sistematizado para a sua monitorização, propõe-se a realização do presente estudo, com os seguintes objetivos: identificar os erros de medicação ocorridos com os pacientes durante a internação em UTI e USI quanto ao tipo, horário da ocorrência e grupo de medicamentos envolvidos; verificar alterações na gravidade dos pacientes e na carga de trabalho de enfermagem após a ocorrência de erro de medicação, segundo SAPS I e TISS 28 respectivamente; verificar alterações na gravidade do paciente e na carga de trabalho de enfermagem após a ocorrência de erro de medicação, segundo o grupo de medicamentos envolvidos.

Trata-se de um estudo com abordagem quantitativa, descritivo-comparativo, retrospectivo, desenvolvido em duas UTIs e USIs de dois hospitais do Município de São Paulo, um privado e um público.

A amostra foi composta por 50 pacientes, sendo 40 da instituição privada e dez da pública, admitidos nas UTIs e USIs no período compreendido entre os anos de 2000 e 2003, submetidos a tratamento clínico e/ou cirúrgico que sofreram algum tipo de erro de medicação durante a permanência nessas unidades.

Após autorização das Comissões de Ética e Pesquisa, os dados referentes à identificação pessoal dos pacientes, da internação, das condições de gravidade e da carga de trabalho de enfermagem, 24 horas antes e 24 horas após o erro, foram coletados por meio dos registros de ocorrências de cada instituição, seguido da consulta aos prontuários dos pacientes vítimas de erros de medicação.

Para a caracterização da amostra de pacientes e dos erros de medicação segundo o tipo, horário e grupo de medicamentos, foi utilizada a estatística descritiva. O teste tpareado foi usado para análise das alterações da gravidade dos pacientes (SAPS I) e da carga de trabalho de enfermagem (TISS-28) antes e após o erro de medicação. Já o estudo dessas alterações segundo o grupo de medicamentos en-

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Medicamento vencido Técnica errada

Via de administração errada Horário errado

Concentração errada Velocidade errada

Dose inadequada

Medicamento errado Omissão de dose volvidos (MPP ou MNPP), antes e após a ocorrência, foi feito utilizando-se o teste de Análise de Variância (ANOVA) que avaliou simultaneamente os dois grupos de medicamentos e os dois momentos relacionados à ocorrência com medidas repetidas. Foram considerados estatisticamente significantes os resultados cujos níveis descritivos (valor de p) foram inferiores a 0,05.

No período de quatro anos analisados nesta investigação, verificou-se que, dos 50 pacientes internados nas UTIs e USIs das instituições campo de estudo, 48 (96%) sofreram um erro de medicação durante a permanência naquelas unidades. Dois pacientes (4%), no entanto, sofreram dois erros cada um. Do total da amostra, 35 (70%) pacientes encontravam-se nas UTIs e 15 (30%) nas USIs.

A caracterização dos dados sócio demográficos mostrou a predominância de pacientes do sexo masculino (6%). Quanto à procedência, 34% foi proveniente do Pronto Socorro seguida das Unidades de Internação (28%) e Centro Cirúrgico (2%). Observou-se que a maioria dos doentes, (52%) foi internada para tratamento clínico, prevalecendo as doenças do sistema cardiovascular (31%) e respiratório (27%) como motivos de internação. Após a alta das unidades, 38% dos pacientes foram encaminhados para USI, 24% evoluíram à óbito e 20% obtiveram alta para as Unidades de Internação. Referente às doenças crônicas, 4% da população era portadora de uma e 36% de nenhuma dessas doenças. No entanto, 20% da população possuía duas ou mais patologias crônicas associadas.

A idade média dos pacientes vítimas de erros de medicação nas UTIs e USIs foi de 62,32 anos (dp=18,87) com variação mínima de 17 e máxima de 90 anos, sendo o tempo médio de permanência nas unidades de 12,45 dias (dp=18,78), variando de um a 1 dias.

