Psicologia da Gestalt - WOLFGANG KÔHLER

Psicologia da Gestalt - WOLFGANG KÔHLER

Capítulo 1

Exame do Behaviorismo

Parece haver, para a Psicologia, exatamente como para tôdas as de mai ciências, um único ponto de partida: o mundo tal como o descobri mos de maneira simples e desprovida de crítica. A simplicidade tende a — desaparecer à medida que avançamos. Surgem problemas a princípio completamente ocultos a nossos olhos, para cuja solução pode tornar-se necessário aventar idéias que pouca relação pareçam apresentar com a experiência primária e direta. De qualquer maneira, porém, tudo tem que começar com uma simples e candida imagem do mundo. Essa origem é necessária, já que não existe outro alicerce em que a ciência possa firmar-se. Em meu próprio caso, que pode ser considerado como um exemplo de muitos outros, aquela imagem simples consiste, neste momento, em um lago azul rodeado por florestas escuras; um grande rochedo cinzento, duro e frio, onde resolvi sentar-me; um papel no qual escrevo; o leve ruído da brisa, que mal agita as árvores, e um cheiro forte e característico de barcos e de peixe. Há, porém, mais alguma coisa neste mundo: algo que contemplo, embora sem que se confunda com o lago azul do presente, outro lago de um azul mais apagado, que contemplei alguns anos antes, de sua margem, no Illinois. Estou perfeitamente acostumado a contemplar milhares de imagens desta espécie, que surgem quando me encontro sàzinho. E ainda existem outras coisas neste mundo: por exemplo, minha mão e meus dedos, que se movem de leve sôbre o papel. Além disso, quando paro de escrever e olho em tôrno, há, também, a sensação de saúde e vigor. Logo em seguida, porém, sinto, no íntimo, algo como uma pressão sombria que tende a transformar-se na impressão de que estou sendo 9

perseguido: prometi entregar êstes originais prontos dentro de poucos meses. A maior parte das pessoas vive, constantemente, em um mundo igual a êsse, que é, para elas, o mundo, e dificilmente encontram problemas sérios em suas propriedades fundamentais. Ruas apinhadas de gente podem substituir o lago, o encôsto de um carro substituir meu rochedo, podem ser relembradas em vez do Lago Michigan certos aspectos sérios de algum negócio comercial, e a impressão desagradável pode provir não da necessidade de escrever um livro, e sim de ter que pagar impostos. Tudo isso constitui diferenças de importância secundária, enquanto encaramos o mundo por seu aspecto aparente, que é o que todos nós fazemos, exceto nas horas em que a ciência perturba nossa atitude natural. É claro que há problemas, mesmo para os cidadãos menos dotados de espírito crítico dêste mundo não usado. Em sua maior parte, porém, tais problemas não se referem à natureza do mundo como tal; têm, antes, aspecto prático e emocional, e significam apenas que, admitindo-se como certo êste mundo, não sabemos como comportar-nos na parte do mundo que enfrentamos como nossa situação presente. 1-lá séculos, várias ciências, em particular a Física e a Biologia, começaram a solapar a confiança singela dos sêres humanos no sentido de considerar êste mundo como a realidade. Embora centenas de milhões de pessoas continuem despreocupadas a êsse respeito, o cientista agora verifica encontrar-se tal mundo repleto das mais contraditórias propriedades. Felizmente, conseguiu descobrir, por trás dêle, outro mundo, cujas propriedades, bem diversas das do mundo das pessoas simples, não parecem, de modo algum, contraditórias. Não é de admirar, portanto, que agora, quando a Psicologia começa a transformar-se em ciência, alguns dos seus mais decididos cultores queiram fazê-la seguir, sem demora, o caminho das ciências naturais. De fato, se os cientistas verificaram ser o mundo simples impermeável ao seu método, que melhor esperança de êxito podemos acalentar, como psicólogos? E, uma vez que já foi executada pelos físicos a extraordinária façanha de passar do mundo da experiência direta, mas confusa, para um mundo de clara e rude realidade, pareceria aconselhável para o psicólogo tirar partido dêsse grande acontecimento na história da ciência e tratar de estudar a Psicologia, partindo da mesma base mais sólida. Algumas palavras acêrca da história da crítica científica nos ajudará a definir melhor o material que a Psicologia terá de deixar de lado e indicar como deverá ser feita a escolha de objetos mais adequados. Nossa experiência simples consiste, antes de tudo, de objetos, suas propriedades e transformações, que parecem existir e acontecer de maneira de todo independente de nós. No que lhes diz respeito, nao parece ter importância o fato de nós os vermos, apalpá-los e ouvi-los, ou não. Quando não estamos presentes ou nos encontramos ocupados com outros objetos, êles, aparentemente, continuam tais como eram,

