Manual de Economia - Professores da USP

Manual de Economia - Professores da USP

(Parte 2 de 8)

Na verdade cada ciência observa e analisa a realidade do aspecto material do seu objeto, segundo sua própria lógica formal. O fato porém é que as visões sobre o mesmo objeto acabam se inter-relacionando.

a) Economia e Política Essa interdependência é secular, pois sendo a política a arte de governar, ou o exercício do poder, é natural que esse poder tente exercer o domínio sobre a coisa econômica. Através das instituições, principalmente do Estado, os grupos de dominação procuram interferir numa distribuição de renda que lhes seja conveniente. Por exemplo, os agricultores na época da política do "café com leite" mantinham o uso da política do Estado para lhes conceder vantagens econômicas. O mesmo ocorre hoje com os industriais que querem apropriar-se de crédito subsidiado ou tarifas aduaneiras que lhes protejam o mercado interno, fora da competição externa, garantindo-lhes lucros maiores. Coisa não muito distinta é a ação dos trabalhadores organizados, petroleiros, metalúrgicos do ABC, bancários etc., que conseguem salários maiores que os demais trabalhadores pouco organizados, logo com menor força política. Finalmente, cabe no Brasil falar da oligarquia nordestina que politicamente vem de longa data se locupletando com as transferências de renda inter-regionais.

b) Economia e História Os próprios sistemas econômicos estão condicionados à evolução histórica da civilização. As idéias que constroem as teorias são formuladas nutri contexto histórico onde se desenvolvem as atividades e as instituições econômicas. A pesquisa empírica sobre os fatos econômicos é levada avante a partir do registro histórico das informações sobre a realidade que se propõe a analisar. A vantagem dos estudos num contexto particular da História decorre do volume generalizado de informações que são levantadas sobre o ambiente em que transcorrem os fatos econômicos. A História do ambiente enriquece os resultados analíticos. Fica evidente que os produtores de café conseguiam manter seu nível de venda, num momento de crise, quando representavam o poder político, nos idos anos do primeiro quarto deste século, o que não acontece no momento atual. O conhecimento do quadro político e social ajuda a entender a evolução dos fatos econômicos.

c) Economia e Geografia Os acidentes geográficos interferem no desempenho das atividades econômicas e, inúmeras vezes, as divisões regionais são utilizadas para se e~ as questões ligadas aos diferenciais de distribuição de renda, de recursos produtivos, de localização de empresas, dos efeitos de poluição dobre o meio ambiente, do equilíbrio dado pelos custos de transporte, das economias de aglomeração urbana etc. Na verdade, todas as atividades econômicas têm um conteúdo especial, que muitas vezes não se refere apenas aos custos de transporte.

d) Economia e Sociologia Quando a política econômica visa atingir os indivíduos de certas classes sociais, interfere diretamente no objeto da sociologia, isto é, a dinâmica da mobilidade social entre as diversas classes de renda. As políticas salariais ou de gastos sociais (educação, saúde, transportes, alimentação etc.) são exemplos que direta ou indiretamente influenciam essa mobilidade.

e) Economia, Matemática e Estatística A Economia faz uso da lógica matemática e das probabilidades estatísticas8. Muitas relações de comportamento econômico podem ser expressas através de funções matemáticas, como por exemplo: a quantidade demandada (Q) por um indivíduo é uma função linear da renda disponível (R), do preço do bem (P), dos preços do substituto (S) e do complementar (C), isto é,

Q = a - bP + cR + dS - eC, onde a, b, e, d, e são constantes. Pode-se escrever também que a poupança da coletividade (S) é função da renda disponível (R) e da taxa de juros (i), ou seja:

S = a + bR - ci.

Todavia, a economia não é uma ciência exata em que se pode programar os resultados sem erros. Por exemplo, se todos ganhassem mais renda, é fácil imaginar que nem todos iriam gastar as mesmas proporções em consumo. É praticamente impossível prever com exatidão o comportamento de um particular indivíduo, mas se indagado o aluno poderia responder com base no valor médio de gastos da coletividade. Como pessoa inteligente é quase certo que estaria baseando-se no valor onde a probabilidade de ocorrência é maior, isto é, onde a margem de erro for mínima. Essa estratégia de se estimaras relações econômicas, matematicamente formuladas, a partir da minimização dos desvios estatísticos aleatórios, é conhecida como econometria, uma espécie de mistura da economia, matemática e estatística.

Uma vez apresentada a definição e a relação da Economia com algumas importantes ciências cabe agora explicitar o objeto da economia em toda sua extensão.

5. Objeto da Ciência Econômica. A Lei da Escassez

Em Economia tudo se resume a uma restrição quase que física - a lei da escassez, isto é, produzir o máximo de bens e serviços a partir dos recursos escassos disponíveis a cada sociedade.

