(Parte 2 de 3)

O mito de Eros e Psique é de origem grega e foi descrito por Lúcio Apuleiro (150 d.C.) no romance “Metamorfoses”. O texto que segue é baseado nas obras de Brandão (1988) e Bulfinch (2000), encontrado no

Psique era uma linda princesa que tinha duas irmãs. Todas elas eram belíssimas e causadoras de muita admiração, assim, muitos vinham de longe apenas para vê-las. Psique, no entanto, era a mais nova e a mais bela. Com o passar do tempo, a linda ninfa começou a

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro -.março2005 ser cultuada como própria encarnação de Afrodite, provocando, por isso, o esvaziamento dos templos da deusa. Cheia de ódio, Afrodite resolveu castigá-la, convocando seu filho Eros para mais uma missão: “Vês aquela audaciosa beleza? Vinga sua mãe das injúrias recebidas. Infunde no peito daquela donzela uma paixão por algum ser baixo, indigno de sorte, que ela possa colher a grande mortificação“ (Bulfinch, 2000, p.101).

As duas irmãs mais velhas de Psique, não tão belas, já haviam se casado com príncipes. Psique, no entanto, sendo ainda mais encantadora, além de extremamente graciosa, não conseguia um marido para si, pois todos temiam tamanha beleza. Vivia, portanto, em seus aposentos, amargando uma deplorável solidão. Seus pais, desorientados, foram buscar ajuda do oráculo de Apolo. Ao questionarem sobre o futuro da filha, receberam como resposta que Psique não foi destinada a ser esposa de um mortal, e, segundo ele, seu marido a esperava no alto da montanha. Assim, foram instruídos pelo oráculo a vestirem-na com roupas próprias de casamento e a deixá-la no alto de um rochedo onde um monstro horrível iria buscá-la.

O rei e a rainha se encheram de desânimo e entraram em desespero. Indagavam, entre eles, o triste fim para a tão bela e jovial filha. Psique, corajosa e certa de seu destino, disse a eles: “Por que lamentais, queridos pais, resigno-me ao meu fim, levai-me àquele rochedo a que me destinou meu desventurado destino” (Bulfinch, 2000, p.101). Obedecendo à profecia do oráculo, seus pais deixaram-na no alto de uma montanha. Tremendo de medo e sozinha no topo, a moça logo adormeceu.

Tudo estava de acordo com o que Afrodite havia planejado. Eros se aproximou para completar mais uma de suas missões. Não obstante, ao se deparar com tamanha beleza e formosura da mortal, ficou perturbado e feriu-se com sua própria seta, apaixonando-se no mesmo instante. Encantado, Eros mandou que Zéfiro (vento) conduzisse a bela que estava adormecida até seu palácio. Ao despertar, Psique se viu num maravilhoso castelo de ouro e mármore. Maravilhada com o lugar, percebeu que ali tudo era mágico. As portas se abriam para ela, vozes sussurravam a respeito de tudo o que precisava saber. Servos invisíveis cercavam-na e tudo faziam para agradá-la.

Já era noite quando a bela voltou aos seus aposentos, deitou-se e, na mais total escuridão, percebeu, ao seu lado, a presença de alguém. Pensou ela que só poderia ser o seu esposo predestinado pelo oráculo. Naquela noite, Eros desposou-a com muita delicadeza e profundo amor. Advertiu-a de que seria o melhor dos maridos, mas que ela jamais poderia vê-lo, pois isso significaria perdê-lo para sempre. Psique, encantada pela noite de amor, concordou de imediato. Assim foram seus dias. A moça tinha tudo que desejava. Seu marido lhe dava a sensação do mais profundo amor e era extremamente carinhoso. Psique a cada dia o amava mais.