quando lhes dávamos plena atenção. Em tais circunstâncias, constituiu grande progresso o fato de o homem começar a fazer indagações sôbre a natureza da vista, do tato e da audição. E ocorreu uma verdadeira revolução quando descobrimos que as côres, os ruídos, os cheiros, etc. não passavam de produtos de influências exercidas pelo ambiente sôbre o homem. Ainda assim, êsse ambiente parecia subsistir com suas características primárias, continuando a ser “o mundo real”. Subtraídas aquelas qualidades secundárias, como ingredientes puramente subjetivos, permaneciam as qualidades primárias, aparentemente tomadas como características diretas da realidade. Finalmente, porém, as qualidades primárias da rea1idade singela mostraram-se tão subjetivas quanto as secundárias: a forma, o pêso e o movimento das coisas tiveram de ser interpretados da mesma maneira que as côres e os sons; também êles dependiam do organismo que os experimentava e eram meros resultados finais de complicados processos no seu âmago. Que restou? A resposta foi que, daí para diante, nenhum aspecto da experiência imediata poderia ser considerado como parte do mundo real. Se, assim, tanto as características primárias quanto as secundárias do mundo conhecido pela experiência derivavam de influências que o ambiente exercia sôbre o organismo, êste ambiente já não poderia ser identificado como o meio experimentado pelo homem, O meio experimentado pelo homem constitui o efeito de tais influências, e não pode, pois, ao mesmo tempo, ser considerado como as causas originadoras de tais influências. Assim sendo, a ciência teve de construir um mundo objetivo e independente, de coisas físicas, espaço físico, tempo físico e movimento físico, e de afirmar que tal mundo não aparece, de modo algum, na experiência direta. Devemos observar, aqui, que o mesmo raciocínio se aplica ao organismo. Por um lado, nosso corpo se apresenta a nós como uma coisa particular na experiência sensorial. Por outro lado, essa experiência sensorial particular é causada por acontecimentos físicos ocorridos no objeto físico que chamamos de nossop organismo. Sàmente o corpo como parte da experiência sensorial nos é diretamente accessível. Só temos conhecimento do organismo, como de tôdas as outras coisas físicas, através de um processo de inferência ou construção. Meu organismo reage ante a influência de outros objetos físicos, mediante processos que mantêm o mundo sensorial em tôrno de mim. Outros processos no organismo fazem surgir a coisa sensorial que chamo de meu corpo. Também aqui, outros são responsáveis pelo aspecto interior de minha experiência, por sensações como as de fome e fadiga, por emoções como as de mêdo e esperança, etc. Não precisamos considerar como o mundo da ciência, que não aparece na experiência direta, pode, não obstante, ser investigado pelos físicos. Não pode haver dúvida quanto ao notável êxito do processo. Ao passo que o mundo do homem simples é algo de confuso e revela seu caráter subjetivo em qualquer exame crítico de suas propriedades, no mundo

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dos físicos não são toleradas quaisquer confusões ou contradições. Embora possam surpreender-nos as rápidas transformações que as teorias físicas sofrem em nossos dias, o fato é que, em sua maior parte, tais transformações se fazem para melhor. Segundo tudo indica, é de se deduzir que todos os fatos importantes do mundo físico acabarão sendo incluídos em um sistema de conhecimento claro e unitário. Voltemos agora à Psicologia. Durante algum tempo, concebeu-se essa disciplina como a ciência da experiência direta, de seus aspectos externos e internos, em contraste com os objetos e ocorrências físicas. Pela descrição da experiência direta, o psicólogo esperava chegar não sàmente a um levantamento metódico de tôdas as suas variedades, como também a boa dose de informações acêrca das relações funcionais entre tais fatos. Visava, mesmo, a formular as leis que regem o curso da experiência. Esta concepção de Psicologia tem sido severamente criticada pela escola psicológica do behaviorismo, que condena tanto o objeto quanto o objeto da Psicologia no velho sentido. De acôrdo com o behaviorismo, não é possível chegar-se a um levantamento convincente da experiência direta, nem se chega a coisa alguma com a tentativa de descrever as relações entre suas variedades, ou de formular as leis da chamada “vida mental”. Evidentemente, sustenta o behaviorismo, não existe uma ciência de experiência direta, dispondo de métodos claros e resultados dignos de confiança. Discussões infindáveis a respeito de questões de pequena importâncía, e, com menos freqüência, a respeito de questões de maior importância, não podem ser aceitas como sucedâneo, particularmente tendo-se em conta que os fatos da experiência, que deveriam ser os mesmos para todos, são descritos de maneira de todo diferente pelos diferentes autores. Vejamos o exemplo das imagens. Um psicólogo afirma tê-las em grande número, muitas delas quase tão vivas e concretas como percepts. Outros nos dizem que, em sua experiência direta, não ocorre tal coisa e que aquêle primeiro psicólogo deve ter-se deixado enganar pelas palavras ou outros fenômenos motores, relacionados com objetos não realmente presentes na experiência. Se em um simples caso como êste, a introspecção não pode dar melhor resultado, que devemos esperar em questões de maior importância, mas onde também se apresenta maior dificuldade intrínseca? Na realidade, os próprios partidários da introspecção não parecem confiar em seu processo. Aparentemente, mostram-se inclinados a enfrentar os problemas importantes com a maior raridade possível e a se ocuparem principalmente, no campo da sensação, com pormenores que não interessam a ninguém, a não ser a êles próprios. Se o próprio objetivo anunciado é o de nos apresentar uma ciência de experiência direta, naturalmente seria de esperar que tal concepção fôsse aplicada, de pronto, na abordagem direta dos aspectos centrais do objeto do estudo. No entanto, apenas sua periferia é timidamente aflorada. Também nos países europeus, de há muito passou a ser motivo de galhofa a preocupação dos psicólogos em discutir futilidades. E engraçado ver como, no caso, por 12