Se uma quantidade infinita de cada bem pudesse ser produzida, se os desejos humanos pudessem ser completamente satisfeitos, não importaria que uma quantidade excessiva de certo bem fosse de fato produzida. Nem importaria que os recursos disponíveis: trabalho, terra e capital (este deve ser entendido como máquinas, edifícios, matérias-primas etc.) fossem combinados irracionalmente para produção de bens. Não havendo o problema da escassez, não faz sentido se falar em desperdício ou em uso irracional dos recursos e na realidade só existiriam os "bens livres". Bastaria fazer um pedido e, pronto, um carro apareceria de graça.

8 No Capítulo 3 da parte introdutória deste Manual, apresenta-se uma discussão abrangente acerca da metodologia quantitativa na pesquisa econômica.

Na realidade, ocorre que a escassez dos recursos disponíveis acaba por gerar a escassez dos bens - chamados "bens econômicos". Por exemplo: as jazidas de minério de ferro são abundantes, porém, o minério pré-usinável, as chapas de aço e finalmente o automóvel são bens econômicos escassos. Logo, o conceito de escassez econômica deve ser entendido como a situação gerada pela razão de se produzir bens com recursos limitados, a fim de satisfazer as ilimitadas necessidades humanas. Todavia, somente existirá escassez se houver uma procura para a aquisição do bem. Por exemplo: o hino nacional escrito na cabeça de uni alfinete é um bem raro, mas não é escasso porque não existe uma procura para sua aquisição.

Poder-se-ia perguntar por que são os bens procurados (desejados)? A resposta é relativamente simples: um bem é procurado porque é útil. Por utilidade entende-se "a capacidade que tem um bem de satisfazer uma necessidade humana".

Desta última definição resta-nos conceituar o que são: bem e necessidade humana.

Bem é tudo aquilo capaz de atender uma necessidade humana. Eles podem ser: materiais - pois se pode atribuir-lhes características físicas de peso, forma, dimensão etc. Por exemplo: automóvel, moeda, borracha, café, relógio etc.; imateriais - são os de caráter abstrato, tais como: a aula ministrada, a hospedagem prestada, a vigilância do guarda noturno etc. (em geral todos os serviços prestados são bens imateriais, ou seja, se acabam quase que simultaneamente à sua produção).

O conceito de necessidade humana é concreto, neutro e subjetivo, porém, para não se omitir da questão, definir-se-á a "necessidade humana" como qualquer manifestação de desejo que envolva a escolha de um bem econômico capaz de contribuir para a sobrevivência ou para a realização social do indivíduo. Assim sendo, ao economista interessa a existência das necessidades humanas a serem satisfeitas com bens econômicos, e não a validade filosófica das necessidades.

Para se perceber a dificuldade da questão, é melhor exemplificar: para os muitos pobres, a carne seca pode ser uma necessidade e não o ser para os mais ricos; para os pobres um carro pode não ser uma necessidade, porém, para os da classe média já o é; para os ricos a construção de uma mansão pode ser uma necessidade, ao passo que pode não o ser para os de renda média.

O fato concreto é que no mundo de hoje todos pensam que desejam e "necessitam" de geladeiras, esgotos, carros, televisão, rádios, educação, cinemas, livros, roupas, cigarros, relógios etc. As ilimitadas necessidades já se expandem para fora da esfera biológica da sobrevivência. Poder-se-ia pensar que o suprimento dos bens destinados a atender às necessidades biológicas das sociedades modernas seja um problema solucionado e com ele também o problema da escassez. Todavia, numa contra-argumentação dois problemas surgem: o primeiro é que essas necessidades renovam-se dia a dia e exigem contínuo suprimento dos bens a atendê-las; o segundo é a constante criação de novos desejos e necessidades, motivadas pela perspectiva que se abre a todos os povos, de sempre aumentarem o padrão de vida. Da noção biológica, devemos evidentemente passar à noção psicológica da necessidade, observando que a saturação das necessidades, e sobretudo dos desejos humanos, está muito longe de ser alcançada, mesmo nas economias altamente desenvolvidas de nossa época. Conseqüentemente, também o problema de escassez se renova.

Uma vez explicado o sentido econômico de escassez e necessidade, torna-se fácil entender que "Economia é a ciência social que se ocupa da administração dos recursos escassos entre usos alternativos e fins competitivos", ou "Economia é o estudo da organização social, através da qual os homens satisfazem suas necessidades de bens e serviços escassos".

As definições trazem de forma explícita que o objeto da Ciência

Econômica é o estudo da escassez e que ela se classifica entre as Ciências Sociais.

6. Problemas econômicos básicos

Nas bases de qualquer comunidade se encontra sempre a seguinte tríade de problemas econômicos básicos:

O QUE produzir? - Isto significa quais os produtos deverão ser produzidos (carros, cigarros, café, vestuários etc.) e em que quantida des deverão ser colocados à disposição dos consumidores.

COMO produzir? - Isto é, por quem serão os bens e serviços produzidos, com que recursos e de que maneira ou processo técnico.

PARA QUEM produzir? - Ou seja, para quem se destinará a produção, fatalmente para os que têm renda.

