Fitoterapia para todos

Fitoterapia para todos

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Fitoterapia para todos: Comunidade São Geraldo.

Conhecimento da interação entre comunidade e meio ambiente como instrumento para implantação da extensão

Autoria: Nicoly Negreiros de Siqueira – nicoly@gmail.com

Philipe Fernandes Batista de Andrade – philipefba@bol.com.br Rebecca Alves Cavalvante – rebeccaufpb@yahoo.com.br Alzira Elisa Dantas Maia – nephf@ufbr.br Ana Beatriz Albino de Almeida – anabia5@yahoo.com.br Instituição: Universidade Federal da Paraíba, UFPB, Brasil

Resumo

A Comunidade São Geraldo, localizada no Rangel, João Pessoa, Paraíba, ocupa o entorno de um resquício de mata atlântica (Jardim Botânico Benjamim Maranhão – Mata do Buraquinho), com a qual possui uma estreita relação. O objetivo deste trabalho foi resgatar informações sobre a interação que essa população tem com os recursos naturais que a cercam, para que a realidade local auxiliasse e direcionasse a implantação do projeto de extensão. Foram realizadas visitas à comunidade a fim de estabelecer vínculos e coletar informações através de questionários estruturados. Percebeu-se que, embora o Jardim Botânico seja uma área restrita, a comunidade faz uso de seus recursos principalmente para suprir necessidades, seja através do alimento, seja através da planta medicinal. A comunidade demonstrou preocupação quanto à preservação da mata, sendo, a maioria dos entrevistados favorável à proibição da utilização de seus recursos. Com base nesses dados, o projeto “Fitoterapia para todos: Comunidade São Geraldo” será desenvolvido para fornecer uma fonte alternativa de recursos através da construção do horto comunitário, onde serão cultivadas espécies medicinas existentes na mata; para realizar oficinas e palestras que orientem a comunidade quanto ao uso das plantas medicinais e também para realizar trabalhos de educação ambiental.

Introdução

Muitas sociedades tradicionais ou autóctones possuem uma vasta farmacopéia natural, em boa parte proveniente dos recursos vegetais encontrados nos ambientes naturais ocupados por estas populações (AMOROZO, 2001). As plantas são a identidade de um conjunto de pessoas, refletem o que são, o que pensam e suas relações com a natureza que os cerca (MEDEIROS et al., 2003); por isso, o uso de plantas para fins terapêuticos está inserido em um contexto social e ecológico, de modo que muitas das peculiaridades deste emprego só podem ser entendidas se esse contexto for compreendido. (AMBIENTE BRASIL, 2005).

A Organização Mundial de Saúde - OMS - reconhece o valor potencial das plantas medicinais, e recomenda com insistência aos países membros da ONU que utilizem seus conhecimentos tradicionais como recurso terapêutico viável (WHO, 1987 apud PEREIRA et al., 2005).

O Brasil possui uma incalculável riqueza de tradições, costumes e diversos traços culturais que ainda perduram nos habitantes. A manutenção das tradições ancestrais tem permitido a persistência de um grande número de técnicas tradicionais sobre o manejo do meio ambiente e a utilização de espécies nativas.

Cerca de 80% da população brasileira faz uso de plantas medicinais, no entanto muitos não sabem identificar as espécies, as preparam incorretamente, ou não conhecem os riscos dos efeitos colaterais e tóxicos quando as mesmas são ingeridas em altas doses (PEREIRA et al., 2005).

A comunidade onde está sendo desenvolvido o projeto de extensão é a comunidade de São Geraldo, localizada no Rangel, João Pessoa, Paraíba. A escolha dessa comunidade se deu em função da sua proximidade com um resquício de mata atlântica (Jardim Botânico Benjamin Maranhão – Mata do Buraquinho), na perspectiva de avaliar a relação que essa população tem com essa mata, o que esta lhes possibilita e, com isto, colaborar com o resgate do conhecimento sobre as plantas medicinais, proporcionando uma sistematização desse conhecimento. Até 1997, estavam registradas 263 moradias, sendo que 2 foram construídas em terreno pertencente à Mata do Buraquinho, configurando uma invasão (IBAMA, 1997). Em 2003, segundo SILVA & GUERRA, havia, na comunidade, 315 casas.

um indício da íntima relação que a comunidade mantém com a mata

Em 1997, através do “Projeto Alexandre Souto – Integração das populações tradicionais ao jardim botânico de João Pessoa”, foi criado um plano de desenvolvimento sustentável que abrangia o Jardim Botânico e as comunidades localizadas no seu entorno. Na comunidade de São Geraldo, devido à intensa deposição de lixo na mata e à falta de preservação, foi construído um muro entre as casas e a mata, utilizando mão-de-obra da própria comunidade. Também foram realizados trabalhos de educação ambiental, incentivo à cultura e prestados serviços de assistência médica, odontológica, psicológica e laboratorial. Atualmente, o muro construído há oito anos, encontra-se com diversas aberturas e algumas casas possuem portões que ligam seus quintais diretamente à reserva,

Esse projeto de extensão está vinculado ao projeto de pesquisa “Investigação etnofarmacológica de apoio ao programa de resgate da medicina tradicional integrado ao Sistema Único de Saúde (SUS) em comunidades de João Pessoa”; que está sendo desenvolvido através de uma parceria entre a Universidade Federal da Paraíba e a Universidade de Sevilha.

