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MACROECONOMIA Daisy A. N. Rebelatto

A Abrangência e as Limitações da Economia

A atividade econômica se define a partir da interação de complexas variáveis. Dadas as limitações do espaço geográfico e dos meios naturais, ela é influenciável por fatores antropológico-culturais, pelo ordenamento político, pelo progresso tecnológico e pelo imprevisível comportamento dos diferentes grupos sociais de que se constituem as ações. Procurar compreender, em toda sua extensão, esses eixos de sustentação é a tarefa mais importante dos que se dedicam à economia.

Denise Flouzat (Économie contemporaine)

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MACROECONOMIA Daisy A. N. Rebelatto A COMPREENSÃO DA ECONOMIA

As ciências sociais ocupam-se dos diferentes aspectos do comportamento humano. Podem ser também caracterizadas como ciências do comportamento ou, alternativamente, como ciências humanas. Compreendem áreas distintas, a medida que se possam diferenciar, por sua natureza, os diferentes aspectos da ação do homem com os quais cada uma delas se envolve.

A ciência política trata das relações entre a nação e o Estado, das formas de governo e da condução dos negócios públicos. A sociologia ocupa-se das relações sociais e da organização estrutural da sociedade. A antropologia cultural volta-se para o estudo das origens e da evolução, da organização e das diferentes formas de expressão cultural do homem. A psicologia ocupa-se do comportamento do homem e de suas motivações, valores e estímulos. Ao direito cabe fixar, com a precisão ditada pelos usos, costumes e valores da sociedade, as normas que regularão os direitos e as obrigações individuais e sociais. E a economia que, como as demais áreas, abrange apenas uma fração das ciências sociais, compete o estudo da ação econômica do homem, envolvendo essencialmente o processo de produção, a geração e a apropriação da renda, o dispêndio e a acumulação.

À semelhança do que ocorre com os demais ramos das ciências sociais, não se pode considerar a economia como fechada em torno de si mesma. Pelas implicações da ação econômica sobre outros aspectos da vida humana, o estudo da economia implica a abertura de suas fronteiras às demais áreas das ciências humanas. Esta abertura se dá em dupla direção, assumindo assim caráter biunívoco. De um lado, porque a economia busca alicerçar seus princípios, conceitos e modelos teóricos não apenas na sua própria coerência, consistência e aderência à realidade, mas ainda nos desenvolvimentos dos demais campos do conhecimento social. De outro lado, porque pode influir no questionamento dos princípios e das aquisições conceituais desses mesmos campos. E vai ainda além, abrindo suas fronteiras à filosofia e à ética; à história e às diferentes manifestações da religião; à tecnologia e as variados ramos que atualmente se ocupam do estudo do meio ambiente.

As relações biunívocas da economia

Entre os economistas contemporâneos que trataram das ligações entre a economia e outros ramos, Kenneth Boulding é geralmente citado como um dos que as resumiram com maior clareza e objetividade. São dele as seguintes observações:

“Os problemas econômicos não têm contornos bem delineados. Eles se estendem perceptivelmente pela política, pela sociologia e pela ética, assim como há questões políticas, sociológicas ou éticas que são envolvidas ou mesmo decorrentes de posturas econômicas. Não será exagero dizer que a resposta final às questões cruciais da economia encontra-se em algum outro campo. Ou que as respostas a outras questões humanas, formalmente tratadas em outras esferas

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MACROECONOMIA Daisy A. N. Rebelatto das ciências sociais, passará necessariamente por alguma revisão do ordenamento real da vida econômica ou do conhecimento econômico.”

Segundo esta concepção mais abrangente, os conflitos relacionados aos processos de produção, de acumulação da riqueza, de repartição, de difusão do bem-estar e da plena realização do bem comum não se limitam às soluções encontradas na área econômica. Também não se encontram, isoladamente, em quaisquer outros ramos das ciências sociais ou em outros compartimentos do conhecimento humano. Cada um dos módulos do conhecimento humano, social ou experimental, não passa de uma fração de um todo maior, constituído por subconjuntos interdependentes, de soma unitária.

Em síntese, pode-se inferir que as interfaces da economia com outros ramos do conhecimento social decorrem de que as relações humanas e os problemas nelas implícitos ou delas decorrentes não são facilmente separáveis segundo níveis de referência rigorosamente pré-classificados. O referencial econômico deve ser visto apenas como uma abstração útil, para que se analisem aspectos específicos da luta humana pela sobrevivência, prosperidade, bem-estar individual e bem-comum. Ocorre, todavia, que essa mesma luta não se esgota nos limites do que se convencionou chamar de relações econômicas. Vai muito além, abrangendo aspectos que dizem respeito à postura ético-religiosa, às formas de organização política, aos modos de relacionamento social, à estruturação da ordem jurídica, aos padrões das conquistas tecnológicas, às limitações impostas pelas condições do meio ambiente e, mais abrangentemente, à formação cultural da sociedade.