exemplo, de uma simples comparação como acontecimento psicológico, centenas de páginas foram gastas na descrição de experiências diminutas, ao passo que jamais se dava uma explicação sôbre a ocorrência e a exatidão da própria comparação. Mesmo em estado de perplexidade, uma ciência pode ser altamente interessante. Essa versão da Psicologia, porém, não se mostrou apenas inteiramente falha, como se tornou maçante para todos aquêles que não fizeram dela sua profissão. Os behavioristas costumam acrescentar que a insistência na introspecção está estreitamente relacionada com uma prevenção filosófica. Estejamos ou não conscientes do fato, em seu afastamento do mundo da física o conceito da experiência direta está claramente relacionado com noções tais como mente e alma. Sub-repticiamente, a expressão refere-se às atividades de uma substância mental a que não se aplicam as leis da Física e da Biologia. Em conseqüência, muitas e muitas superstições de origem religiosa ou metafísica tiveram facilidade de se esconder dentro da significação do conceito. Quando criança, o psicólogo ouviu falar muito a respeito da alma e de seus milagrosos podêres, e tudo isso ainda sobrevive em suas afirmações, acêrca da experiência direta, fazendo de sua introspecção uma simples defesa do obscurantismo medieval. Se fôsse êste o único argumento contra a introspecção, os psicólogos filiados a tal escola poderiam retrucar que a crítica não se aplica às características da experiência direta em si mesma, mas apenas a certo perigo, do qual nem todos os psicólogos partidários da introspecção podem estar suficientemente cientes, O remédio, em tal caso, seria maior autocrítica, acompanhada da cuidadosa eliminação das influêncías religiosas ou filosóficas que se fazem sentir sôbre os estudiosos de psicologia. Tais providências representariam, ao mesmo tempo, gestos apaziguadores para com o behaviorismo rigorista. Os adeptos desta escola, contudo, têm outros motivos para não aceitar a experiência direta como campo de pesquisa científica. Em primeiro lugar, falta à introspecção, como processo, a principal virtude metodológica do trabalho na física: achar-se o observador situado fora do sistema que observa. A introspecção e seus objetos são fatos que se situam dentro do mesmo sistema, sendo diminuta a possibilidade de que a primeira não afete os segundos. Pode servir de exemplo, a êsse respeito, qualquer esfôrço para se estudar a dor ou a alegria por meio da introspecção. Se é feito o esfôrço adequado, tais experiências não permanecem as memas; ao contrário, tendem a desaparecer, quando a própria pessoa prêsa da dor ou da alegria tenta assumir uma atitude de introspecção. Mesmo, porém, se tal dificuldade pudesse ser superada, de acôrdo com os partidários do behaviorismo, continuaríamos a verificar a inutilidade do método, em virtude de seu mesquinho e inevitável subjetivismo. Qual a principal característica de uma afirmação objetiva que formula o resultado de observações científicas? Quem quer que se

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interesse pela afirmação, poderá ser forçado a aceitá-la como tendo uma significação precisa. Para êsse fim, apenas precisamos apresentar as definições exatas dos têrmos que empregarmos. Assim, há definições exatas para o pêso atômico e para o número atômico de um elemento, bem como para a analogia e a homologia das estruturas morfológicas. Não há físico ou biólogo que não conheça a significação exata dessas palavras. Ouçamos, porém, os psicólogos que falam, por exemplo, acêrca da indistinção característica da visão periférica. Que acepção exata pode ser atribuída a essa palavra, enquanto não fôr ela exatamente definida? Tal def inição, no entanto, afigura-se impossível, sempre que tenhamos de nos haver com os dados finais da experiência direta. Se pedirmos ao psicólogo uma definição de indistinção, êle procurará definir a expressão, negativamente, como falta de clareza. Isso, porém, de pouco nos vale, uma vez que temos de indagar ao psicólogo o que êle entende por clareza. Talvez êle nos responda que a clareza é uma propriedade normal da parte central de um campo visual adequado. Infelizmente, tal campo terá mais de uma propriedade normal e na pseudodefinição do psicólogo não é apresentada di/erentia specifica, e além disso o vocábulo “adequado” exige uma definição, tanto como indistinção e clareza. Seja como fôr, o psicólogo lançou mão, em tal caso, do único recurso cabível quando, como se dá no campo da experiência direta, não se pode chegar a uma definição de verdade: limitou-se a apontar para uma determinada direção. Quando não podemos definir um têrmo, podemos dar uma indicação sôbre as condições nas quais a coisa em questão pode ser experimentada. No caso de outros compreenderem as palavras, mediante as quais são descritas tais condições, êstes outros poderão ajustar o têrmo indefinido ao aspecto de sua própria experiência, ao qual o têrmo em questão está realmente destinado a referir-se. Quanto é, porém, grosseiro e vago tal processo, em comparação com a elegância das definições da ciência exata! E ainda assim, temos de presumir que, dadas as mesmas condições, uma pessoa que não possa conhecer mais do que a sua própria experiência, nela encontrará sempre as memas características, objetos e ocorrências que outra pessoa encontra na sua. Dois físicos diferentes podem fazer afirmações a respeito do mesmo fato. Podem, por exemplo, proceder a leituras no mesmo aparelho ou escala. No caso da experiência direta, porém, duas pessoas têm sempre dois fatos em duas experiências distintas. Qual a prova de que dispomos para presumir que, em determinadas condições, os dados finais da experiência são os mesmos para diversas pessoas? Infelizmente, jamais poderemos saber se tal é, realmente, o caso. De um lado, o daltonismo e outros fenômenos semelhantes mostram, conclusivamente, que tal concordância não é a regra geral. Por outro lado, não temos prova da concordância, mesmo no caso em que tôdas as experiências imagináveis apresentam resultados idênticos, tais como relatórios verbais exatamente iguais. Uma pessoa pode informar sempre que se trata de “vermelho”, onde