É muito fácil entender que: QUAIS, QUANTo, COMO e PARA QUEM produzir não seriam problemas se os recursos utilizáveis fossem ilimitados. Todavia, na realidade existem ilimitadas necessidades e limitados recursos disponíveis e técnicas de fabricação. Baseada nessas restrições, a Economia deve optar dentre os bens a serem produzidos e os processos técnicos capazes de transformar os recursos escassos em produção.

6.1. As opções tecnológicas. Conceitos de curva de transformação e custos de oportunidade

A análise conjunta da escassez dos recursos e das ilimitadas necessidades humanas conduz à conclusão de que a Economia é uma ciência ligada a problemas de escolha. Com a limitação do total de recursos capazes de produzir diferentes mercadorias impõe-se uma escolha para a produção entre mercadorias relativamente escassas.

Para melhor entendimento, suponha-se uma economia onde haja certo número de indivíduos, certa técnica de produzir, certo número de fábricas e instrumentos de produção e um conjunto de recursos naturais (terra, matériasprimas...). Considerem-se todos esses dados como constantes, isto é, não se alteram durante a análise.

Ao decidir "o que" deverá ser produzido e "como", o sistema econômico terá realmente decidido como alocar ou distribuir os recursos disponíveis entre as milhares de diferentes possíveis linhas de produção. Quanta terra destinarseá ao cultivo do café? Quanta à pastagem? Quantas fábricas para a produção de camisas? Quantas ao automóvel? Analisar todos esses problemas simultaneamente é por demais complicado. Para simplificá-lo suponha-se que somente dois bens econômicos deverão ser produzidos: camisas e carros. Haverá sempre uma quantidade máxima de carros (camisas) produzida anualmente, quando todos os recursos forem destinados à sua produção e nada à produção de camisas (carros). A quantidade exata depende da quantidade e da qualidade dos recursos produtivos existentes na Economia e do nível tecnológico com que sejam combinados. Evidentemente, fora das quantidades máximas existem infinitas possibilidades de combinações intermediárias entre carros e camisas a serem produzidos. Tome-se a tabela abaixo:

Pode-se representar tal tabela conforme gráfico abaixo:

Unindo-se os pontos tem-se a chamada -curva das possibilidades de produção- ou curva de transformação, na medida em que se passa do ponto A para B, de B para C e assim por diante, até F, em que se estará transformando carros em camisas. É óbvio que a transformação não é física, mas sim transferindo-se recursos de uni processo de produção para outro.

A curva de transformação representa um importante fato: "Uma Economia no pleno emprego9 precisa sempre, ao produzir um bem, desistir de produzir um tanto de outro bem".

Aparece aqui a chance de se definir um dos conceitos mais importantes da Economia: "o custo de oportunidade".

transformação (A, B,F). Assim m sendo, para a fabricação só de carros - A -

Torne-se o exemplo das camisas e dos carros. Devido à limitação de recursos, os pontos de maior produção aparecem sobre a curva de estar-se-ia sacrificando toda a produção de camisas. Logo, o custo de oportunidade corresponde exatamente ao sacrifício do que se deixou de produzir, ou, em outras palavras, o custo ou a perda do que não foi escolhido e não o ganho do que foi escolhido.

Da mesma forma, se estivesse em B (carros = 14o, camisas = 10) e passasse a C (carros = 12o, camisas = 20), o custo de oportunidade seria o sacrifício de se deixar de produzir 20 mil carros). De uma forma geral ele é o sacrifício de se transferir os recursos de uma atividade para outra.

Todo aluno tem seu custo de oportunidade, que é o sacrifício de se estar estudando no curso de Economia em vez de estar trabalhando e recebendo salário.

Sumarizando: as condições básicas para a existência do custo de oportunidade são:

- recursos limitados; - pleno emprego dos recursos.

Que acontecerá se houver desemprego geral de fatores: homens desocupados, terras inativas, fábricas ociosas? Para esse caso, os pontos de possibilidades de produção não se encontrarão sobre a curva de transformação, mas sim em algum lugar dentro da área limitada pela curva e pelos eixos coordenados.

9 Pleno emprego é definido por uma situação em que os recursos disponíveis estão sendo plenamente utilizados na produção de bens e serviços, garantindo o equilíbrio econômico das atividades produtivas. Essa segunda parte identifica o "pleno emprego" como um conceito de resultado econômico e não de restrição física de recursos.

Por exemplo, poderá ser o ponto P dentro da área, conforme o gráfico abaixo:

A produção em P significa 100 mil carros e 15 milhões de camisas. Poderse-ia mover para o ponto C apenas pondo os recursos ociosos a trabalhar, aumentando a produção de carros e camisas a um só tempo. O custo de oportunidade para o ponto P é zero, porque não há sacrifício algum para se produzir mais ambos os bens.

6.2. Mudanças na curva de transformação

Variações nos fatores considerados constantes determinarão um deslocamento da curva para a direita. Primeiro: quanto maiores forem as disponibilidades de recursos produtivos da Economia, mais afastada da origem a curva estará.

Segundo: variações tecnológicas iguais para os processos de produção dos dois bens deslocarão a curva para a direita e paralelamente.

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