Com o passar do tempo, porém, ela começou a sentir saudade de seus pais e pediu permissão ao marido para visitá-los. O deus, através de sua onisciência, advertiu de que essa viagem traria péssimas conseqüências. No entanto, Psique suplicou-lhe permissão, argumentando não ter ninguém para falar ou ver durante o dia. Apaixonado, Eros não resistiu às súplicas e, mesmo correndo o risco de perdê-la, concedeu-lhe a graça de ver sua família. Zéfiros, da mesma forma que a havia conduzido ao palácio, levou- -a ao reino de seus pais.

Psique, recebida com muita alegria, distribuiu muitos presentes a todos. Suas irmãs, ao verem-na tão bem, encheram-se de inveja e começaram a crivá-la de perguntas acerca do marido. Psique, inocentemente, contou-lhes que nunca tinha visto sua fisionomia. Essa resposta foi suficiente para que suas irmãs enchessem- -na de medo, relembrando a história do oráculo que dizia ser seu marido um horrendo mostro. Por fim, convenceram-na de desmascará-lo ao contar que os camponeses e caçadores da região viam todas as noites, atravessando o rio vizinho em direção ao palácio, um monstro que, certamente, era o marido de Psique, e que apenas aguardava o momento oportuno para devorá-la, bem como a criança que esperava em seu ventre. Por essa razão, aconselharam-na que depois do pôr-do-sol ela deveria iluminar, cuidadosamente, o rosto da terrível criatura e, com um só golpe, cortar-lhe a cabeça antes que fosse devorada.

Evidentemente que a intenção de suas irmãs era apenas prejudicar Psique, já que ela havia feito a

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro - março2005 promessa a seu esposo e, se a mesma fosse quebrada, conseqüentemente, seu casamento também seria. No retorno para casa, transtornada, apavorada e sozinha, a curiosidade e o medo tomaram conta do coração humano da donzela; as histórias contadas por suas irmãs surtiram efeito.

Tão logo veio a noite, tomada pelas influências das duas princesas, Psique esperou que Eros adormecesse para acender uma vela e assim poder vê-lo. Surpreendentemente, ao se deparar com tão linda figura, perdeu-se em sonhos e ficou parada embevecida, admirando-o. Foi nesse instante que um pingo de cera fervente caiu sobre o peito de seu marido antes oculto, despertando-o bruscamente em razão da dor e da queimadura, que produziu uma grande ferida.

Decepcionado e magoado com a quebra da promessa da esposa, partiu, fazendo cumprir sua promessa de outrora. Abandonada por Eros, sentindo a dor da perda do amor que havia desperdiçado, ficou profundamente infeliz. Psique, desesperada, atirou-se nas águas de um rio, que a devolveu ao solo. Então, passou a caminhar dia e noite sem repouso nem alimento, à procura do marido.

Aconselhada por Pã (deus dos rebanhos e dos pastores) a enfrentar as dificuldades de maneira produtiva, a princesa decidiu recuperar seu amado, tentando ultrapassar o ódio de Afrodite. Dirigiu-se à presença da deusa e, de forma humilde, modesta e submissa, pediu seu perdão. Afrodite, depois de torturá- -la e insultá-la, infligiu a ela quatro missões, consideradas humanamente impossíveis. Psique, depois de suportar todas as torturas, aceitou as provas propostas com intuito de recuperar a vida e o amor de Eros.

Sua primeira prova foi separar por espécies, em uma única noite, milhares de grãos misturados em um enorme monte. A bela moça, diante de tão difícil tarefa, pôs-se a chorar de desespero e agonia, já que não haveria tempo suficiente para realizar tal missão. A solução foram as formigas que, vendo seu desespero, resolveram ajudá-la. Trabalhando incansavelmente, haviam cumprido a tarefa já ao anoitecer, sem maiores dificuldades.