De que se ocupa a economia

A despeito da complexa teia de relações sociais e da multiplicidade dos fatores condicionantes que envolvem a ação econômica, há, entretanto, um conjunto destacado de aspectos particulares da realidade social que gravitam mais especificamente no campo de interesse da economia. Um deles é o polinômio produção-distribuição-dispêndio-acumulação, destacado por J.B. Say, um dos mais reconhecidos teóricos da economia clássica. Outro é o trinômio riqueza-pobreza-bem-estar, destacado por outro mestre notável, A Marshall. Ou então outro binômio, crescimento-desenvolvimento, citado por Kuznets. Outro ainda é o trinômio recursos-necessidades-prioridades, aprofundado por L. Robbins.

Objetivos da Teoria Macroeconômica

O principal objetivo da teoria econômica é analisar como são determinados os preços e as quantidades dos bens produzidos e dos fatores de produção existentes na economia. A fim de verificar como se determinavam os preços e as quantidades produzidas, os economistas criaram duas entidades básicas: o consumidor e a firma. O consumidor seria uma entidade abstrata que teria por objetivo maximizar alguma função (tradicionalmente coloca-se como objetivo básico a maximização da satisfação ou utilidade), enquanto as firmas, ao decidirem aspectos relativos sobre os preços a serem cobrados ou as quantidades

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MACROECONOMIA Daisy A. N. Rebelatto a serem produzidas, tomariam tais decisões, procurando maximizar também alguma função objetiva. Neste caso, tem sido tradicional a colocação dos lucros como variável a ser maximizada.

Como o objetivo de analisar o processo de determinação de preços e quantidades, a teoria microeconômica preserva em sua análise as características individuais de cada bem e cada fator de produção. Cada produto é visto com suas características específicas. Por outro lado, no tocante aos diversos fatores de produção, também são preservados os diferentes tipos de fatores, bem como, dentro de cada fator, suas diferentes características. Evidentemente, a preservação de todas as características específicas de cada bem ou fator de produção na análise impede que algumas considerações mais gerais a respeito da evolução da economia possam ser efetuadas. Imaginemos que estivéssemos interessados em saber como os preços de uma economia têm-se comportado ao longo dos últimos meses. A resposta que a Microeconomia daria seria individualizar cada um dos bens produzidos respondendo: o preço relativo do bem x está aumentando, o do bem y diminuindo e assim sucessivamente.

preços têm crescido etc, a nível agregado

Desta forma percebem-se a necessidade de darmos um tratamento mais agregativo e empírico à análise econômica. E aqui surge o espaço para a Macroeconomia. Ela tem por objetivo fundamental analisar como são determinadas as variáveis econômicas de maneira agregada. Estamos interessados em saber se o nível de atividades tem crescido ou diminuído, se os

Para atingir esse objetivo, a Macroeconomia observa uma economia como se ela fosse constituída por mercados:

• Mercado de bens e serviços. Para tentar responder como se tem comportado o nível de atividades, efetua-se uma agregação de todos os bens produzidos pela economia durante um certo período de tempo e define-se o chamado produto nacional. Esse produto representa a agregação de todos os bens produzidos pela economia. O preço desse produto, que representa uma média de todos os preços produzidos, é o chamado nível geral de preços. Observe-se que o nível geral de preços e o produto nacional representam entidades abstratas criadas pelos economistas.

• Mercado de trabalho. Também representa uma agregação de todos os tipos de trabalhos existentes na economia. Neste mercado, determinamos como se estabelece a taxa salarial e o nível de emprego.

• Mercado monetário. Isso porque a análise será desenvolvida numa economia cujas trocas são efetuadas utilizando-se sempre um elemento comum. Esse elemento comum é que se conhece por moeda. É intuitivo perceber que, se as trocas utilizam sempre a moeda, ela dever ter alguma importância na determinação dos preços e quantidades produzidas.

• Mercado de títulos. Nas economias existem sempre agentes econômicos superavitários e agentes deficitários. Agentes superavitários são aqueles que possuem um nível de renda superior aos seus gastos e deficitários aqueles que possuem um nível de gastos superior ao da renda. Para tal, idealizase um mercado no qual os agentes superavitários emprestam para os deficitários,

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MACROECONOMIA Daisy A. N. Rebelatto que é o mercado de títulos. Em qualquer economia, existe uma série de títulos que fazem essa função (títulos do governo, ações, debêntures, duplicatas, etc). Entretanto, a Macroeconomia, mais uma vez, agrega todos esses títulos e define um título (tradicionalmente é representado por algum título do governo) e nesse mercado se procura determinar o preço e a quantidade de títulos.