outra pessoa também afirma tratar-se de “vermelho”, mas, ainda assim, só sabemos que a primeira pessoa se refere a uma qualidade constante onde a segunda pessoa se refere sempre ao vermelho. Não podemos saber se a primeira pessoa distingue a mesma qualidade que é chamada de vermelho pela segunda pessoa. E nem nos vale o fato de aquilo que uma pessoa chama de vermelho apresentar o mesmo caráter excitante encontrado por outra pessoa naquilo que chama de vermelho, pois é possível que as duas não empreguem o vocábulo “excitante” no mesmo sentido e tenham, realmente, experiências diferentes, embora suas expressões sejam as mesmas. Assim é o subjetivismo em sua forma extrema. Se cada um de nós tem a sua própria experiência direta, e está irremediàvelmente excluído da experiência de tôdas as demais pessoas, essa experiência é um assunto particular de cada um de nós e não é possível, baseando-se nela, criar-se uma ciência. Na verdade, se tão pouca coisa se pode tirar da experiência direta de um homem, no que diz respeito às experiências semelhantes em outros homens, é lícito irmos ainda mais longe e indagarmos se mesmo nossos melhores amigos têm qualquer experiência direta. Realmente, tudo o que vemos ou ouvimos, quando conversamos com êles, faz parte de nossa própria experiência. O que, em nossa experiência, parece ser, por exemplo, a voz dêsses amigos, é, antes de mais nada, o resultado de fenômenos físicos nos músculos de suas bôcas e gargantas, que devem ser compreendidos do ponto de vista da pura física e fisiologia. Se assim é, como podemos saber que, em nossos amigos, tais fatos são acompanhados pela experiência direta? Os adeptos do behaviorismo podem acrescentar que não negam certas contribuições que, antes do seu tempo, as velhas formas de Psicologia prestaram ao progresso dessa ciência, mas também dirão que, quando estudamos tais realizações, sob o ponto de vista atual, constatamos fàcilmente um fato: que quase tôdas elas foram alcançadas, não graças à introspecção e à descrição, mas sim à experimentação objetiva. A significação desta palavra é tão evidente em psicologia quanto na ciência natural. Em lugar de convidarmos um indivíduo a observar e descrever sua experiência direta, nós o colocamos em uma situação bem definida, à qual êle reagirá de um modo ou de outro. Podemos, então, observar e medir essas reações, sem que êle nos ofereça qualquer descrição de suas experiências. Foi dêsse modo que a Lei de Weber se descobriu; foi essa a espécie de experiência graças à qual Fechner transformou a Psicologia em uma ciência experimental; através de pesquisas dêsse tipo, com a ausência quase completa de introspecção, foram investigadas a memória e a formação dos hábitos, e, da mesma maneira, Binet e Simon mediram, pela primeira vez, inteligências individuais. Atualmente, mesmo os adeptos da introspecção sômente nos oferecem descrições de côres e tonalidades, prazeres e volições, quando não encontram um método mediante o qual a descrição seja substituída por medições objetivas. De fato, o adepto da introspecção, individualmente, mostra-se

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disposto a aceitar as descrições apresentadas por um correligionário, até o ponto exato em que êste outro tenha conseguido confirmar suas descrições com dados mais objetivos. Que vantagem tem, então, a utilização da experiência direta e da descrição? Partindo dessa crítica, nem todos os partidários do behavorismo chegam às mesmas conclusões concernentes à experiência direta como tal. É verdade que nenhum, pode-se dizer, considera a experiência direta como de interêsse para a ciência, uma vez que a mesma, como assunto particular de indivíduos, não é accessível à observação objetiva, e portanto científica, feita por outros. Apenas uns poucos membros da escola chegam ao ponto de negar de todo a existência da experiência direta, odiando evidentemente, a própria idéia. Essas pequenas divergências de opinião, contudo, não têm importância particular. No que concerne ao método, todos os adeptos do behavorismo sustentam as mesmas opiniões negativas e positivas. A êsse respeito, seu programa é mera conseqüência dos argumentos antes expostos. Com sua experimentação objetiva, o psicólogo se colocou, de maneira tácita, no terreno estritamente científico. Sua única debilidade consiste no fato de que êle ainda não se tornou plenamente consciente da diferença, em princípio, que há entre as técnicas exatas e o agrupamento meramente sub jetivo. Os físicos e os químicos mostram-se interessados em saber de que maneira um sistema que está sendo investigado reagirá, quando exposto a determinadas condições; também indagam como a reação se transforma, quando as condições são modificadas. Ambas as indagações são respondidas pela observação e medição objetivas. Ora, esta é também precisamente a forma adequada de pesquisa em Psicologia: um sujeito de certo tipo (criança, adulto, homem, mulher ou animal) é escolhido como o sistema a ser investigado. São asseguradas e controladas de maneira objetiva certas condições, as mais importantes das quais são as que se referem ao estímulo externo. A reação do sujeito, resultante da experiência, é registrada ou medida exatamente como o são as reações de sistemas na Física ou na Química. Assim, a única coisa que os psicólogos têm de reconhecer agora é que sàmente tal processo poderá ser útil à consecução de qualquer objetivo útil em seu campo. O comportamento, isto é, a reação dos sistemas vivos aos fatôres ambientes, é o único assunto referente ao sujeito que pode ser investigado na Psicologia científica; e o comportamento de modo algum envolve a experiência direta. O trabalho experímental do futuro estudará mesmo as formas mais elevadas de comportamento, de maneira puramente objetiva. Isso deve acontecer, porque a experiência direta não ocorre apenas em certo ponto de uma experiência real. Para alguns, esta verdade é um tanto obscurecida pelo fato de que, em muitas experiências, as reações da linguagem se mostram de alguma importância. Se o próprio experimentador desfruta o que êle chama experiência direta, e se tal experiência abrange grande número de coisas associadas com palavras, êle se mostrará inclinado