A análise dos resultados obtidos no período do estudo, permitiu constatar a ocorrência de um total de 52 erros de medicação nas UTIs e USIs, dos quais 37% e 35% aconteceram respectivamente nos turnos da tarde e manhã. Menor freqüência (29%) foi encontrada no plantão noturno.

Observou-se além disso, que os erros de medicação ocorreram quando os pacientes tinham em média 4,53 (dp=5,86) dias de internação na UTI e USI, com variação de um a 25 dias.

Os dados da figura 1 mostram a distribuição dos erros de medicação segundo o tipo de evento.

Figura 1Figura 1Figura 1Figura 1Figura 1 - Distribuição da porcentagem dos erros de medicação segundo o tipo de evento - São Paulo - 2004

Referente ao tipo de erro de medicação, nota-se na figura 1, que dos 52 erros encontrados, 12 (23,08%) ocorreram por omissão de dose, seguidos de 1 (21,15%) e 9 (17,31%) por medicamento e dose errados, respectivamente. Freqüências menores foram relacionadas à velocidade errada (6 -1,54%), concentração errada (5 - 9,61%) e horário errado (4-7,69%), seguidas de via de administração e técnica incorretas com dois (3,85%) cada um. Apenas um (1,92%) erro foi relacionado à administração de medicamento vencido.

Quanto ao grupo de medicamentos envolvidos, a maioria dos erros (59,60%) ocorreu com medicamentos não potencialmente perigosos (MNPP), enquanto que 40,40% envolveram o grupo de MPP.

TTTTTabela 1abela 1abela 1abela 1abela 1 - Distribuição da média da pontuação SAPS I e TISS-28 antes e após a ocorrência de erro de medicação

- São Paulo - 2004

* estatisticamente significante

Nota-se pelos dados da tabela 1, que houve alteração estatisticamente significante (p-valor=0,009) na média de pontuação TISS-28 dos pacientes vítimas de erro de medicação, após 24 horas da ocorrência, indicando aumento da carga de trabalho de enfermagem. Por outro lado, não foi observada diferença estatisticamente significante (p-valor=0,316) na gravidade das condições clínicas, avaliada pelo SAPS I.

secidnÍs ecidnÍ secidnÍ secidnÍs ecidnÍ sotnemoMs otnemoM sotnemoM sotnemoMs otnemoM )pd(aidéM) pd(aidéM )pd(aidéM )pd(aidéM) pd(aidéM rolav-pr olav-p rolav-p rolav-pr olav-p setnAs etnA setnA setnAs etnAs ópAs ópA sópA sópAs ópA

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2006; 40(2):247-52. w.e.usp.br/reusp/250Conseqüências dos erros de medicação em unidades de terapia intensiva e semi-intensiva Toffoletto MC, Padilha KG.

ep = erro padrão

Conforme dados da Tabela 2, verifica-se que a gravidade dos pacientes, mensurada com o SAPS I, não apresentou diferença estatisticamente significante (p= 0,456) após o erro de medicação, quando se considerou o grupo de medicamentos.

Os dados referentes à carga de trabalho de enfermagem após a ocorrência de erro de medicação segundo MPP e MNPP encontram-se a seguir.

TTTTTabela 3abela 3abela 3abela 3abela 3 - Distribuição da média da pontuação TISS-28 dos pacientes vítimas de erros de medicação segundo o grupo de medicamentos envolvidos e momentos relacionados à ocorrência - São Paulo - 2004 em um estudo que avaliou a utilização do SAPS I em uma Unidade de Cuidados Intermediários de um hospital geral francês, onde, de um total de 433 pacientes, 60,9% procederam do Pronto Socorro, seguidos de 31,3% das Unidades de

As variações frente à literatura, podem ser justificadas pelo fato de a amostra considerar conjuntamente pacientes internados em UTI e USI. Além disso, também os hospitais, por apresentarem características diferentes, podem ter contribuído para essas variações.

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