A segunda prova que teria de realizar era trazer flocos de lã, polvilhados de ouro, pertencentes a ovelhas selvagens, agressivas e carnívoras. Disposta a fazer o que estivesse ao seu alcance, a bela foi à margem do rio a fim de jogar-se nele e alcançar a outra margem. Porém, o rio deus inspirou os juncos e plantas ribeirinhas a murmurarem súplicas para que ela não desafiasse a correnteza do rio e não enfrentasse os temíveis carneiros venenosos, enquanto o sol estivesse a pino. Aconselharam-na, então, a voltar ao anoitecer, pois o rebanho estaria recolhido e o espírito sereno do rio já estaria presente, assim poderia atravessá-lo com tranqüilidade e poderia pegar os muitos flocos de lã que permaneceriam presos à vegetação e, desse modo, ela poderia completar sua prova com segurança. E assim o fez. Logo depois, voltou à presença de Afrodite com o avental repleto de lã de ouro.

Afrodite, repleta de fúria com o sucesso de sua “nora”, ordenou, como terceira prova, que buscasse as águas sagradas e escuras dos rios infernais. Ao mesmo tempo em que eram as mais perigosas da região, as águas alimentavam o rio infernal, guardado por dois dragões. Psique deveria encher um recipiente de cristal, depois de enfrentar os terríveis guardiões da fonte. Dessa forma, a esposa de Eros foi em direção à fonte, escalou com muito custo a montanha e viu então os dois enormes dragões rastejando sobre as pedras a cuidar da fonte. Essas criaturas jamais deixavam de vigiar as águas sagradas.

Diante da impossibilidade da realização da prova, ficou petrificada e com medo. Pensou em se matar. No entanto, Zeus, comovido, lembrou-se da grande ajuda de Eros há tempos e resolveu ajudá-la. Enviou-lhe sua águia que, tomando a jarra pelo bico, num vôo rápido, passou entre os dragões, encheu o recipiente de água e o devolveu a Psique. Ela, cheia de esperanças, voltou humildemente ao encontro de Afrodite para lhe entregar o jarro com água.

Finalmente, sua última prova, a mais difícil, era ir até Perséfone, no reinado de Hades, deus das profundezas do inferno, e pedir um pouco de juventude e beleza eterna, em nome da mãe de Eros. Psique, certa de seu fim, já que a única maneira de chegar às profundezas do inferno era por meio da morte, subiu ao alto de uma torre com o propósito de se atirar. A Torre, porém, falou com mansidão à Psique para que não recuasse ante a prova derradeira. Deu-lhe ânimo e instruiu-a acerca do caminho mais curto para atingir o mundo dos mortos, explicando-lhe, ao mesmo tempo,

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro -.março2005 as precauções que deveria tomar na longa caminhada pelas trevas. Depois de ouvir com atenção as advertências da Torre, a moça foi adiante e entrou numa cavidade do chão, onde se encontrava a planície do palácio de Hades. Psique não podia ir de mãos vazias devido aos obstáculos que encontraria ao longo do percurso, por isso, levou na boca dois óbolos (moedas gregas) e em cada mão um bolo de cevada e mel. Além disso, teria de tomar muito cuidado, pois encontraria pelo caminho algumas tentações.

A primeira delas foi no meio do caminho. Era um homem que lhe pediu ajuda para apanhar alguns gravetos, lembrou-se, porém, da admoestação da Torre; não lhe deu ouvidos e seguiu seu caminho. Ao chegar no rio dos mortos, encontrou o barqueiro Caronte, a quem entregou as moedas que garantiriam sua passagem de ida e volta. No meio da travessia, Psique defrontou-se com a segunda tentação: um velho que lhe havia implorado ajuda para subir no barco. Entretanto, conforme as recomendações da Torre, não se deixou vencer pelo sentimento de piedade ilícita. Terminada a viagem de barco, avistou, à sua frente, o castelo, cujo guardião era um cão de três cabeças, o Cérbero. De acordo com as determinações da Torre, deu a ele um dos bolos para poder entrar e o outro guardou para a saída.