a considerar as palavras de seu sujeito como sinais de experiências semelhantes por parte daquela pessoa. Não obstante, tais palavras podem ser consideradas como reações do sujeito, e, como tais, são fatos físicos puramente objetivos, produzidos por certos processos na laringe e na bôca do sujeito. Embora o experimentador saiba que outros processos objetivos, como os da enervação, ocorrem antes que certos músculos produzam as palavras, como seqüência de ondas sonoras, a razão o aconselha a não ir mais além. De acôrdo com nossa análise, êle jamais saberá se alguma experiência direta acompanha aquêles processos. Convém, talvez, que nos disciplinemos de maneira a usar com menos freqüência as reações da linguagem na experimentação psicológica, até que seja, afinal, afastado o perigo de associar a linguagem com a experiência direta, e a introspecção tenha desaparecido da psicologia como ciência. Naturalmente, nem tôdas as reações de um sujeito podem ser observadas objetivamente com a mesma facilidade. Algumas vêzes, mesmo fortes estímulos não produzem um comportamento patente, que possa ser registrado externamente, com os métodos atuais. Na maioria dêsses casos, contudo, podem ser obtidas informações altamente valiosas dos fisiologistas que estudaram as funções da parte autônoma do sistema nervoso e as reações subseqüentes nos órgãos viscerais mais importantes, inclusive nas glândulas endócrinas. Uma das principais tarefas da Psicologia será a de criar e adotar técnicas exeqüíveis, até que tais reações viscerais possam ser registradas com tôda a facilidade. Também temos motivo para presumir que aquilo que os partidários da introspecção chamam de “pensamento” consiste realmente de pequenas enervações a que são submetidos, no momento, os músculos ligados às reações verbais. - Espero ter, até aqui, apresentado um resumo correto das opiniões predominantes entre os adeptos do behavorismo. Deve ser exato, uma vez que, sob vários aspectos, simpatizo com essas opiniões e não acalento grande entusiasmo pela introspecção, que aqui foi criticada. Em grande parte, a introspecção corrente mostra-se bastante estéril. Em estranho contraste com suas pretensões, desvia a pesquisa de problemas mais urgentes. Veremos, mais tarde, se se trata de uma propriedade intrínseca da introspecção ou se isso é apenas uma conseqüência de erros partícularmente freqüentes entre os partidários da introspecção. Presentemente, temos diante de nós um problema mais simples. Nas ciências naturais, observa o adepto do behavorismo, os métodos dizem respeito à realidade objetiva, ao passo que a introspecção da experiência direta se é que existe tal coisa — diz respeito a algo inteiramente subjetivo. Será isto verdade? Será êste o verdadeiro motivo de terem as ciências naturais conquistado a admiração do mundo, ao passo ue a Psicologia ainda se encontra em estado embrionário? Não posso admitir. Parece-me que, surgindo com um admirável entusiasmo pela

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exatidão, o behavorismo se enganonu inteiramente nesse ponto e, em conseqüência, a energia despendida objetivando qualquer utilização da experiência direta foi aplicada errôneamente. De fato, seja o que fôr que possa ter acontecido durante o desenvolvimento individual de nossos argutos partidários do behavorismo, no que diz respeito a mim mesmo, tenho a narrar o que se segue e que nos traz de volta ao nosso ponto de partida. Em criança, conheci a experiência direta antes que pudesse mesmo imaginar um mundo que se situasse inteiramente além dela, como o da Física. Naquele tempo, naturalmente, não conhecia eu a expressão “experiência direta”, e ela não poderia ter, para mim, qualquer significação, enquanto não tomei conhecimento do mundo físico, com o qual ela se contrastou. Em meu mundo original, intímeras variedades de experiências mostraram-se inteiramente objetivas, isto é, existindo ou ocorrendo externa e independentemente. Outras experiências pertenciam-me, pessoal e particularmente, e eram subjetivas: como, por exemplo, um mêdo terrível em certas ocasiões e uma felicidade calorosa e dominadora, por ocasião do Natal. Nos próximos capítulos, trataremos principalmente da experiência objetiva. Esta expressão, porém, pode fàcilmente ser mal entendida. Procurarei, portanto, esclarecer sua significação de maneira mais precisa. Assim fazendo, correrei, mesmo, o risco de repetir certos argumentos, porque êste é o ponto em que surgem, em sua maior parte, as dificuldades que temos de enfrentar. A palavra “experiência” indica que, embora se mostrando como objetivas, as coisas que me rodeam foram, na realidade sentidas, como se fôssem dadas “em minha percepção”. Nesse sentido, elas ainda continuariam a ser subjetivas. Não se trata disso, porém. Aquelas coisas encontravam-se simplesmente do lado de fora. Não tenlíó suspeita alguma de que elas sejam apenas os efeitos de outra coisa sôbre mim. Devo ir adiante. Nem se pode mesmo conceber que tais coisas dependam da minha presença, que eu tenha de conservar os olhos abertos, etc. Tão absolutamente objetivas são essas coisas que não foi deixado lugar para um mundo mais objetivo. Agora mesmo, sua objetividade é tão forte e natural que me vejo constantemente tentado a atribuir ao seu interior certas características que, de acôrdo com os físicos, constituem fatos do mundo físico. Quando, nestas páginas, eu empregar a expressão “experiência objetiva”, será sempre nesse sentido. Por exemplo: em uma experiência objetiva, uma cadeira será sempre algo externo, sólido, estável e pesado. Em nenhuma circunstância se tratará de algo meramente percebido ou de um fenômeno, de algum modo subjetivo. Entre alguns casos, é verdade, a discriminação entre os aspectos objetivo e subjetivo da experiência direta pode tornar-se duvidosa, como é o caso da pós-imagem ou da picada de uma agulha no dedo. Isto não torna a discriminação menos importante. Façamos uma comparação com um exemplo tirado das ciencias naturais: na Física, a distinção entre as substâncias condutoras de

