Cooperativismo Passo a Passo

Cooperativismo Passo a Passo

(Parte 1 de 6)

Apresentação

As grandes tendências mundiais que permeiam o processo de globalização da economia exigem alternativas de organização da sociedade civil.

A realidade do trabalho e seus vínculos com os aspectos sociais, políticos, econômicos e educativos apresentam incertezas e desafios, que só podem ser superados mediante a participação efetiva das pessoas na busca de alternativas economicamente viáveis. Tecnicamente exeqüíveis e socialmente desejáveis.

A cooperativa é uma das alternativas de formas mais avançadas de organização da sociedade. Decorridos 160 anos desde a criação da primeira cooperativa, já existem mais de 700 mil em todo o mundo e representam a possibilidade de superar dificuldades em torno de necessidades e objetivos comuns à classe trabalhadora, de diferentes categorias profissionais.

Historicamente, essa forma de organização sócio-econômica de administração autogestionada trouxe respostas para a geração de empregos e redistribuição de renda. As possibilidades de aplicação das idéias cooperativistas são ilimitadas e podem tornar-se contribuições fundamentais para a transformação das relações de trabalho e melhoria da qualidade de vida da população.

Esta publicação pretende ser uma contribuição e um referencial à constituição de cooperativas no Estado de Goiás. Tem como objetivo informar e instrumentalizar grupos interessados na constituição de cooperativas de diferentes ramos.

Trata-se de informações básicas e preliminares sobre aspectos históricos do cooperativismo, suas características de organização, autogestão e procedimentos necessários para constituição de novas cooperativas.

Conselho Deliberativo da OCB-GO.

Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás OCB-GO

Triênio 2003/2006 (após 01/04/2003)

Av. Deputado Jamel Cecílio, 3427 – Jardim Goiás – 74.810-100 – Goiânia/GO

Telefone: (0XX62) 3240 - 2600 e-mail: ocbgo@ocbgo.org.br – site: w.ocbgo.org.br

Presidente: Antonio Chavaglia Vice-Presidente: Antônio Carlos Borges Secretário: Haroldo Max de Sousa Membros Fábio Batista Velozo Vanderval Lima Ferreira Dejan Rodrigues Nonato Marcos Mariath Rangel José Abel Alcanfor Ximenes Karla Jorama Tavares Brandão

Efetivos Welber D’Assis Macedo e Silva Adilson Ferreira de Moraes Vanderval José Ribeiro

Suplentes Ênio Freitas de Sene João Batista Pereira Machado Rodrigo Penna de Siqueira

Superintendente Valéria Mendes da Silva Elias

Serviço Nacional de aprendizagem do Cooperativismo SESCOOP/GO

Triênio 2003/2006

Av. Deputado Jamel Cecílio, 3427 2º andar – Jardim Goiás – 74.810-100 –

Goiânia/GO

Telefone: (0XX62) 3440 - 8900 e-mail: sescoopgo@sescoopgo.org.br – site: w.ocbgo.org.br

Presidente: Antonio Chavaglia

Efetivos Haroldo Max de Sousa Sizenando da Silva Campos Júnior Euclécio Dionízio Mendonça Jocimar Facchini

Efetivos Astrogildo Gonçalves Peixoto Pedro Jaime Araújo Caldas João Gonçalves Vilela

Suplentes Osmar Luiz Salvalaggio João Batista da Paixão Júnior Luis Tadeu Prudente Santos Amarildo Moraes de Oliveira

Superintendente Valéria Mendes da Silva Elias

Suplentes Carlos Henrique Arruda Duarte Rubens da Cruz Santana Danúbio Antônio de Oliveira

Produção: Departamento de Educação Cooperativista Pesquisa e Redação: Ineida T. Kreutz Diagramação, imprenssão e acabamento:

7ª Edição

Goiânia – GO 2004

PRIMEIRA PARTE As Formas Primitivas da Cooperação

O espírito de cooperações e solidariedade é profundamente humano, tão antigo como o da luta pela vida e vamos encontra-lo nas sociedades mais primitivas. Segundo Charles Gide, estudioso do cooperativismo, a origem da cooperação está na própria origem da humanidade, no seu modo de ser, de viver e de agir diante das necessidades vitais. A ajuda mútua e a cooperação também são encontradas nas formas de organização do trabalho coletivo e no domínio da Cida econômica. Em todas as épocas de vida da humanidade encontram-se exemplos de trabalho e economia coletiva que se aproxima às atuais cooperativas.

•No povo romano encontram-se as origens das formas de economia coletiva. Conserva-se até hoje a posse ou a utilização para todos os habitantes, da pastagem comunal, da floresta comunal e da criação em comum de gado;

•Os babilônios formaram organizações semelhantes às nossas associações de arrendamento de terras.

•Em todos os povos germânicos, a vida agrária se desenvolver desde os primórdios sobre bases cooperativas. Até os tempos modernos foram mantidas associações que datam da antiguidade, cujo fim era a realização de certos objetivos comuns, como por exemplo: associações de drenagem, de irrigação, de diques, de serrarias. Através da história dos povos, os homens, que são seres eminentemente gregários, sentiram a necessidade da cooperação para melhor poderem assegurar a sua sobrevivência, prover a sua prosperidade e conquistar os seus objetivos.