No interior do castelo, encontrou a terceira tentação; algumas velhas tecedeiras solicitaram sua ajuda, no entanto, não lhes deu atenção. Já no salão do palácio, a moça se deparou com Perséfone, que lhe ofereceu uma deslumbrante cadeira para descansar e iguarias apetitosas para saciar sua fome. A princesa recusou tudo, pois sabia que era mais uma das seduções. Por isso, sentou-se no solo e pediu apenas um pedaço de pão preto, e expôs a razão de sua visita. Depois de receber o pacote, voltou pelo mesmo caminho, passando, novamente, por todas as tentações, lembrando-se que dependeria somente dela curar e reencontrar Eros, seu grande amor.

Ao sair vitoriosa do mundo das trevas, uma grande curiosidade lhe assaltou o espírito. Para isso ela não havia se preparado, isto é, não esperava pela última, inesperada e pior das tentações. A Torre, sabiamente, aconselhou que não abrisse a caixa, em hipótese alguma. No entanto, sem conseguir dominar sua curiosidade humana, desejava saber qual era o segredo da juventude eterna. Sem esperar, abriu a caixa de Perséfone e caiu em sono profundo.

Eros, já quase recuperado de seu ferimento, foi encontrar sua amada, pois estava cansado de vê-la sofrer e passar por tantas provações. Chegando lá, após retirá-la do sono da morte, explicou como sua curiosidade poderia tê-la levado ao fim. Mesmo assim, o deus pediu que concluísse sua tarefa. Psique levantou-se e, cuidadosamente, levou a caixa para Afrodite, completando, com isso, todas as provas ordenadas por ela.

Finalmente, Eros implorou a Zeus, o deus dos deuses, que tivesse compaixão dos dois e do amor entre eles, e solicitou uma permissão especial para que pudessem se unir, pois até então os deuses do Olimpo nunca puderam se casar com mortais. Benevolente, Zeus advogou com muito empenho a favor dos enamorados e conseguiu consentimento dos outros deuses, até mesmo de Afrodite, para a união do casal. Psique foi chamada ao Olimpo para a assembléia celestial. Lá recebeu a benção de Zeus que também lhe concedeu a imortalidade.

Eros e Psique permaneceram juntos por toda a eternidade. Tiveram apenas uma filha, Prazer. Na linguagem dos mortais, chama-se Volúpia, que significa prazer dos sentidos e das sensações.

Compreensão do mito

Após a leitura de um mito interessante e belo como esse, percebemos novamente a importância do amor no processo de desenvolvimento da vida e do amor adulto. Psique representa o princípio da vida, da alma humana purificada por sofrimentos e infortúnios provocados por desconfiança e curiosidade, atitudes típicas dos mortais. Depois de passar por todos esses sofrimentos, Psique torna-se preparada para gozar a pura e verdadeira felicidade.

Analisando o desenrolar da lenda, pode-se deduzir que o amor não aceita desconfianças nem mentiras. No momento em que a confiança de Psique foi questionada por suas irmãs, quando duvidou da pureza e incondicionalidade do amor de Eros, a bela deixou-se levar por esse sentimento. A relação, até então forte, rompeu-se. Eros, ferido fisicamente e agredido em seu sentimento mais profundo, puro e

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro - março2005 primitivo, não conseguiu reagir. Fisicamente, sua ferida não fechou e a dor interior só conseguiu ser superada quando houve uma prova: a luta desesperada de Psique por ele e por seu amor. Ela teve de enfrentar todos os seus medos, fraquezas e, sobretudo, o ódio de Afrodite para, só assim, Eros perceber que ela o amava e não duvidava mais dele. Psique, apesar de tudo, apresentou-se como uma mulher decidida e disposta a conquistar novamente o amor perdido, bem como a confiança de seu amado. Mostrando-se arrependida, resolveu, humildemente, enfrentar todas as maldades, torturas e desafios impostos por Afrodite.