eletricidade e as isolantes tem grande valor, embora entre o extremos se encontrem muitos casos intermediários. No caso que tratamos, o ponto princi.. pai é o fato de que, com relação às coisas, seus movimentos etc., alcança..ge a mais elevada objetivida Repetindo: quando comecei a estudar Física, não aprendi apenas noções referentes ao mundo físico. Outra lição ligou-se, necessàrjamen te, àquele estudo: travei conhecimento com unia maneira de pensar na qual a expressão experiência direta adquiria seu significado o mundo físico podia não ser idêntico ao mundo objetivo que eu tinha, constan. temente, em tôrno de mim. Melhor ainda: aprendi que os objetos físicos influen-ciam um sistema físico particu1aeflte interessante, meu organismo, e que minha experiência objetiva surge quando, como conseqüência certos processos complicados ocorrer em tal sistema. Evidentemente, compreendi que não poderia identificar os produtos finais, as coisas e fenômenos de minha experiência com os objetos físicos dos quais procediam as influências. Se um ferimento não é a arma de fogo que lançou o projétil, isto quer dizer que as coisas que tenho diante de mim, que vejo e apalpo, não podem ser idênticas aos objetos físicos correspondentes estes objetos apenas provocam certas alterações dentro de meu organismo físico, e os produtos finais dessas alterações são as coisas que contemplo no meu campo visual ou que apalpo com os meus dedos. Não deixa de ser verdade, porém, que as coisas, neste Último sentido, foram os primeiros objetos que conheci. Além dísso, compreendo agora que jamais poderia conhecer diretamente quaisquer outros objetos tais como os do mundo físico. É claro que as características do mundo físico só poderiam ser investigadas como uni processo de inferência ou interpretação, por mais necessária que a interpretação pudesse ser. Era em contraste com êste mundo, o interpretado, que o mundo diante de mim poderia agora ser chamado de mundo de experiência direta. Mas como posso dizer que uma cadeira, por exemplo, é uma experiência objetiva, se tenho que admitir que ela depende de certos processos de meu organis A cadeira não se torna subjetiva sob êste aspecto? Torna.se e não se torna. Neste momento mesmo, mudamos a significação dos t&mos “subjetivo” e “objetivo”. No parágrafo anterior, “objetivo” denotava uma característica que, em contraste com outras, algumas partes da minha experiência possuem em si mesmas (exatamente como têm tamanho, côr, solidez, etc.). Como, porém, tem sido usado até agora, o têrnio “subjetivo” refere-se à dependência genética 1 Já vimos que a mesma obseaçào se aplica às relações entre o nOSSO organismo como Sistema ffsio e noeso corpo como fato perceptivo Meu corpo O resultado de certos proceesos em meu organj0 fisico, proceSSo Que começa nos Olhos. rnúscj,5 epiderme, etc., exatsmente como a cadeira Que temos diante dos OlhOs 4 o produto final de outros Processos no mesmo organism0 fisic. Se a cadeira é Vta “diante de mim”, o “mim» desta frase refere-ss naturalmente ao meu Corpo Como experiência não ao meu organismo Como objeto do mundo físico. Os Própsj PSICÓlOgO, nem sempre parecem encarar êsse Ponto com Perfeita Clareza.

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de tôda experiência para com meu organismo físico. Neste último sentido, o subjetivismo não é, em si mesmo, um atributo experimentado, mas antes uma relação que atribuímos a tdas as experiências e, portanto, também às objetivas, já que aprendemos a considerá-las como resultados de processos orgânicos. Com muita freqüência, são dois significados da expressão confundidos da maneira mais lamentável, como se o que é genèticamente subjetivo também tivesse de aparecer como subjetivo na experiência. Alguns psicólogos adeptos da introspecção, por exemplo, mostram-se inclinados a achar que, a rigor, a cadeira que tenho diante de mim deve ser um fenômeno subjetivo, que só aparece diante de mim como conseqüência da aprendizagem ou interpretação. Por outro lado, como não se pode encontrar tal cadeira subjetiva, os partidários do behaviorismo zombam dos adeptos da introspecção, por viverem em um mundo de fantasmas imaginários. A simples verdade é que algumas das experiências, que dependem de processos em meu organismo, têm o caráter objetivo, ao passo que outras, que dependem de processos diferentes no mesmo organismo, têm o caráter subjetivo, liste contraste nada tem a ver com o subjetivismo genético de ambos os tipos de experiência, isto é, com o fato de ambos dependerem de fenômenos que ocorrem dentro do organismo. Espero que, depois disso, se tornem impossíveis mal-entendidos a respeito da expressão “experiência objetiva”. Quando falo a respeito de uma cadeira, refiro-me à cadeira de minha vida quotidiana e não a um fenômeno subjetivo. Por outro lado, como já vimos, a cadeira da experiência objetiva não pode ser identificada com a cadeira como parte do mundo do físico. Ora, como o mundo da experiência direta foi o primeiro que conheci, e como tudo que sei a respeito do mundo físico foi, posteriormente, inferido de certos fenômenos do mundo experimentado, como poderia eu ignorar o mundo experimentado? Afinal de contas, êle contínua a ser a única base de que disponho para as minhas suposições a respeito dos fatos físicos. Se quiser, poderei, sem dúvida, levantar a questão de saber se, em um certo sentido, o mundo físico não será o mais importante. Mesmo, contudo, que eu deva admitir tal fato, do ponto de vista do conhecimento ou da comunicação, o mundo experimentado é anterior ao da física. Além disso, a única maneira de que disponho para investigar as realidades físicas consiste em observar experiências objetivas e delas tirar as conclusões adequadas. Na realidade, com o progresso da Fisiologia poderemos descobrir os processos nervosos que ligam nossas observações às nossas conclusões e apresentarmos, assim, uma teoria física daqueles fenômenos. Ainda nesse caso, porém, como o mundo da Fisiologia faz parte do mundo físico, jamais se tornará diretamente accessível a nós. Qualquer progresso que possamos alcançar na Fisiologia dependerá das observa. ções do que chamamos corpo através de experiência perceptiva direta. Se ouvirmos os adeptos do behaviorismo, teremos a impressão de que