As Origens do Cooperativismo Moderno

As origens históricas do cooperativismo moderno têm como referência a sociedade inglesa do século XIX, que vivia o impacto das transformações no mundo do trabalho, em decorrência da Revolução Industrial. O advento da ERA DAS MÁQUINAS modifica profundamente as relações de produção e a conseqüente necessidade de divisão do trabalho. A economia, que desde a Idade Média era exercida por corporações profissionais, nas quais o artesão exercia sua atividade em casa ou numa dependência anexa, passou por uma mudança radical. Em que as corporações perderam seu lugar a favor do sistema capitalista de produção. No século XIX a mecanização no setor têxtil sofre impulso extraordinário na Inglaterra, com o aparecimento da máquina a vapor, aumentando a produção de tecidos em grande escala. Estradas são construídas, surgem as ferrovias e se desenvolvem outros setores, como o metalúrgico. Novas fontes de energia como o petróleo e a eletricidade substituem o carvão. Com o avanço da industrialização e urbanização, muitas famílias que desenvolviam o trabalho de forma artesanal nas antigas corporações e manufaturas, se viam obrigadas a vender força de trabalho, em troca de salário para sobreviver.

O resplendor do progresso instaurado no século XIX não oculta os graves problemas sociais, enfrentados pela classe trabalhadora, com a exploração do trabalho e das condições subumanas de vida:

•Extensas jornadas de trabalho, de dezesseis a dezoito horas;

•Condições insalubres de trabalho;

•Arregimentação de crianças e mulheres como mão-de-obra mais barata;

•Trabalho mal remunerado. A mecanização da indústria, ao mesmo tempo em que fazia surgir a classe assalariada promovia o desemprego em massa, conseqüentemente, a miséria coletiva e os desajustes sociais. A intranqüilidade social tornou-se campo fértil para a formação das mais variadas oposições ao liberalismo econômico. Surgiram as primeiras organizações dos trabalhadores (sindicatos, associações de operários, cooperativas de ajuda mútua, comitês de fábrica) desencadeando movimentos de reivindicação e reclamando por uma mudança social, econômica e política. Estas iniciativas configuravam-se como uma possibilidade de transformação do contexto de deterioração generalizada da classe trabalhadora. Foram as primeiras expressões de denúncia, de autodefesa e de sobrevivência diante da condição social em que viviam. É neste contexto que nasceu o embrião do cooperativismo moderno. Representou, sobretudo, a organização dos trabalhadores para fazer frente às conseqüências sociais e econômicas do capitalismo do século XIX.

Os Precursores do Cooperativismo

As primeiras idéias cooperativistas surgiram, sobretudo, na corrente liberal dos socialistas utópicos do século XIX e nas experiências que marcaram a primeira metade do século X. Generalizava-se, nessa época, grande entusiasmo pela tradição de liberdade e, ao mesmo tempo, o ambiente intelectual dos socialistas estava impregnado de ideal de justiça e fraternidade. Foi nesse quadro intelectual, somado à realidade constituída pelo sofrimento da classe trabalhadora, que se criou o contexto propício ao aparecimento das cooperativas: nasceram da necessidade e do desejo da classe trabalhadora em superar a miséria pelos seus próprios meios (ajuda mútua). Estes pensadores surgiram na Inglaterra e na França, isto é, nos países pioneiros do progresso intelectual e do desenvolvimento industrial da época Moderna. Dentre os socialistas que maior influência exerceram sobre o cooperativismo, destacam-se: Robert Owen (1772-1858). Nasceu na Inglaterra e é considerado o pai do cooperativismo. Combateu o lucro e a concorrência, por considerá-los os principais responsáveis pelos males e injustiças sociais. Investe em inúmeras iniciativas de organização dos trabalhadores. Preocupado com as condições de vida do proletariado inglês, funda escolas para filhos de operários. Charles Fourier (1772 – 1858). Nasceu na França e foi idealizador das cooperativas integrais de produção, criando comunidades onde os associados tinham tudo em comum. Essas comunidades eram chamadas de falanstérios. Luis Blanc (1812 – 1882). Francês, foi um grande político que se preocupou com o direito ao trabalho, defendendo a liberdade baseada na educação geral e na formação moral da sociedade.