• Mercado de divisas ou de moeda estrangeira. A oferta de divisas depende das exportações e da entrada de capitais financeiros, enquanto a demanda de divisas é determinada pelo volume de importações e saídas de capital financeiro. A variável determinada nesse mercado é a taxa de câmbio, que é o preço da divisa, em termos de moeda nacional.

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CAPÍTULO 1 - A MEDIDA DO PRODUTO NACIONAL E DA RENDA NACIONAL

Num sistema moderno produz-se um vasto conjunto de bens e serviços: carros, aparelhos de TV, casas, roupas, serviços médicos e alimentos - para citar apenas alguns. Uma das maneiras de avaliar o desempenho da economia é através da medição da produção agregada de bens e serviços. É claro que a medida da produção total não nos dá uma visão completa do bem-estar da nação. Quando adquirimos mais e mais bens, não estamos necessariamente tornando-nos mais realizados ou mais felizes. Outras coisas também são importantes, como o sentido de participação que vem de nosso trabalho diários e a qualidade de nosso meio ambiente. Entretanto, o volume total que é produzido é uma das importantes medidas do sucesso econômico.

A grande variedade de produtos feitos coloca-nos um problema: Como iremos agregá-los numa única medida de produto nacional? Como somar maçãs e laranjas?

Quando são usados os preços de mercado, maçãs e laranjas podem ser somadas e comparadas. Podemos, da mesma maneira, somar automóveis, aparelhos TV e o total dos outros bens e serviços para medir o produto nacional a preços de mercado.

Os preços em reais (ou em qualquer outra unidade monetária, como exemplificado constantemente no presente texto) fornecem uma base satisfatória para o cálculo do produto nacional num ano qualquer. Porém, se desejarmos avaliar o desempenho da economia durante vários anos, defrontamo-nos com um segundo problema: a inflação altera o valor do real para menos, e a deflação, infreqüente, o altera para mais.

À medida que os anos passam, o valor de mercado do produto nacional pode crescer por dois motivos bastante diversos. Primeiro, a quantidade de bens e serviços pode aumentar. Este aumento é desejável, uma vez que temos mais bens e serviços à nossa disposição. Segundo, os preços desses mesmos bens e serviços podem aumentar. Este aumento é indesejável, pois mostra o fracasso na batalha contra a inflação. Para julgar o desempenho da economia é essencial separar o incremento desejável na quantidade de produto do incremento indesejável nos preços.

Para fazer isso usamos um índice de preços, o qual mede a inflação. Por exemplo, se o preço de todos os bens e serviços num ano fosse comparado com o preço dos bens e serviços no ano anterior (o ano-base) e tivesse sido calculado como o dobro destes, o índice de preços deveria ser 200. (Por convenção, os índices são dados em percentagens, assinalando-se o ano-base como o valor

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100). Numa situação mais realística, alguns preços aumentam mais rapidamente que outros. Nesse caso, o índice de preços é a média ponderada dos preços.

Uma vez que temos este índice de preços, podemos usá-lo para deflacionar o produto a preços correntes e calcular o produto nacional real a preços constantes. Entre 1970 e 1973 os preços cresceram, em média, 65,90%. Dividindo o PNB nominal de 1973 pelo índice de preços (165,90) e multiplicando por 100 para compensar o uso das percentagens, encontramos o PNB de 1973, medido a preços de 1970, igual a Cr$ 297,67 bilhões de 1970. A maior parte do incremento do produto nacional entre 1970 e 1974 foi causado pelo incremento nos preços; há apenas um pequeno incremento na produção real de bens e serviços.

Na construção de um índice de preços, os bens e serviços são ponderados de acordo com a sua importância no produto total. Suponha que, desde o ano-base, o preço dos barcos dobrou, enquanto o preço dos carros permaneceu constante. Um índice destes dois preços não deveria elevar-se de uma média simples, sem ponderação, de 150. Por quê?

Porque as pessoas gastam 10 vezes mais em carros que em barcos, os carros têm um peso 10 vezes maior que os barcos na construção de um índice, e, assim:

Preço do período-base Preço no Peso Preço X Peso (fixado em 100) período 2

Carros 100 10010 1.0
Barcos 100 2001 200
Total1 1.200

O índice de preços para o período 2 é igual à soma da coluna 4 dividida pela soma da coluna 3, isto é, 1200/1 = 109.

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