os mundos físico e fisiológico, em si mesmos, são diretamente conhi dos e que, no caso dêles, partidários do bebaviorismo o conhecimento nada tem a ver com a experiência direta. A verdade é que não posso modificar esta descrição do meu próprio caso, no qual não há acesso direto aos fatos físicos e fisiológicos. Com êste defeito, é claro que considero tremendamente difícil tornar-me adepto do behavjorismo Que dizer, então, da afirmação daquela escola no sentido de que, na física, a observação trata da realidade objetiva, ao passo que, no caso da experiência direta, trata com algo desprovido de valor científico? Descreverei minha própria maneira de proceder, quando investigo as propriedades de um corpo físico ou químico. Há, nesta mistura de substâncias químicas, uma quantidade considerável de H4C2O2p Estou ciente da presença da mistura, graças a certas experiências objetivas que tenho diante de mim e encontro a resposta afirmativa à pergunta cheirando, isto é, por meio de mais uma experiência direta. Como se trata de um processo bastante grosseiro, consideremos um caso de medição rigorosa. Qual é a intensidade da corrente elétrica que, em determinadas condições, passa por aquêle fio? A posição de um ponteiro na escala de um certo aparelho m dá a resposta, do ponto de vista visual, pois o aparelho faz parte de meu campo visual, exatamente como o fio e as determinadas condições se apresentam como parte da experiência objetiva. O mesmo se dá no que diz respeito a tôdas as afirmações e medições que alguma vez eu possa fazer no campo físico. Minhas observações dos fatos físicos permanecem sempre na mesma classe geral como as que se referem às pós-imagens, à indistinção que encontro na visão periférica ou à sensação de me sentir bem. Assim, a exatidão de minhas observações físicas não pode ser atribuida à alegada abstenção de experiência direta nas pesquisas físicas. Não me abstenho da experiência díreta quando faço observações na Física; na verdade, não posso abster-me. No entanto, o processo dá bons resultados Assim, pelo menos algumas observações que se referem à experiência direta devem constituir uma base perfeitamente adequada para a ciência. Se tôdas as afirmações concretas que posso fazer a respeito das pesquisas físicas baseiam-se primordialmente em observações dentro do campo da experiência evidenciam..se algumas conseqüências inevitáveis. Como definir minhas expressões quando atuo como físico? Como meu conhecimento da Física Consiste inteiramente de idéias e observações contjdas na experiência direta ou dela derivados, tôdas as expressões de que eu me utilizar nessa ciência terão, afinal, que refletir à mesma fonte. Se eu procurar definir tais expressões, minhas definições, naturalmente irão referir-se a novas idéias e expressões. Em última análise, porém, o processo consistirá sempre em apontar em direção a certas experiências às quais estou-me referindo, e sugerir onde devem ser feitas certas observações Mesmo as mais abstratas

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concepções da Ffsica, tal como a da entropia, serão destituídas de sentido sem uma referência, ainda que indireta, a certas experiências diretas. Eu jamais poderia apresentar uma definição de têrmos, na Física, ou compreender tal definição, quando apresentada por outros, se, a êsse respeito, ela diferisse das definições que emprego em Psicologia. Também a êsse respeito, contudo, o método da Física é eficiente. Jamais tive dificuldade em compreender definições, quando converso com físicos a respeito de sua ciência. Assim, algumas definições que, em última análise, se referem à experiência direta, devem ser suficientemente rigorosas, uma vez que são usadas em uma ciência exata. A exatidão das definições na Física não pode resultar do suposto fato de que, nessa ciência, as definições são independentes da experiência direta, uma vez que não existe tal independência. Os adeptos do behaviorisnio, porém, afirmam que a observação da experiência direta é assunto particular de indivíduos, ao passo que dois físicos podem fazer a mesma observação: em um galvanômetro, por exemplo. Não concordo com esta afirmativa. Mesmo do ponto de vista do behaviorismo, ela é incorreta. Quando alguém observa um galvanômetro, observa algo diferente do galvanômetro como objeto físico, pois o objeto de súa observação é o resultado de certos processos orgânicos, dos quais apenas o comêço é determinado pelo próprio galvanômetro físico. Com a segunda pessoa, o galvanômetro observado é, também, apenas o resultado físico de tais processos, que, dessa vez, ocorrem no organismo daquela segunda pessoa. De modo algum, portanto, as duas pessoas observam o mesmo instrumento, embora, do ponto de vista físico, ou processos, em um e outro caso, se iniciem com o mesmo objeto físico. No entanto, na maioria dos casos, as ínformações das duas pessoas sôbre a observação coincidem a tal ponto que elas jamais se preocupam em saber se pode ser tida como certa uma suficiente semelhança de seus dois galvanômetros experimentados e de ambos com o objeto físico. Ainda desta vez, o processo é eficiente. O particularismo da experiência direta não preocupa quem quer que seja — na Física. Quando trabalha com outros em tais casos, cada físico está simplesmente convencido de que seus colegas “têm aquêle galvanômetro diante dêles”. Dêsse modo, admite, tàcitamente, que seus colegas dispõem de experiências objetivas bem semelhantes às suas próprias experiências, e não hesita em aceitar as informações daqueles colegas como afirmações a respeito de tais experiências. De acôrdo com os adeptos do bebaviorismo, isso, naturalmente, quer dizer que o físico permite que os assuntos particulares se imiscuam na ciência exata. É curioso observar que isso não se mostra, de modo algum, prejudicial ao procedimento científico, do mesmo modo que não prejudica as necessidades da vida quotidiana, onde ocorre a mesma atitude, geral e naturalmente. Em alguns casos, portanto, a crença nas experiências específicas de outrem não deve ser de modo algum prejudicial e não pode ser considerada como obstáculo ao progresso da