Charles Gide (1847 – 1932). Francês, professor universitário, é conhecido mundialmente por suas obras sobre economia, política e cooperativismo. Fundador da “Escola de Nimes” na França, que muito contribui com a produção do conhecimento sobre o cooperativismo mundial. Philippe Buchez (1792 – 1865). Nasceu na Bélgica, buscou criar um cooperativismo autogestionado, independente do governo ou de ajuda externa. Na França ele tentou organizar “associações operárias de produção”, que hoje são chamadas de cooperativas de produção. Willian King (1786 – 1865). Também inglês, tornou-se médico famoso e se dedicou ao cooperativismo de consumo. Engajou-se em prol de um sistema cooperativista internacional. John Bellers (1654 – 1725). Nasceu na Inglaterra e tentou organizar cooperativas de trabalho, para terminar com o lucro e as indústrias inúteis;

Todos esses pensadores contribuíram para a formação de concepções, princípios e políticas de ação das cooperativas modernas, ao defenderem: a)A idéia de associação e ênfase na união em atividades sociais e econômicas; b)A cooperação como força de ação emancipadora da classe trabalhadora, através da organização por interesses de trabalho; c)Esta organização se faz por iniciativa própria, cujo controle e administração deve seu democrático e autogestionado. A primeira cooperativa “os pioneiros de Rochdale” A história dos operários tecelões da cidade de Rochdale – “Pioneiros de Rochdale” – situada no condado de Lancashire na Inglaterra – tem sido a grande referência para o cooperativismo moderno. A Inglaterra no início do século XIX passava por uma série crise, reflexo da luta entre os tecelões, os antigos condados herdados dos senhores feudais e a era industrial. Prejudicados pelo novo modelo econômico que substituiu o trabalho artesanal pela produção industrial, os trabalhadores tiveram que enfrentar os problemas básicos de sobrevivência humana: falta de moradia, acesso à educação, saúde e alimentação e o alto índice de desemprego, em virtude da mão-de-obra excedente. Diante dessa situação tão difícil os trabalhadores passaram a buscar alternativas visíveis, que pudessem garantir a sobrevivência e o sustento de suas famílias. Diante dos problemas que já se tornavam angustiantes em toda Europa, um grupo de operários tecelões ingleses – 27 homens e uma mulher – sob influência dos primeiros intelectuais socialistas, decidem fundar a cooperativa de consumo denominada “ROCHDALE SOCIETY OF EQUITABLE PIONEERS”, registrada em 24 de outubro de 1844, na cidade de Rochdale, Inglaterra. Tradicionalmente reconhecidos como os pioneiros, os tecelões cooperadores começaram a juntar os primeiros fundos necessários para realizar seu projeto de vida:

•Abrir um armazém comunitário para a venda de provisões, roupas, etc.;

•Comprar e construir casas destinadas aos membros que desejam amparar-se mutuamente para melhorar sua condição doméstica e social;

•Iniciar a manufatura dos produtos que a cooperativa julgar conveniente, para o emprego dos que se encontram sem trabalho ou daqueles que sofrerem reduções salariais.

•Para garantir mais segurança e bem-estar, a cooperativa comprará ou alugará terra que será cultivada pelos membros desempregados;

•Organizar as forças de produção, de distribuição, de educação e desenvolver a administração democrática e autogestionária do empreendimento. Os objetivos e forma de organização social do trabalho e economia da cooperativa de Rochdale transformaram-se, posteriormente, em Princípios do Cooperativismo Mundial.

A contribuição do cooperativismo no desenvolvimento nacional

A contribuição do cooperativismo, segundo a Recomendação 127/6 da Organização Internacional do Trabalho, com sede em Genebra,na Suíça, constata que “nos países em vias de desenvolvimento econômico, social e cultural, como meio para”:

•Melhorar a situação econômica, social e cultural das pessoas com recursos e possibilidades limitadas, assim como para fomentar seu espírito de iniciativa;

•Incrementar os recursos pessoais e o capital nacional mediante estímulo da poupança e sadia utilização do crédito;

•Contribuir para a economia, através do controle democrático da atividade econômica e de distribuição eqüitativa dos excedentes;

•Possibilitar emprego mediante ordenada utilização de recursos;

•Melhorar as condições sociais e completar os serviços sociais nos campos da habitação, saúde, educação e comunicação;

•Ajudar a elevar o nível de conhecimento geral e técnico de seus sócios. Numerosas são as cooperativas que contribuem para trazer soluções aos grandes problemas com que se confrontam os países e a humanidade. “Pelo valor dessa contribuição que, ao longo dos anos, o cooperativismo transformou-se em alternativa viável, na geração de trabalho e renda à população de muitos países, e vem cumprindo sua função no desenvolvimento dos setores urbano e rural”. E, sem dúvida, a qualidade da contribuição do cooperativismo no desenvolvimento local, regional e nacional dependerá da capacidade e responsabilidade das pessoas cooperantes, que são a razão de ser da organização cooperativa.

Cooperativas – Panorama Mundial

A cooperação que, em todos os lugares, reponde à necessidade do seu humano é, na verdade, um conceito universal. As cooperativas estão presentes em todos os países e em todos os sistemas econômicos e culturais. Segundo o relatório do Banco Mundial “seria difícil encontrar um sistema mais eficaz do que o cooperativo para encorajar e estimular a participação ativa das populações, na realização de programas de desenvolvimento”. Em vários países, as cooperativas apresentam as mais diversas realizações, conforme exemplos citados abaixo:

•No Japão, as cooperativas ocupam um lugar relevante no desenvolvimento das regiões rurais;

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