A partir dessa situação, conclui-se que a lenda sugere aos leitores que por amor tudo deve ser enfrentado, mesmo quando se colocam à prova todos os medos e fraquezas. Além disso, o mito procura insinuar todas as possibilidades e condições pessoais, mentais e espirituais para se viver de forma integral e com seu verdadeiro amor, experimentando a felicidade e a alegria do encontro profundo.

O amor de Psique, assim como qualquer amor verdadeiro, a fez superar suas fragilidades humanas, proporcionando seu crescimento e amadurecimento. Em outras palavras, ao terminar sua longa jornada de desafios, ela saiu da condição de simples humana sendo elevada à imortalidade (deusa). Esse é o mais verdadeiro e profundo sentido do amor, pois ele nos faz ultrapassar milhões de barreiras para atingi-lo e tornar-se eterno.

Brandão (1988) consegue expressar, sintética e poeticamente, a importância desse mito para a compreensão mais aprofundada do arquétipo e mistério do amor ao dizer que “a mulher humana, como indivíduo, escalou o Céu e a partir daí, na perfeição conquistada pelo mistério do amor, a mulher encontrou-se lado a lado com os arquétipos da humanidade inteira, os Deuses imortais” (Brandão,1988, p.250).

Com essa conquista, o amor (Eros) foi capaz de perdoar todas as fraquezas, inseguranças e imaturidades do outro (Psique), conseqüentemente atingiu sua maturidade. Partindo dessa idéia, Eros, um jovem aventureiro, perverso e traquina, torna-se adulto e responsável ao desobedecer sua mãe, desposando Psique, a grande rival de Afrodite. Nesse momento percebeu ter vontade própria, pois notou a existência de um outro ser. Vivo e desejoso de amor, uniu-se a uma mortal que, mesmo repleta de falhas (ingenuidade, inveja, ciúme, curiosidade, vaidade, dentre outras), é aceita e perdoada, pois quando o amor é verdadeiro não se impõem condições para vivenciá-lo.

Essa simbologia permite que se faça uma reflexão sobre a importância do amor na construção da pessoa humana, pois foi preciso que Eros, um semideus, sem vontade e sem autonomia própria, para que pudesse ser alguém com vontades próprias, fosse tocado por outra pessoa (sopro da vida Psique) que, através de sua simplicidade e humanidade, descobriu em seu interior força e coragem para superar seus medos, dificuldades e fragilidades em busca do alívio de sua dor e de seu amado, assim encontrando a felicidade e completude.

Da mesma forma que a lenda, o conceito de amor sofreu transformações ao longo do tempo, adequando-se às necessidades sociais, culturais e ideológicas dos diversos povos.

Com o intuito de conhecer mais definições míticas do amor vigentes em diferentes épocas da nossa história cultural ocidental, sintetizamos algumas idéias de influentes pensadores, que, certamente, em muito contribuíram para desvendar um pouco mais esse misterioso fenômeno.

Outras versões mitológicas de eros

Iniciaremos com Platão, que viveu de 428 a 347 a.C. e foi um dos mais importantes filósofos a se preocupar com a presente temática, dedicando uma obra inteira à importância e ao significado do amor.

Em 385 a.C. compôs “O Banquete” - considerado sua mais brilhante criação e um dos textos chaves da cultura clássica ocidental -, uma das primeiras tentativas de análise e compreensão do amor ao iniciar a busca para a sua revelação.

O objetivo desta parte é realizar uma pequena síntese dos diálogos e elogios que alguns filósofos teceram a Eros, a fim de compreender as interferências da referida obra no pensamento moderno ocidental.

Aristófanes inicia seu elogio dizendo: “Ele é, de todos os deuses, o mais filantropo, o protetor dos humanos e médico de males que, se fossem curados, resultaria daí a mais perfeita felicidade para a raça dos

Estudos de Psicologia I Campinas I 2(1) I 63-75 I janeiro -.março2005 homens” (Platão, 2000, p.67). Esse filósofo descreve o amor como sendo o responsável pela união das duas metades separadas desde a origem do ser humano. Aristófanes, para fazer seu elogio a Eros, discorre, inicialmente, sobre a origem da natureza humana e suas paixões. De acordo com ele, no princípio do mundo existiam três gêneros: masculino (filho do Sol), feminino (filho da Terra) e andrógino (filho da Lua), que reunia, num único ser, o princípio masculino e feminino.