ciência. Assim, não pode ser por causa de tal crença que a Psicologia não está progredindo com maior rapidez. Resta uma conseqüência do fato de que a observação, na Física, se situa dentro do campo da experiência direta. Da mesma maneira que um físico que observa seu aparelho, não receio que minha atividade como observador tenha qualquer influência séria sôbre as características do que observo, contanto que eu me mantenha, como um sistema físico a distância suficiente do aparelho, que representa outro sistema físico. No entanto, como experiências diretas, ambos os aparelhos a serem observados e minha atividade de observação dependem de processos do mesmo sistema, isto é, meu organismo. Também a êsse respeito o adepto do behaviorismo deve estar equivocado, quando afirma que, devido à inclusão, em um só sistema, do observador e dos fatos observados, a observação da experiência direta não tem valor científico. De fato, no caso da observação física, a situação é semelhante: o material a ser observado e o processo de observação pertencem ao mesmo sistema. Vemos, assim, que o físico e o psicólogo se encontram, mais uma vez, exatamente na mesma situação. Não importa, de modo algum, que eu me considere físico ou psicólogo, quando observo um galvanômetro. Em ambos os casos, minha observação se dirige à mesma experiência objetiva. O processo é eficiente na física. Por que não deveria ser usado na psicologia? Deve haver alguns casos em que a observação de fatos no campo da experiência direta não prejudica sèriamente tais fatos. Sem dúvida, êste argumento implica considerável limitação da amplitude de sua própria aplicação. Não quer dizer que sejam justificáveis tôdas as formas da chamada introspecção, e significa ainda menos que os resultados da introspecção sejam, em geral, inteiramente independentes da atividade daquele que executa a introspecção. A êsse respeito, a posição crítica do behaviorismo apenas exagerou a amplitude de um argumento correto, aplicando-o inadequadamente a tôdas as afirmações referentes à experiência direta. O ponto crítico, em si mesmo, é bem apreciado em muitos casos. Já mostrei como, mesmo na qualidade de físico, temos de atuar com a experiência direta. Sem dúvida, um extremista tal como o adepto do behaviorismo poderia tirar dessa afirmativa algumas dúvidas quanto ao objetivismo dos métodos seguidos no estudo da física. Felizmente, tais dúvidas não tinham ainda surgido quando, nos tempos de Galileu, Newton e Huyghens, a Física deu os primeiros passos de real importância. Aquêles grandes investigadores limitaram-se a trabalhar, pragmática e cândidamente, e, por felicidade, não foram perturbados por algum físico partidário do behaviorismo, que teria barrado todo o progresso por amor da pureza epistemológica. O processo deu bons resultados, embora tivesse sido, por vêzes, tarefa difícil justificar seus passos por motivos lógicos. As ciências que pretendem levar a cabo suas pesquisas de maneira eficaz geralmente mostram um saudável desdém por tais

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escrúpulos. Seria preferível para a Psicologia, depois de ouvir tôda uma vigorosa lição de crítica do behaviorismo, que também voltasse ao seu trabalho com mais simplicidade e utilizasse técnicas susceptíveis de dar bons resultados. Como atitude científica, parece.me bem estranho o ruidoso ataque do behaviorismo à experiência direta. Os adeptos daquela escola não demonstram, em geral, demasiado interêsse por considerações de ordem epistemológica. É apenas um ponto que, de súbito, chama sua atenção: “Que posso saber sôbre a experiência direta de outrem? Jamais terei uma prova definitiva da validade de tal conhecimento. Na Física, porém, a questão é diferente. Ali, estamos a salvo”. O adepto do behaviorismo esquece-se de que provar a existência de um mundo físico independente é quase tão difícil quanto nos certificarmos de que outras pessoas têm experiências. Se eu fôsse um purista extremado, poderia pôr em dúvida o primeiro ponto, exatamente como os adeptos do behaviorismo refutam a presunção da experiência direta nos outros. Seja porque fôr, não lhes ocorreu aplicar sua crítica à presunção do mundo físico. Não afirmaram: “Não se deve atuar baseando-se em um mundo físico, que permanece sempre como simples presunção”. Ao contrário, presumem a realidade de tal mundo com tôda a saudável candura que lhes falta em Psicologia. Talvez isso se deva ao fato de as realizações das ciências físicas serem impressionantes e terem-se tornado o ideal do behaviorismo. Mas, como purista metodológico, o partidário do behaviorismo não deveria considerar meras realizações como prova satisfatória em outras matérias. É claro que, pessoalmente, estou, a êsse respeito, tão convencido quanto qualquer adepto do behaviorismo. Também sei muito bem que as ciências muitas vêzes acreditam e pressupõem, quando a epistemologia pode ter suas dúvidas. Mas, partindo dêsse ponto de vista também posso acreditar, naturalmente, que os outros têm experiência direta. O importante é saber que isso serve para tornar meu trabalho mais simples e mais eficiente. Repetindo: considero perfeitamente justificada essa atitude, uma vez que verifico que meus trabalhos na Física também se baseam na experiência direta; que, naquela ciência, a presunção da experiência direta nas outras pessoas é tida como coisa natural, e que, portanto, a enorme superioridade da física sôbre a psicologia não pode vir das diferenças a êsse respeito. Vejo, neste momento, os adeptos do behaviorismo sorrindo irônica- mente. Dirão êles, sem dúvida: “Com tôda a sua filosofia, o Sr. K5hler jamais conseguirá qualquer progresso contra o behaviorismo, sàlidamente científico”. Eu lhes responderia que a base do behaviorismo é tão filosófica quanto a minha crítica: o behaviorismo viceja no terreno epistemológico. Sob êsse aspecto, a única divergência que me separa do partidário do behaviorismo provém da amplitude de nossos campos visuais. Éle percebe apenas um só teorema da epistemologia: uma pessoa não pode observar a experiência de outra pessoa. Como extremista, êle

insiste exclusivamente nesse ponto e ignora o contexto de que êle deriva, ao passo que eu o levo em consideração, como deixei bem claro no que antes ficou dito. E, evidentemente, prefiro tirar minhas condu. sões, partindo do ponto de vista mais amplo da situação. BIBLIOGRAFIA W. S. Hunter: Hu’man Behavior. 1928. K. Koffka: The Growth of the Mmd. 1924. 2. edição 1928. J. B. Watson in Pwycho.logies of 1925 (Ed. por C. Murchison). A. P. Wejss: A Theoretical Basis of Huraan Behavior. 1925.

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