A iniciativa de desenvolver um projeto de extensão surgiu por entendermos que não basta obter informações da comunidade em estudo, mas se faz necessário criar coresponsabilidades e mecanismos que possibilitem o retorno dessas informações e melhoria dos indicadores de qualidade de vida dessa população.

O título Fitoterapia para Todos: Comunidade São Geraldo faz referência a outros projetos de extensão já existentes na UFPB, na perspectiva de se tornar um grande movimento em prol dessa terapêutica na atenção primária à saúde.

Os programas de extensão universitária desvelam a importância da relação estabelecida entre instituição e sociedade através da aproximação e troca de conhecimentos e experiências (HENNINGTON, 2005). O conhecimento gerado através do resgate do saber popular deve ser valorizado através de ações que viabilizem e garantam o uso desses recursos pela população (AMBIENTE BRASIL, 2005). As ações devem ser fundamentadas na realidade da comunidade, para possibilitar o desenvolvimento de ações conjuntas, nas quais as pessoas da comunidade possam se reconhecer como elementos fundamentais do processo. A idéia de uma participação popular surge, justamente, para se distinguir de uma outra concepção de sociedade, onde quem tem estudo e recursos aponta o caminho ‘correto’ para as classes populares (VALLA, 1998). O trabalho comunitário compreende os princípios de parceria e acolhimento, pois extensão significa fazer com a comunidade e não para ela.

A etapa inicial é representada pela inserção dos extensionistas na comunidade, tendo em vista o reconhecimento da área de atuação, a identificação das características e necessidades da região e conseqüente análise das possibilidades de colaboração (DI STASI, 1999). O mesmo autor afirma que é desta etapa que dependem todas as atividades subseqüentes do projeto. É justamente na inter-relação universidade-comunidade que se forma a base para o desenvolvimento das ações conjuntas. Se ocorrem problemas nesta etapa, não há como se chegar a objetivos de interesse comum.

A visita à comunidade permite não só criar laços com os moradores, como também identificar quais são os problemas existentes e o quanto esses problemas afetam a qualidade de vida da população. Problematizar significa utilizar-se de elementos da realidade vivida para diagnosticar problemas comunitários e construir hipóteses, para, em seguida, aplicar uma solução viável (ACIOLI & CARVALHO, 1998). O projeto de extensão deve ser conduzido pela comunidade, no sentido de que, a partir das necessidades da coletividade, a proposta inicial possa ser discutida, modificada ou ampliada.

Objetivos

Os objetivos do projeto estão voltados para o reconhecimento da comunidade de

São Geraldo e estabelecimento de uma aproximação com a mesma, a fim de buscar subsídios para o início das atividades a serem desenvolvidas. Dentro desse reconhecimento, procurou-se compreender a relação que a comunidade mantém com a mata, identificar pessoas que detém conhecimento sobre plantas medicinais, conhecer a sabedoria popular tradicional sobre as plantas de uso medicinal existentes na mata e localizar espaços para o desenvolvimento das atividades.

Objetivamos também a valorização ambiental do meio natural do qual provêm as espécies medicinais utilizadas pela comunidade; e o apoio ao uso da medicina tradicional em seu sistema básico mediante sua valorização científica, aplicação adequada e formação técnica necessária.

Após o reconhecimento e aproximação da comunidade, propõe-se orientar a população sobre o plantio, colheita, secagem, preparo e administração de plantas medicinais; realizar oficinas de preparação de remédios caseiros com os profissionais envolvidos no projeto e com grupos da comunidade; implantar canteiros de plantas medicinais para que toda a população tenha acesso direto às plantas; realizar palestras e reuniões com a comunidade para discutir assuntos relacionados com plantas medicinais, meio ambiente, saúde, bem como outros temas sugeridos pela própria comunidade; realizar oficinas de manejo e preparo das planta medicinais; promover atividades com as crianças, tais como mini-palestras, jogos, peça teatrais e outras atividades didáticas; organizar feiras de plantas medicinais; confeccionar cartilha informativa e programas para rádio comunitária.

Metodologia

Este trabalho teve suas informações coletadas através de entrevistas realizadas na comunidade São Geraldo no período de nove de julho a vinte de agosto de 2005. As entrevistas foram realizadas sempre aos sábados pela manhã, visto que a maioria da população encontrava-se em casa nesse horário.