Esses seres especiais tinham forma esférica, deslocavam-se circularmente ou de maneira ereta, possuíam quatro mãos, quatro pernas, duas faces absolutamente idênticas, porém um único cérebro. Além dessa peculiar aparência, eram donos de uma força terrível e vigor fora do comum, por isso, resolveram, um dia, subir ao Céu para atacar os deuses e tomar o Olimpo. Chegando lá, não conseguiram realizar seus desejos e foram dominados pelos deuses.

Zeus e os outros resolveram dar um grande castigo a seres tão soberbos. Cortaram-nos ao meio, deixando-os mais fracos, numerosos e submissos, dessa forma podiam servir aos deuses e à própria espécie humana. Feita a divisão, coube ao deus Apolo acertar a parte estética. Puxou a abertura dos lados para frente, e apertou um cordão ao redor da única abertura que havia restado, deixando uma marca em seu ventre, o umbigo, que serviria para lembrar o quanto sofreram em sua origem.

Cada metade sentia-se fraca e incapaz, desejando apenas reencontrar a outra. Isolada, com o tempo ia perdendo suas forças de tanto almejar a parte perdida, pois nada fazia quando sozinha. Quando as duas metades se encontravam, agarravam-se e não mais se largavam por medo de se perderem novamente. Dessa maneira, muitas morriam de fome e de inatividade, pois além de não fazerem nada quando separadas, unidas também não conseguiam realizar nenhuma tarefa. Se uma das metades morria, a segunda, abandonada, procurava a quem se agarrar novamente, fosse um homem ou mulher. Continuando isso a ocorrer, a conseqüência seria a extinção da espécie humana, pois não importava a quem iria se ligar, nem o sexo dessa pessoa, queria apenas sentir-se unida, precisava de alguém para completá-la, não era capaz de fazer nada além de ficar agarrada. Essa “união” improdutiva impediria a propagação da raça humana.

“Compadecido, Zeus imaginou um meio: desloca os seus sexos e os põe para frente, até aí tinham-no atrás, procriando-se e reproduzindo-se não uns graças aos outros, mas à terra, como fazem as cigarras” (Platão, 2000, p.70). Com a mudança, poderiam se reproduzir por meio da união fecunda entre a parte masculina e a feminina.

Desde então, o amor mútuo passou a ser inato à espécie humana, que, segundo Aristófanes, procura reconstruir sua unidade a partir da metade perdida. Por intermédio da combinação e união mútua (fecundação), curam sua natureza ferida e se “fundem em um só”. Enquanto estiverem unidos como um único ser, ou seja, vivendo uma vida comum, encontram sua natureza primitiva e reconstroem sua totalidade, gerando o sentimento denominado amor.

Nessa alegoria, nota-se que o amor serve de catalisador entre “seres separados”. Desde o momento da divisão do andrógino, todos os seres humanos carregavam a sensação de solidão e incompletude. Por essa razão, pode-se entender como uma das metas da vida é a união com o outro na tentativa de encontrar o sentido de plenitude e unidade.

Para Aristófanes, os humanos apenas se sentirão completos quando encontrarem sua outra metade perdida e tal união só pode ocorrer por intermédio da força do amor. Esse mito pode explicar a origem, em muitas pessoas, da procura insaciável por uma companhia que lhe recomponha a unidade, que lhes ajude a enfrentar os desafios da vida, dando origem ao sentimento de amor que as pessoas têm umas pelas outras. Nesses termos, o amor possibilita o encontro do ser humano com sua natureza e unidade original, levando-o à felicidade, à paz e à alegria interior.

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