O dados foram coletados com o uso de questionários estruturados, sendo obtidas informações acerca da interação da comunidade com os recursos naturais da mata adjacente, bem como aspectos etnofarmacológicos dessa interação. As visitas às residências foram realizadas sempre por duplas constituídas por alunos, professores e funcionários da UFPB vinculados ao projeto. Cada dupla visitou três residências por sábado. Foram aplicados 89 questionários, o que corresponde a aproximadamente 10% do total de famílias que reside na comunidade.

sendo este procedimento efetuado em ambos os lados da rua

Devido à comunidade estar estruturada em uma rua única, a casa foram escolhidas seguindo uma ordem de amostragem na qual em cada cinco casas, uma era amostrada,

Em referência a resolução número 196/96 do CNS, a qual cita que toda pesquisa envolvendo seres humanos deve atender às exigências éticas, foi solicitado aos entrevistados o consentimento livre e esclarecido, referindo-se a explicação da entrevista, como também a sua liberdade para participar ou não e desistir da participação.

Foram criados vínculos com as famílias, respeitando e valorizando o saber acumulado ao longo de suas vivências, transcendendo, assim, a visão puramente técnica do profissional e observando, além das dimensões biológicas, as dimensões ambientais, culturais e psicológicas, permitindo um retrato fiel da realidade local.

Também foram visitados centros comunitários locais como a igreja católica, o centro social, o posto de saúde, o albergue para idosos, as escolas públicas e a pastoral da criança para identificar que atividades são exercidas e para solicitar espaços físicos para o desenvolvimento das palestras, cursos e oficinas pretendidos.

Para a implementação das atividades de interação com a comunidade propostas pelo projeto, serão realizadas reuniões entre a equipe condutora e os integrantes das equipes locais para discussão das seguintes etapas estabelecidas: oficinas de sensibilização, implantação de hortas de plantas medicinais, oficinas de remédios caseiros, confecção da cartilha informativa; para que sirvam de suporte para o desenvolvimento de atividades em educação ambiental voltadas para a comunidade, assumindo um caráter realista, embasando-se na busca de um equilíbrio entre o homem e o ambiente, com vista à construção de um futuro pensado e vivido numa lógica de desenvolvimento e progresso.

Resultados e discussão

A comunidade São Geraldo apresentou boa receptividade, embora alguns integrantes do projeto tenham percebido certa resistência pelo fato de a comunidade associar as atividades do projeto a uma forma complementar de ação do IBAMA. Depois de realizados os devidos esclarecimentos, a população compreendeu os objetivos do projeto, colaborando com o seu desenvolvimento.

que reside próximo à comunidade e se dispôs a auxiliar na construção do horto comunitário

As instituições comunitárias visitadas se mostraram interessadas em participar e colaborar com o projeto, firmando o compromisso de divulgar as atividades a serem realizadas e também de disponibilizar espaços para a realização das oficinas, palestras e implantação do horto comunitário. Foram dadas diversas sugestões com relação a horários e temas a serem trabalhados com a comunidade. Também foi contactado um agrônomo,

média de um salário mínimo. Cerca de 84% dos entrevistados eram mulheres

Foram entrevistadas 89 pessoas da comunidade São Geraldo, com renda familiar

Quando perguntado aos entrevistados sobre o que utilizam para cozinhar os alimentos, 87 referiram o uso de gás de cozinha, sete o uso da madeira e apenas cinco utilizam o carvão, sendo que algumas residências fazem uso de mais de um recurso.

motivos citados como justificativa estão apresentados nas tabelas 01 e 02

Quanto aos recursos da mata, 61 entrevistados responderam que é possível a sua utilização sem que haja destruição, enquanto 25 responderam que isso não é possível. Os

Tabela 01. Motivos citados pelos moradores da comunidade pelos quais a mata pode ser utilizada sem que haja sua destruição. (n = 61)

Retirando plantas e frutos sem cortar árvores 15

Utilizando a consciência 12 Preservando 9 Retirando apenas o que está no chão 9 Retirando apenas o necessário 5 Não jogando lixo e limpando a mata 4 Com controle /fiscalização 2

Tabela 02. Motivos citados pelos moradores da comunidade pelos quais a mata não pode ser utilizada sem que haja sua destruição. (n = 25)

Tudo o que for retirado da mata fará falta 2 Vandalismo 2 Qualquer forma de uso provoca destruição 1 Falta de consciência 1

Sobre os benefícios que a mata oferece à comunidade, obtivemos respostas diversificadas, de acordo com a tabela 03.

Tabela 03. Benefícios que a mata oferece à comunidade. (n = 89)

Ar puro 38

Fornece recursos (água, alimentos, animais, sombra) 20

Beleza 1 Paisagem agradável 9 Bem-estar 9 Ventilação 8 Clima bom 6 Plantas medicinais 5 Tranqüilidade 4 Transmite paz 3 Contato com a natureza 1

obtivemos um número significativo de citações, apresentadas na tabela 04

Ao serem interrogados a respeito do conhecimento dos animais existentes na mata,

Tabela 04. Lista dos animais existentes na mata reconhecidos pela comunidade. (n = 89). ANIMAIS RECONHECIDOS N° DE CITAÇÕES

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